Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 21 de junho de 2011

da crítica

Numa conversa de vinte anos trás sobre o filme A Insustentável Leveza do Ser ― quando estudava Biologia em Viçosa e meu ser começava já perigosamente a se adensar e querer algo mais que as incertezas da ciência ― e só hoje sei da coragem que tive de ter então, trocando tudo por um estranho nada, que depois frutificou ― prosseguindo: foi numa conversa de vinte anos atrás sobre um filme, agora percebo, que atentei pela primeira vez na crítica, empregando a palavra no sentido que hoje ela tem para mim. Comentei que a crítica não havia sido muito favorável ao filme ― o que, já então, devia constituir para mim um critério para escolher entre assistir ou não um filme etc., o que é mesmo espantoso ―, e uma moça que participava da conversa disse algo mais ou menos assim: e existe lá algum crítico que vai dizer que filmes devo assistir? Certamente a letra não é esta, mas o espírito sim. E se estou me lembrando disso agora, no horizonte do hoje, é porque, por mais independência que eu queira advogar para meu gosto, para minhas escolhas, tenho prestado demais atenção a certas prescrições, aquelas que vêm dizer como deve ser o gosto de alguém. Que alguém é este? Que subjetividade se deseja produzir por qualquer prescrição de gosto?

Tudo isso é bastante problemático, porque certamente faço o mesmo quando considero de qualidade duvidosa o gosto de outrem. Qual seria o parâmetro quando as escolhas já chegam feitas/filtradas até mim, e eu finjo ser livre e dizer “sim” ou “não”? Porque há a crítica formal e a informal, e nas conversas informais, espontâneas, entre os amigos, também há, quase imperceptível, certa prescrição de gosto, com a qual se desenham as afinidades (e Terry Eagleton fala isso no capítulo introdutório de Ideologia da estética) e se constroem os laços. Quantas vezes já se ouviu a expressão as afinidades eletivas? “O que está em questão é [...] a produção de um tipo inteiramente novo de sujeito humano ― um que, como a obra de arte, descobre a lei na profundeza de sua própria identidade livre, e não em algum poder externo opressor.” (EAGLETON, Terry. A ideologia da estética. Tradução Mauro Sá Rego Costa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993, p.21).

No dizer de Eagleton, o elemento estético decorre, e ao mesmo tempo reflete, a emergência de uma nova ordem social, conhecida de todos, a ordem burguesa ― esta requer um tipo inteiramente novo de subjetividade, e a contrapartida desse novo homem é a própria obra de arte ― ambos se fundamentam epistemologicamente no particular, na própria descoberta de uma identidade, um contorno que distingue um particular de outros particulares e da própria totalidade. A falácia do argumento da liberdade e suposta neutralidade da crítica é que se nega com espantosa frequência que também o crítico está fazendo escolhas, elas não estão livres de serem contingentes, e que portanto o que a crítica diz pode às vezes ser tomado como a voz de um amigo mais bem informado. Cabe saber se vale ou não a pena manter a amizade, quer dizer, dar ouvidos ao crítico, mesmo quando ele não veste esta pele, é apenas aquele/a amigo/amiga com quem você gosta de parlar, trocar figurinhas, porque um dia, sabe-se lá porque, descobriram, vocês dois, ou duas, que tinham afinidades (volta-se ao Eagleton), com o perigo de, com o tempo, isso se engessar em prescrição. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

