Diz o
poeta que só o sonho é inevitável. Mas o nome que se tem, dito próprio, também.
“Fiz uma breve avaliação de posses e cheguei à conclusão espantosa de que a
única coisa que temos que ainda não nos foi tirada: o próprio nome.” (Clarice
Lispector, Um sopro de vida). O marcador
“ainda” sinaliza uma possibilidade perturbadora. Não somos donos do dia — é o
que parece nos sugerir a noite.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
Mostrando postagens com marcador pessoal intransferível. Mostrar todas as postagens
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quinta-feira, 6 de março de 2014
sábado, 31 de julho de 2010
"pessoal intransferível"
Rodando pela blogosfera, encontramos uma diversidade incrível de blogs - há uma proliferação deles. E aí me ocorreu uma questão: por que as pessoas estão escrevendo tanto, não importa o quê? Bem, a tirar por mim, por pura necessidade. Esse blog começou bem "amador", conforme se pode perceber pelos primeiros posts. De certa forma, continua sendo. Quando uma outra amiga disse que tinha procurado em vão um texto que postei, resolvi que estava na hora de introduzir os tais "marcadores". Trabalheira danada ir fazendo um percurso retroativo, rever textos, ver quais seriam os signos que poderiam melhor caracterizá-los. Muita coisa foi revista e descartada nessa operação - numa palavra, eu não era mais a mesma, e esse é o perigo que ronda qualquer revisão - algumas coisas ficaram inaceitáveis, mas outras permaneceram intocadas, e nelas eu continuo reconhecendo a legitimidade do processo que me moveu (e me move) a escrever. Mas o mais curioso, na história dos marcadores, foi que havia posts para os quais eu não encontrava um signo palpável, evidente por si. Comecei a pensar em algo como "inclassificável", mas marcadores não são uma classificação. Foi aí que me ocorreu a famosa expressão do poeta Torquato Neto, "pessoal intransferível": aqueles posts eram (são) inegociáveis, eram a expressão de experiências muito próprias, muito minhas, e por mais que eu receasse (como continuo receando) me expor, eles eram imprescindíveis. Eram a própria justificativa do blog existir. É com uma entrega para a escrita que tento me colocar nesse espaço. Algumas coisas que escrevi me fizeram muito bem. É o que importa.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
epifania
Epifania é o nome de algo difícil de definir, mas que se experimenta de vez em quando. Acontece uma espécie de suspensão temporária do contexto circundante, e a pessoa se vê, de repente, diante de uma sensação diferente, estranha, que pode acalmar ou não, mas que, certamente, aponta novos rumos, mesmo quando traz inquietações ― e é bom que as traga, pois provoca uma espécie de tectônica de placas (na falta de imagem melhor), e as coisas, os sentimentos, as impressões, o próprio saber sofrem uma reacomodação, o que não deixa de ser um apaziguamento. É um reencontro com o próprio ― e misterioso, porque imponderável ― ritmo da vida. A arte costuma ser um elemento deflagrador, mas também uma chuva mansa ao anoitecer, que de repente isola a pessoa em algum lugar qualquer, calmo, e de si mesma. Estar sozinho diante da imensidão do mar, em praia vazia, costuma trazer sensações inexplicáveis. O que disse Fernando Pessoa, num versinho: "Já viram Deus as minhas sensações..."
quinta-feira, 29 de abril de 2010
"quem não se arrisca não pode berrar"
"E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi." (Torquato Neto, Os últimos dias de paupéria, 2.ed, 1982, p. 63 - publicado originalmente em 14/09/1971) Título da matéria: "Pessoal intransferível", que compõe um verso do poema mais famoso seu, "Cogito": "eu sou como eu sou/ pronome/ pessoal intransferível/ do homem que iniciei/ na medida do impossível."
