Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 29 de setembro de 2015

José Paulo Paes

canção de exílio facilitada

lá?
ah!

sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...

cá?
bah!

PAES, José Paulo. Meia palavra [1973]. ___. Poesia completa: São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.194. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

José Paulo Paes

ODE AO TURISMO

do juízo final
só eles serão poupados
porque mesmo nesse dia
estavam apenas de passagem

José Paulo Paes. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.340.

domingo, 7 de abril de 2013

Rainer Maria Rilke

Se bem, como de uma prisão odiada e sofrida,
cada um de nós forceje por escapar de dentro
de si próprio, existe no mundo um grande portento
que sinto a cada passo: toda vida é vivida.

Quem a vive então? As coisas que, no fim do dia,
jamais executada melodia,
permanecem como sons numa harpa armazenados?
Vivem-na os ventos das águas desatados?
Ou os ramos, com os seus gestos descompassados?
Ou as flores, com os seus aromas misturados?
Ou das aleias, o longo leito sombreado?
Ou os animais cálidos que andam sobre o chão?
Ou, pelo céu afora, as aves de arribação?

Quem a vive? És tu, Deus, que vives a vida então?


Rainer Maria Rilke: poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.69.

sexta-feira, 1 de março de 2013

José Paulo Paes

TERMO DE RESPONSABILIDADE

mais nada
a dizer: só o vício
de roer os ossos
do ofício

já nenhum estandarte
à mão
enfim a tripa feita
coração

silêncio
por dentro sol de graça
o resto literatura
às traças!

José Paulo Paes. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.218.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

José Paulo Paes

IVAN ILITCH, 1958

Trrrim, bocejo, 
Roupão, chinelos, 
Gilete, escova,
Água, sabão, 
Café com pão, 
Chapéu, gravata, 
Beijo, automóvel, 
Adeus, adeus.

Gente, trânsito, 
Sol, bom-dia, 
Escritório, 
Relatório, 
Telefones, 
Almoço, arroto, 
Contas, desgosto, 
Adeus, adeus. 

Clube, vento, 
Grama, tênis, 
Ducha, alento, 
Bar, escândalos, 
Pedro, Paulo, 
Mulher de Pedro, 
Mulher de Paulo, 
Adeus, adeus. 

Lar, esposa, 
Filhos, pijama, 
Janta, living, 
Jornal, cismares,
Tricô, vagares, 
Hiato, ausências, 
Bocejo, escada, 
Adeus, adeus. 

Quarto, cama, 
Glândulas, êxtase, 
Dois em um, 
Dois em nada, 
Dever cumprido, 
Luz apagada, 
Adeus, adeus. 

Horas, dias, 
Meses, anos, 
Cãs, enganos, 
Desenganos, 
Vácuo, náusea,
Indiferença, 
Cipreste, olvido, 
Há Deus? adeus. 

José Paulo Paes. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.141-142.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

José Paulo Paes

TEORIA DA RELATIVIDADE

devagar se vai longe

mais perto de deus o ateu
do que o monge

José Paulo Paes. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.297.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

José Paulo Paes

AUTO-EPITÁFIO Nº 2

para quem pediu sempre tão pouco
o nada é positivamente um exagero

Os melhores poemas de José Paulo Paes. 3. ed. São Paulo: Global, 2000, p. 225.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

rilke em tradução de josé paulo paes

Dá a cada um a sua própria morte, Senhor.
O morrer que lhe vem daquela vida onde teve
seu sentido e onde conheceu amor e dor.

Rainer Maria Rilke: poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.75.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

W. H. Auden

A SOLITÁRIA NATA

Eu ouvia da sombra, numa cadeira de praia,
A gama de ruídos que por meu jardim se espraia
E julgava de toda conveniência se isentasse
Do dom da palavra tanto os vegetais como as aves.

Um tordo sem nome de batismo repetia
O Hino Tordo, que era tudo quanto conhecia.
Por terceiro esperavam as flores roçagantes
Para dizer-lhes, sendo o caso, quais os pares de amantes.

