Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


Mostrando postagens com marcador escrita. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escrita. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

o silêncio atravessa o tempo

Já pensei em fechar este blog, excluí-lo, parar de escrever, ou melhor, de supor que escrevo. Já pensei em editá-lo ― mas mesmo pensar a sério nisso eu não penso. O que tenho na verdade é preguiça, muita, em especial de olhar para trás, fazer revisões. Não quero sobre mim a maldição da mulher de Lot, nem nenhuma outra. A densidade do presente ― do instante-presente que a cada instante se esvai em passado, virando sal, tempo estéril e perdido ― é tal que o silêncio muitas vezes é mais convidativo que a palavra.

terça-feira, 7 de julho de 2015

sábado, 26 de abril de 2014

eu!?

Tenho momentos de extrema fragilidade, em que parece que vou desintegrar, que o eu que construí para uso externo e contínuo vai ceder à emergência de forças disciplinarmente mantidas sob controle, sob vigilância atenta. Entrevejo outros eus, passados e presentes, e pressinto que a casca frágil da superfície pode facilmente rebentar. Meus recursos nesses momentos? Escrever, por exemplo. Outros são de foro íntimo.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

escrever

"A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas — escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.”

Clarice Lispector. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.12-13.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

não conforme

L E G-I (N)T I M I D A D E
                                D E   U M A  V O Z

terça-feira, 29 de outubro de 2013

restos da noite

Sonhos... o que fazer deles? Não os sonhos de outrora, metamorfoseados em “hoje”, mas os originais, que comparecem noite após noite trazendo ecos de um mundo pouco habitável. A sustentabilidade dos sonhos — quase um clichê —, fantasmas noturnos dos quais restam borboletas, não por comportarem beleza, mas pelo efeito da imagem saltitante e fugidia no terreno da memória. De intrincados enredos emergem lepidópteros fugidios, que aos poucos se dispersam com as primeiras luzes do dia. Camadas e camadas de inconsciente removidas enquanto se dorme. Por que sonhamos? Uma explicação biológica dirá que são um traço evolutivo, uma espécie de compensação noturna para as tensões diurnas, uma forma do organismo colocar-se em equilíbrio. Mas se permanecem com o dia, estão pedindo algo do corpo que lhes serviu de palco, ainda que seja essa parca escrita, circular e evasiva, forma de continuarem batendo asas para além do efêmero do imago. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

sonhos

O que dizer dos sonhos quando, para se dizer algo deles, já são matéria transformada pela linguagem, incorporados como narrativa reconhecível? Sonhei com Bob Dylan, que estava muito próximo de mim, mas havia um silêncio imposto que impedia a fala, minha e dele. Esse silêncio — suas circunstâncias — é a parte mais estranha de tudo, praticamente intraduzível, e trazia consigo uma origem, um agente deflagrador. Havia uma interdição à fala, algo que foi se construindo, se fazendo, e era doloroso, difícil, e traía fragilidade, vulnerabilidade, ausência de proteção de minha parte, como se eu tivesse desamparado alguém que amo. O impedimento de falar era muito incômodo, porque não era simplesmente algo físico: antes, falar representava uma espécie de perigo, uma ameaça. A sensação foi única, muito viva e real, intraduzível e praticamente incompreensível pelo pensamento e seus signos verbais. Havia uma situação envolvendo um improvável Bob Dylan, frágil e desamparado, e a mim, impedida de falar por coisas que eu mesmo havia feito, ou fizeram, quem sabe. Mas aqui eu posso, ainda que me censure.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

loucos amenos

Certa feita me ocorreu este jogo de palavras: locus amoenus, loucos amenos, loucos a menos. Um anagrama com um grão de sandice, ou de saúde, conforme se entenda ou não ser salvo pela linguagem (trocando de sinal).

segunda-feira, 22 de abril de 2013

movimentando-se em terreno resvaloso

Num espaço de tempo relativamente curto aconteceram tantas coisas — coisas em demasia, excedendo o limite do narrável, do que se consegue dizer — que mesmo o fio com a palavra pareceu se perder, e o silêncio tornou-se uma necessidade.  É ingênuo supor que a experiência não nos ultrapassa. E nisso a palavra, essa estranha forma de respiração, dobra-se diante do vivido, vivido que quer render a linguagem de outra forma, para que nela possam caber pombos, experiências inusitadas, canções, imagens oníricas, poemas. “Todo abismo é navegável a barquinhos de papel” — diz o narrador do conto “Desenredo”, de Guimarães Rosa. Em tão ilustre companhia vai-se longe na aventura da linguagem, quer-se navegar mares impetuosos, oceanos de sentidos velados. O que pode um corpo? O que pode o amor à linguagem, o desejo de criar através dela? "Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer". (Graciliano Ramos, Memórias do cárcere)

domingo, 14 de abril de 2013

interrogação

Concebi este espaço como catarse de questões, em última instância, subjetivas; ou seja: fossem sociais, políticas ou de outra natureza, elas diriam respeito a mim, ao modo com que percebo e me coloco no mundo, supondo inclusive a possibilidade de transformação subjetiva.  Má catarse talvez. Agora percebo-me refreando angústias, censurando sombras e medos, o que não equaciono como uma boa transformação. Se não conseguir mais falar do que me diz respeito, não sei se haverá caminhos para continuar.

