Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 10 de agosto de 2013

Georg Trakl

CALMA E SILÊNCIO

Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou
a lua do lago gelado em áspera rede.

No cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.

Mas sempre comove o voo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.

De novo a fronte anoitece em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.

George Trakl. De profundis e outros poemas. Trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Iluminuras, 2010, p.53.

sábado, 30 de julho de 2011

Georg Trakl

Ocaso

Por sobre o lago branco
Partiram os pássaros selvagens.
No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado.

Por sobre os nossos túmulos
Inclina-se a fronte despedaçada das trevas
Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada.

Sempre ressoam os muros brancos da cidade.
Sob arcos de espinhos
Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos rumo à meia-noite.

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.204-205. Edição bilingue ilustrada. 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Walter Hasenclever

À MORTE DE UMA MULHER

Quando te curvas à beira do céu,
Desfolhada pelo verão:
Recuamos
Abrimos os olhos,
Vemos tua eterna imagem.
Agora sabes tudo,
Lágrima e esperança,
O universo da dor, o da felicidade.
Alma liberta, alma querida,
Nossa irmã,
Eis o lar!

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.100-101. Edição bilingue ilustrada.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Walter Hasenclever

Quando a morte
Engole a música:
Nos reconheceremos?
Vives
No quarto onde há homens?
Do mar desponta a ilha,
Uma vida que nos valeu.
Pássaros alçam voo.
Não chores!

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.96-97. Edição bilingue ilustrada. 

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Halber Schlaf

Semi-sono

Qual uma roupa sussurra na escuridão,
Na beira do céu as árvores cambaleiam.

Salva-te no coração da noite
Enterra-te no escuro rapidamente
Como em favos. Sê um pequeno ente,
Desce da tua cama.

Algo quer atravessar as pontes,
Raspando um rastro pesado.
De susto, as estrelas estão brancas.

E a lua com suas ancas
Ginga no céu riscado
Com as costas qual dois montes.

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.110-111. Edição bilingue ilustrada. 

sábado, 16 de abril de 2011

Ernst Stadler: Der Spruch

A sentença

Num velho livro topei com uma palavra
Que me veio como um golpe e ainda arde em brasa:
E quando me entrego a um turvo prazer
Preferindo brilho, mentira e jogo em vez do puro ser,
Quando acho melhor com supérfluos me enganar,
Como se fosse claro o escuro, como se a vida não tivesse milhares
                                                               [de portas a fechar,
E repito palavras cuja amplidão nunca senti,
E toco em coisas cujo sentido jamais resolvi,
Quando um sonho bem-vindo me acaricia com mãos de veludo
Aliviando-me do cotidiano sobretudo,
Longe do mundo, alheio ao mais profundo eu,
Então se ergue em mim a palavra: Homem, procura o teu apogeu!

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.180-181. Edição bilingue ilustrada. 

terça-feira, 5 de abril de 2011

Iwan Goll: Karawane der Sehnsucht

Caravana do Desejo

A longa caravana de nosso desejo
Nunca encontra o oásis das sombras e ninfas!
Amor nos chamusca, pássaros da dor
Devoram mais e mais nosso coração.
Ah, conhecemos águas e ventos frios:
Elísio poderia estar em toda parte!
Mas caminhamos, caminhamos sempre no desejo!
Em algum lugar salta um homem da janela
Atrás de uma estrela, e morre,
Alguém procura na galeria
Seu sonho de cera e o ama ―
Mas um fogo queima em nós no sequioso coração,
Ah, corressem Nilo e Niágara
Através de nós, então gritaríamos ainda mais sedentos!

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.80-81. Edição bilingue ilustrada.

sábado, 2 de abril de 2011

René Schickele: Abschwur

Desistência

Desisto:
De toda violência
De qualquer pressão
E mesmo da pressão
De ser bom para os outros.
Sei:
Pressiono somente a pressão.
Sei:
A espada é mais forte
Que o coração,
A batida insiste mais
Que a mão,
Violência rege
O que bem começou
Para o mal.

O mundo como eu quero,
Primeiro preciso eu mesmo
Virar inteiro e leve.
Preciso virar um raio de luz,
Uma água límpida
E a mais pura mão,
Ofertada à saudação e socorro.

Estrela à noite testa o dia,
Noite nina maternal o dia.
Estrela da manhã agradece à noite.
Dia raia.
Dia após dia
Procura raio após raio,
Raio em raio
Vira luz,
Uma clara água quer outra,
E mãos entrelaçadas
Criam em silêncio a união.

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.170-173. Edição bilingue ilustrada. 

terça-feira, 29 de março de 2011

Albert Ehrenstein: Hoffnung

Esperança

Não tenho poder
De dar olhos a pedras cegas.
Fácil, porém, a uma pobre
Desprezada, velha poltrona,
A quem falta um pé,
Dou alegria,
Sentando-me nela suavemente.

Sejam doces, ó Fortes!
E, reunindo poder à coragem,
Logo, quais santas, as pessoas serão
Desextasiadas de pobreza podre
E na sua existência
Os deuses morreram,
Encontram o céu.

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.62-63. Edição bilingue ilustrada.