Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 11 de outubro de 2011

o jardim de veredas que se bifurcam

“O resto é irreal, insignificante. Madden irrompeu, prendeu-me. Fui condenado à forca. Abominavelmente venci: comuniquei a Berlim o secreto nome da cidade que devem atacar. Ontem a bombardearam; li isso nos mesmos jornais em que apresentaram à Inglaterra o enigma de que o sábio sinólogo Stephen Albert morrera assassinado por um desconhecido, Yu Tsun. O Chefe decifrou esse enigma. Sabe que meu problema era indicar (por intermédio do estrépito da guerra) a cidade que se chama Albert e que não achei outro meio a não ser matar uma pessoa com esse nome. Não sabe (ninguém pode saber) minha imensa contrição e cansaço.”

BORGES, Jorge Luis. Obras completas I. São Paulo: Globo, 1998, p.533. Tradução de “O jardim de veredas que se bifurcam”: Carlos Nejar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Milonga de Los Morenos (Jorge Luis Borges e Vitor Ramil)

AQUI na versão acústica, com participação de Caetano Veloso.

Em tempo: ontem Jorge Luis Borges foi homenageado por um doodle do googlefaria 112 anos. Já o dia de hoje marca, segundo o blog Fernando Pessoa para todas as ocasiões, 111 anos da morre de Nietzsche: no mar das efemérides, nascimento e morte parecem se equivaler, aliás como Borges encenou em muitos contos seus. Já Nietzsche preferiria ser lembrado pelo seu nascimento, salvo engano. 

domingo, 26 de junho de 2011

entre terça e sexta-feira: moedas perdidas de Borges (ou o princípio da realidade)

Entre as doutrinas de Tlön, nenhuma mereceu tanto escândalo como o materialismo. Alguns pensadores o formularam, com menos clareza que fervor, como quem antecipa um paradoxo. Para facilitar o entendimento dessa tese inconcebível, um heresiarca do primeiro século ideou o sofisma das nove moedas de cobre, cujo renome escandaloso equivale em Tlön ao das aporias eleáticas. Deste “raciocínio especioso” há muitas versões, variam o número de moedas e o número de achados; eis aqui a mais comum:
“Na terça feira, X atravessa um caminho deserto e perde nove moedas de cobre. Quinta feira, Y encontra no caminho quatro moedas, um pouco enferrujadas pela chuva de quarta-feira. Sexta-feira, Z descobre três moedas no caminho. Sexta-feira de manhã, X encontra duas moedas no corredor da sua casa.” O heresiarca queria deduzir desta história a realidade ― id est, a continuidade ― das nove moedas recuperadas. “É absurdo (afirmava) imaginar que quatro das moedas não existiram entre terça e quinta-feira, três entre terça-feira e a tarde de sexta-feira, e duas entre terça-feira e a madrugada de sexta-feira. É lógico pensar que existiram ― ainda que de algum modo secreto, de compreensão vedada aos homens ― em todos os momentos destes três prazos.”
A linguagem de Tlön se opunha a formular esse paradoxo; os demais não entenderam. Os defensores do sentido comum limitaram-se, no início, a negar a veracidade do episódio. Repetiram que era uma falácia verbal, baseada no emprego temerário de duas palavras neológicas, não autorizadas pelo uso e alheias a todo pensamento severo: os verbos encontrar e perder, que implicam uma petição de princípio, porque pressupõem a identidade das nove primeiras moedas e das últimas. Recordaram que todo substantivo (homem, moeda, quinta-feira, sexta-feira, chuva) somente tem valor metafórico.

