Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 20 de julho de 2014

Emily Dickinson

Deus tudo fez por um motivo,
E um plano deu às almas,
Nossa inferência é prematura,
Nossas premissas falsas.


God made no act without a cause,
Nor heart without an aim,
Our inference is premature,
Our premises to blame.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.154-155.

domingo, 16 de março de 2014

Emily Dickinson

Cirurgiões precisam ter cautela
Com sua lâmina afiada
Por sob as finas incisões se agita
A Vida – essa Culpada!


Surgeons must be very careful
When they take the knife!
Underneath their fine incisions
Stirs the Culprit  Life!

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.240-241.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Emily Dickinson

No fim nos guia a Experiência
Sua acerba amizade
Não há de dar a um Axioma
Uma Oportunidade


Experiment escorts us last –
His pungent company
Will not allow an Axiom
An Opportunity

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.158-159.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Emily Dickinson

Púrpura – é moda duas vezes –
Nesta época do ano
E quando uma alma se percebe
Como Soberana.


Purple – is fashionable twice –
This season of the year,
And when a soul perceives itself
To be an Emperor.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.118-119.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Emily Dickinson

Que o Amor é tudo que existe
É tudo que sei do Amor.
Isso é o bastante  o peso deve
Adequar-se ao andor.


That Love is all there is
Is all we know of Love.
It is enough, the freight should be
Proportioned to the groove.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.194-195.

sábado, 5 de outubro de 2013

Emily Dickinson

Depois de mais cem anos
Ninguém sabe o Lugar
É Paz que não se move
A Dor que ali doeu

Cresceu altiva a grama
O Estranho que foi lá
Só viu a Ortografia
De quem já faleceu

No ar do Verão o Vento
Da trilha há de lembrar
O Instinto guarda a Chave
Que a memória perdeu


After a hundred years
Nobody knows the Place
Agony that enacted there
Motionless as Peace

Weeds triumphant ranged
Strangers strolled and spelled
At the lone Orthography
Of the Elder Dead

Winds of Summer Fields
Recollect the way
Instinct picking up the Key
Dropped by memory

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.74-75.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Emily Dickinson

O Espírito não mostra
A mais íntima Hora
Que Horror subjugaria as Ruas
Se lhe viesse à Cara

O Porão dentro da Alma
O Subterrâneo Peso –
Só Deus faz um Lugar tão cheio
Ficar silencioso.


Its Hour with itself
The Spirit never shows
What Terror would enthrall the Street
Could Countenance disclose

The Subterranean Freight
The Cellars of the Soul
Thank God the loudest Place he made
Is license to be still.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.172-173.

domingo, 5 de maio de 2013

Emily Dickinson (fé e ciência)

A Certeza Química
Que Nada se perde
Encoraja no Desastre
Minha instável Fé –

As Faces dos Átomos
Se eu irei fitá-las
Quanto mais os Seres Findos
Que já estão lá!


The Chemical conviction
That Nought be lost
Enable in Disaster
My fractured Trust

The Faces of the Atoms
If I shall see
How more the Finished Creatures
Departed me!

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.74-75.

sábado, 27 de abril de 2013

Emily Dickinson

Tão plausível se torna
Um Sonho acalentado
Que o real para mim já é fictício –
A ficção – é real –

Que Visão suntuosa –
Que riqueza – seria –
Tivesse minha Vida sido um Erro
Corrigido – por Ti


The Vision pondered long
So plausible becomes
That I esteem the Fiction
real
The Real
fictitious seems

How bountiful the Dream

What Plenty
it would be
Had all my Life but been Mistake
Just rectified
in Thee

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.200-201.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Emily Dickinson

Uma noção de coisa finda
Nas Covas é captada
Um não ligar para o Futuro
Um Ermo de Medida.

Ao exibir-se audaz a Morte
O que a rigor nós somos
E a nossa serventia Eterna
Afinal inferimos.


There is a finished feeling
Experienced at Graves -
A leisure of the Future -
A Wilderness of Size.

By Death's bold Exhibition
Preciser what we are
And the Eternal function
Enabled to infer.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.138-139.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

então é possível

Peace is a fiction of our Faith -

A Paz é uma ficção da Fé -


DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.44-45.

domingo, 1 de janeiro de 2012

PAZ

Peace is a fiction of our Faith -

A Paz é uma ficção da Fé -


DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.44-45.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Emily Dickinson

A Manhã é de todos -
A Noite - de alguns -
De poucos escolhidos -
A Auroreal luz.


Morning is due to all -
To some - the Night -
To an imperial few -
The Auroral light.


DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.78-79.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Emily Dickinson: "There is no Frigate like a Book"

Não há Fragata como um Livro
Para ver outras Terras
Nem bom Corcel como uma Página
Aos pés da Poesia -
O pobre vai por essas Rotas
Sem custos de Pedágio -
Como é singelo esse Veículo
Que o Espírito guia -


There is no Frigate like a Book 
To take us Lands away, 
Nor any Coursers like a Page 
Of prancing Poetry -  
This Travel may the poorest take        
Without oppress of Toll -  
How frugal is the Chariot 
That bears a Human Soul -


DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.78-79.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Emily Dickinson

Deus tudo fez por um motivo,
E um plano deu às almas,
Nossa inferência é prematura,
Nossas premissas falsas.


God made no act without a cause,
Nor heart without an aim,
Our inference is premature,
Our premises to blame.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.154-155.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Emily Dickinson

Se naufragou na água rasa do Pensamento
Como será no Mar?
O único Barco que não foi - Simplicidade -
A salvo a de ficar -


If wrecked upon the Shoal of Thought
How is it with the Sea?
The only Vessel that is shunned
Is safe -
Simplicity -

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.248-249.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Emily Dickinson

Desafiei todos os ventos
Até que uma Lição
Me deu irada a Natureza
E furou meu Balão.

I bet with every wind that blew
Till Nature in chagrin
Employed a Fact to visit me
And scuttle my Balloon.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.118-119.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Emily Dickinson

A Natureza dá o Sol a todos -
Isso - é Astronomia -
A Natureza falta a um Amigo -
Isso - é Astrologia.

Nature assigns the Sun -
That - is Astronomy -
Nature cannot enact a Friend -
That - is Astrology.

DICKINSON, Emily. A branca voz da solidão. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2011, p.212-213.

_______________________
P.S. José Lira considera o sinal gráfico que Emily Dickinson emprega separando as palavras não necessariamente travessão, mas antes “disjunções”: “Emily Dickinson criou um tipo de sinal gráfico até então inexistente em língua inglesa: a disjunção, um traço curto que alguns veem como simples hábito de escrita e outros como sintoma de distaxia (e que em geral é confundido com o travessão). A disjunção é, na verdade, um dos principais recursos estilísticos de sua escrita: destaca uma palavra ou expressão, marca pausas de leitura ou dicção, modifica o ritmo de alguns versos, separa segmentos frasais, expressa continuidade (ou descontinuidade) de uma ideia, explica algo que veio antes ou virá em seguida ― substitui, enfim, todo um conjunto de sinais usais de pontuação e dá a um poema de Emily Dickinson o aspecto próprio de um poema de Emily Dickinson ― abstraindo-se, é claro, o fato de que mais de um quinto dos manuscritos da autora não subsistiram e que as transcrições de terceiros ‘regularizaram’ a pontuação e outros aspectos gráficos e prosódicos de sua escrita.” (p.22) Em outro texto dedicado à poesia de Emily Dickinson, questiona: “se é que ela usava o travessão”. Já Augusto de Campos, também tradutor de Emily Dickinson,  emprega o travessão sem entrar em discussões textuais. Apenas assinala: “Emily criou um idioma poético próprio e antecipatório em termos de densidade léxica, economia de expressão e liberdade sintática. [...] Utiliza, muitas vezes em combinatórias novas, versos tradicionais, nos quais os seus estranhos tracejamentos gráficos introduzem recortes e pausas inusitados, dando-lhes feição singular.” (p.10). Em atenção a este recorte de José Lira, e que pressupõe um modo próprio de ler a poesia de Emily Dickinson, suas traduções aqui postadas respeitarão o traço curto, em vez do travessão, embora seja difícil controlá-lo no automatismo do editor de textos, que aliás oferece toda uma gama de sinais gráficos diferenciados.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008.

DICKINSON, Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Emily Dickinson

O Auto da Fé e o Dia do Juízo
Nada são para a Abelha -
É a separação da sua Rosa
Que na Miséria a deixa -

Auto da Fe - and Judgment -
Are nothing to the Bee -
His separation from His Rose -
To Him - sums Misery -

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.262-263.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Emily Dickinson

How destitute is he
Whose Gold is firm ―
Who finds it every time
The small stale Sum ―
When Love with but a Pence
Will so display
As is a disrespect
For India ―


Tão miserável é aquele
Firme em seu Ouro ―
Que avalia a todo tempo
Contar com Pouco ―
Quando o Amor com um só Centavo
Se mostraria
Como se fosse uma afronta
À Índia ―

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.94-95.