Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

esquecendo os sonhos

Tudo por nada, ou quase nada, aquele nada que sobrenada na matéria amorfa dos sonhos. Talvez os sonhos sejam a desintegração dos nadas... em matéria que vai desintoxicando a alma.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

restos da noite

Sonhos... o que fazer deles? Não os sonhos de outrora, metamorfoseados em “hoje”, mas os originais, que comparecem noite após noite trazendo ecos de um mundo pouco habitável. A sustentabilidade dos sonhos — quase um clichê —, fantasmas noturnos dos quais restam borboletas, não por comportarem beleza, mas pelo efeito da imagem saltitante e fugidia no terreno da memória. De intrincados enredos emergem lepidópteros fugidios, que aos poucos se dispersam com as primeiras luzes do dia. Camadas e camadas de inconsciente removidas enquanto se dorme. Por que sonhamos? Uma explicação biológica dirá que são um traço evolutivo, uma espécie de compensação noturna para as tensões diurnas, uma forma do organismo colocar-se em equilíbrio. Mas se permanecem com o dia, estão pedindo algo do corpo que lhes serviu de palco, ainda que seja essa parca escrita, circular e evasiva, forma de continuarem batendo asas para além do efêmero do imago. 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Kafka

De todo modo, as baratas estão debaixo da cama — lentas, semiocultas, empoeiradas, com patas mais espessas e movimentos mínimos. Parecem não querer serem incomodadas pelas inquietações humanas, que no entanto lá chegam, em seu nicho empoeirado. Debaixo da cama é, também, um lugar em que certas camadas dos sonhos são permitidas. 

domingo, 6 de outubro de 2013

sonho-enigma

Da sequência de imagens que consegui organizar e recordar ao acordar — naquele momento em que se tem ciência de que se trata de um sonho —, aconteceu-me estar sentada num metrô, ou coisa equivalente, acompanhada de alguém que não consigo identificar, mas que teria que ceder seu lugar quando uma outra pessoa chegasse, uma espécie de cavaleiro distinto que tinha aquele lugar destinado para si. Já não era mais metrô então, mas um evento social. O cavaleiro chega, o lugar é cedido, e outro personagem sai. Movida quem sabe pela culpa, quem sabe pelo desejo de entender o porquê do que se passava, encaminhei-me ao quarto onde o outro personagem, que cedeu o lugar, se encontrava, e era uma criança, um menino, que sentia frio, mas que parecia disposto a suportar isso, resignado. Aqui seria preciso dizer que o menino era negro. Mas por que dizê-lo? Por que isso faria algum tipo de diferença? Já então a cena é outra, e recorro à minha mãe, que está passando roupa, para conseguir uma forma de agasalhá-lo, protegê-lo, para que ele não sentisse frio. Minha mãe a princípio nega, então insisto e consigo. O sonho termina aí. Não sei mais se ainda dormindo ou já acordada, me dei conta de que aquela criança eu havia expulsado de mim, em troca do mundo adulto e civilizado das convenções. Pode ser que tenha concorrido no sonho a própria forma com que os negros eram tratados nos EUA, cedendo seu lugar no ônibus para os brancos. Não precisaria ir tão longe, pois no Brasil os lugares também são bem marcados, o que remete ao cavalheiro distinto que se sentaria ao meu lado. Seria bem mais fácil para mim, talvez, entender o sonho se o menino não fosse negro. Mas ele não tem só essa diferença em relação a mim: há também a questão do gênero e o fato de ser uma criança. Ele, efetivamente, é a representação do outro, da alteridade, da diferença, que por vezes expulso de mim para sobreviver. Ele é uma diferença que de repente gritou dentro de mim, ou melhor, no seu silêncio resignado, fez-se ouvir, porque eu tentei escutar. Ter sonhado com isso, ter, no sonho, ido atrás, reconhecido, procurado proteger, conseguido discernir e escutar essa diferença frágil e silenciosa é mais do que um consolo: é a indicação de que um percurso está se fazendo.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

