Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

FM, Chico Buarque, Drummond

Aqui no Rio de Janeiro uma forma de transporte alternativo aos coletivos são as vans. Numa cidade com déficit de transporte público de qualidade elas proliferam. E aí ocorre uma particularidade interessante: trata-se de uma viagem com trilha sonora... de FM. E é curioso como as músicas são facilmente reconhecíveis, no mesmo movimento em que são imediatamente esquecidas. Chico Buarque: "Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha. Que maravilha." 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

professor é quem de repente aprende

O título deste post, evidentemente, é apropriação de um dito conhecido de Grande sertão: veredas, esse livro infinito, que promete o infinito. Hoje reencontrei meus alunos, 6º ano, depois de alguns dias fora, e não pude deixar de notar o quanto criança é diferente, seres cuja presença não pesa. Vejo olhares interrogativos em minha direção, vejo muita coisa. Hoje brinquei bastante. Dia desses, numa das turmas, ao trabalhar poesia, coloquei para tocar a música "Passaredo", de Chico Buarque e Francis Hime, e eles perguntaram: pode dançar? Sim, claro! E muitos começaram a dançar, eu entre eles, alguns vieram dançar comigo, e continuaram na música seguinte. Sequer sei se eles ouviram a letra direito: "Muito cuidado, bico calado, que o homem vem aí / O homem vem aí / O homem vem aí." Vem e estraga tudo. O homem, o ser adulto racional lógico hipotético dedutivo, que vem ocupar o lugar da criança. E eu me sinto assim uma grande privilegiada de estar participando desse restinho de infância deles, que eles ainda não sabem (ou talvez muitos até já suspeitem) que está acabando... que o homem vem aí...