domingo, 31 de março de 2013

escrever no quase vazio

Paranoid Park traz, a bordo do vazio e da incomunicabilidade das experiências que as personagens adolescentes vivenciam, uma aposta inusitada: a escrita como elemento de catarse. No caso, praticamente um simulacro da escrita, haja vista que a carta (ou cartas) não será enviada à remetente, que no entanto é decisiva para que aquela escrita aconteça. Metonimicamente, as cartas deslizam para o fogo, que aparece não como destruição, mas como possibilidade de transformação, que a escrita ensejou.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

garrafas ao mar: a víbora manda lembranças

Enquanto assistia ao documentário sobre Joel Silveira, lembrei-me de uma crônica dele lida já faz tempo ― e a memória, seletiva, guardou resquícios desta e mais duas ou três ― em que ele relatava estar andando sozinho num frio dezembro europeu (não me recordo a cidade, e talvez seja só minha a impressão de que era Natal) e deparou-se, de repente, num vitrine de livraria, com um livro da Clarice Lispector ― creio que Perto do coração selvagem, se a memória estiver me ajudando ―, e então ele sentiu seu coração subitamente aquecido, por aquele encontro, por encontrar alguém familiar na fria distância em que se encontrava, por encontrar uma garrafa lançada ao mar. Escrever é imperioso ― este é o maior testemunho que ficou da brilhante geração modernista de cronistas e repórteres brasileiros, porque a literatura era uma espécie de morada, parada obrigatória deles e delas.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

as palavras cautelosas

Quando, na caminhada noturna, vou chegando perto de uma região mais sombreada e vazia, lembro-me do acontecido no último Natal, e percebo que esse acontecido quer encontrar lugar nas palavras, está pedindo por isso, porque se recusa a tornar-se esquecimento. Fico imaginando que milagres poderia conceber a partir das palavras, e contudo ainda não consegui encontrar aquelas que vão dar ao acontecido o contorno que ele está pedindo. Então hesito.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

palavras em silêncio

“Às vezes as palavras se movem rápido demais e precisam de um silêncio para fazer algum sentido.”

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

um mar que não cabe em mim

Oi, .................., não sei se você está muito a fim de papo, aliás, não tem nem mesmo como eu saber isso. O que sei é que as palavras não querem ficar aqui paradas, então escrevo. Acho isso que acabei de dizer bonito: escrever para não deixar as palavras paradas. Hoje eu ouviria qualquer coisa que me soasse minimalista, porque a poeira andou alta. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

pedido de desculpas

Que ausência nova é esta, em que me percebo distante de mim? E cansada, muito cansada, talvez também de mim, de ser alguém que comparece como “eu” diante de um “tu”, um “ti”, um “você”. “Meu tempo é quando”, disse o poeta. Mas ainda posso falar de um tempo que me pertença? Tenho eu alguma coisa além do pálido contorno com que me defino e afirmo? Parece-me que tenho bem pouco ― palavras como “tempo”, “eu”, “cansaço”. E liberdade de usá-las, inclusive a que acabo de escrever, e com a qual escrevo estas e muitas outras coisas, inúteis e vãs.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

a intensidade da vida

Nos dias que se seguiram ao Natal, vivi uma experiência ainda pouco palpável pelas palavras ― pelo menos aquelas com que se escreve (ou que se escrevem, dependendo do modo com que se hierarquiza palavra e escrita). Mas foi uma experiência que se colocou muito concretamente, e que agora quer avançar pelo terreno escorregadio da escrita. Terreno, aliás, é uma palavra que já diz alguma coisa do que foi vivido, pelo menos num sentido etimológico, fazendo pensar, por exemplo, em terra. Assim como na história dos pombos, não sei bem como e se conseguirei falar. Sinto que é preciso um cuidado maior, uma delicadeza que tem sido difícil encontrar. Ao mesmo tempo, está tudo muito latente, vivo, pedindo uma continuação na escrita, como se... não, não se trata de legitimar o que foi vivido, pois o que foi vivido cabe na contiguidade do viver. Trata-se do modo como o vivido bate em cada um, em cada vida, e como isso mesmo acaba dando um contorno próprio ao que se vive. Em mim ainda não terminou de bater, de chegar, e por isso a escrita, para mim, surge como parte do vivido. Por enquanto é isso.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

olhando para frente

Restou-me, dos grandes ideais com que me construí, trabalhar. Uma canção de Chico Buarque fala da distância entre intenção e gesto. Quase um abismo, se o fator tempo se inserir entre ambos. Que tenho eu em comum com a adolescente que fui, exceto habitarmos um corpo que nem ao menos pode ser chamado de mesmo? Há mais descontinuidades que qualquer coisa na linha imaginária de uma vida. Trabalho não como quem alimenta seus ideais de juventude, mas para obter o alimento com que poderei continuar ― trabalhando, vivendo... num estilo se possível minimalista. Restou-me também escrever, e este é o contraponto que reconheço como pertencimento a mim mesma, e ao mundo.

sábado, 1 de dezembro de 2012

escrita

Graciliano Ramos é-nos obrigatório. Infância, um livro magnífico. “Leitura”, um capítulo primoroso ― porque dificilmente alguém torna-se o que é à toa...

“Julgo que estive meio louco. E amparei-me ansioso às figurinhas de sonho que me atenuavam a solidão.”

Graciliano Ramos. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1995, p.98.