terça-feira, 9 de março de 2010
fuso horário
Descobri nas configurações o que estava criando um descompasso entre minhas postagens e o horário em que eram registradas: a coisa aqui estava calibrada para o "fuso horário do Pacífico"..., o que, note-se, não é de todo mal, afinal o nome "pacífico" sugere-me coisas que há muito venho buscando, e a própria imagem do "Oceano Pacífico" é bastante excitante para a imaginação - todo um oceano de palavras e ideias a meu dispor, que eu posso pacificamente (mas nem sempre, em virtude de eventuais tempestades e outros fenômenos da natureza que volta e meia, e cada vez mais frequentemente, a televisão vem noticiando por lá) ordenar, organizar, desorganizar, rearranjar, linkar, ligar, desligar, submeter, transtornar, criar, delinear... Bem, descoberto o lapso (meu, evidentemente, fruto de uma distração "cada vez mais" assídua), calibrei para São Paulo, e já percebi que todos os horários foram acertados. Mas me ocorre de repente: será que o trânsito e o caos de sumpaulo vão emperrar as ideias por aqui? E será que essa obssessão pelo horário real teria algum fundamento? Mudei de ideia, acabo de voltar para o Pacífico e sua vastidão encantadora. Mesmo porque isso acrescenta um quê de mistério a tudo.
Por-do-sol sobre o Oceano Pacífico
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
GPS
No dia 11 de setembro de 2001, eu me encontrava trabalhando na Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, já então mais como "Assessora de Assuntos Aleatórios" do que na função inicial mediante a qual havia ingressado por concurso. E sabia que aquilo seria passageiro. Bem, estávamos todos nos preparando para sair em uma visita de campo, e alguém sinalizou, por volta das 10 da manhã, que tinha alguma coisa estranha acontecendo, a televisão estava passando umas imagens esquisitas. Sei lá, não sou muito de televisão, olhei aquilo rápido, e imediatamente o grupo saiu para o campo. No local, na condição de AAA, foi-me confiada a guarda do GPS, do qual de repente me distraí. Menos de cinco minutos dentro do carro para voltar, e o Secretário pergunta pelo GPS. Eu: "não sei; ah, sim, acho que coloquei em cima do carro". "Menina, você não tem mesmo juízo...". E todo mundo kakakakakakakaka, eu mais que todos. Tratava-se de um aparelho caro, não dava para perder assim. Parou-se imediatamente o carro, e por milagre o GPS lá estava, quietinho. Eu ainda ri muito, e acho que estou rindo disso até hoje. Bem, naquele dia trágico, da queda das torres gêmeas, o mundo ficou assim um pouco sem seu GPS, e muitas vidas se perderam por isso, no atentado e posteriormente, em virtude dos seus desdobramentos, pagando caríssimo por algo de que eram inocentes. Perder um aparelho de GPS é infinitamente menos sem importância do que perder o que um GPS, metaforicamente, pode dar. Felizmente, desde então, meu GPS tem funcionado bem, obrigada, algumas turbulências de quando em vez. Já o do mundo, lamentavelmente, não dá pra saber sequer se foi encontrado, ou se algum dia de fato funcionou.
Constelação de satélites GPS - http://www.fc.up.pt/lic_eg/
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Edital de Incineração!?
Dando um "google" em mim mesma, descubro-me associada a um curioso "Edital de Incineração". Penso: será que já morri e esqueceram de me contar? Hahahahaha... Não, deve ser outra coisa: alguma empresa funerária me incluiu inadvertidamente na sua listagem de clientes eventuais, afinal já passei dos 40, é bom ir pensando nessas coisas desagradáveis... Mas não, ainda não é isso. É uma coisa mais simples, besta até: tempos atrás, fiz um concurso público, daqueles que te deixam "fulo da vida", quando se descobre, in media res, que um dos candidatos é autor de um dos títulos indicados na bibliografia, isso lá na Bahia, num lugar chamado Vitória da Conquista, que para mim foi antes "conquista da derrota". Coube-me um honroso segundo lugar no tal concurso, cuja vaga ficou já se sabe para quem... Voltei cabisbaixa, acabrunhada, e jurei que concurso na Bahia nunca mais. Bem, mas a lição disso tudo é que o passado, mais dia menos dia, vira uma grande piada, e podemos confortavelmente rir de nossas derrotas e fracassos. Por via das dúvidas, salvei o tal edital, afinal ele acaba de salvar meu dia.
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