Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Ludwig Uhland

A COROA SUBMERSA

No alto daquele monte
Há uma casa pequenina,
Panorama deslumbrante
Da porta se descortina;
Livre e justo lavrador
Lá mora, que ao fim do dia
Cânticos ergue ao Senhor
E o gume da foice afia.

Embaixo um pântano existe
Sombrio, onde jaz no fundo
Coroa, em que já se viram
A glória e o poder do mundo;
Carbúnculos e safiras
Lá estão à noite a brilhar;
Ali ela vive há séculos,
Ninguém ainda foi a buscar.

Cinco séculos de poesia. Org. e trad. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Record, 2013, p.35.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Giacomo Leopardi

A SI MESMO

Enfim repousas sempre,
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Que em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera
A última vez. À nossa espécie o fado
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera
E a vacuidade sem final de tudo.

Cinco séculos de poesia. Org. e trad. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Record, 2013, p.47.

sábado, 11 de maio de 2013

Alexei Bueno: entrevista ao Globo News Literatura

O poeta, de modo irreverente, diz que no Brasil ser polemista é uma necessidade, uma questão de patriotismo e de vergonha na cara. [aqui]

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Alexei Bueno

ESPÓLIO

Que guardaremos disso tudo? A gema
Inconcebível entre o horror e o encanto,
Ou o ancestral silêncio, ou o ágil canto
     Que o tem por tema?

A úmida muralha morna e turva
Com que a dor nos estreita, o fim cinzento
Do dia, a rosa, o raio, ou, numa curva
    De um sonho, o vento?

BUENO, Alexei. Em sonho. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.406.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Alexei Bueno: livro de haicais

Entre o sol e as flores
Como é difícil às vezes
Desdenhar tal mundo.

BUENO, Alexei. Livro de haicais. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.214.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Alexei Bueno: livro de haicais

No olho das ruínas
As íris dos vaga-lumes
Sob as tranças das ervas.

BUENO, Alexei. Livro de haicais. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.214.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

[um poema que poderia ter sido escrito por fernando pessoa]

Viemos ao mundo no ventre do Acaso, e ele só, neste mundo,
        Sem nos querer nem sonhar, célere nos acolheu.

BUENO, Alexei. Poemas gregos. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.192.

sábado, 5 de maio de 2012

Alexei Bueno: testamento poético

Quem versos com eu fiz
Fez, pode sossegado
Dormir, sentindo o intenso
Prazer de se ser vivo.

Quem tal como eu cantou
O que não passa no homem,
Medo não tem que o tempo,
Passando, o não mais passe.

Pois quando o divino ar
Não mais, como foi sempre,
Entrar pelo meu peito,
Aos homens falarei

Ainda, qual o espectro
Dos mortos, e assim ouso
Calmo dormir, enquanto
Minhas palavras velam.

BUENO, Alexei. Poemas gregos. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.175-176.

domingo, 15 de abril de 2012

Alexei Bueno: livro de haicais

Tudo a natureza,
Cruel, perdoa. Os arbustos
Crescem sobre os crimes.

BUENO, Alexei. Livro de haicais. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.215.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Alexei Bueno: livro de haicais

Em todas as portas
Uma só certeza: Nosso
Lugar não é aqui.

BUENO, Alexei. Livro de haicais. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.220.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Alexei Bueno: livro de haicais

Sobre mim a lua.
Lá atrás das altas montanhas
Outro deve olhá-la.


BUENO, Alexei. Livro de haicais. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.216.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cruz e Souza

Alexei Bueno

Que a tua vida, já que o tempo é breve,
E o fim não dá motivo à covardia,
Tal qual o raio efêmero ela seja,
Que mal feriu a vista em trevas some,
Mas ilumina no seu tempo, e ainda
Que igual a ele, após extinta, soe!

BUENO, Alexei. Poemas gregos. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.180.

domingo, 30 de outubro de 2011

Alexei Bueno: a força da poesia arrancada à palavra

ESPÓLIO

Que guardaremos disso tudo? A gema
Inconcebível entre o horror e o encanto,
Ou o ancestral silêncio, ou o ágil canto
     Que o tem por tema?

A úmida muralha morna e turva
Com que a dor nos estreita, o fim cinzento
Do dia, a rosa, o raio, ou, numa curva
     De um sonho, o vento?

BUENO, Alexei. Em sonho. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.406.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Alexei Bueno

A verdade da morte não nos serve
Como não serve um manto
De rasgos sorridente
No carrancudo inverno.

Assim também dos deuses a verdade
De eles serem mentira,
Caso o sejam, não vale
O preço de a encontrarmos.

Antes, no nosso sonho, tão maiores
Que o Estige e que Caronte,
Vivamos, não no que há,
Mas no que haver devera.

E, cumpra-se ela ou não, vestindo a túnica
De uma talvez mentira
Mas áurea, ao chão joguemos
Os trapos da verdade.

Para rijos cruzarmos o árduo tempo,
Quais deuses, quais os sábios
Deles iguais, que o reles
Não sabem conhecer.

BUENO, Alexei. Poemas gregos. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.193-194.

domingo, 4 de setembro de 2011

Alexei Bueno: livro de haicais

Sempre, a cada passo,
Atrás de nós, entre os becos
Vindo, quem não fomos.

BUENO, Alexei. Livro de haicais. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.218.

sábado, 20 de agosto de 2011

Alexei Bueno: livro de haicais

Mesmo esse macaco
Ridente, é incrível, um dia
Ficará calado.

BUENO, Alexei. Livro de haicais. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.218.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Alexei Bueno: livro de haicais

Pelos labirintos
Irei até perguntarem
Se eu estou perdido.

BUENO, Alexei. Livro de haicais. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.212.

Quem perguntará?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Alexei Bueno

NESTE INSTANTE

Neste instante, neste,
Vê como sonhaste
Tudo o que viveste.

A vida é um engaste
De pedra roubada,
Mas nunca o notaste.

Nada deixou nada.
Dormimos a vida.
Nesta madrugada,

Nesta hora escolhida,
Tua alma, em teu quarto,
Virgem e esvaída,

Faz seu próprio parto.

BUENO, Alexei. Lucernário. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.254-255.

domingo, 24 de julho de 2011

Alexei Bueno

MIRAGEM

Não te impressione a carne jovem,
Precoce e tímido devasso,
Vê que esses corpos que se movem
Como a implorar que outros os provem
Já a muitos foram só cansaço.

Por tais irreais pernas redondas,
Lunares seios arrogantes,
Coxas de bronze, ancas em ondas,
Tragaram seus findos amantes
Suas quase almas muito hediondas.

E hoje há só pó. Da gruta fria
À enorme rua, elas se espalham,
As mesmas formas, todo dia,
Banais, iguais, e em demasia
Para que alguma coisa valham.

BUENO, Alexei. Lucernário. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.248.