Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 15 de março de 2014

Stéphane Mallarmé

A TUMBA DE EDGAR POE

Tal que a Si-mesmo enfim a Eternidade o guia,
O Poeta suscita com o gládio erguido
Seu século espantado por não ter sabido
Que nessa estranha voz a morte se insurgia!

Vil sobressalto de hidra ante o anjo que urgia
Um sentido mais puro às palavras da tribo,
Proclamaram bem alto o sortilégio atribu-
Ído à onda sem honra de uma negra orgia.

Do solo e céu hostis, ó dor! Se o que descrevo —
A ideia só — não esculpir baixo-relevo
Que ao túmulo de Poe luminescente indique,

Calmo bloco caído de um desastre obscuro,
Que este granito ao menos seja eterno dique
Aos voos da Blasfêmia esparsos no futuro.

Mallarmé. Trad. Augusto de Campos. 4.ed. São Paulo: perspectiva, 2010, p.67.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Uma rosa para Emily (William Faulkner)


O conto “Uma rosa para Emily”, de William Faulkner, integra a coletânea em tela. Uma obra-prima. De minha parte, pensei em conhecida Emily, em secretas homenagens. Por que não? "O poço e o pêndulo", de Edgar Allan Poe, também comparece, e encontrei no volume um conto simplesmente único, magistral, "O ousado rapaz do trapézio suspenso", de William Saroyan, título que alude a conhecida canção popular norte-americana. A tradução de João Cabral de Melo Neto é quase musical: "Saiu a caminhar na manhã, tão desperto quanto podia, dando batidas secas com os calcanhares, recebendo com os olhos a verdade superficial das ruas e das estruturas, a verdade banal da realidade. Sem que o procurasse, viu-se a cantarolar: 'Com a maior facilidade voa no espaço imenso, o ousado rapaz do trapézio suspenso', e depois riu com toda a capacidade do ser. Estava, na verdade, uma esplêndida manhã; nublada, fria e triste, uma manhã para a vida interior; ah, Edgar Guest, murmurou, que fome de tua música.' Esplêndida é a poesia desta tradução, é intuir que há uma verdade banal da realidade.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Edgar Allan Poe e a brevidade do escrito moderno

“O progresso realizado em alguns anos pelas revistas e magazines não deve ser interpretado como quereriam certos críticos. Não é uma decadência do gosto ou das letras americanas. É, antes, um sinal dos tempos; é o primeiro indício de uma era em que se irá caminhar para o que é breve, condensado, bem digerido, e se irá abandonar a bagagem volumosa; é o advento do jornalismo e a decadência da dissertação. Começa-se a preferir a artilharia ligeira às grandes peças. Não afirmarei que os homens de hoje tenham o pensamento mais profundo do que há um século, mas, indubitavelmente, eles o têm mais ágil, mais rápido, mais reto, mais metódico, menos pesado. De outro lado, o fundo dos pensamentos se enriqueceu. Há mais fatos conhecidos e registrados, mais coisas para refletir. Somos inclinados a enfeixar o máximo possível de ideias no mínimo de volume, a espalhá-las o mais rapidamente que pudermos. Daí nosso jornalismo atual; daí, também, nossa profusão de magazines.”

POE, Edgar Allan. Ficção completa, poesia e ensaios. Tradução, organização e notas Oscar Mendes, com a colaboração de Milton Amado. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001, p.989.