Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

a língua universal

imagem daqui

“Nesse imenso, desconjuntado, sonoro, truncado, melodioso e desafinado, infinito diálogo da humanidade com a humanidade, saltando séculos e milênios, voltando, se esquecendo, ziguezagueando, se interpolando nessa gigantesca malha universal, a língua é uma só: a tradução. É ela a língua, o pluribus unum integrando tempo e espaço. E antes dela o próprio verbo, ao se fazer, já se fez traduzido e se traduzindo.

Denise Bottmann em não gosto de plágio.

domingo, 13 de março de 2011

tradução: o trabalho de Denise Bottmann

Ontem, ao comprar pela internet um livro há muito acalentado, deparei-me com um nome conhecido na tradução: Denise Bottmann. Sempre sondo, antes de adquirir uma obra em língua estrangeira, o nome do tradutor. O livro é este:


Acompanho, como posso, o trabalho que Denise Bottmann desenvolve em seu blog não gosto de plágio, trabalho que vem lhe acarretando inclusive processos judiciais, movidos por editoras que se sentem lesadas pelas colocações de Denise. No entanto, a outra face da moeda é o apoio que ela vem recebendo de outros tradutores e de setores ligados à universidade, compilados no blog apoiodenise. Sobretudo, vale destacar que a discussão sobre a qualidade das traduções foi corajosamente levantada, fora dos circuitos acadêmicos, e isso é um dado importante, ao propiciar um contato mais direto com o leitor, levando-o a questionar a qualidade das traduções que lê. No campo teórico, os estudos sobre tradução no Brasil envolvem discussões avançadas, e contamos com excelentes tradutores. Na prática, editoras muito focadas no mercado acabam comprometendo esse trabalho. Esse post visa tão somente situar uma questão que acompanho tangencialmente, mas que me diz respeito na hora de escolher uma boa tradução de obra em língua estrangeira que desejo ler. 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"traduzir aprende-se traduzindo" (Paulo Rónai)

Há um blog que sigo, que descobri inteiramente por acaso, nomeado não gosto de plágio, e que presta um enorme serviço de utilidade pública, não só ao confrontar traduções e tradutores, como ao discutir o ofício da tradução. É o que se passa no post que reproduzo a seguir, remetendo para aqui:

encontro hoje uma encantadora palestra de paulo rónai, nos idos de 1985, no departamento de letras da universidade federal do paraná. gosto muito e partilho dessa visão da tradução como ofício artesanal.

Traduzir aprende-se traduzindo. Os artesões de antigamente formavam-se como aprendizes ao lado de um mestre, com quem passavam longos anos. É muito difícil encontrar um mestre tradutor que aceite aprendizes. Os cursos de tradução ensinam os conhecimentos básicos indispensáveis ao métier, mas o modo de fazer é objeto de aprendizado individual. Cada tradutor deve ser seu próprio mestre. Ele mesmo deve inventar seus exercícios, confrontar um original com alguma tradução impressa, comparar a sua própria tradução com uma dessas versões, justapor duas ou mais versões do mesmo texto, organizar sua relação de falsos-amigos, de expressões idiomáticas, de equivalentes sintáticos. É preciso resignar-se à gratuidade desses exercícios antes de se atrever a fazer traduções remuneradas. O lema horaciano – Multa tulit fecitque puer, sudavit et alsit ("muito fazer e suportar em jovem, suar e tremelicar") – aplica-se ao tradutor como a ninguém.

a palestra foi publicada pela revista letras, n. 34 (1985), às pp. 186-195, com o título cascas de banana no caminho do tradutor. Disponível aqui.

Fecha aspas.