Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


Mostrando postagens com marcador Rainer Maria Rilke. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rainer Maria Rilke. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de abril de 2013

Rainer Maria Rilke

Se bem, como de uma prisão odiada e sofrida,
cada um de nós forceje por escapar de dentro
de si próprio, existe no mundo um grande portento
que sinto a cada passo: toda vida é vivida.

Quem a vive então? As coisas que, no fim do dia,
jamais executada melodia,
permanecem como sons numa harpa armazenados?
Vivem-na os ventos das águas desatados?
Ou os ramos, com os seus gestos descompassados?
Ou as flores, com os seus aromas misturados?
Ou das aleias, o longo leito sombreado?
Ou os animais cálidos que andam sobre o chão?
Ou, pelo céu afora, as aves de arribação?

Quem a vive? És tu, Deus, que vives a vida então?


Rainer Maria Rilke: poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.69.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

o livro de horas

Amo as horas sombrias de meu ser,
nas quais se me aprofundam os sentidos:
nelas eu tenho achado, como em velhas cartas,
meu dia a dia já vivido, e feito
alguma lenda distante e sofrida.
Delas me vem a noção de que tenho
lugar numa outra vida mais ampla e infinita.

E eu às vezes me sinto feito a árvore
que, sobre um túmulo, madura e ciciante,
preenche o sonho de algum morto jovem
(a cuja volta ela aperta as raízes mornas)
perdido entre amarguras e cantigas.

RILKE, Rainer Maria. O livro de horas. Trad. Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.19.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

rilke em tradução de josé paulo paes

Dá a cada um a sua própria morte, Senhor.
O morrer que lhe vem daquela vida onde teve
seu sentido e onde conheceu amor e dor.

Rainer Maria Rilke: poemas. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.75.

domingo, 18 de março de 2012

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

II.20

Quanto espaço entre estrelas distantes!
Mais distante está o que aqui se aprende.
Alguém, por exemplo, um menino... outro adiante,
afastados entre si incompreensivelmente.

Palmo a palmo o destino mede nosso ser,
embora nos pareça estranho que assim seja.
Pensa: quantos palmos entre o homem e a mulher,
quanto mais o evita, mais ela o deseja.

Tudo é distância. Não se fecha a circunferência.
Vê sobre a mesa os peixes na travessa,
olhos frios na cara gelada.

Peixes são mudos... achava a ciência.
Mas afinal há um local, no qual se expressa
a língua dos peixes, por eles não falada?

RILKE, Rainer Maria. Os sonetos a Orfeu. Elegias de Duíno. Trad. Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.104-105. Vale a pena cotejar com a tradução de Augusto de Campos.

domingo, 4 de março de 2012

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

I.19

Mesmo que o mundo mude velozmente,
como nuvens num mosaico,
tudo o que é perfeito tende
de volta ao arcaico.

Sobre a mudança e o andar,
ampla e livre, inda perdura
tua voz que vibra no ar,
ó Deus da lira pura!

Nem a dor aqui se encerra,
nem do amor sabemos a sorte;
nem o temor do exílio da morte,

nada disso está desvendado.
Somente o canto na terra
será santo e celebrado.

RILKE, Rainer Maria. Os sonetos a Orfeu. Elegias de Duíno. Trad. Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.50-51.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Rainer Maria Rilke, Mário Faustino, Manuel Bandeira, a poesia

TORSO ARCAICO DE APOLO

Não conhecemos a sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo ergue-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.


FAUSTINO, Mário. Poesia completa e traduzida. Org. Benedito Nunes. São Paulo: Max Limonard, 1985, p.262-263. O mesmo poema, na tradução de Manuel Bandeira:

TORSO ARCAICO DE APOLO

Não sabemos como era a cabaça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandeceria mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.


BANDEIRA, Manuel. Alguns poemas traduzidos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, p.36.

***
― Certo. Trata-se aqui, sobretudo, daquele aprofundamento provocado por toda obra de arte no ser que a considera, que a revive. A poesia trágica, sobretudo, mas também qualquer outra forma de poesia absoluta ― e, quanto mais intenso o poema, mais forte será, neste sentido, seu impacto sobre o ser que o recebe ― provocam na alma sobre que agem uma espécie de catarse, uma purgação, uma purificação. Aquele que verdadeiramente vive um poema, imediatamente, por mais que disso não se dê conta, muda de vida.
― Como quem vê o “torso arcaico de Apolo”?
― Precisamente: “Du must dein Leben aendern”, diz toda aquela obra-prima a quem, contemplando-a, por ela e nela morre e ressuscita. Toda grande poesia [...] relembra ao homem sua grandeza, seu alto destino. Recorda, igualmente, a quem vive, a seriedade, a importância da vida.”