sonhos

O que dizer dos sonhos quando, para se dizer algo deles, já são matéria transformada pela linguagem, incorporados como narrativa reconhecível? Sonhei com Bob Dylan, que estava muito próximo de mim, mas havia um silêncio imposto que impedia a fala, minha e dele. Esse silêncio — suas circunstâncias — é a parte mais estranha de tudo, praticamente intraduzível, e trazia consigo uma origem, um agente deflagrador. Havia uma interdição à fala, algo que foi se construindo, se fazendo, e era doloroso, difícil, e traía fragilidade, vulnerabilidade, ausência de proteção de minha parte, como se eu tivesse desamparado alguém que amo. O impedimento de falar era muito incômodo, porque não era simplesmente algo físico: antes, falar representava uma espécie de perigo, uma ameaça. A sensação foi única, muito viva e real, intraduzível e praticamente incompreensível pelo pensamento e seus signos verbais. Havia uma situação envolvendo um improvável Bob Dylan, frágil e desamparado, e a mim, impedida de falar por coisas que eu mesmo havia feito, ou fizeram, quem sabe. Mas aqui eu posso, ainda que me censure.

domingo, 25 de agosto de 2013

arquitetura sentimental dos sonhos

Nas imagens que comparecem à noite, na intrincada arquitetura dos sonhos, figuram por vezes pessoas de minhas relações, próximas, em situações perturbadoras. Desavisada, incomodo-me mais pela pessoa naquela situação que pela situação que se valeu daquela pessoa para uma representação — ou condensação. Não é fácil, e essas imagens/enredos entram sorrateiramente na arquitetura do dia, ainda que por defesa ou precaução. Não havia me ocorrido ainda, porém, igualmente por desaviso, que eu também eventualmente posso figurar nos enredos noturnos de pessoas próximas a mim. Não sem algum desconforto, decanta-se-me uma questão: em que representações?

terça-feira, 9 de julho de 2013

o que os sonhos desnudam

Os sonhos têm suas próprias razões. Difícil é lidar com a força agressiva de suas imagens. 

domingo, 31 de março de 2013

caetano veloso não morreu

A conjunção de diferentes signos nos últimos dias levou-me a sonhar esta noite que Caetano Veloso havia morrido ― logo eu, que não quero que ele morra, pelo menos tão cedo. Nos arredores deste 31 de março (que não foi um primeiro de abril), como em outros, aumentam as referências ao golpe de 64 ― por exemplo, o documentário recém-lançado “O dia que durou 21 anos”. Vi uma entrevista de Caetano ontem, num documentário intitulado “Canções do Exílio”, vi num outro canal o Emílio Santiago cantando, e por fim num terceiro canal passava o show “Prenda Minha”, em que Caetano interpreta com muita energia a canção “A Luz de Tieta” (que acabei postando). Então por que sonhar com a morte dele, num contexto de tanta vitalidade? Só pode ser para afirmar, por outros caminhos, a força da vida.

segunda-feira, 18 de março de 2013

teatro dos vampiros

Sonhos, sonhos, sonhos... Imagens noturnas que, à moda de teatro, encenam conflitos ― melhor seria dizer contradições ― que a epiderme da consciência mal suporta. Se os conflitos se deixam elaborar pelos sonhos é incógnita. Conseguir externá-los em imagens que sobrevivem ao esquecimento do sono é, no entanto, saber que as contradições não são meros fantasmas: elas agitam o corpo enquanto fazem de cenário a alma.

