Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 27 de novembro de 2012

fernando pessoa, sempre

A rudeza do mundo apara as arestas, suaviza os movimentos. Fernando Pessoa me consola do que em mim é lamento. Qualquer verso desse homem parece ser maior que a sombra que faz o sofrimento:

Que dia este! Quantas coisas foram
Irregulares no acontecer!

E não são todos os dias assim?

sábado, 24 de novembro de 2012

a perfeição do amor

Há visões ― cenas ― beirando o insuportável. No entanto, parece ser impossível esquivar-se delas, a não ser que se pudesse retroceder ao útero materno. O que quer dizer que acaba se encontrando um meio de suportá-las, porque este é mesmo o preço que se paga para viver. Não são, a rigor, insuportáveis, embora a consciência procure rápido anestésicos para lidar com elas. Um deles é o consumo. No entanto, o único consolo para o dado insuportável da existência é o amor. A redenção possível.

pombos, um incômodo

Preciso falar dos pombos, mas preciso antes conseguir falar dos pombos. Eles têm me incomodado ultimamente, como muitas outras coisas, aliás. Muitas outras coisas? Talvez o correto seria dizer algumas outras coisas. Mas saiu “muitas”, e a escrita não precisa sofrer a repressão ― seria melhor dizer censura, mas saiu “repressão” ― que timbra outros aspectos da (minha) vida. Por enquanto é isso: preciso conseguir começar a falar dos pombos. Já é um começo.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

respiração da vida

De vez em quando sinto palpitar em mim uma Mariana mais forte e corajosa, a Mariana que fui quando atendi ao ímpeto de não temer o mundo, de enfrentá-lo, de lutar pela consecução de meu destino. Uma Mariana que ouviu muito rock na juventude, que agia por critérios próprios, que tinha a coragem de sofrer sem achar que o sofrimento era um mal sem fim, que tinha em si a força de saber-se protegida pelo bem que trazia, desde sempre, em si. Essa Mariana é a pessoa que quero em mim, para mim, pois sua força sempre foi além de qualquer contingência.

domingo, 8 de abril de 2012

restar com as bagagens da vida

É bastante conhecido o conto “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, talvez a nossa narrativa por excelência de certo lugar/discurso do deslocamento. Estava na rodoviária, numa rodoviária. Bastidores intensos vislumbrados no relance de estar ali, de passagem. Então de repente se vive algo que sobra, que não cabe naquele espaço exíguo de suspensão da cidade, fazendo transbordar a vida que exige não ficar circunscrita àqueles limites. Esse algo não consegue caber na narrativa que se quer para si. Esse algo mal se acomoda na linguagem que serena sentidos. É preciso traduzir, encontrar as palavras que contornem a dimensão do pasmo, do espanto, do anticlímax que derruba com violência a árvore que um dia se plantou. Onde elas, as palavras que repusessem a vida em sua marcha reconhecível? Então, devagar, alguma coisa como ficar com a herança da vida foi se insinuando. E, talvez por estar numa rodoviária, socorreu-me a formidável imagem das bagagens da vida, de Guimarães Rosa: “Eu fiquei, de resto. (...) Eu permaneci, com as bagagens da vida.”

sábado, 17 de março de 2012

citação

Sou a citação mal ajambrada do que um dia imaginei ser. Não, imaginar é pouco. Eu tinha cá meus sonhos e planos. Aprendi a escrever, quero dizer, alinhar palavras e sinais em enunciados compreensíveis. Hoje isso é o respiradouro daqueles sonhos infantis. A não ser que eles, então, carecessem de melhor tradução.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

transbordamento



Todo mundo conhece o ritual de mudar(-se): embalar livros, pertences, coisas várias, enfim, a casa, em caixas de papelão. Para quem faz isso amadoristicamente, o ritual inclui fazer incursões ao supermercado mais próximo, várias vezes às vezes, e voltar para casa munido de boas caixas, limpas e novas, desmontadas, resistentes e prontas para acondicionar o lar, em migração para novo endereço. Não é que hoje, no supermercado, ao bater os olhos em uma caixa novinha em folha, me lembrei no átimo do ritual? Naturalmente porque, em função de escolhas e demandas profissionais, tive de fazê-lo um bom número de vezes. Então a singela caixa ― aberta, ainda por cima ― teima em me lembrar que minha condição, por mais assentada que agora pareça, guarda uma memória de itinerância?  Memória que parece querer transbordar das muitas caixas em que fiz caber... o que exatamente?

