Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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quinta-feira, 18 de agosto de 2016
sábado, 11 de janeiro de 2014
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
esquecendo os sonhos
Tudo por nada, ou quase nada, aquele nada que
sobrenada na matéria amorfa dos sonhos. Talvez os sonhos sejam a desintegração
dos nadas... em matéria que vai desintoxicando a alma.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
restos da noite
Sonhos... o que fazer deles? Não os sonhos de
outrora, metamorfoseados em “hoje”, mas os originais, que comparecem noite após
noite trazendo ecos de um mundo pouco habitável. A sustentabilidade dos sonhos —
quase um clichê —, fantasmas noturnos dos quais restam borboletas, não por
comportarem beleza, mas pelo efeito da imagem saltitante e fugidia no terreno
da memória. De intrincados enredos emergem lepidópteros fugidios, que aos
poucos se dispersam com as primeiras luzes do dia. Camadas e camadas de
inconsciente removidas enquanto se dorme. Por que sonhamos? Uma explicação
biológica dirá que são um traço evolutivo, uma espécie de compensação noturna
para as tensões diurnas, uma forma do organismo colocar-se em equilíbrio. Mas
se permanecem com o dia, estão pedindo algo do corpo que lhes serviu de palco,
ainda que seja essa parca escrita, circular e evasiva, forma de continuarem
batendo asas para além do efêmero do imago.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Kafka
De todo modo, as baratas estão debaixo da cama —
lentas, semiocultas, empoeiradas, com patas mais espessas e movimentos mínimos.
Parecem não querer serem incomodadas pelas inquietações humanas, que no entanto
lá chegam, em seu nicho empoeirado. Debaixo da cama é, também, um lugar em que certas camadas dos sonhos são permitidas.
domingo, 6 de outubro de 2013
sonho-enigma
Da sequência de imagens que consegui organizar e recordar
ao acordar — naquele momento em que se tem ciência de que se trata de um sonho —,
aconteceu-me estar sentada num metrô, ou coisa equivalente, acompanhada de
alguém que não consigo identificar, mas que teria que ceder seu lugar quando
uma outra pessoa chegasse, uma espécie de cavaleiro distinto que tinha aquele
lugar destinado para si. Já não era mais metrô então, mas um evento social. O
cavaleiro chega, o lugar é cedido, e outro personagem sai. Movida quem sabe
pela culpa, quem sabe pelo desejo de entender o porquê do que se passava,
encaminhei-me ao quarto onde o outro personagem, que cedeu o lugar, se
encontrava, e era uma criança, um menino, que sentia frio, mas que parecia
disposto a suportar isso, resignado. Aqui seria preciso dizer que o menino era
negro. Mas por que dizê-lo? Por que isso faria algum tipo de diferença? Já então a cena é outra, e recorro
à minha mãe, que está passando roupa, para conseguir uma forma de agasalhá-lo,
protegê-lo, para que ele não sentisse frio. Minha mãe a princípio nega, então
insisto e consigo. O sonho termina aí. Não sei mais se ainda dormindo ou já acordada,
me dei conta de que aquela criança eu havia expulsado de mim, em troca do mundo
adulto e civilizado das convenções. Pode ser que tenha concorrido no sonho a
própria forma com que os negros eram tratados nos EUA, cedendo seu lugar no ônibus para os brancos. Não
precisaria ir tão longe, pois no Brasil os lugares também são bem marcados, o
que remete ao cavalheiro distinto que se sentaria ao meu lado. Seria bem mais
fácil para mim, talvez, entender o sonho se o menino não fosse negro. Mas ele
não tem só essa diferença em relação a mim: há também a questão do gênero e o
fato de ser uma criança. Ele, efetivamente, é a representação do outro, da
alteridade, da diferença, que por vezes expulso de mim para sobreviver. Ele é
uma diferença que de repente gritou dentro de mim, ou melhor, no seu silêncio
