O poema anterior, salvo engano, encena o mito de Eco
e Narciso, na perspectiva dela.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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quarta-feira, 3 de abril de 2013
sábado, 14 de abril de 2012
lendo o duplo
O duplo, de Dostoiévski, é uma leitura pesada, assaz complexa. Ali se distinguem
já os meandros mentais e burocráticos que atormentarão as personagens de Kafka.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
as armas secretas
As armas secretas, de Julio Cortázar, é simplesmente imperdível, sendo mesmo difícil escolher dentre os cinco contos o melhor ― todos primam pela excelência. Depois de assistir a Blow up, “As babas do diabo” ganha uma densidade imagética única, sem contar que se trata de um pequeno tratado sobre o olhar. “O perseguidor” é implacável e “Cartas de mamãe” é magistral, talvez pela coincidência de tê-lo lido durante uma viagem. Um pequeno senão à tradução (ou quem sabe à revisão): não obstante os elogios, há problemas que, mais uma vez, fazem lembrar como a pressa editorial compromete a qualidade de um trabalho que deveria primar por aquilo que persegue: o cuidado com o que Johnny tenta lembrar a Bruno, seu biógrafo, o tempo todo, e que felizmente não escapa ao narrador-perseguidor, colado a Bruno: "― Não se pode dizer nada, que imediatamente você traduz para o seu idioma sujo. Se quando eu toco você vê os anjos, a culpa não é minha. E o pior, o que você verdadeiramente esqueceu de dizer no livro, Bruno, é que eu não valho nada, que o que eu toco e as pessoas aplaudem não vale nada, realmente não vale nada." (p.147).
CORTÁZAR, Julio. As armas secretas. Trad. Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. Mais detalhes no blog meia palavra.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
a sereia e o desconfiado
O crítico Thomas Higginson, com quem Emily Dickinson se correspondeu, desencorajou-a a publicar seus poemas. Emily Dickinson respondeu-lhe: “Sorrio quando sugere que eu protele a ‘publicação’. Se eu conhecesse a fama, eu não poderia fugir a ela, se não a conhecesse, ela me perseguiria o dia inteiro e eu perderia a aprovação de meu cachorro”. Quem conta a história é Augusto de Campos, no prefácio da coletânea Emily Dickinson: não sou ninguém.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
o processo
Nunca me arrisco muito a falar de Kafka, embora seja um dos escritores que mais impacto teve sobre mim. A dificuldade vem do quanto sua obra comporta de enigma, e já ao afirmar isso estou correndo riscos indesejáveis. Ocorre que A metamorfose, lido ainda na juventude, me causou profundo incômodo, a ponto de eu não querer mais voltar a pôr as mãos no livro. Lendo a coletânea de artigos de Modesto Carone dedicada à obra do escritor tcheco, Lição de Kafka, uma nova possibilidade se deu. Além de abrir uma brecha na opacidade da estranha metamorfose irreversível do homem em inseto monstruoso, um trecho prendeu-me a atenção: “... expressões literais como ‘o estado atual de Gregor’ sugerem que a metamorfose do herói pode ser entendida como o resultado de um processo, ou seja: como um momento definido que teria sido precedido por outros que ficaram aquém da narrativa e que por isso não foram tematizados por ela.” (p.22). A palavra processo remeteu-me de imediato à obra-prima do escritor, O processo. Buscando outros sentidos além do jurídico, do âmbito da lei, o substantivo processo pode significar ‘ação continuada’, ‘seguimento’, ‘decurso’, ‘andamento’, ‘desenvolvimento’, ‘marcha’, ‘sequência continuada de fatos ou ações que se reproduzem com certa regularidade’. Então a metamorfose não é algo que se dá da noite para o dia: está inserta em um processo que a personagem cheia de culpa tenta desesperadamente entender. Não há o episódio isolado em si: há uma totalidade que escapa, de uma opacidade impenetrável. O processo, assim, tanto quanto a encenação de um processo jurídico absurdo e impenetrável às tentativas de entendimento (por parte da personagem e do leitor), é também um processo no qual a personagem, movida pela culpa, tenta entender sua participação no desenrolar dos acontecimentos para deles se desvencilhar. A culpa é inseparável do processo, no sentido de a personagem aceitar, de certa forma, sua participação nos fatos estranhos que a envolvem. Para simplificar: O processo ajuda a ler A metamorfose, valendo a recíproca.
CARONE, Modesto. Lição de Kafka. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
domingo, 17 de julho de 2011
a título de P.S.