FAUSTINO, Mário. Para que poesia? __. Poesia-experiência. São Paulo: Perspectiva, 1976, p.29-30.

sábado, 1 de outubro de 2011

Rainer Maria Rilke: Livro de Horas

Eu tenho hinos que guardo em silêncio.
Há um ser passado em julgado
dentro do qual meus sentidos inclino:
tu me vês grande e eu sou pequenino.

Podes no escuro diferenciar-me
das coisas que se põem de joelhos:
rebanhos elas são e estão pastando,
sou o pastor na vertente de sarça
para onde elas vão quando a noite vem.

Então, depois delas, eu vou chegando
e surdamente ausculto as ensombradas pontes,
e na fumaça que lhes cobre os lombos
passa dissimulado meu retorno.

RILKE, Rainer Maria. Livro de horas. Trad. Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.56.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Rainer Maria Rilke

A PANTERA

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Tradução Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.56-57.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Rainer Maria Rilke: Livro de Horas

Amiúde penso: há de haver arcas de tesouros
onde estas muitas vidas jazem todas
como couraças, como liteiras ou berços
a que jamais subiu um ser autêntico,
e que são como roupas que vazias
não se aguentam em pé e ao caírem dobram-se
junto às grossas paredes de pedra trabalhada...
E quando à noite eu me afasto cada vez mais
de meus jardins, onde eu fico cansado,
eu sei: então todo caminho leva
ao arsenal das coisas não vividas.
Árvore não há lá, ao deixar-se a terra
e, como em volta de um presídio, há um muro
sem janela nenhuma, em sétuplo cercado;
e seus portões, de férreas dobradiças,
armados contra os que ali dentro anseiam,
têm grades feitas por mãos humanas.  


RILKE, Rainer Maria. Livro de horas. Trad. Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.109.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Rainer Maria Rilke: Livro de Horas

A cada um Deus fala, antes de criá-lo
e noite em fora vai com ele, em silêncio:
mas as palavras, ainda antes do início,
são palavras de nuvens.

Longe de teus sentidos
vou até à fímbria de tua saudade:
dá-me algo de vestir!

Atrás das coisas cresce uma espécie de incêndio
que de ti projeta sombras
cada vez mais, até que elas me cobrem todo.

Deixa que te aconteça tudo: a beleza e o medo.
É preciso ir em frente, sentimento nenhum é o derradeiro.
Não te deixes ficar longe de mim.
Bem perto está o país
a que dão o nome de vida.

Tu o reconhecerás pela seriedade dele.

Dá-me tua mão.

RILKE, Rainer Maria. Livro de horas. Trad. Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.76.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Rainer Maria Rilke

A ILHA

I
A maré cobrirá estrada e areia
e tudo há de ficar equivalente,
mas a pequena ilha, indiferente,
fecha os olhos; um dique, além, rodeia

seus habitantes; o sono que os gera
em muitos mundos confundiu a espera
calada: sua fala é muito rara;
cada sentença é um epitáfio para

algo que o mar lavou na praia, alheio,
que chega e fica sem explicação.
E assim é tudo o que lhes cai no olhar,

desde a infância: são coisas de outro meio,
grandes demais, sem uso, sem lugar,
que só aumentam sua solidão.

II
Como numa cratera circular
de lua: as fazendas, cada qual
cercada por um dique, par a par;
como órfãos, penteadas por igual

pelo tufão que as trata com dureza
e mostra-lhes a morte todo dia.
Então, alguém senta-se em casa e espia
Em espelhos oblíquos o que à mesa,

raro, restou. Um jovem da família
abre a porta, ao crepúsculo, e dedilha
o harmônio, como um choro, suavemente;

ele ouvira a canção num porto estranho ―.
Lá fora, sobre o dique, do rebanho
das nuvens, uma infla-se, iminente.

III
Só o que é interno é perto; o mais, distante.
E esse interno é tão denso e a cada instante
mais denso ainda. Impossível descrevê-la.
A ilha é como uma pequena estrela

que o espaço esqueceu e, muda, so-
me em seu inconsciente horror de astro,
de modo que, sem luz, sem deixar rastro,

como ainda a buscar metas extremas,
obscura, em sua auto-inventada via,
prossegue, em rumo cego, à revelia
dos planetas, dos sóis e dos sistemas.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Tradução Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.82-87.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

II,1

Respirar, invisível dom ― poesia!
Permutação entre o espaço infinito
e o ser. Pura harmonia
onde em ritmos me habito.

