Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

as letras

“As letras, vejam bem. Que formulação feliz! Letras, reunidas por fios invisíveis tomados por imponderáveis correntes magnéticas. E toda essa azáfama imposta a um cérebro que deveria funcionar impecavelmente, e trabalhar sem ter trabalho. É uma pessoa, vindo na sua direção, ou só uma mente? Uma mente distribuída por livros, páginas, frases repletas de vírgulas, ponto-e-vírgulas, travessões e asteriscos. Um autor conquista um prêmio ou uma cadeira na Academia por seus esforços, ao outro só cabe um osso roído pelos vermes. Os nomes de alguns são dados a ruas e bulevares, os de outros a prisões e asilos. E mesmo depois que todas essas ‘criações’ tiverem sido finalmente lidas e digeridas, os homens ainda estarão atacando uns aos outros. Nenhum escritor, nem mesmo o maior deles, jamais foi capaz de contornar esse fato duro e frio.”

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaskman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.310. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Henry Miller: a grande pergunta

“A grande pergunta era a de sempre, aparentemente irrespondível: o que afinal eu tenho a dizer ao mundo que seja tão desesperadamente importante? O que eu tenho a dizer que já não tenha sido dito antes, e milhares de vezes, por homens infinitamente mais talentosos do que eu? Seria apenas uma coisa do ego, aquela necessidade coercitiva de ser ouvido? De que maneira eu era singular? Porque se eu não era singular, então tudo aquilo só resultaria em acrescentar mais uma unidade a uma cifra astronômica incalculável.”

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaskman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.166. 

domingo, 11 de setembro de 2011

"Sentir medo é deixar de semear por causa dos pássaros"

"Sabe por que eu nunca virei um escritor?"
"Não", respondi, surpreso de saber que ele sequer já tinha aventado a hipótese.
"Porque eu descobri quase imediatamente que não tinha nada a dizer. Eu nunca vivi de verdade, é esse todo o problema. Se você não arrisca nada, não tem como ganhar nada. Como é mesmo o ditado oriental? 'Sentir medo é deixar de semear por causa dos pássaros.' Explica tudo. Esses russos loucos que você me dá para ler, todos tiveram experiência da vida, mesmo que nunca tenham se afastado do lugar onde nasceram. Para as coisas acontecerem, é preciso haver um clima propício. E quando falta esse clima você cria. Quer dizer, se tem a genialidade. Eu jamais consegui criar nada. Só sei jogar o jogo, e jogar de acordo com as regras. A resposta para isso, se você não sabe, é a morte."

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.35.

John Singer Sargent, Seascape, 1875

imagem obtida aqui

De uma passagem de Nexus, Henry Miller: "Só existe um Sargent, assim como só existe um Beethoven, um Mozart, um da Vinci..." 

sábado, 10 de setembro de 2011

o caos por henry miller

“Falando por mim, devo dizer que se eu jamais tive alguma esperança, seja escatológica ou de outro tipo, foi Dostoievski quem a aniquilou. Ou talvez eu deva modificar o que disse acrescentando que ele ‘tornou fúteis’ as aspirações culturais engendradas em mim por minha formação ocidental. Minha parte asiática, numa palavra, o mongol que há em mim, permaneceu intacta, e continuará para sempre intacta. Esse meu lado mongol não tem nada a ver com a cultura ou a personalidade; ele representa a raiz do ser, cuja seiva vem de algum antiquíssimo ramo ancestral da minha árvore genealógica. Nesse reservatório insondável, todos os elementos caóticos da minha natureza e do legado americano são engolidos como o oceano engole os rios que nele desembocam. Estranhamente, sendo americano de nascença, entendo melhor Dostoievski, ou antes seus personagens e os problemas que os atormentam, do que se eu fosse europeu. A língua inglesa, a meu ver, é mais adequada para expressar Dostoievski (se a pessoa precisa lê-lo em tradução) do que o francês, o alemão, o italiano ou qualquer outra língua não eslava. E a vida americana, do nível dos gângsteres ao nível dos intelectuais, apresenta paradoxalmente uma imensa afinidade com a vida cotidiana multilateral da Rússia de Dostoievski. Que melhor campo de provas se pode desejar do que esta Nova York metropolitana, em cujo solo conglomerado toda ideia irresponsável, ignóbil e louca floresce como uma erva daninha? Basta pensar no inverno daqui, no que significa sentir fome, solidão e desespero neste labirinto de ruas monótonas ladeadas de prédios monótonos habitados por indivíduos monótonos repletos de pensamentos monótonos. Monótonos e ao mesmo tempo ilimitados!
Embora milhões de nós nunca tenham lido Dostoievski e nem sequer reconhecessem o nome caso lhes fosse dito, ainda assim eles são, milhões deles, figuras saídas diretamente de Dostoievski, vivendo aqui na América a mesma vida ‘lunática’ que as criaturas de Dostoievski viviam na Rússia de sua criação. Se ontem eles ainda podiam ser vistos como possuidores de uma existência humana, amanhã seu mundo terá um caráter mais fantasticamente assolado por demônios que qualquer criação de Bosch, ou todas elas. Hoje essas figuras ainda se deslocam ao nosso lado ombro a ombro, sem assustar ninguém, aparentemente, com seu aspecto antediluviano. Alguns continuam de fato a perseguir sua vocação ― pregando o Evangelho, preparando cadáveres, cuidando dos loucos ― como se nada de momentoso tivesse acontecido. Não têm a mais vaga ideia de que ‘o homem não é mais o que era antes’.

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaskman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.26-27.