Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 20 de junho de 2013

"conversa afiada"

A Rede Globo — e Cia. Ilimitada — vai fazer de tudo para capitalizar os protestos em benefício próprio, mirando-os, pela manipulação, contra o PT e a presidente Dilma, e escamoteando o fato de que também é alvo dos protestos. Isso sem falar na figura ridícula que atende pelo nome de Arnaldo Jabor.

sábado, 15 de janeiro de 2011

ilha

Uma das combinações de palavras jogadas no google ou congêneres que conduziu a este blog, essa semana, foi "ilha do naufrágio". Da minha infância trago a memória de A ilha perdida, que todo mundo leu e eu só ouvia falar que era incrível (acho que só li bem depois, quando não tinha mais como achar incrível), de uma coleção de histórias infanto-juvenis da Ática que foi a leitura escolar da minha geração. Há também a narrativa famosa da história de Robinson Crusoe, o habitante solitário de uma ilha. Mas aqui não é a ilha perdida ou do naufrágio, nem eu sou o personagem de Daniel Defoe. Sabe-se lá o que busca alguém numa ilha do naufrágio. Sei que, na minha infância, havia um programa de televisão semanal muito cotado, "A Ilha da Fantasia", em que as pessoas chegavam em busca das coisas mais bizarras possíveis. A única lembrança que ficou, daquele mundo imaginário e fantasioso, foi de um visitante que queria viver qualquer coisa relativa ao romance O morro dos ventos uivantes, e foi conduzido para uma espécie de castelo isolado e sombrio para viver sua fantasia. Ilha da fantasia + morro dos ventos uivantes é uma combinação curiosa de esquisitice para um imaginário infantil, mas certamente foi mais estimulante que as coisas que as crianças estão assistindo e lendo hoje, salvo engano. 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Concertos para a Juventude

O programa dominical Concertos para a Juventude foi, creio, minha iniciação ao que eu hoje chamaria o sentido do estético, ou o sentido estético da vida. Não havia nada no interior onde eu morava (esta é uma crônica complicada, difícil), mas um belo dia eis que se comprou uma televisão, para o bem e para o mal. Então me dou conta de que a arte foi o meu investimento, e agora um reduto. Não ouvia aqueles concertos em vão. Tento reatar o fio de hoje com o daquele tempo, os todos sacrifícios, e o único que faz algum sentido é a arte, mesmo em sua quase sempre ausência de sentido, mesmo na dificuldade de reatar o fio. Segue uma pequena apresentação do formato do programa fornecida pela emissora (aqui). 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

omelete

Pelas chamadas das revistas, é possível acompanhar o desenrolar das novelas da televisão. As revistas sempre antecipam o que vai acontecer, uma forma de assistir as novelas à distância, mantendo-as à distância. Mas o mais curioso são as chamadas: crimes, mortes, assassinatos, roubos, toda sorte de ardis para se conseguir o que se quer. O tempo todo vilões de quinta categoria, personagens mal construídos, maquinam mal o mal, criando uma estereotipia perigosa. Além do reducionismo que acusa pobreza de imaginação, é interessante observar que o público se alimenta de doses equivalentes de sexo e violência, violência que adentra as casas com o pleno assentimento das pessoas. A pobreza de imaginação é tão grande que, na atual novela das nove, Passione, uma das vilãs se chama Clara e sua principal oponente, Gemma. As mesmas pessoas, depois, vão reclamar do excesso de violência das ruas.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

