Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

sedução, trapaça e rock'n roll

O cinema educa. A televisão, via de regra, vulgariza. Dito isso, devo confessar que a netflix me reconciliou com a rotina de assistir filmes, da qual tinha me apartado desde que me mudei para o Rio, há sete anos. Por que não vou ao cinema morando na cidade maravilhosa? Pela distância, basicamente, o que inclui os percalços do trajeto, digo, do acesso. Em segundo lugar, pelos valores impraticáveis dos ingressos. A isso se soma certa falta de paciência com o público, tanto aquele das grandes redes de cinema abrigadas em shoppings, quanto o outro, em tese mais sofisticado, dito cult, com ar intelectualizado. Nos dois casos, talvez seja mesmo apenas preconceito meu. Ambos conversam durante os filmes, abrem latas de refrigerante, fazem barulho com seus pacotes enormes e caros de pipoca, e isso é o que mais (me) aborrece, porque afinal é um serviço pago, em que o silêncio deveria ser princípio e não regra, e o público que frequenta cinema no Brasil foi educado pela TV.

Então a netflix foi um achado. Aqui cito uma pérola de Paulo Leminski: “podem ficar com a realidade / esse baixo astral / em que tudo entra pelo cano // eu quero viver de verdade / eu fico com o cinema americano”. E com o independente, o iraniano, o francês, o europeu... Qualquer história boa e bem contada, exceto os filmes de terror. Um detalhe interessante: na última sequência de filmes a que assisti, regalia permitida pelas férias, percebi que a trapaça sustenta boa parte dos personagens mais interessantes do cinema. Trapaça, aqui, no sentido de propensão à mentira, aos truques, a uma imaginação que leva-os a convencer e dominar os demais, espectador incluído. É o que se pode observar, por exemplo, no ótimo Headhunters (2012). São sedutores, os trapaceiros.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Paulo Leminski

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.84.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

esquecimento (paulo leminski)

um dia sobre nós também
vai cair o esquecimento
como a chuva no telhado
e sermos esquecidos
será quase a felicidade

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.292.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Paulo Leminski

a vida varia
o que valia menos
passa a valer mais
quando desvaria

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.96.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Paulo Leminski

o que passou passou?

    Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
    é que era morrer.
Morria gente todo dia,
    e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
    que o Juízo, afinal, viria
e todo mundo ia renascer.
    Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
    E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
    Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
    lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
    Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
    uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
    O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
    Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
    que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
    Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
    Tinha coisas que tem que morrer,
tinha coisas que tem que matar.
    A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
    Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
    a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
    e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
    Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
    Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
    de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
    O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
    Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
    Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
    Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
    Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
    a ciência da eternidade
 inventou a criônica.
    Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.287-288.

sábado, 15 de junho de 2013

Paulo Leminski

a vida é as vacas
que você põe no rio
para atrair as piranhas
enquanto a boiada passa

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.95.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Paulo Leminski

HIERÓGLIFO

Todas as coisas estão aí
para nos iluminar.
Discípulo pronto,
o mestre aparece
imediatamente,
sob a forma de bicho,
sob a sombra de hino,
sob o vulgo de gente
como num livro, devagar.

Mestre presente,
a gente costuma hesitar,
nem se sabe se o bicho sente
o que sente a gente
quando para de pensar.

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.339.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Paulo Leminski

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.84.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Paulo Leminski

arte do chá

     ainda ontem
convidei um amigo
    para ficar em silêncio
comigo

    ele veio
meio a esmo
    praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.188.

Paulo Leminski

erra uma vez

    nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
    já cometo duas três
quatro cinco seis
    até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.265.

sábado, 13 de outubro de 2012

Paulo Leminski

Transar bem todas as ondas
a Papai do Céu pertence,
fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense.
A nós, gente, só foi dada
essa maldita capacidade,
transformar amor em nada.

Os melhores poemas de Paulo Leminski. 6.ed. São Paulo: Global, 2002, p.108.

sábado, 2 de junho de 2012

Paulo Leminski

Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.

Com isso ninguém nasça.
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha
E é melhor encher a cara.

Paulo Leminski. Caprichos & relaxos. 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.

sábado, 21 de abril de 2012

Paulo Leminski: já começo a ficar cheio de não saber quando eu falto...

SUJEITO INDIRETO

      Quem dera eu achasse um jeito
de fazer tudo perfeito,
      feito a coisa fosse o projeto
e tudo já nascesse satisfeito.
      Quem dera eu visse o outro lado,
o lado de lá, lado meio,
      onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito.
      Quem dera um angulo reto.
Já começo a ficar cheio
      de não saber quando eu falto,
de ser, mim, indireto sujeito.

Paulo Leminski. Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1987. Livro disponível aqui.

domingo, 15 de abril de 2012

Paulo Leminski

O ASSASSINO ERA O ESCRIBA

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito
inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conetivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. São Paulo, Brasiliense, 1983, p.144. Obs.: em "Tentou ir para is EUA", uma piscadela para Drummond. Livro para leitura online:

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Paulo Leminski: escrever à margem

Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.

Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha.

Os melhores poemas de Paulo Leminski. 6.ed. São Paulo: Global, 2002, p.131.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Paulo Leminski

das coisas
que eu fiz a metro
todos saberão
quantos quilômetros
são

aquelas
em centímetros
sentimentos mínimos
ímpetos infinitos
não?

Os melhores poemas de Paulo Leminski. 6.ed. São Paulo: Global, 2002, p.31. 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Paulo Leminski: Coroas para Torquato


um dia as fórmulas fracassam
a atração dos corpos cessou
as almas não combinam
esferas se rebelam contra a lei das superfícies
quadrados se abrem
dos eixos
sai a perfeição das coisas feitas nas coxas
abaixo o senso das proporções
pertenço ao número
dos que viveram uma época excessiva

Paulo Leminski (Reproduzido de Revista USP, n. 3, 1989, p. 104).