Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 11 de maio de 2013

Alexei Bueno: entrevista ao Globo News Literatura

O poeta, de modo irreverente, diz que no Brasil ser polemista é uma necessidade, uma questão de patriotismo e de vergonha na cara. [aqui]

sábado, 24 de março de 2012

nunca, jamais, trair a poesia: ou sim, pela vida?

“A tragédia do humano tem a ver com a incapacidade de não atingir Deus. Nunca chegamos a saber. Quando se procura muito, se estuda muito, quando se chega lá, vê-se que não é nada daquilo. (...) Chama-se a isso o pecado original. A árvore do saber... Mas o Homem não soube nada, só soube o mal. Foi castigado. Ninguém consegue saciar o desejo. É o cerne de tudo.”

Ana Hatherly, A idade da escrita e outros poemas, p.142.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Graciliano Ramos: trecho de entrevista concedida a Homero Senna

Casado duas vezes, Graciliano tem seis filhos e duas netas. Pergunto-lhe se costuma ajudar a mulher em casa, e ele se espanta:
Já faço muito em pagar as despesas... Aliás, tenho horror a compras. E quando ouço o telefone, tranco-me.
Aos domingos, o que costuma fazer?
― Em geral escrevo pela manhã e à tarde durmo.
O autor de Vidas secas não faz visitas, não vai a concertos nem a conferências e não gosta de música. Tem, entretanto, um velho hábito: vai diariamente à Livraria José Olympio, na Rua do Ouvidor, e fica lá várias horas, num banco que já é quase propriedade sua, localizado no fundo da loja.
― Muitas vezes vou lá dormir ― esclarece-me. ― Mas aparecem amigos, conhecidos, e toca-se a conversar.
Em virtude desse hábito, muita gente pensa que Graciliano dá a vida por um “papo”. Ele, porém, desfaz-me essa impressão:
― Quase sempre converso forçado, porque chegam pessoas. Mas na verdade muitos dias preferiria ficar quieto, sem trocar palavra. Também é fato que lá aparecem bons amigos, desses que a gente revê com prazer. De um modo geral, porém, sou uma vítima dos cacetes.

SENNA, Homero. República das letras: entrevistas com 20 grandes escritores brasileiros. 3.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p.208-209. [1944] Homero Senna informa em nota que o referido banco, por doação do editor da José Olympio, encontra-se hoje na Fundação Casa de Rui Barbosa, Centro de Literatura Brasileira, e é conhecido como “o banco do velho Graça”. 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Graciliano Ramos: "não há talento que resista à ignorância da língua..."

Trecho da entrevista concedida por Graciliano Ramos a Homero Senna, em 1944:

Consta que você, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, é grande leitor de dicionários...
― Consta e é verdade. Dicionário, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicionários. Como escritor, sou obrigado a jogar com as palavras. Logo, preciso conhecer seu valor exato...
― Acha isso uma qualidade?
― Não sei... O que sei é que não há talento que resista à ignorância da língua...

SENNA, Homero. República das letras. Entrevista com 20 grandes escritores brasileiros. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 206-207.

Graciliano Ramos: trabalho e profissão de escritor no Brasil

Trecho da entrevista concedida por Graciliano Ramos a Homero Senna:

 Já se pode viver, no Brasil, da profissão de escritor?
― Não creio. A última edição das minhas obras rendeu-me 50 contos. Da edição americana de Angústia, recebi 10 contos. Tenho também três livros traduzidos para o espanhol. Mas os negócios na Argentina e no Uruguai andaram mal. Como não tenho o hábito de freqüentar os suplementos e as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco.
― Que outras atividades exerce?
― Trabalho no Correio da Manhã e sou inspetor de ensino secundário no Ginásio São Bento.
― Gosta do emprego que tem?
― É-me indiferente. Trata-se de uma sinecura como outra qualquer. Em todo caso, nunca tive uma falta nem tirei uma licença.
― E no Correio da Manhã, qual o seu serviço?
― Corrijo a gramática dos repórteres e noticiaristas.
― Trabalho cacete...
― Nem tanto.
― Gosta de jornalismo?
― Não. Nem me considero jornalista.
― Com essa vida de jornal, naturalmente dorme tarde...
― À uma hora, via de regra. E me levanto às sete.
― Nos seus livros trabalha, portanto, apenas de manhã.
― Exato. Até as onze, mais ou menos.
― E para trabalhar, exige um bom ambiente ou não liga a isso?
― Trabalho em qualquer parte. Angústia foi escrito em palácio, quando eu era diretor da Instrução Pública de Alagoas. São Bernardo, em péssimas condições, numa igreja. Qualquer canto me serve. Mas disponho, hoje, em casa, de uma confortável sala de trabalho: isso que os burgueses costumam chamar de “escritório”...
― Gosta da casa onde mora?
― Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia... Tenho até saudades da Colônia Correcional. Deixei lá bons amigos.

SENNA, Homero. República das letras. Entrevista com 20 grandes escritores brasileiros. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 207-208. [1944]

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Graciliano Ramos e os modernistas de 22


Trecho da entrevista concedida por Graciliano Ramos a Homero Senna, em 1944:

NUNCA FUI MODERNISTA

― Então, se procurava manter-se tão bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, lá de Palmeira dos Índios, o movimento modernista.
― Claro que acompanhei. Já não lhe disse que assinava jornais?
― E que impressão lhe ficou do Modernismo?
― Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeação desonesta. Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.
― Não exclui ninguém dessa condenação?
― Já disse: “salvo raríssimas exceções”. Está visto que excluo Bandeira, por exemplo, que aliás não é propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o “Solau do Desamado” é como as “Sextilhas de Frei Antão”. Por dever de ofício, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do Modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glória literária?
Franze a testa, detém-se um instante, mas logo prossegue:
― Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E, querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarnação da literatura brasileira ― o que era um erro ― fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condenação maciça cometeram injustiças tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organização da coletânea a que me referi, encontrei vários contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura. Lembro-me de alguns: “O Ratinho Tique-Taque”, de Medeiros e Albuquerque; “Tílburi de Praça”, de Raul Pompéia; “Só”, de Domício da Gama; “Coração de Velho”, de Mário de Alencar; “Os Brincos de Sara”, de Alberto de Oliveira. Nas antologias que andam por aí essas produções geralmente não aparecem, e de alguns dos autores citados são transcritos contos que não dão idéia exata do seu talento e do domínio que tinham do gênero. Só posso atribuir isso, como já disse, à desonestidade. Porque, se os compararmos aos produtos dos líderes modernistas, estes se achatam completamente.
― Quer dizer que não se considera modernista?
― Que idéia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.

SENNA, Homero. República das letras. Entrevista com 20 grandes escritores brasileiros. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 201-202.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Graciliano Ramos e a renovação modernista da linguagem

Trecho de entrevista concedida por Graciliano Ramos a Homero Senna, em 1944:


H S – Sabe que é apontado como um dos nossos escritores modernos que melhor manejam o idioma?
G R Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do Nordeste, que falam bem. É lá que a língua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de regência, por exemplo, entre a linguagem de um doutor e a de um caboclo, não tenha dúvida, vá pelo caboclo, e não erra. Note que me refiro ao caboclo do sertão. O do litoral vai-se estrangeirando...

H S – Mas não venha me dizer que seu aprendizado da língua se fez apenas com os caboclos de Buíque e Palmeira dos Índios?
G R – Claro que não... Muitas coisas não poderiam eles ensinar-me. Está visto que tive de chatear-me lendo gramáticas.

SENNA, Homero. República das letras. Entrevista com 20 grandes escritores brasileiros. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, p. 206.