Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


Mostrando postagens com marcador efeméride. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador efeméride. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de março de 2013

Orides Fontela (para o dia de amanhã)

Nunca amar
o que não
vibra

nunca crer
no que não
canta.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.340.

terça-feira, 1 de maio de 2012

acerca das comemorações (oficiais) pelo dia do trabalho

O dia é do trabalhador, não do empregador. Deixem-no descansar, pelo menos hoje: “Comemorando este dia/ vamos todos descansar!” (Jorge de Lima, “Mês de maio”)

primeiro de maio: trabalho e labor

O labor preserva metafórica e concretamente a natureza para dela receber uma lição de progresso e de vida. Graças à metáfora tomada de empréstimo pela literatura erudita de Clarice ao mundo vegetal e ao cotidiano campesino, o labor abraça homem e natureza, campo e cidade, abraça-os e os entrelaça num mesmo horizonte de expectativas, fecundo e amoroso, feliz. ‘Tudo é passível de aperfeiçoamento’, não é outra a lição do conto ‘Amor’. O labor não se manifesta pela força humana alienada única e exclusivamente em experiência do trabalho, em produtividade, repetimos com a ajuda de Marcuse. Ele é manifestação de proximidade e distância do objeto de cuidado, de um misto de vigilância e afeto, de diligência e abandono, de inquietação e paz. É dom. Tem algo da economia na sua acepção etimológica: oikos, casa, e nomos, governo, o governo da casa, o governo do mundo. Tem algo a ver, nos relatos das viagens renascentistas da descoberta de novos mundos, com o trabalho anônimo da tripulação marinheira nessa casa flutuante que é o navio. Eles cuidam do navio que abre as portas do mar. Na utopia comunista de Marx, se lê que trabalho agrícola e trabalho industrial, trabalho rural e urbano serão um dia sabiamente combinados, ali se lê, ainda, que ‘na sociedade comunista o trabalho não será mais do que um meio para alargar, enriquecer e embelezar a existência dos trabalhadores [grifo nosso]’. Não é outro o sentido do labor em Clarice, só que ― grande diferença! ― já passível de ser concretizado no cotidiano nosso. 
Por duas vezes encontramos a palavra progresso no conto ‘Mistério em São Cristóvão’ e as duas vezes sintomaticamente atada ao mês de maio. A primeira vez, logo no início do conto, para dizer que o progresso tinha chegado àquela família depois de muitos anos, pois tudo e todos crescem de maneira harmoniosa e verdadeira. Leiamos um curto trecho: ‘depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso [grifo nosso] nessa família: pois numa noite de maio, após o jantar, eis que as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios...’ Continua o conto, descrevendo os efeitos do labor, incluindo entre as atividades do labor ‘os negócios do pai’: ‘Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio e sua abundância.’ A segunda vez, ao final do conto, depois do microrrelato do acontecimento dramatizado. Os três cavalheiros mascarados olhando pela janela da casa e sendo olhados de dentro do quarto pelo rosto branco da mocinha. Esse instante é o momento em que o progresso se desfaz. Leiamos este outro trecho do conto: ‘E como o progresso [grifo  nosso] naquela família era frágil produto de muitos cuidados e de algumas mentiras, tudo se desfez e teve de se refazer quase do princípio...’ Numa outra noite de maio, termina o conto, talvez de novo se pudesse apalpar o progresso. 
Uma vez mais é preciso tomar cuidado na compreensão de vocábulos carregados tradicionalmente de significado estanque. O conceito de progresso em Clarice (como o de acontecimento, beatitude, trabalho etc.) não carece de apoio por parte da compreensão linear e ascensional do tempo, não pode ser apalpado por metros lineares, quadrados e cúbicos; pode e deve ser compreendido pelo movimento cíclico das estações do ano; pertence mais ao calendário agrário do que ao calendário cristão. O instante-já, que recobre um determinado e específico momento biográfico, sendo por isso uma estrutura de courte durée, ao ser referendado pelo calendário agrário, assume a estrutura de longue durée. As metáforas tomadas de empréstimo ao mundo vegetal e ao cotidiano campesino, de novo, servem para ratificar a dupla temporalidade própria do progresso qualitativo. 
Maio é o mês por excelência do progresso, diz-nos o conto. A perigosa passagem de uma fase da vida em família para outra fase é tematizada pela passagem da velha para a nova estação do ano. Temos aí resquícios de uma cultura oral pagã numa das mais instigantes obras literárias escritas a partir dos anos 40. Num instante preciso, mocinha e tempo atravessam uma crise sazonal. Maio é o mês da crise e da revelação, da evolução. Nesse mês é que se dá o rito de fertilidade da mocinha. Mocinha e tempo vivem ambos com a promessa de nova semeadura, colheita, messes e vindima. Diante da promessa latente nas coisas, da propensão de um canteiro de gerânios, os cavalheiros mascarados, qual feiticeiros, interrompem a caminhada noturna e festiva para o baile, para o sabá. Interrompem ao mesmo tempo o fio da vida da personagem, pondo em xeque o progresso naquela família. Ou seriam os cavalheiros espíritos que saem do corpo da menina no momento em que dorme profundamente? Pouco importa, se espíritos ou se cavalheiros mascarados, o que importa é que nunca se divertiram com tanta felicidade. A haste de um gerânio é encontrada partida pela avó. Um fio de cabelo branco aparece na fronte da mocinha. 
Como não lembrar o poema ‘Mês de Maio’, de Jorge de Lima. Esse ‘mesinho brasileiro’, como carinhosamente o poeta o apelida, teve o seu dia primeiro escolhido para ser Dia do Trabalho. Desde que se defina o conceito de trabalho pelos ensinamentos da aula inaugural de Clarice Lispector. 

