Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 12 de outubro de 2013

em comum com Clarice Lispector

Sábado é meu dia — diz Clarice em uma de suas crônicas. E hoje em particular é meu dia também pela criança que continua a viver em mim.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

brasil: infância mutilada

À leitura da matéria publicada n’O Globo de hoje, “Filhos de presos torturados carregam a dor do passado”, foi inevitável a comoção, porque violência contra criança ultrapassa qualquer fronteira da razão ou do entendimento. Uma dessas crianças, Carlos Alexandre Azevedo, submetido à violência dos generais quando tinha apenas 1 ano e 8 meses de idade, suicidou-se na última semana. A mim, nascida em 68, ocorre-me ter então vivido uma outra face da moeda, passando a infância num interior rural anônimo, anódino, vazio de experiências e de poucas expectativas, e que bem depois entendi como também uma forma perversa de fazer a repressão acontecer, porque não saber de nada é quase nada saber.

sábado, 19 de janeiro de 2013

as minhas janelas

Ao percorrer um livro de crônicas, que adquiri com o fito de escolher a leitura dos alunos para o próximo ano letivo, encontrei um texto de memória antiga, de Cecília Meireles. Achava inclusive que o título era “As minhas janelas”, e de forma alguma ligava-o ao nome de Cecília. Atribuía-o vagamente à Lygia Fagundes Teles. No horizonte, de todo modo, o feminino.
A crônica é singela, e se ficou guardada esses anos todos é porque alguma coisa da escola está muito viva dentro de mim. Esse texto ficou. Ontem, quase três décadas depois, eu reencontrei-o, com o espantoso título de “A arte de ser feliz”.
E então, à medida que ia lendo, e reconhecendo, senti a comoção do reencontro com quem fui. Quem fui acreditou nesse texto, acreditou que era assim, simples, bastava trazer em si um pouco de pureza e honestidade. Bastava. Inclusive para acreditar. Tudo contribuía para que o texto, em sua delicada singeleza, afastasse qualquer possibilidade de ironia.
Sobretudo, descobri ao reencontrá-lo que o que se inseriu entre o hoje e esse texto, entre quem sou e quem fui, foi a violência. Não sei se esse texto resiste a ela. Mas é bom poder tê-lo lido num tempo de inocência, que possibilitou acreditar nele. É bom ter vivido esse tempo de inocência.

A arte de ser feliz
Cecília Meireles

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto,  às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.  Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta.  Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. 
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Boa companhia: crônica. Org. Humberto Werneck. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p.175-176. 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Manuel Bandeira

CÉU

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009, p.184.

sábado, 1 de dezembro de 2012

escrita

Graciliano Ramos é-nos obrigatório. Infância, um livro magnífico. “Leitura”, um capítulo primoroso ― porque dificilmente alguém torna-se o que é à toa...

“Julgo que estive meio louco. E amparei-me ansioso às figurinhas de sonho que me atenuavam a solidão.”

Graciliano Ramos. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1995, p.98.

sábado, 10 de novembro de 2012

outra lembrança da infância é a gripe geni

histórias para não dormir

Pensando bem, nem é estranho que a literatura (vale dizer, o que se encontra pressuposto neste termo) tenha se tornado um destino para mim: na infância, o conto da carochinha que me foi contado foram histórias de assombração de variado calibre ― o espírito da mata que assustava caçadores noturnos; o caixão que pesava sobre um carro passando, à noite, diante de um cemitério à beira da estrada; o diabo que veio pessoalmente dar uma surra, com suas poderosas línguas de fogo, num homem que havia duvidado de sua existência; mortos que apareciam a seus parentes... Fora a história da “fera da Penha”. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

sabedoria de criança

Um aluno escreve: “Acho que os traumas acontecem quando somos pequenos e indefesos, quando tudo tem uma dimensão desproporcional. E nessa idade certas coisas calam-se tão fundo  que se tornam quase irreversíveis. Estou consciente de que não há alegria que sempre dure ou mal que nunca acabe. Acredito que, após ter passado por algumas tempestades, alcancei um sossego.”

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

anedota doméstica

Sei que de qualquer jeito que eu contar o ocorrido um pouco da graça será perdida. A graça está no modo como certas coisas despretensiosas ganham um sabor (ou saber) novo. O episódio é simples: estando minha sobrinha comigo, levei-a a um shopping perto de casa, a que se vai a pé. No caminho, enquanto explicava-lhe sobre faixa de pedestres e simbologia do sinal vermelho e verde, comentei que a calçada, um tanto sofrível, não estava muito propícia para andar ― um buraco aqui, um cocô de cachorro ali, um fio solto de poste acolá. Ou seja: várias irregularidades das quais uma pessoa adulta se desvia com facilidade, e mesmo podem passar despercebidas, mas que com os passos tateantes e hesitantes de uma criança ganham mais proeminência e visibilidade. Disse-lhe então que a calçada estava cheia de armadilhas. Ela gostou da palavra, reteve-a, mas repetiu-a pronunciando “amardilha”, inclusive quando relatou a aventura para a mãe. Para escapar das amardilhas, optei por voltar de táxi para casa, aventura que minha sobrinha também apreciou. Há muita vida e encanto pela frente, está cedo para ela conhecer, fora do contexto lúdico e linguístico, qualquer coisa parecida com armadilha. E, protegida pelo amor, pode brincar bastante com as palavras, projetando, sem saber, a palavra amar na palavra armadilha. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