domingo, 3 de março de 2013

geografia

Os sonhos, pelo menos os meus, funcionam como uma tradução em imagens desconexas daquilo que estou vivendo, e muitas vezes ingenuamente tentando entender. O que ficou das imagens desta noite, que é aquilo de que consigo me lembrar, poderia ser significado com a palavra pertencimento, ou o verbo, pertencer. Tudo é ou não uma questão de linguagem? Não é, a linguagem está sempre defasada, no encalço. Eu consigo me lembrar apenas da última imagem (ia dizer final, mas percebi a tempo a armadilha): estou adentrando por uma estrada que percorri na minha infância, que ia dar num lugar chamado Grota Funda, que é onde meu pai trabalhava como agricultor. Essa estrada está diferente, pois dos dois lados erguem-se espécie de choupanas que são bares, estabelecimentos comerciais noturnos, e então já é a Lapa, mas com a geografia do bizarro, e eu então me pergunto, embora isso não faça qualquer sentido, como eu não previ essa mudança no bairro há vinte anos atrás.  A pergunta pode estar se dirigindo a outras geografias, por exemplo as que percorri nos últimos vinte anos, ou, mais provavelmente, às minhas paisagens, à geografia subjetiva ― afetada, sem dúvida, pela paisagem e suas transformações. Quando finalmente adentro aquela estrada e chego, imaginariamente na Grota Funda, geograficamente na Lapa, ocorre-me então o perigo de aglomerar-me com muitas outras pessoas naquele espaço fechado à noite, e sinto medo e vontade de sair dali, e isso é já uma decisão. Há ainda uma cena, resquício da viagem recente, estou agora também no mar, mas o espaço continua fechado, e uma pessoa de minhas relações que aparenta e diz gostar muito de mim trata-me com frieza e distanciamento. Será que ela me reconheceu? Eu podia prever a transformação? 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

desordem

Sonhei com este espaço. Aparecia-me caótico, com erros e furos, contrariamente ao modo com que o percebo, e não era uma questão de marcadores. Depois, ou concomitantemente, eu entabulava uma conversa meio acadêmica meio nonsense com alguém, versando sobre idiossincrasias minhas que não fazem qualquer sentido, depois de passado o sonho, e portanto não são traduzíveis. Por fim aparecia uma tradutora, conhecida minha e de meu interlocutor, para ajudar nos trabalhos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

culpa

A literatura tem uma força de iniciação na vida que não pode ser subestimada. Ela age em camadas nem sempre disponíveis ao estoque consciente de conexões possíveis. Esta noite eu sonhei com o conto “Lacuna”, de que falei ontem antes de dormir. Sei que o sonho foi deflagrado pelo enredo que as imagens do sonho acabaram por assumir, quem sabe sugeridas, em nível consciente, pelo próprio conto. E daí? Daí que fiquei sabendo um pouco mais sobre culpa, a minha.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

domingo, 21 de outubro de 2012

sentimento fraterno

A amiga que apareceu no sonho desta noite está distante, geograficamente fomos perdendo o contato aos poucos. Ela apareceu como uma espécie de saudade do que não chegamos a viver. Não, é um pouco diferente: como se fôssemos irmãs habitando países diferentes.

domingo, 14 de outubro de 2012

entre o sono e a vigília

Há um momento, entre o sono e a vigília, que tem me surpreendido ultimamente. Estou caindo de sono, com um livro nas mãos no momento A lua vem da Ásia ―, e ainda penso que leio. Então os olhos começam a cerrar-se sobre um parágrafo que nunca mais termina, enquanto imagens estranhas atravessam minha mente como se fossem choques, pois volto a despertar imediata e instantaneamente, surpreendida, embora tenha demorado a percebê-lo assim, pelo conteúdo dos sonhos que está a penetrar a vigília. Os sonhos cabem na inconsciência do sono, e por isso a sensação de choque. São imagens e sensações estranhíssimas, que não conseguem encontrar expressão e vazão na linguagem e em sua arquitetada sintaxe. Vencida pelo sono, deixo o livro e procuro uma posição confortável para dormir, imaginando o que irei vivenciar enquanto o eu da vigília estiver ausente, praticamente sem conseguir ter acesso a isso, pois que vigilante, pela manhã, o eu volta e intercepta o que poderia chocar.