Silviano Santiago. A aula inaugural de Clarice. Wander Melo Miranda (Org.). Narrativas da modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999, p.27-29.

sábado, 28 de abril de 2012

mas é de fato um dia muito bonito!...

29 de abril ― Dia Internacional da Dança
Meia volta, toda a volta,
Muitas voltas de dançar...
Quem tem sonhos por escolta
Não é capaz de parar.
(Fernando Pessoa, Quadras, I, 109, p. 38)

domingo, 8 de abril de 2012

páscoa

A Páscoa deste ano foi divina ― de forma que quase não me lembrei que era Páscoa.

quinta-feira, 8 de março de 2012

sonho

No Dia da Mulher permitir-se um pouco de liberdade, a liberdade possível, e tirar um cochilo no meio da tarde. Acordar, já noite feita, e perceber que se sonhou alguma coisa de fundo indizível. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

cinzas

Hoje, no calendário cristão, é dia de cinzas, quarta-feira de cinzas. Da infância remota, a lembrança do ritual de colocar um pequeno sinal de cinzas na testa, retiradas diretamente do fogão a lenha. E ao me recordar disso simbolicamente o ritual se repete ― basta conhecer uma história para obter seu efeito, disse Walter Benjamin. O que tenho aqui comigo não se confunde com as cinzas da infância, ou do tempo ― tenho a chama viva que me dá as cinzas de que preciso hoje.

PS. Em seu estudo sobre Walter Benjamin, Susana Lages transcreve a seguinte história, narrada por Gershom Scholem, como ele a teria ouvido de um outro escritor:

“Quando o Baal Schem tinha uma tarefa difícil à sua frente, ia a um certo lugar no bosque, fazia um fogo e meditava uma prece ― e o que decidia realizar era feito. Quando, uma geração depois, o Maguid de Mesritsch se deparava com a mesma tarefa, ia ao mesmo lugar no bosque e dizia: ‘Não sabemos mais acender o fogo, mas sabemos ainda proferir as preces’ ― e aquilo tudo se tornava realidade. Passada mais uma geração, o Rabi Moshé Leid de Sassov precisou executar a tarefa. Também foi ao bosque e disse: ‘Não sabemos mais acender o fogo, nem sabemos mais as meditações secretas pertencentes à prece, mas conhecemos o local no bosque a que tudo isso diz respeito – e deve ser suficiente’; e era suficiente. Mas passada outra geração, quando Rabi Israel de Rijin foi chamada a executar a tarefa, sentou-se em sua poltrona dourada, no palácio, e disse: ‘Não sabemos acender o fogo, não sabemos dizer as preces, não conhecemos o local, mas podemos contar a estória de como isto foi feito’. E o narrador acrescenta: ‘A estória que ele contou teve o mesmo efeito das ações dos outros três’. [LAGES, Susana Kampff. Walter Benjamin: tradução e melancolia. São Paulo: Edusp, 2002, p. 129]