jornal hoje: o ibope do bope

Constrangedor. 88% dos moradores do Rio aprovam as medidas tomadas contra o tráfico, diz a simpática Sandra Annenberg na edição de hoje do jornal hoje, segundo "pesquisa " do ibope: ou será segundo (secundando, por medo) o bope? Entra em cena o outro apresentador, dizendo que a pesquisa saiu depois do 5º dia de ocupação do Complexo do Alemão, que começou assim: entra então em cena um vídeo amador feito por um dos policiais do bope (que está com o ibope alto) mostrando a tropa de elite comemorando a proximidade da invasão (para quem quiser conferir a reportagem, basta clicar aqui). Logicamente as piores partes do vídeo foram expurgadas (para quem quiser sentir náuseas, basta clicar aqui). Voltando ao noticiário, rapidamente muda-se de assunto, e uma das reportagens que vem a seguir é uma matéria especulando acerca de um comunicado da NASA, previsto para hoje, anunciando uma "importante descoberta científica" (a suposta vida fora da Terra, como se alguém ainda duvidasse disso). Já que a vida aqui está difícil, nada como adotar um ar blasé e falar da ciência como se fosse uma amenidade. Em tom ameno e sorridente, o repórter se dirige à correspondente em Nova York, que fala nos mesmos termos, no mesmo intento de tentar fazer graça: "Olha, os últimos informes são de que os homenzinhos ainda não foram encontrados" (aqui). Coincidência ou não, a correspondente emprega a palavra avalanche (avalanche de boatos), a mesma que o comandante do bope empregou para caracterizar a operação nas comunidades cariocas. Só não dá para entender por que estão indo tão longe buscar os homenzinhos... Patético. Enquanto a vida por aqui se dilacera, a imaginação sonha em encontrar vida em outras esferas. A surpresa será se os homenzinhos formos nós. 

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

televisão, notícias, futebol

Meus pais interditavam o acesso à televisão à noite. Desse interdito veio-me o costume de não assistir televisão hora nenhuma. Ontem, num telefonema, fui informada que era intervalo de um jogo da seleção. Ah, o Brasil está jogando? Hoje, no UOL, nenhum holofote, e logo se vê por quê. E justo los hermanos!!! Vamos ver como será arranjada a coisa para 2014. 

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

♪ é super humano ♪


Em uma conversa telefônica, acabei brincando com a letra da abertura desse programa: ♪ estar com vocês, brincar com vocês, é super humano ... do outro lado da linha:  boneco de pano ♫... Faz parte do imaginário, não tem jeito. Li certa feita o Caetano dizendo que assistia regularmente ao programa, para ver as pernas dela... humano, demasiado humano... 

domingo, 24 de outubro de 2010

música da infância


Quando estou com muita saudade da infância, eu lembro do "Mundo Animal", série de TV dos 70, cujo tema de abertura era um progressivo. Li em algum blog que seria a música "Fanfare For The Common Man", do ELP, mas ouvindo com cuidado percebe-se que não se trata da mesma melodia (link aqui). O fato é que eu adorava as imagens da natureza daquele seriado que comparecia pontualmente à minha casa aos sábados pela manhã (que diferença do lixo que é oferecido hoje...), a que se seguia, um pouco depois, por volta das onze, outro programa, este nacional, "Concertos para a Juventude". 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

o primeiro sutiã (uma peça publicitária memorável)

P.S. Com exceção da última paródia, do "Sai de Baixo", todas as outras ficaram bem bacanas. Aliás, tive dificuldade de perceber a relação da cena do "humorístico" com a famosa criação de Washington Olivetto.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

texto de Paulo Leminski acerca da adaptação de "Grande sertão: veredas" para a TV