Única onda, onde me assumo
mar, sucessivamente transformado.
De todos os possíveis mares ― sumo.
Espaço conquistado.

Quantas dessas estâncias dos espaços
estavam já em mim. E quanta brisa
como um filho em meus braços.

Me reconheces, ar, nas tuas velhas lavras?
Outrora casca lisa,
céu e folhagem das minhas palavras.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.157.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

um verso de Rilke

“Respirar, invisível dom ― poesia!”

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.157.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Rainer Maria Rilke: Livro de Horas

Minha vida não é esta hora a pique
em que me vês tão afobado.
Eu sou uma árvore em frente ao interior de mim.
Sou uma só de minhas muitas bocas
e aquela que primeiro há de fechar-se.

Sou aquele intervalo entre duas notas
que só dificilmente se harmonizam,
e é quando o tom da morte vai mais alto.

Mas no escuro intervalo as duas soam,
trêmulas ambas.

E é bonito o canto.

RILKE, Rainer Maria. Livro de horas. Trad. Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.35.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

II, 3

Espelhos: o que sois ninguém se viu,
em sua essência, retratá-lo.
Vós que vazais um intervalo
no tempo com as peneiras do vazio.

Perdulários das salas ocas esqueceis,
quando anoitece, como florestas distantes,
e o lustre ― cervo de dezesseis 
pontas ― devassa com as luzes penetrantes.

Talvez estejais cheios de pinturas.
Umas parecem em vós incorporadas ―,
outras dispensais com um brilho indeciso.

Mas as mais belas ficarão guardadas,
até que lá do alto, em suas feições puras,
penetre, livre e lúcido, Narciso.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.159.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

II, 20

Entre as estrelas, que distância! Mas ainda mais irrestrita
é a distância que nos separa
de uma criança, por exemplo... ou uma pessoa cara ―,
ah! que distância infinita!

O destino nos mede, talvez, com o metro do Ser,
por estranho que se o tenha.
Quantas medidas entre o homem e a mulher
que o deseja e desdenha.

Tudo é distância ― é um círculo sem fim.
Vê, sobre o prato, à mesa, posta com brandura,
o peixe: a sua face obscura.

Peixes são mudos... se pensava outrora. Será assim?
Não haverá, afinal, um lugar que se deixe
Falar a língua dos peixes, sem o peixe?

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad. Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.165.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Rainer Maria Rilke

O CISNE

Este sacrifício de avançar
pelos feixes do irrealizado
lembra um cisne, altivo a caminhar.

E a morte ― esse nada mais buscar
do chão diariamente repisado ―
lembra a sua angústia de pousar

sobre as águas que o recebem mansas
e cedem sob ele, em suaves tranças
de marolas que cercá-lo vêm;
enquanto ele, calmo e independente,
segue sempre majestosamente
como ao seu próprio capricho lhe convém.

RILKE, Rainer Maria. Poemas. Trad. Geir Campos. São Paulo: Luzes no Asfalto, 2010, p.57.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Rainer Maria Rilke

A SOLIDÃO

A solidão é como chuva.

Sobe do mar nas tardes em declínio;
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio,
para cair do céu sobre a cidade.

Goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora;
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando
a solidão com os rios vai passando...

RILKE, Rainer Maria. Poemas. Trad. Geir Campos. São Paulo: Luzes no Asfalto, 2010, p.23. 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu

II. 10

A máquina ameaça a toda conquista
ao ousar ser no espírito e não na obediência.
Tanta inveja tem da mão do artista,
que corta mais duramente a obra na essência.

Nunca se atrasa, para que, uma vez, lhe escapemos
e, oleosa, na fábrica em silêncio se pertença.
Ela é a vida ― pensa saber mais do que sabemos;
ordena, cria e destrói, decidida e intensa.

Mas para nós o existir ainda é encantado.
Fontes, ainda, em cem lugares. Jogo de puras
forças e aquele que as toca se ajoelha admirado.

Suaves surgem palavras nunca ditas...
E a música, sempre nova, em vibrante arquitetura,
constrói sua casa, nas alturas infinitas.

RILKE, Rainer Maria. Os sonetos a Orfeu. Elegias de Duíno. Trad. Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.84-85.