o surgimento da crítica moderna segundo Koselleck

Reinhart Koselleck narra em Crítica e crise o surgimento da crítica moderna e sua vinculação estreita à ascensão da burguesia ao poder: “A burguesia moderna certamente nasce do foro interior secreto de uma moral de convicção privada e se consolida nas sociedades privadas” (p.67). Koselleck mostra como as guerras civis religiosas dos séculos XVI e XVII engendraram a necessidade do Estado absolutista, com a separação dos domínios da política e da moral. A consolidação do Estado moderno, por seu turno, apóia-se na teoria de Hobbes: “O Estado moderno surge, em Hobbes, tendo como pressuposto a cisão do homem em homem e cidadão” (p.36), correlata à cisão operada entre moral (domínio privado) e política (espaço público). Ou melhor: moral e política são obrigados a coincidir “quando a razão está diante da alternativa histórica entre guerra civil e ordem estatal” (p.33). O conteúdo histórico é o bastidor fundante da separação entre política e moral, ou esfera pública e privada, que condicionou o surgimento da crítica. No sentido de uma cisão do homem em homem e cidadão, o homem se tornará o refúgio de concepções morais que não podem contrariar os interesses do Estado. A ascensão e queda do Absolutismo está relacionada à progressiva extensão dos domínios do homem sobre o cidadão, por mais contraditório que isso possa parecer, e, por conseguinte, sobre a política. É que o confinamento da subjetividade ensejada pela tentativa de pacificação das guerras de religião teve como contraponto o surgimento da esfera pública e da Estética, conforme informa também Terry Eagleton em A função da crítica e Ideologia da estética. Isso se inicia na Inglaterra, no final do século XVII, com a sistematização de John Locke, que transforma esse foro privado de opinião em uma terceira lei, ao lado da lei religiosa e da lei do Estado, a lei da opinião, com poder de julgar: “Para a sociedade ascendente, as convicções se tornam um constante exercício de juízo” (p.53). A Inglaterra do século XVIII assiste assim à emergência do espaço público: “O juízo dos cidadãos, que se legitima a si mesmo como verdadeiro e justo ― isto é, a censura e a crítica ―, torna-se o poder executivo da nova sociedade” (p.53). O espaço público surge assim estreitamente associado à atividade da crítica, algo que se estenderá a todo o continente. Koselleck chama Locke de pai espiritual do Iluminismo burguês: “O advento da inteligência burguesa tem como ponto de partida o foro interior privado ao qual o Estado havia confinado seus súditos. Cada passo para fora é um passo em direção à luz, um ato de esclarecimento. O Iluminismo só triunfa na medida em que expande o foro interior privado ao domínio público. Sem renunciar à sua natureza privada, o domínio público torna-se o fórum da sociedade que permeia todo o Estado” (p.49). Segundo Koselleck, essa expressão judicativa se fará mediante duas instâncias, a franco-maçonaria e a república das letras. En passant, é interessante acompanhar a discussão em torno da separação entre razão e religião, pela submissão desta à instância da crítica, a chamada terceira lei (p.98-99). No que concerne à república das letras, o autor delimita melhor o conceito de crítica. O que importa reter é que a crítica moderna emerge de um contexto de conquista e expansão da esfera pública, e que sua ação judicativa encontrou nesse mesmo espaço a sua justificação. Em nota, Koselleck informa que a palavra “crítica é um tópico do século XVIII” (p.201, nota 151). Dito de outra forma, a crítica “emprestou seu nome ao século XVIII” (p.92). Nesse sentido, delineia-se um sentido amplo para o termo, que Koselleck procura especificar: “É inerente ao conceito de crítica levar a cabo uma distinção. A crítica é uma arte de julgar. Sua atividade consiste em interrogar a autenticidade, a verdade, a correção ou a beleza de um fato para, a partir de um conhecimento adquirido, emitir um juízo que, como indica o emprego da palavra, também pode se estender aos homens” (p.93). Substitua-se “fato” por “obra” e tem-se a delimitação do âmbito da crítica moderna, de onde se diferencia a crítica literária. Na virada do século XVIII para o XIX, ainda não se fazia uma distinção tão marcada entre arte e literatura, ou entre arte e poesia, ou entre poesia e literatura, por exemplo, sem contar que literatura, na acepção que passa a ter a partir do Romantismo, foi tomado, em princípio, como um fenômeno eminentemente moderno, o que já é outra discussão. Ou seja, também a crítica literária não se distinguia, ainda, da crítica no sentido amplo do termo, tal como o emprega Koselleck. 

KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Trad. Luciana Villas-Boas Castelo Branco. Rio de Janeiro: EdUERJ; Contraponto, 1999.