BORGES, Jorge Luis. Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Ficções. Trad. Carlos Nejar. São Paulo: Globo, 1998, Obras Completas I, p.482-483.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Jorge Luis Borges

PÁTIO

Com a tarde
Cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
A grande franqueza da lua cheia
Já não entusiasma o seu habitual firmamento.
Hoje que o céu está frisado,
Dirá a crendice que morreu um anjinho.
Pátio, céu canalizado.
O pátio é a janela
Por onde Deus olha as almas.
O pátio é o declive
Por onde se derrama o céu na casa.
Serena
A eternidade espera na encruzilhada as estrelas.
Lindo é viver na amizade obscura
De um saguão, de uma aba de telhado e de uma cisterna.

BANDEIRA, Manuel. Poemas traduzidos. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009, p.360.  

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Borges e a maravilha apócrifa do caos (da linguagem)

Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram as que o dr. Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada Empório celestial de conhecimentos benévolos. Em suas remotas páginas está escrito que os animais se dividem em a) pertencentes ao Imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos g) cachorros soltos, h) incluídos nesta classificação, i) que se agitam feito loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar o jarrão, n) que de longe parecem moscas. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também pratica o caos. 
[...]
Registrei as arbitrariedades de Wilkins, do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas; sabidamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo. 'O mundo', escreve David Hume, 'talvez seja o esboço rudimentar de algum deus infantil que o abandonou pela metade, envergonhado de seu trabalho deficiente; é obra de um deus subalterno, de quem os deuses superiores zombam; é a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada, que já morreu' [...]. É possível ir mais longe; é possível suspeitar que não haja universo no sentido orgânico, unificador, que tem essa ambiciosa palavra. Se houver, falta conjecturar sobre seu propósito; falta conjecturar sobre as palavras, as definições, as etimologias, as sinonímias do secreto dicionário de Deus. 
[...]
Esperanças e utopias à parte, talvez o que de mais lúcido se tenha escrito sobre a linguagem são essas palavras de Chesterton: 'O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de uma floresta outonal... Crê, no entanto, que esses matizes, em todas as suas fusões e conversões, são representáveis com precisão por um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Crê que de dentro de um corretor da bolsa possam sair ruídos capazes de significar todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo'.

BORGES, Jorge Luis. O idioma analítico de John Wilkins. Trad. Davi Arrigucci Jr. ___. Outras inquisições (1952). São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p.121-126. 

encontrado numa enciclopédia chinesa

Na classificação insólita dos animais que Borges encontra na bizarra enciclopédia chinesa, fico entre as sereias e os fabulosos (O Idioma Analítico de John Wilkins).

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Jorge Luis Borges: trecho final do conto "Os teólogos"

O final da história só pode ser narrado com metáforas, já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Talvez fosse oportuno dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panonia. Isso, entretanto, insinuaria uma confusão na mente divina. Mais correto é dizer que no paraíso Aureliano soube que, para a insondável divindade, ele e João de Panonia (o ortodoxo e o herege, o odiado e o que odeia, o acusador e a vítima) formavam uma única pessoa.

BORGES, Jorge Luis. Obras completas I. São Paulo: Globo, 1998, p. 619. Tradução de O aleph: Flávio José Cardozo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

um poema de Walt Whitman

Cheio de vida, hoje, compacto, visível,
Eu, com quarenta anos de idade no ano oitenta e três
dos Estados,
A ti, dentro de um século ou de muitos séculos,
A ti, que não nasceste, procuro.
Estás lendo-me. Agora o invisível sou eu,
Agora és tu, compacto visível, quem intui os versos e me procura,
Pensando em como seria feliz se eu pudesse ser teu companheiro.
Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não tenhas muita certeza
de que não estou contigo.)

BORGES, Jorge Luis. “Nota sobre Walt Whitman”. Obras completas I [vários tradutores]. São Paulo: Globo, 1998, p. 271.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Jorge Luis Borges

A rosa

A rosa
a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da tênue
cinza pela arte da alquimia,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que sempre está só,
a que sempre é a rosa das rosas,
a jovem flor platônica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inalcançável.

Jorge Luis Borges. Obras completas I. [vários tradutores]. São Paulo: Globo, 1998, p. 23.