Parêntese: o editor de textos grifa em vermelho o termo “itinerância”, e o Houaiss não o registra. Também num texto há muita coisa que não quer caber, e dele transborda.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

o que os amigos nos contam... de nós

IDA:
Fernanda, não sei se você recebeu minha mensagem ontem pelo celular. O que ontem tive vontade de te dizer foi o seguinte: é que me sinto privilegiada em poder conviver com você, ter me tornado sua amiga. Nossa, você não tem ideia de como é bom conversar com você, como sua palavra abre uma brecha insuspeita, e que por vezes é um caminho bom de ir seguindo. Aí imaginei que também as pessoas que te rodeiam, sua família, devem sentir algo parecido, no sentido de que sua companhia agrega. Mais não sei dizer.

Vamos nos falando.
Beijo, Mari.

VOLTA:
Obrigada, minha querida.  Recebi, sim, a mensagem do celular.  Ia responder mas foi de noite e alguma coisa me interceptou. E agora esta mensagem, tão bonita.  Eu também fiquei pensando em te dizer coisas. Que achei você bem amadurecida em relação ao seu momento de vida, falando de você com profundidade, como sempre, e também com um nível de distanciamento e tranquilidade bacana.  Adorei aquele nosso papo. Também me sinto privilegiada de ter uma amiga como você, tão exigente com a sinceridade que quer ter consigo própria, tão corajosa pra isso!

Vamos nos falando e, sempre que pudermos, nos vendo, né?
Um beijo grandão,
Fernanda.

Então eu sou sincera comigo mesma? Não me poupo de minhas verdades? Já é um passo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

falando em praças...

Era num outro tempo, numa outra encarnação... de mim mesma. Acabara de entrar nos vinte e poucos e numa crise sem precedentes, principalmente se se considerar que era fardo demais para quem tinha sido até então uma pessoa simples, na falta de termo melhor, perplexa de repente diante tudo, e com a experiência de apenas duas décadas de vida para se movimentar naquele novo mundo, que então era eu. Foi então que, num domingo de manhã (mas pode ter sido num sábado à tarde), eu me dirigi a uma das praças da cidade e me sentei num banco, para nada, ou melhor, como uma variante da problemática básica, então ainda com tintas suaves dos restos de inocência: mas que fiz eu? que fiz eu? Foi assim que ganhei uma oportunidade única: ouvir a confissão de um crime, ou quase isso. Um rapaz se aproximou e começou a conversar comigo, a falar aleatoriamente. Hoje acharia isso espantoso, nessa vida corrida e desconfiada. Eu era quase feliz na minha perplexidade de criatura diante do incompreensível. Era magra, mais do que hoje, e quase não aparecia como corpo. Talvez daí a sensação de leveza, e a confiança do rapaz, que falava, mais do que eu, que não me lembro mais o que falei. Lembro do que ouvi. No relato que me fez ― que precisava fazer, agora eu sei, a alguém anônimo e desconhecido, com quem ele nunca mais corresse o risco de encontrar ―, ele começou por dizer que era dono de uma oficina de automóveis e que tinha havido um acidente com morte, não sei se apenas uma. Acidente causado por uma falha no serviço que ele (ou sua equipe) fizera no carro ― isso ele sabia, hoje eu sei que ele sabia. Mas então, por estar tão mergulhada em minha própria perplexidade, acho que, porque mal ouvia o rapaz, tornava-me a escuta de que ele precisava. Pois ele não havia assumido a responsabilidade sobre o acidente. Mas falava dele ali comigo, falava de si, daquela culpa ― daquele crime? E então eu descobri que eu prestava para alguma coisa: para ouvir sem julgar. O rapaz terminou sua palestra, despediu-se de mim e foi embora, na certa desejoso de nunca mais tornar a me ver, pois havia alguém no mundo, uma desconhecida, a quem ele confessara uma grande culpa. Para não constrangê-lo, eu apenas sorri e disse tchau. E tempos depois me mudei daquela cidade, que é minha por acidente de percurso. Não antes de ter lido isso: “Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente.” (“Perdoando Deus”, Clarice Lispector). 