A pois. E não foi, num vupt-vapt, que as altas histórias gerais da jagunçagem deram de ostentar suas prosápias e bizarrias no tal horário nobre da caixinha de surpresa, pro bem e pro mal, Rede Globo chamada?
Compadre mano velho, mire e veja as voltas que o mundo dá. Quem havera de dizer que toda essa aprazível gente cidadã ia botar gosto em saber das fabulanças daqueles tempos, quando o desmando e a contra-lei atropelavam os descampados do Urucuia, lá praquelas bandas brabas, onde tanto boi berra?
Só dizendo mesmo, a bem dizer, como proclamava meu compadre de Andrade, Oswald, dito e falado, lauto fazendeiro de S. Paulo: a massa ainda vai comer do biscoito fino que eu fabrico. A graça que ia nisso! Tinha muita graça meu compadre de Andrade. Mas o senhor, que é homem instruído, não faça pouco nem ponha reparo nas facécias do compadre Oswald. Era homem sabido de esperto, e quando parecia que estava mais se rindo, mais se estava falando sério. Tudo questão de tino, coisa que é que nem coragem, que tem, como tem gente que não vai ter nunca.
De modos que esse brazilzão todo, rol de gente de nunca acabar, está ficando sabendo, devagarinho, das andanças do jagunço Riobaldo Tatarana, ao lado de seu querido Reinaldo, vale dizer Diadorim. Só que tem um desconforme. A gente não sabia, de princípio, que Reinaldo era mulher, que nem a gente já fica sabendo nas televisivas fabulanças. E se bem me alembro, a memória tem dessas coisas, Reinaldo não era tão bonito como essa beleza de dona Bruna, Lombardi chamada, italiana tirana de tanta boniteza. Semelhava assim, no pisco do olho, uns jeitos de garoto nos seus quinze, dezessete anos, emborasmente mais judiado, que a jagunça vida nasceu pra dar formosura pra ninguém.
Nem ninguém jagunceia por picardia, jagunceia por precisão.
Tarcísio Meira? Meira, dos Meiras dos Buritis-Altos? Ah, não. A pois. Veja você, que é gente de prol e de escol, mire e veja. Não assemelha o Hermógenes. Não, Deus esteja. T’arrenego, e esconjuro! O cão com o cão, e a faca na mão! Aquilo não era criatura de Deus, quem viu, viu sabendo, e bem sabido. Era feio como a necessidade, ninguém nunca deitou os olhões num indivíduo mais puxado a sapo, que até cascavel, para quem gosta, até tem lá suas graças e desenhadas cores.
É, despotismo de calamidades! Teve o fim que mereceu, que o diabo escolhe quem quer, Deus só escolhe os seus.
Do Diabo? Diaa? Diadorim? Do diabo, não se fala. Que diabo hoje não faz favor na gente cidadã. Que diabo, que nada! o coisa-ruim, o que-nem-se-diga, o diantre, o dívida-externa, o Aids, o inflação, o Dielfim-Netto! Acreditar não digo que a gente acreditava. Difícil era achar quem duvidasse, o senhor releve a sutileza, que é cortesia de jagunço velho, mor de não estragar a pontaria.
Pontaria, pontaria mesmo, quem teve nem nunca deixou de ter, foi Riobaldo Tatarana Guimarães Rosa, esse o nome cabal e completo, homem de muitas letras, nenhum igual ninguém nunca nem viu. A pois, mano velho. Tino e siso era ali, jagunço de caudaloso cabedal, tiro certeiro no olho da onça jaguarete, pau e pau, pum e pum.
Quem dissera? Nem quem diria! Aquela parolagem toda, jaguncismo de lei, no tal nobre horário da Rede Globo chamada... Custoso é o mundo de entender, custosa a fala de Riobaldo Tatarana Guimarães Rosa. Aquilo é falar de cristão, cruz-credo, me persigno!? Nem nenhuma lei de sã gramática aquele jagunço reverenciava, e era tudo um redemunho de sustos, que gente como nós é minuciosa nas artes do sem-sobreaviso. Surpresa só. Vá que a gente cidadã nos seus nobres horários vá saber o que a gente só dizia no oco do toco, o senhor que é de lá me diga... e a caixa de surpresa, televisão chamada, não tem validade de força pra suflagrar no durante e no seguinte, os cafundós de filosofismo que Tatarana Guimarães Rosa enredava naqueles cipós lá dele... que esse Tatarana fosse o Homero desses brasis todos, Homero, o senhor sabe, o Adão dos cantadores...
Divago. Mas não disperso. Esse rural acabou. A pois. Mas que foi muita coragem desse tal sio Avancino, Avancini, o senhor me corrija e reja, de ponhar em vídeo e áudio tanto caudal primitivo, que isso foi, foi macheza, ninguém duvida, quem havera de? Eh, mão de obra!
Efetuar proezas é da vida, e o que for do homem, o bicho não come. Contar é que impecilha, a lembrança não pousa nunca no mesmo lugar, e o dito nunca fica como foi, nem o escrito, que só vem muito depois.
Consoantemente meu compadre falecido Tatarana, na glória esteja! Costumo e tenho bom uso de dizer, que com ele aprendi, “viver é muito perigoso”.
Vê lá se televisionar não hevera de ser!

Folha de S. Paulo, Ilustrada, 1º sem. 1996.