No post anterior, ao citar o texto de João César de Castro Rocha, percebi que o autor empregou sem qualquer constrangimento o termo favela. Hoje já não se daria mais assim: uma pátina deliberadamente conduzida pelo Estado introduziu o termo comunidade, o que só vem mostrar que João César estava certo, não totalmente certo, mas estava, ao chamar atenção para a dialética da marginalidade, num artigo, em diálogo com a dialética da malandragem de Antonio Candido, publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 29 de fevereiro de 2004, mesmo dia em que Cidade de Deus poderia trazer um Oscar inédito para o Brasil.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
escolher o menos
Escolher o menos. Utilizei esta expressão numa postagem meio intempestiva escrita ano passado (aqui), e já havia mesmo me esquecido, quando hoje, ao refletir sobre uma série de coisas que me são caras, lembrei-me dela ― mas me lembrei assim: quem é que li ano passado que usou esta expressão, escolher o menos? Alguém que li falou isso ― continuei em minhas divagações ― e cheguei mesmo a fazer um post. Mas quem? ― e continuei a buscar contorno para o post que faria, este que ora escrevo, em que a expressão se coadunaria com o restante, só faltando encontrá-la e a fonte. E afinal encontrei, e para minha surpresa não foi lida de ninguém: fui eu mesma que a cunhei, para falar de coisas que eram prementes, dentre as quais o que pretendia aqui. Escrevi então: " É bom notar também que não se trata de nenhum blog campeão de audiência, com grandes pretensões, mas antes uma ilhota, uma micro-ilha, rodeada de milhares de ilhas mais portentosas, dispersas num oceano imenso, que eventualmente configuram arquipélagos, territórios discursivos. A pretensão aqui é mais simples: falar e, com sorte, fazer-se ouvir, quem sabe conseguindo também ouvir." É sobre este falar que vem a propósito a expressão escolher o menos.
Sempre ouvi falar em poeta menor (Manuel Bandeira é emblemático a esse respeito), como também não me escapou o título do conhecido texto de Deleuze, "Kafka: por uma literatura menor", que nunca cheguei a ler, embora tivesse me rondado mais de uma vez na Universidade, nas conversas e nas ementas das disciplinas (sempre maravilhosas, as ementas, as disciplinas era melhor perguntar antes a alguém bem informado). Quando escrevi o texto sobre o livro de poemas traduzidos por Augusto de Campos, fui derivando, por conexões que parecem ter um mecanismo próprio, este texto, no sentido da intenção desses meus escritos de crítica literária (se posso chamá-los assim), para usar o termo de Alexandre Eulálio. Como situá-los? Porque é claro que, por maior que seja minha timidez, estou me aventurando neste campo, e foi então que me ocorreu que a par do poeta menor pode existir a crítica menor: crítica no sentido da palavra crítica ― mas crítica como substantivo feminino também ― me ocorreu imediatamente. A nossa literatura forjou um Rodrigo S.M., nada impede que outras vozes dissonantes, embora com bem menor alcance, possam se lançar. Esta que aqui fala nem sequer pretende (verbo pretensioso, este), apenas sabe-se fazendo um exercício de crítica menor ― em muitos e variados e complexos e contraditórios sentidos. Mas menor, sempre, e mesmo o sentido disso ainda está por se fazer. Pois uma coisa é certa: o que é grande já possui muitos que lhe tomem conta. Menor, sobretudo, porque é o que vai me franquear as portas possíveis.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
recusa
Acabo de receber em casa o livro Poesia da recusa, projeto de Augusto de Campos de tradução de certa estirpe de poetas/poemas que o tradutor assim apresenta: “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas (...) A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo.” (p.16). Cansa, antes mesmo de começar a conferir o volume, esta pomposa declaração de princípios: não informa nada que não já se saiba. Dou uma passada de olho, detenho-me em Hart Crane, a quem Mário Faustino teria homenageado em sua Balada (cuja dedicatória é ainda matéria de controvérsia) e me deparo com isso: “Em 1956, Faustino traduziu dois poemas de Crane, ‘Praise for na Urn’ e ‘Garden Abstract’. Não são, porém, traduções criativas. Antes, versões quase literais, de cunho didático, para a sua ‘Página-Experiência’ no Suplemento Literário do Jornal do Brasil.” (p.294). É cômodo desqualificar o trabalho de quem não está mais aqui para se defender... Só há um porém: a tradução de Mário Faustino pareceu-me mais bonita, entre outros porque primeiro me trouxe o poema em seu frescor e novidade. Traduções são traduções ― disse-me alguém versado, e em versos versado, na questão ― cada uma atende uma demanda própria ― desde que recubra o que cabe na palavra tradução. Há várias possibilidades de recusa. Pode-se pensar que não há literatura ou poesia fora do espectro que recobre a palavra recusa ― de quê? O leitor também costuma ter suas recusas, nem sempre é fácil contorná-las, mas se elas encontram expressão na arte, isso pode sinalizar que não há uma poesia da recusa pairando acima das contingências que a ensejaram: porque uma hora vai sempre aparecer alguém que necessita dela. Na palavra recusa está pressuposta a palavra escolha: escolhemos os poetas que amamos; traduzir é escolher. Se Dylan Thomas nasceu falando uma língua diferente da minha, isso não impede que sinta necessidade de sua poesia. Aí vem sempre alguém lembrar, pelo menos aqui no Brasil, que a melhor leitura é a que se faz no original, que poesia não se traduz (cansei de ouvir isso nos eventos de que participei na Universidade), que as traduções que pratica "procuram preservar as características formais do original. São, nesse sentido, estudos de dicção e estilo. Mas o meu lema é oferecer ao público somente poemas que efetivamente continuem poemas depois de traduzidos. Daí a necessidade de captar, além da sua forma, a sua 'alma', o que traz para o tradutor o problema de identificar-se com o texto e abdicar de uma programação inteiramente premeditada." (p.17). E traz para o leitor uma enorme sensação de incompetência, para qualquer coisa, inclusive ler poesia. Será preciso lembrar tanto a própria erudição para alcançar a vontade de poesia do outro? Um poema que não continue poema depois de traduzido foi bem traduzido? É passível de tradução? Não sei responder a estas questões. O que sei é que se há quem se proponha a traduzir é porque existe, na outra ponta, a demanda de leitura. E se as melhores traduções, as mais desejadas, são ainda as bilingues, é porque o leitor quer, por ele mesmo, quando pode, fazer a comparação. A título de, segue a versão que Augusto de Campos propôs para o poema de Hart Crane:
JARDIM ABSTRATO
A maçã no seu galho é tudo o que ela quer, ―
Suspensão cintilante, mímica do sol.