sábado, 14 de janeiro de 2012

monotonia

O que em mim soa como previsível reconhece facilmente a previsibilidade humana. Como seria bom conseguir me surpreender ― algum gesto inesperado, uma vontade mais firme que a minha, enfim, alguma coisa que contrariasse junto aos meus olhos aquilo que todo dia eles tediosamente confirmam.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

parágrafo

Ontem pensei muito num post assim: “Não sou para-raio de maluco.” Pois me lembrei de uma frase dita a uma amiga, não nesta letra, e aproximando um pouco o espírito. Eu havia dito a minha amiga, ao me despedir dela já um pouco tarde em sua casa, que não se preocupasse, pois nada costuma me acontecer nessas circunstâncias. Pensei mas não postei. E então, porque pensava também na grafia de para-raio segundo o acordo ortográfico, sonhei, Deus sabe por quê, que parágrafo havia perdido o acento. O bastidor aí já é outro, uma conversa recente com os colegas de trabalho sobre aspectos contraditórios do acordo, com o qual, no que diz respeito ao hífen, pouco me familiarizei até agora, pois que já não tinha muita familiaridade com o hífen. Mas é claro que não sonhei com o acordo, embora possa ter sonhado com a história da língua. Sonhei com o dito não postado, menos que um parágrafo, apenas uma frase. E é uma pena que, do sonho, só esta lembrança tenha ficado, já que, por lampejos, sei que havia outras coisas, que foram embora assim que a manhã tomou o lugar da noite. Não sei o que a palavra parágrafo estava fazendo no meu sonho. Quem sabe uma metonímia do dia de ontem, física e mentalmente bastante cansativo, com muitos parágrafos, não necessariamente concordantes, às vezes com ruídos, mas fazendo um texto novo, me parece. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

antes da lua

Mas antes da lua houve a passagem pela livraria, que é outra forma de se mirar.  

lua metafísica ornando o céu

Acaso, coincidência, simples questão de percepção... O fato é que ontem, saindo de dado lugar, já à noite, onde tinha ido cumprir ritual ligado à saúde, ou à falta dela, conforme se entenda, olhei distraidamente para o céu e vi uma enorme lua cheia suspensa, pairando absoluta. Num átimo, dei-me conta de que, conforme o ciclo da lua, há exatas quatro luas saía do mesmo lugar, em horário similar, cumprido o mesmíssimo ritual, quando olhei para o céu e vi uma bela e enorme lua. No mínimo o inusitado de tudo me trouxe, num relance, a intuição de que preciso desviar mais vezes meu olhar das coisas comezinhas, ou quem sabe mudar o ângulo do olhar, que há um alto pairando sobre o turbilhão absorvente da vida. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

chuva

E então chove e faz frio ― o que percebo deveras. Costuma ser assim nas proximidades do feriado de finados. Não à toa o finado Brás Cubas fez chover no seu enterro. Há exato um ano atrás tanta coisa se deu, tanto mudou de repente, inesperadamente. Um aluno hoje me perguntou a pertinência de um dia dedicado aos mortos. Disse-lhe que valia mais para nós, para nos lembrar de nossa condição. A conjunção da chuva com Brás Cubas e a véspera do feriado avivou a lembrança de coisas já distantes, insignificantes ― e é um alívio percebê-las assim, despidas de importância, como naquele conto de Drummond cujo título agora me escapa. Aliás, hoje é Dia D, dia dele, de Drummond. Lembrar é apenas um acidente da memória, um modo de perceber que, como o avião que corta agora o céu acima das nuvens, passou o tempo, e junto o que ele engendrou. O tempo pairando acima das nuvens, lenitivo da alma que mandou uma chuva para eu me lembrar de tanta coisa, lembrar que as coisas mudam de lugar, como a água da chuva que cai. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