resignado, fez-se ouvir, porque eu tentei escutar. Ter sonhado com isso, ter,
no sonho, ido atrás, reconhecido, procurado proteger, conseguido discernir e
escutar essa diferença frágil e silenciosa é mais do que um consolo: é a
indicação de que um percurso está se fazendo.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
sonhos
O que dizer dos sonhos quando, para se dizer algo
deles, já são matéria transformada pela linguagem, incorporados como narrativa
reconhecível? Sonhei com Bob Dylan, que estava muito próximo de mim, mas havia
um silêncio imposto que impedia a fala, minha e dele. Esse silêncio — suas
circunstâncias — é a parte mais estranha de tudo, praticamente intraduzível, e
trazia consigo uma origem, um agente deflagrador. Havia uma interdição à fala, algo
que foi se construindo, se fazendo, e era doloroso, difícil, e traía fragilidade,
vulnerabilidade, ausência de proteção de minha parte, como se eu tivesse
desamparado alguém que amo. O impedimento de falar era muito incômodo, porque não
era simplesmente algo físico: antes, falar representava uma espécie de perigo,
uma ameaça. A sensação foi única, muito viva e real, intraduzível e praticamente
incompreensível pelo pensamento e seus signos verbais. Havia uma situação
envolvendo um improvável Bob Dylan, frágil e desamparado, e a mim, impedida de
falar por coisas que eu mesmo havia feito, ou fizeram, quem sabe. Mas aqui eu
posso, ainda que me censure.
domingo, 25 de agosto de 2013
arquitetura sentimental dos sonhos
Nas imagens que comparecem à noite, na intrincada
arquitetura dos sonhos, figuram por vezes pessoas de minhas relações, próximas,
em situações perturbadoras. Desavisada, incomodo-me mais pela pessoa naquela
situação que pela situação que se valeu daquela pessoa para uma representação —
ou condensação. Não é fácil, e essas imagens/enredos entram sorrateiramente na
arquitetura do dia, ainda que por defesa ou precaução. Não havia me ocorrido
ainda, porém, igualmente por desaviso, que eu também eventualmente posso
figurar nos enredos noturnos de pessoas próximas a mim. Não sem algum
desconforto, decanta-se-me uma questão: em que representações?
terça-feira, 9 de julho de 2013
o que os sonhos desnudam
Os sonhos têm
suas próprias razões. Difícil é lidar com a força agressiva de suas imagens.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
a propósito dos poucos e incisivos rastros que os sonhos deixam
Sonhos — estranhos artífices da vida.
domingo, 31 de março de 2013
caetano veloso não morreu
A conjunção de diferentes signos nos últimos dias levou-me a
sonhar esta noite que Caetano Veloso havia morrido ― logo eu, que não quero que
ele morra, pelo menos tão cedo. Nos arredores deste 31 de março (que não foi um
primeiro de abril), como em outros, aumentam as referências ao golpe de 64 ―
por exemplo, o documentário recém-lançado “O dia que durou 21 anos”. Vi uma entrevista de Caetano ontem, num documentário intitulado “Canções do Exílio”, vi num outro canal o Emílio Santiago cantando, e por fim
num terceiro canal passava o show “Prenda Minha”, em que Caetano interpreta com
muita energia a canção “A Luz de Tieta” (que acabei postando). Então por
que sonhar com a morte dele, num contexto de tanta vitalidade? Só pode ser para
afirmar, por outros caminhos, a força da vida.
segunda-feira, 18 de março de 2013
teatro dos vampiros
Sonhos, sonhos, sonhos... Imagens noturnas que, à
moda de teatro, encenam conflitos ― melhor seria dizer contradições ― que a
epiderme da consciência mal suporta. Se os conflitos se deixam elaborar pelos
sonhos é incógnita. Conseguir externá-los em imagens que sobrevivem ao
esquecimento do sono é, no entanto, saber que as contradições não são meros
fantasmas: elas agitam o corpo enquanto fazem de cenário a alma.