O ramo arrebatou-lhe o sopro, e sua voz,
mudamente cingida aos declives e alturas
De ramo a ramo acima, turva-lhe a visão,
Prisioneira da árvore e seus dedos verdes.
E ela se sonha enfim a própria árvore.
O vento, que a possui, tece-lhe as veias jovens,
Retendo-a para o céu e seu rápido azul,
E afoga a febre de suas mãos no sol.
Ela não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e sombras a seus pés.
CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.300-301.
terça-feira, 21 de junho de 2011
da crítica
Numa conversa de vinte anos trás sobre o filme A Insustentável Leveza do Ser ― quando estudava Biologia em Viçosa e meu ser começava já perigosamente a se adensar e querer algo mais que as incertezas da ciência ― e só hoje sei da coragem que tive de ter então, trocando tudo por um estranho nada, que depois frutificou ― prosseguindo: foi numa conversa de vinte anos atrás sobre um filme, agora percebo, que atentei pela primeira vez na crítica, empregando a palavra no sentido que hoje ela tem para mim. Comentei que a crítica não havia sido muito favorável ao filme ― o que, já então, devia constituir para mim um critério para escolher entre assistir ou não um filme etc., o que é mesmo espantoso ―, e uma moça que participava da conversa disse algo mais ou menos assim: e existe lá algum crítico que vai dizer que filmes devo assistir? Certamente a letra não é esta, mas o espírito sim. E se estou me lembrando disso agora, no horizonte do hoje, é porque, por mais independência que eu queira advogar para meu gosto, para minhas escolhas, tenho prestado demais atenção a certas prescrições, aquelas que vêm dizer como deve ser o gosto de alguém. Que alguém é este? Que subjetividade se deseja produzir por qualquer prescrição de gosto?
Tudo isso é bastante problemático, porque certamente faço o mesmo quando considero de qualidade duvidosa o gosto de outrem. Qual seria o parâmetro quando as escolhas já chegam feitas/filtradas até mim, e eu finjo ser livre e dizer “sim” ou “não”? Porque há a crítica formal e a informal, e nas conversas informais, espontâneas, entre os amigos, também há, quase imperceptível, certa prescrição de gosto, com a qual se desenham as afinidades (e Terry Eagleton fala isso no capítulo introdutório de Ideologia da estética) e se constroem os laços. Quantas vezes já se ouviu a expressão as afinidades eletivas? “O que está em questão é [...] a produção de um tipo inteiramente novo de sujeito humano ― um que, como a obra de arte, descobre a lei na profundeza de sua própria identidade livre, e não em algum poder externo opressor.” (EAGLETON, Terry. A ideologia da estética. Tradução Mauro Sá Rego Costa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993, p.21).
No dizer de Eagleton, o elemento estético decorre, e ao mesmo tempo reflete, a emergência de uma nova ordem social, conhecida de todos, a ordem burguesa ― esta requer um tipo inteiramente novo de subjetividade, e a contrapartida desse novo homem é a própria obra de arte ― ambos se fundamentam epistemologicamente no particular, na própria descoberta de uma identidade, um contorno que distingue um particular de outros particulares e da própria totalidade. A falácia do argumento da liberdade e suposta neutralidade da crítica é que se nega com espantosa frequência que também o crítico está fazendo escolhas, elas não estão livres de serem contingentes, e que portanto o que a crítica diz pode às vezes ser tomado como a voz de um amigo mais bem informado. Cabe saber se vale ou não a pena manter a amizade, quer dizer, dar ouvidos ao crítico, mesmo quando ele não veste esta pele, é apenas aquele/a amigo/amiga com quem você gosta de parlar, trocar figurinhas, porque um dia, sabe-se lá porque, descobriram, vocês dois, ou duas, que tinham afinidades (volta-se ao Eagleton), com o perigo de, com o tempo, isso se engessar em prescrição.
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