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

espírito natalino II

Hoje, na altura da Uruguaiana, naquela confusão de lojas próximo à estação do metrô, uma mulher, levando numa mão uma sacola e na outra uma criança, vinha em disparada em meio à multidão gritando “Pega! Pega!”, tentando alcançar um moleque que fugia a passos largos entre as pessoas, por ter afanado seu celular. Voltei-me a tempo de ver o tumulto se formando e pessoas dispostas a atender ao pedido da mulher. Não tem nada a ver com o post anterior, mas eu me dirigia justamente para o Palácio das Ferramentas.

espírito natalino I

Um anúncio veiculado pela TV chamou-me a atenção. Dentro daquele padrão das propagandas de Natal, aparecem o casal e o casal de filhos confraternizando no lar, enquanto a esposa fala das facilidades de comprar os presentes na loja tal. De repente entra o anúncio de uma furadeira.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

amanhã é dia do professor

Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.


Álvaro de Campos

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

dia mundial da saúde mental

― Parece um diálogo de idiotas ― comentou Traveler.
― De mongolóides puros ― disse Oliveira.
― A gente acha que vai explicar alguma coisa e cada vez é pior.
― A explicação é um erro bem-vestido ― afirmou Oliveira. ― Anote isso.

***

“Longo bate-papo com Traveler sobre a loucura. Falando dos sonhos, demo-nos conta, quase ao mesmo tempo, de que certas estruturas sonhadas seriam formas correntes de loucura, a menos que continuassem na vigília. Quando sonhamos nos é dado exercitar de graça nossa aptidão para a loucura. Suspeitamos, ao mesmo tempo, que toda loucura é um sonho que se fixa.”

CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando de Castro Ferro. 15. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, respectivamente p.332 e  p.459-460.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

aos amigos (sem o possessivo)

Hoje (mas já quase deixando de ser, pelo avançado da hora) é dia do amigo. Ontem me encontrei com minha queridíssima Maria Fernanda, sem adjetivos que cheguem, e muita coisa conversamos no café da Travessa. A nenhuma de nós duas, durante toda a tarde e a conversa, ocorreu que o dia seguinte seria dedicado ao amigo. As efemérides atendem a coisas muito distintas da imagem que projetam, e por isso o dia do amigo não vende, não se transformou em anúncio de perfume, roupa ou celular. Amizade, arte, cinema, música, literatura, Clarice Lispector, minha paixão por Bob Dylan... muitas coisas tomaram corpo nas palavras com que íamos tecendo a tarde. No entanto, um dos primeiros temas da tarde, enquanto as esquinas do Centro iam mostrando suas possibilidades de um lugar para sentar sem muita agitação, foi o Clube da Esquina. Também falei deste espaço, do inusitado de me comunicar com pessoas que, em boa parte, não conheço pessoalmente, mas que despertam minha simpatia, algo que parece ser recíproco. Por seu turno, são poucos os amigos do mundo real que frequentam este meu outro lado, simplesmente porque não lhes parece dizer respeito, e está tudo bem que seja assim. Estão em outra vibe. Nas projeções da linguagem que este espaço faculta, novas vibes vão se produzindo. A tarde com a Maria Fernanda é insubstituível, porque a própria Maria Fernanda o é. Mas também não posso mais prescindir de escrever, esse ecoar da voz sem rumo certo. Então com a linguagem é possível entreter uma relação de amizade, que permeia as próprias relações. Fiquei particularmente sensibilizada ao revisitar, via sessão de análise e Clarice Lispector, a questão do simbólico. Foi tão forte que chorei na sessão e, na minha sensação de impotência, a analista percebeu a delicadeza de tudo e silenciou. Quando me encontrei com Maria Fernanda, a primeira coisa que disse é que havia chorado na sessão. Sem isso, esse poder falar, não haveria a leveza da tarde que se seguiu, o muito que coube no encontro. Os encontros e suas esquinas. As esquinas dos encontros. Nas esquinas, o encontro.