terteão

Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza por haver gerado um maluco e deixou-me. Respirei, meti-me na soletração, guiado por Mocinha. (...) Gaguejei sílabas um mês. No fim da carta elas se reuniam, formavam sentenças graves, arrevesadas, que me atordoavam. Certamente  meu  pai usara  um horrível embuste naquela  maldita manhã,  inculcando-me a excelência do papel impresso. Eu não  lia direito, mas, arfando penosamente,  conseguia mastigar  os conceitos sisudos: “A preguiça é a chave da pobreza ― Quem não ouve conselhos raras vezes acerta ― Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém.” 
Esse Terteão para mim era um homem, e não pude saber que fazia ele na página final da carta. As outras folhas se desprendiam, restavam-me as linhas em negrita, resumo da ciência anunciada por meu pai.
― Mocinha, quem é Terteão?
Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que Terteão fosse homem. Talvez fosse. “Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém”.
― Mocinha, que quer dizer isso?
Mocinha confessou honestamente que não conhecia Terteão. E eu fiquei triste, remoendo a promessa de meu pai, aguardando novas decepções.

Graciliano Ramos. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1995, p.99

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

estrada antiga

Há uma estrada antiga que resquícios esquecidos do eu reconhecem. A estrada confunde-se com esse lado adormecido do eu ― desperto em sonho ―, dá-lhe contorno. Uma estrada antiga, da infância, nunca esquecida. Coisas, recentes, sem nexo aparente, confluindo para a estrada, num lampejo reconhecida, ainda que envolta em camadas de sonho. As coisas desconexas? Um corte indesejado de cabelo, lembrando outros cortes, tesouradas dadas por força de se proteger. Mais o quê? Estranha vizinhança, e a estrada antiga onde o eu, portando a tesoura, reconhece um corte com a infância. “Que culpa temos nós dessa planta da infância, / de sua sedução, de seu viço e constância?” (Jorge de Lima, Invenção de Orfeu).

domingo, 1 de janeiro de 2012

viver

Viver podia ser uma coisa mais realista ― uma sensação que me veio depois de ler os contos de Clarice Lispector escritos para crianças ― A vida íntima de Laura, A mulher que matou os peixes, Quase de verdade, O mistério do coelho pensante. “Você sabe que Deus gosta de galinha? E sabe como é que eu sei que Ele gosta? É o seguinte: se Ele não gostasse de galinha, Ele simplesmente não fazia galinha no mundo. Deus gosta de você também senão ele não fazia você. Mas por que fez ratos? Não sei.” (Clarice Lispector. O mistério do coelho pensante e outros contos. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010, p.14)

pergunta sem resposta

A minha queridíssima sobrinha Beatriz, que completará cinco anos no próximo domingo, faz-me pergunta para a qual não consigo imaginar resposta: Por que papai do céu fez o ladrão? Na falta de uma resposta, e já numa outra volta da conversa, é-lhe lembrado o que ela havia dito antes: que ela vai ser tudo (quando crescer). Vou ser tudo, menos ladrão ― responde ela. Tudo, para uma criança de cinco anos, é o reino das possibilidades, o sonho abarcando a vida.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

trapos da memória

A última notícia que recebo é que os proprietários não vão mais vender o imóvel ― antes havia chegado aos meus ouvidos que iriam vendê-lo no prazo de dois anos ―, de forma que, salvo um aumento exorbitante do aluguel, poderei ficar aqui por prazo indeterminado, ou pelo menos até que nova configuração se desenhe. Ao assistir o curta de animação que acabei de postar, vieram-me de súbito as imagens desta noite, mais precisamente a presença do inusitado animal me fazendo lembrar das baratas ― tenho-lhes verdadeiro horror, são o único animal que de fato detesto. E então é assim: estou indo, acompanhada de algumas pessoas da minha família, dentre elas meu pai, olhar o novo imóvel em que vou morar, e que é esta casa, sendo ela e outra ao mesmo tempo, pois está tudo diferente, diria mesmo o oposto. A casa é voltada para dentro e para baixo, com janelas precárias para a rua, e está caótica, cheia de móveis e coisas estragadas e abandonadas, que não me servirão. Não há portaria, o que me faz pensar nas dificuldades com o correio, os livros e o mais que compro pela internet. Há mato nas imediações, bem próximo, e penso então na possibilidade de ter de conviver com baratas. Foi este o gancho entre o curta e o sonho: lá o animal alimentando a fantasia, aqui o medo e a reticência. Meu pai está aparentemente no comando da situação, e apesar de todos os poréns, minha inclinação é pela aceitação da casa, encontrando, por exemplo, o quarto em que vou dormir. Tudo é desordem, móveis velhos caindo aos pedaços em estado de abandono, e eu aceitando esse estado de coisas. Talvez haja muitas casas nesta casa limpa e organizada em que estou vivendo, a maior de todas a casa de minha infância, onde convivi com baratas e atualmente vive meu pai. Isso explica os panos velhos da memória.

Bave Circus (animação)

a infância e o reino da fantasia. também no youtube.

domingo, 25 de setembro de 2011

conversa com o Guilherme, de 8 anos

conversa, conversa, conversa...
— Você sabe o segredo para ficar bom?
— Não, não sei, me conta o segredo para uma coisa ficar boa.
— É só colocar junto tudo o que a gente gosta.