Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

canção do exílio

O exílio da infância está na origem de todos os outros; é quando se aprendeu a língua mãe, pátria que se confunde com o rincão em que se nasceu. Se por acaso este lugar se chamar Espírito Santo, o exilado pode sentir-se íntimo de qualquer coisa que assume o aspecto de uma distância impossível: “Quando tudo passou a ser infinito e nada terra”.  O Espírito Santo continua ali, no mapa ― “Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa” ―, ao alcance de um telefonema, de uma passagem de ônibus, mas o mapa dos afetos confundiu as possibilidades, e viver tornou-se um verbo imperativo. A infância, tempo primevo da estreia num palco exclusivo, quando ainda não se sabe o que é palco ou improviso ou personagem, e está-se ali, brincando de aprendizagem, sob os mais diferentes disfarces, para mais tarde, embora isso dificilmente pudesse ser pressentido, desejar reencontrar no espelho a face, escondida por muitos e por vezes difusos papeis, da infância. Eu não sabia nada da infância, até percebê-la acabando... Ainda e sempre, o poema que abre o filme Asas do Desejo, "Song of Childhood": “When the child was a child, / it did not know that it was a child.” 


Versos citados de Vinicius de Moraes, respectivamente “Pátria Minha” e “Mensagem a Rubem Braga”. Vinicius de Moraes. Nova antologia poética. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005.

sábado, 23 de abril de 2011

viagem ao interior do ES



Fotografia tirada no interior do ES, em 19/03/2011, na localidade de Cachoeira Alta, onde nasci. A estrada em foco é o retorno da escola onde estudei até a 3ª série do antigo curso primário. A paisagem, seguindo em frente, atravessada pelo rio, dá acesso a um lugar chamado Grota Funda, onde terminava a faixa de terra que meu pai cultivava, faixa que se estendia do rio, este mesmo que está aí na fotografia, próximo à minha casa, até o outro lado do morro: casa, trabalho e escola: desde cedo tudo muito imbricado, atravessado por um rio, por estradas e caminhozinhos. Há uma estrada quase imperceptível na fotografia, após a ponte, margeada por cercas de arame farpado. Essa estrada conduz à minha antiga casa, e tudo nessa paisagem é muito triste, pois diz de um mundo a que eu não mais pertenço, mas que reconheço como parte inalienável de minha infância, e portanto de mim mesma.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Folia de Reis

Está na época. Mas não passarão por aqui, pois se trata de uma metrópole. Hoje é domingo, e a circunstância de um aniversário (não meu) trouxe parte de minha família ao Rio de Janeiro. Então acordei com uma coisa bem interiorana: viemos tomar café na sua casa. Rapidamente se pôs uma mesa, enquanto as pessoas iam falando, sentando, comendo. Casa silenciada novamente, de vozes familiares e afetuosas que remontam a um outro tempo, lembrei-me então de outras vozes, da Folia de Reis, nos idos da infância, de forte tradição no interior do meu estado, Espírito Santo, quando, à noite, passava um grupo de cantadores pela minha casa, fantasiados às vezes, que eu espreitava entre a curiosidade e o medo. Parte da família acaba de retornar para o ES, e eu descubro uma coisa: me relaciono melhor com tudo isso estando na minha casa. O amor não é um sentimento fácil.