linhas da mão

A relativa facilidade com que se recorre a noções como intuição, acaso, destino e coincidência, a tentativa de manipulá-las no sentido de projetar enredos, não ilude o próprio destino e seus poderosos fios. O conto de Cortázar foi mais do que um achado. Fez-me perceber, por conexões bastante sutis, não apenas as delicadas linhas de minha mão, enquanto abria e fechava o livro, mas o intricado que se move por elas, as mãos. Mas é claro que não se trata apenas disso. Trata-se de perceber algo maior, percepção que não depende da vontade: depende às vezes de um acaso, o acaso das linhas de um livro, por exemplo. Então o discurso fácil cede a outras possibilidades: as mãos rumam em direções que, num relance, fazem perceber uma parte, ainda que ínfima, dos fios que tecem o enredo (ou enredos) de uma vida, fios que estão e não estão nas mãos. O que está nas mãos são as linhas que dela partem, as linhas do texto que as mãos vão compondo, via palavras, itinerários que se confundem com as linhas, e que tentam delinear, apreender, alcançar, lograr entender, capturar qual teia os fios sutis e a custo discerníveis que movem a vida, uma vida, qualquer vida.

sábado, 17 de setembro de 2011

ABC

Disse à minha analista que estudei até a terceira série num lugar chamado Escola Singular de Destino. O verbo estudar merece ser sublinhado. Apesar do dado selvagem iminente de tudo, eu estudava, e, conforme já postei aqui, com a cartilha Caminho Suave. E sem cogitar sequer o que era destino, o que significava esta palavra, o alcance das sete letras numa palavra nem feia nem bonita ― as altas metafísicas não entravam nas primeiras letras ―, eu gostava daquela cartilha, da sugestão do caminho suave. Minha candura apostava nele, embora os primeiros sinais de aridez e violência se fizessem notar, até mesmo pelo abandono de tudo. Alguma coisa ali despertava o meu amor, porque o resto, apesar de incômodo, ficava nos limites da palavra incômodo, não chegava até mim. O que chegava era outra coisa, de uma opacidade que só fui perceber quando precisei começar a tentar entender as coisas, as grandes e as pequenas, o contorno que minha vida tomou, às voltas com outra cartilha, outro ABC.

Não ver no Mundo a sua face ―
É muito tempo ― até que eu ache
Onde isto ― é tudo só
Uma cartilha ― para a vida ―
Na prateleira ― inatingível ―
Fechada ― para nós ―

Mas a cartilha é o que me basta ―
Livro nenhum ― me fará falta ―
Por mais raro ― o saber ―
Pode alguém ser ― o mais instruído ―
Tomar nas mãos ― o Paraíso ―
Eu só quero ― o ABC ―


Not in this World to see his face ―
Sounds long ― until I read the place
Where this ― is said to me
But just the Primer ― to a life ―
Unopened ― rare ― Upon the Shelf ―
Clasped yet ― to Him ― and Me ―

And yet ― My Primer suits me so
I would not choose ― a Book to know
Than that ― be sweeter wise ―
Might some one else ― so learned ― be ―
And leave me ― just my A-B-C ―
Himself ― could have the Skies ―

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.64-65.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

