Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

o dilema ético

Dogville não pode ser a solução do problema. Se a fragilidade, irrevogavelmente, sempre vai escravizar um ser a outro, então seria melhor ter permanecido nas savanas. O frágil não existiria, seria apenas o mais fraco, como sói acontecer na natureza:

"Por que escolhi a delicadeza como parte essencial da condição humana? Por não ser uma qualidade intrínseca do humano. Isso é justamente o que a faz necessária. A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado ― daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza. Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama ― pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força  é um gozo ao qual poucos renunciam. Além disso, o homem é capaz de indiferença, essa forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele ― por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade ―, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo.”

KEHL, Maria Rita. Delicadeza. In: NOVAES, Adauto (Org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC, 2009, p. 453.

domingo, 10 de julho de 2011

Dogville (ou a condição de órfão)


Para quem suporta levar Dogville até o final, então há uma sequência antológica ao som de Young Americans, de David Bowie. Neste filme todos são jovens e já muito velhos para pisar neste planeta: a crueldade é sua melhor vingança contra o outro indefeso, indefeso porque um pouco mais frágil, apenas isso. A condição de órfão é a de todos: todos caímos na humanidade, e os laços de sangue muitas vezes apenas constituem uma licença maior para o abuso, também conhecido como proteção. O amor recebe muitos nomes, o que não significa que se saiba o que é este sentimento ― ou que ele seja comum ou fácil de sentir. O amor também é o nome que se dá ao que não se sente, palavra vazia a encobrir escusos sentimentos, difíceis de nomear.  

domingo, 21 de novembro de 2010

Dogville (Lars von Trier, 2007)

De Dogville já se disse tudo e mais alguma coisa: "Ao abdicar dos cenários e dos adereços, o diretor procurou valorizar o âmago de cada personagem para que o espectador, despojado do 'supérfluo' e do 'superficial', pudesse olhar apenas para o que verdadeiramente interessa em seu filme: a desumanidade que 'emana' da humanidade." (O dogmatismo de Dogville). Talvez a principal questão que o filme coloca seja que é quase impossível responder à violência sem lançar mão dela. O mundo cão é a súmula de um filme cuja última imagem é um cão, ser cuja não humanidade é a sua redenção.