Não seria, nenhum deles, capaz de mentir;
Tampouco havia ali quem sentisse a morte vir-
Lhe ou que, com ritmo ou rima, pudesse dar tento
Da sua responsabilidade pelo tempo.

Ficasse a linguagem para a solitária nata
Dos que contam os dias e esperam cartas.
Ao rir e ao chorar, nós também fazemos ruídos.
Palavras são só para os que estão comprometidos.


THEIR LONELY BETTERS

As i listened from a beach-chair in the shade
To all the noises that may garden made,
I seemed to me only proper that words
Should be withheld from vegetables and birds.

A robin with with no Christian name ran through
The Robin-Anthem which was all it knew,
And rustling flowers for some third party waited
To say which pairs, if any, should get mated.

Not one of them was capable of lying,
There was not one which knew that it was dying
Or could have with a rhythm or a rhyme
Assumed responsibility for time.

Let them leave language to their lonely betters
Who count some days and long for certain letters;
We, too, make noises when we laugh or weep:
Words are for those with promises to keep.

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.116-117.

sábado, 17 de setembro de 2011

José Paulo Paes

PISA: A TORRE

em vão te inclinas pedagogicamente

o mundo jamais compreenderá a obliquidade dos
bêbados ou o mergulho dos suicidas.


Os melhores poemas de José Paulo Paes. 3. ed. São Paulo: Global, 2000, p.167.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

W. H. Auden: "how wrong they are in being always right"


NOSSO PENDOR

A ampulheta sussurra ao rugido do leão.
Diz o relógio da torre ao jardim ali perto,
Que, sendo o Tempo paciente com os erros, quão
Errados eles estão de estarem sempre certos.

O Tempo, no entanto, quer badale grave ou alto,
Por veloz que se despenque em torrente raivosa,
Nunca de leão algum logrou deter o salto
Nem abalar jamais a firmeza de uma rosa.

Para ambos, só o sucesso importa, pelo jeito:
Enquanto escolhemos palavras pelo som
E julgamos um problema pelo seu desajeito.

O Tempo sempre nos traz divertimento, e bom:
Quem não prefere dar umas voltas, fazer hora,
Em vez de vir direto para onde está agora?

OUR BIAS

The hour-glass whispers to the lion's roar,
The clock-towers tell the gardens day and night
How many errors Time has patience for,
How wrong they are in being always right.

Yet Time, however loud its chimes or deep,
However fast its falling torrent flows,
Has never put the lion off his leap
Nor shaken the assurance of the rose.

For they, it seems, care only for success:
While we choose words according to their sound
And judge a problem by its awkwardness;

And Time with us was always popular.
When have we not preferred some going round
To going straight to where we are?

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.92-93.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

W. H. Auden

UM LUGAR SADIO

São gente boa ― ninguém de nós sonharia jamais
Em examinar com lente um contrato deles, ou tampouco
Esconder-lhes, sob chave, nossas cartas ― são
Gentis e eficientes, outrossim ― tem-se o que se pede.
Mas o que está errado então de, vivendo no meio deles,
Surpreender-nos constantemente o número avultado
De casamentos felizes e pessoas infelizes?
Comparecem às palestras sobre Problemas de Pós-Guerra,
Pois importam-se, querem de fato ajudar; no entanto,
Quando atentam para a terra, nos seus matutinos,
Que haverá de entender-lhe, das loucuras, dos horrores,
Quem nunca sentiu, disso estamos convictos, repentino
Desejo de torturar um gato ou tirar a roupa
Em local público? Terão eles jamais, é de pensar-se,
Querido de verdade ver um unicórnio, mesmo que
Já estivesse morto? Provavelmente. Mas não o dirão,
Ignorando, por tácita anuência, a sede nossa
De vida eterna, essa enjaulada questão sob censura
Que ocasionalmente nos escapa em piqueniques ou
Reuniões estudantis, e que as histórias de sala de fumantes,
De modo assaz irônico, são as únicas ainda a veicular.