domingo, 3 de março de 2013
geografia
Os sonhos, pelo menos os meus, funcionam como uma
tradução em imagens desconexas daquilo que estou vivendo, e muitas vezes
ingenuamente tentando entender. O que ficou das imagens desta noite, que é
aquilo de que consigo me lembrar, poderia ser significado com a palavra
pertencimento, ou o verbo, pertencer. Tudo é ou não uma questão de linguagem? Não
é, a linguagem está sempre defasada, no encalço. Eu consigo me lembrar apenas
da última imagem (ia dizer final, mas percebi a tempo a armadilha): estou
adentrando por uma estrada que percorri na minha infância, que ia dar num lugar
chamado Grota Funda, que é onde meu pai trabalhava como agricultor. Essa
estrada está diferente, pois dos dois lados erguem-se espécie de choupanas que
são bares, estabelecimentos comerciais noturnos, e então já é a Lapa, mas com a
geografia do bizarro, e eu então me pergunto, embora isso não faça qualquer
sentido, como eu não previ essa mudança no bairro há vinte anos atrás. A pergunta pode estar se dirigindo a outras
geografias, por exemplo as que percorri nos últimos vinte anos, ou, mais
provavelmente, às minhas paisagens, à geografia subjetiva ― afetada, sem
dúvida, pela paisagem e suas transformações. Quando finalmente adentro aquela estrada
e chego, imaginariamente na Grota Funda, geograficamente na Lapa, ocorre-me
então o perigo de aglomerar-me com muitas outras pessoas naquele espaço fechado
à noite, e sinto medo e vontade de sair dali, e isso é já uma decisão. Há ainda
uma cena, resquício da viagem recente, estou agora também no mar, mas o espaço
continua fechado, e uma pessoa de minhas relações que aparenta e diz gostar
muito de mim trata-me com frieza e distanciamento. Será que ela me reconheceu?
Eu podia prever a transformação?
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
sábado, 2 de fevereiro de 2013
desordem
Sonhei com este espaço. Aparecia-me caótico, com erros
e furos, contrariamente ao modo com que o percebo, e não era uma questão de marcadores. Depois, ou concomitantemente, eu entabulava uma conversa
meio acadêmica meio nonsense com alguém, versando sobre idiossincrasias minhas que não fazem qualquer sentido, depois de passado o sonho, e portanto não são traduzíveis. Por fim aparecia uma tradutora,
conhecida minha e de meu interlocutor, para ajudar nos trabalhos.
sábado, 1 de dezembro de 2012
culpa
A literatura tem uma força de iniciação na vida que
não pode ser subestimada. Ela age em camadas nem sempre disponíveis ao estoque
consciente de conexões possíveis. Esta noite eu sonhei com o conto “Lacuna”, de
que falei ontem antes de dormir. Sei que o sonho foi deflagrado pelo
enredo que as imagens do sonho acabaram por assumir, quem sabe sugeridas, em nível
consciente, pelo próprio conto. E daí? Daí que fiquei sabendo um pouco mais
sobre culpa, a minha.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
domingo, 21 de outubro de 2012
sentimento fraterno
A amiga que apareceu no sonho desta noite está
distante, geograficamente ― fomos
perdendo o contato aos poucos. Ela apareceu como uma espécie de saudade do que não
chegamos a viver. Não, é um pouco diferente: como se fôssemos irmãs habitando
países diferentes.
domingo, 14 de outubro de 2012
entre o sono e a vigília
Há um momento, entre o sono e a vigília, que tem me
surpreendido ultimamente. Estou caindo de sono, com um livro nas mãos ― no momento A lua vem da Ásia ―,
e ainda penso que leio. Então os olhos começam a cerrar-se sobre um parágrafo
que nunca mais termina, enquanto imagens estranhas atravessam minha mente como
se fossem choques, pois volto a despertar imediata e instantaneamente,
surpreendida, embora tenha demorado a percebê-lo assim, pelo conteúdo dos
sonhos que está a penetrar a vigília. Os sonhos cabem na inconsciência do sono,
e por isso a sensação de choque. São imagens e sensações estranhíssimas, que
não conseguem encontrar expressão e vazão na linguagem e em sua arquitetada
sintaxe. Vencida pelo sono, deixo o livro e procuro uma posição confortável
para dormir, imaginando o que irei vivenciar enquanto o eu da vigília estiver
ausente, praticamente sem conseguir ter acesso a isso, pois que vigilante,
pela manhã, o eu volta e intercepta o que poderia chocar.
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