livros, panelas, a vida

Comprei panelas, e mudei bastante os hábitos alimentares. Sei cozinhar, agora sei que sei. Não há qualquer mistério: observo as panelas, os alimentos cozinhando, o fogo fazendo o papel que lhe cabe. Mais de uma vez, diante do fogo transformando em alimento aquilo que vou jogando nas panelas sem muita fórmula, ponderei sobre esse estranho poder de transformação do fogo, e me pareceu entrever qualquer coisa da vida no processo, resumido de forma tosca no dito “O todo é maior que as partes”. Ocorre que na busca pela frase do Dedalus no Ulisses acabei relendo um diálogo primoroso, e esbarrei nisso:
― Tenho medo dessas grandes palavras ― disse Stephen ― que nos fazem tão infelizes.
O fato é que intentava me dirigir para a estante da sala para guardar o Dedalus e seus ditos desconcertantes ― não aqueles enfeixados no Ulisses, mas sim no Retrato do artista quando jovem, em que julgava estar o dito célebre sobre a História ― quando, instintivamente, percebi estar me dirigindo com o livro para a cozinha. Não, de forma alguma pensei na heresia de queimar meus livros, isso eu jamais faria, mas antes alguma coisa muito mais intrigante e reveladora: que as palavras que distingo neles, nos livros, que sorvo com tanta vontade como se fossem alimento, podem estar precisando de um fogo qualquer para aquecê-las, transformá-las, como vejo o fogo agindo lenta e misteriosamente nos alimentos, e se a cozinha e a estante ficaram tão próximas em meus movimentos é porque os dois alimentos fundiram-se no mesmo gesto ― vital. A imagem me atrai, mas não quero que as palavras queimem. O fogo traz a marca de Prometeu.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

à sombra de árvores antigas

A culpa que me infundiram num passado distante, já nem sei de que, está sempre tão presente que sequer lhe noto a constância, a máscara que aderiu à pele imperceptivelmente ao longo dos anos, porque ser culpada é uma forma de viver na sombra. Acho que vivo melhor na sombra, o sol faz mal à minha pele. Mas ontem me surpreendi simplesmente almoçando, como quem cumpre um antigo ritual de alimentar-se porque o corpo precisa. O corpo e um imponderável qualquer, porque alimentar-se não é um movimento automático e vulgar que se cumpre ao sabor do instinto. E então, naquele instante fugaz, consegui perceber o quanto a culpa tem estado sempre comigo, paralisando, imobilizando, envenenando. Envenenando o alimento que como. Há outros venenos e envenenadores, mas a imagem do alimento é o bastante: comer sem culpa foi um difícil aprendizado, e não é casual que a percepção da culpa, tal qual uma iluminação epifânica, tenha se dado enquanto comia com muito gosto a comida boa que escolhi livremente comer. Estava nas imediações do Jardim Botânico, lugar cuja densidade é propícia para experimentar sensações contraditórias. Ir semanalmente ao bairro Jardim Botânico para sessões de análise que parecem não conhecer qualquer prazo de validade tornou-se, agora percebo, uma forma de condensar miríades de movimentos. Vou, entrevejo o Jardim Botânico, dou meia volta e retorno. Mas uma hora sei que tudo vai acabar, como aqueles grandes ciclos da vida que simplesmente chegam ao fim. 

terça-feira, 19 de julho de 2011

o concerto do mundo

Com quantos hojes se faz um blog? Uma vida? Hoje foi um dia em que seria bom des-existir, o que não é o mesmo que desistir, porque mesmo no desejo de desexistir há uma presença, uma insistência, alguém que deseja desinvestir um pouco a carga das certezas. Hoje todos os poemas de Alberto Caeiro me serviriam, porque estou cansada de pensar, tenho pensado demais, pensado sempre, pensado já como um vício adquirido. E nesse excesso de pensar uma vida se gasta. Um jeito de pensar menos ― esquecer. Isso, o des-existir. Porque há um concerto maior, enquanto o meu pensamento é tão mesquinho. Eu quero a arte que cura do pensamento. Des-existir na automação da existência para, quem sabe, conseguir um modo de existir. As crianças que brincam em mim trazem notícias remotas de que toda palavra guarda uma cilada. A partir de certo ponto qualquer um está se comprometendo com o que diz, no sentido de que é impossível recuar ao estado originário em que a linguagem era, era o quê? Era a suspeita, apenas, de que um dia eu poderia pertencer ao mundo, e o mundo me pertencer. Todo mundo foi à festa. A frase mais antiga de que me recordo ter lido, num jornal de embrulho. Todo mundo? Mas cabia todo mundo numa festa? ― perguntava-se então a criança incauta, mas já, na frase, indo à festa com todo mundo. Porque esta frase, desde então, eu tomei para mim: a festa do mundo eu não poderia perder. Não posso.