A HEALTHY SPOT

They're nice ― one would never dream of going over
Any contract of theirs with a magnifying
Glass, or of locking up one's letters ― also
Kind and efficient ― one gets what one asks for.
Just what is wrong, then, that, living among them,
One is constantly struck by the number of
Happy marriages and unhappy people?
They attend all the lectures on Post-War Problems,
For they do mind, they honestly want to help; yet,
As they notice the earth in their morning papers,
What sense do they make of its folly and horror
Who have never, one is convinced, felt a sudden
Desire to torture the cat or do a strip-tease
In a public place? Have they ever, one wonders,
Wanted so much to see a unicorn, even
A dead one? Probably. But they won't say so,
Ignoring by tacit consent our hunger
For eternal life, that caged rebuked question
Occasionally let out at clambakes or
College reunions, and which the smoking-room story
Alone, ironically enough, stands up for.

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.104-105. 

W. H. Auden: poemas breves

Private faces in public places
Are wiser and nicer
Than public faces in private places

Rostos particulares em lugares públicos
É coisa mais gentil e mais sensata
Do que, em lugares particulares, rostos públicos.

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.30-31.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

William Carlos Williams: Paterson, Livro I, fragmento

For the beginning is assuredly
the end ― since we know nothing, pure
and simples, beyond
our own complexities.

Pois o princípio indubitavelmente é
o fim ― já que de nada sabemos, puro e
simples, para além
de nossas próprias complexidades.

WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 262-263. 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

W. H. Auden: poemas breves

Deprived of a mother to love him
Descartes divorced
Mind from Matter.

Sem mãe capaz de amá-lo
Descartes divorciou
A Mente da Matéria.

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.30-31.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

W. H. Auden: poemas breves

Who can picture
Calvin, Pascal or Nietzsche
as a pink chubby boy?

Quem poderá jamais imaginar
Calvino, Pascal ou Nietzsche
Como um róseo garoto rechonchudo?

W. H. Auden. Poemas. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.30-31.

domingo, 31 de julho de 2011

Como exprimir a beleza? William Carlos Williams

O alfabeto das
árvores

vai desmaiando na
canção das folhas

Versos iniciais do poema “The botticellian trees”, na tradução de José Paulo Paes. No original:

The alphabet of
the trees

is fading in the
song of the leaves

A música da natureza, não importa qual seja e como cada um consegue ouvi-la, admiravelmente expressa como o alfabeto ― linguagem ― das árvores. A canção das folhas: 

No estio a canção 
canta-se por si

acima das palavras surdas ―

William Carlos Williams. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.98-101. O poema integral pode ser lido AQUI.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

William Carlos Williams: Seafarer

Vernon Lee Kerr, Convergence, 1970

NAVEGANTE

O mar virá escavar
mas as rochas ― arestas dentadas
a cavaleiro da toalha de espuma
ou uma corcova ou então pináculos
                      com mergulhões ―
são o homem pertinaz.

Ele provoca a tempestade, ele
vive por ela! repassado
de temores que não são temores
mas aguilhões de êxtase,
um álcool secreto, um fogo
que lhe inflama o sangue até
a frieza pelo que as rochas
mais parecem lançar-se
sobre o mar do que o mar
envolvê-las. Estiram-se
no esforço de agarrar navios
ou até o próprio céu que
se debruça para ser despedaçado
sobre elas. Ao que ele diz,
Sou eu! Eu é que sou as rochas!
Sem mim nada se ri.

SEAFARER

The sea will wash in
but the rocks ― jagged ribs
riding the cloth of foam
or a knob or pinnacles
  with gannets ―
are the stubborn man.

He invites the storm, he
lives by it! instinct
with fears that are not fears
but prickles of ecstacy,
a secret liquor, a fire
that inflames his blood to
coldness so that the rocks
seem rather to leap
at the sea than the sea
to envelope them. They strain
forward to grasp ships
or even the sky itself that
bends down to be torn
upon them. To which he says,
It is I! I who am the rocks!
Without me nothing laughs.

WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.180-181.