Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 18 de janeiro de 2026

Orides Fontela: "Policial"

POLICIAL 

Culpados 

ou  

cúmplices 

nunca temos  

álibi: 

 

por força, estamos 

aqui. 

 

FONTELA, Orides.  Poesia completa. Org. Luis Dolhnikoff. São Paulo: Hedra, 2015, p.329.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Orides Fontela

PARTILHA

Partilharemos somente
o que em nós se
continua:
a singeleza
a luta
a esperança.

Partilharemos somente
esta maior intensidade:
absoluta palavra
que nos pertence integralmente.

Partilharemos somente
o pão unificado
e a água sem face.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.258.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Orides Fontela

PORTA

O estranho
bate:
na amplitude interior
não há resposta.

É o estranho (o irmão) que bate
mas nunca haverá
resposta:

muito além é o país
do acolhimento.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.347.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Orides Fontela

ADVENTO

Deste templo múltiplo
o que nascerá?

Da onda
rítmica
amplitude
da intensidade
amorfa
ritmicamente esfacelada

do múltiplo que um
mais que tempo virá
e que luz haverá além
do tempo?

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.66.

domingo, 1 de março de 2015

Orides Fontela

ERRÂNCIA

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa
da procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

margem de
erro: margem
de liberdade

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.202.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Orides Fontela

NARCISO (JOGOS)

Tudo
acontece no
espelho.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.333.

Tudo?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

sentimentos ínfimos (ou o desejo de silêncio)

Alhear-me, esquecer, não sentir (tanto) as pressões incessantes do mundo, contas (de variada natureza), cartas que chegam por todos os meios. O que simplesmente acontece. Fatos (abre aspas):

...fatos
são pedras duras.

Não há como fugir.

Fatos são palavras
ditas pelo mundo.


Alhear-me, e experimentar o supremo prazer de poder ficar quieta. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Orides Fontela

POLICIAL

Culpados
ou
cúmplices
nunca temos
álibi:

por força, estamos
aqui.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.297.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Orides Fontela: "excessiva vivência"

FALA

Tudo

será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.31.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Orides Fontela

Vemos por espelho
e enigma

(mas haverá outra forma
de ver?)

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.341.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Orides Fontela

MÃO ÚNICA

― é proibido
voltar atrás
e chorar.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.296.

terça-feira, 19 de março de 2013

Orides Fontela

MIGRAÇÃO

Do leste vieram pássaros
rápidos leves
nem sombra nem rastro
deixam:
apenas passam. Não pousam.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.187.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Orides Fontela (para o dia de amanhã)

Nunca amar
o que não
vibra

nunca crer
no que não
canta.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.340.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Orides Fontela

BALADA

Os anjos são
livres.

Podemos sofrer
podemos viver
o acontecer
único

― os anjos são
livres ―

podemos morrer
inocentemente

― e os anjos são
livres
até da inocência.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.352.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Orides Fontela: a coisa, apreendida, rende-se?

CAÇA

Visar o centro
ou, pelo menos,
o melhor lado
(o mais frágil).

Astúcia e tempo
(paciência armada)
e ― na surpresa
do golpe rápido ―

colher a coisa
que, apreendida,
rende-se?

Não: desnatura-se
ao nosso ato...
Ou foge.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.159.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Orides Fontela: o poema bate à porta do viver


O estranho
bate:
na amplitude interior
não há resposta.

É o estranho (o irmão) que bate
mas nunca haverá
resposta:

muito além é o país
do acolhimento.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.347.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Orides Fontela (porque às vezes a voz que se deseja ouvir é a do perdedor)

TORRES

Construir torres abstratas
porém a luta é real. Sobre a luta
nossa visão se constrói. O real
nos doerá para sempre.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.37.

domingo, 9 de setembro de 2012

Orides Fontela

Inútil a ternura pelo leve
momento a desprender-se do infinito:
frágil, a construção do tempo é morte
do que se atualiza. Mais fecundo

é secundar o pássaro buscando
o momento possível, voo pleno.
Mais fecundo é voar. Mas a ternura
(este pássaro morto abandonado

como forma perdida de nós mesmos)
nos alimenta em sua sombra. Torna-nos
em sombras sem alento. E sofremos

como pássaros frágeis: desprendidos
do voo pleno nos cristalizamos
realizando a morte que vivemos.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.266.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Orides Fontela

NOTÍCIA

Não mais sabemos do barco
mas há sempre um náufrago:
um que sobrevive
ao barco e a si mesmo
para talhar na rocha
a solidão.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.41.

domingo, 2 de setembro de 2012

à moda de orides fontela

MAIS DO QUE JOGO DE PALAVRAS

O que eu sinto eu não ajo.
O que ajo não penso.
O que penso não sinto.
Do que sei sou ignorante.
Do que sinto não ignoro.
Não me entendo
e ajo como se me entendesse.

(Clarice Lispector, A descoberta do mundo)