Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Javier Bardem

[imagem obtida aqui]

Javier Bardem deve levar o Oscar de melhor ator de novo. Embora Biutiful seja uma produção estrangeira, que aliás concorre nesta categoria, Javier Bardem, que protagoniza o drama, acaba de receber a indicação ao Oscar de melhor ator (aqui). A continuar a tendência à dispersão dos prêmios, em vez de concentrá-los em uma única produção, é grande a chance do angustiado personagem Uxbar bater o queridinho de A rede social.

Biutiful (Alejandro González Iñárritu, 2010)


Biutiful é o que Javier Bardem consegue fazer de Biutiful. Sem o talento polimorfo de Bardem, um ator capaz de encarnar qualquer personagem e conferir-lhe uma forte identidade, o filme talvez não fosse metade do que é. Onde os fracos não têm vez teria a mesma densidade se o assassino fosse interpretado por outro ator? Vicky Cristina Barcelona seria tão empolgante se o espanhol sedutor não fosse otimamente encarnado por Bardem? São questões que podem ser dirigidas a outros filmes em que o ator/intérprete constitui um diferencial, mas no caso de Biutiful essa questão torna-se crucial, dada certa fragilidade do roteiro e a tendência à dispersão que se verifica também em Babel, produção anterior de Alejandro González Iñárritu, um filme regular, se se considerar que segue a trilha aberta por Crash - No Limite, este bem mais contundente e corrosivo.

Biutiful é, assim, um filme imperdível para os fãs de Javier Bardem e do próprio cinema de Iñárritu. A morte, em sua estranha relação com o capitalismo, é, digamos, a grande protagonista. O submundo do submundo do capitalismo assola a existência de um sem-número de pessoas que tentam sobreviver numa metrópole europeia, Barcelona. Desde o início, a morte se insinua, mediante o estranho dom que Uxbal, o personagem de Bardem, tem de se comunicar com os mortos. Sua importância cresce ao longo da narrativa, e diante da morte, Uxbal, um personagem bastante contraditório, mantém uma postura de dor contida (não faz de sua morte iminente um drama lacrimogênico), mas ao mesmo tempo resiste-lhe, como se acreditasse poder sobreviver à doença que o devora aos poucos. No entanto, e isso é fundamental, o pano de fundo do capitalismo parece mesmo sugerir que já estão todos mortos (este, a meu ver, o maior trunfo do filme), de forma que o drama pessoal de Uxbal se repete em muitas outras mortes ao longo da narrativa. Ele por vezes a lamenta, por vezes a contempla como quem também sabe que vai morrer, isso antes mesmo de saber da doença. A cena mais forte me parece aquela em que Uxbal assiste à própria morte, o que, aliás, ele faz desde o início, com seu olhar sombrio e seu rosto cansado. 

sábado, 14 de agosto de 2010

antes do anoitecer


Before Night Falls, ou Antes do Anoitecer (Julian Schnabel, EUA, 2000) é a sensível biografia, seguida mais ou menos linearmente, do escritor cubano Reinaldo Arenas, interpretado com requinte por Javier Bardem. O enredo gira em torno do desejo de se tornar escritor por parte de Arenas, que advém de uma infância paupérrima, e a luta que trava para conseguir êxito. As coisas parecem caminhar mais ou menos a contento, até que o regime cubano resolve mostrar uma face bastante cruel, passando a perseguir os homossexuais e os que criticam o regime  Reinaldo acaba preso e torturado. O título do filme, que é de seu último livro, no qual se baseia, alude metaforicamente a esta circunstância  escrever na condição de prisioneiro  mas também anuncia o fim próximo (segue aqui um comentário do livro). Além de Javier Bardem, merece destaque a atuação de Johnny Depp. Um trecho de Celso Sabadin, publicado no Cineclick: “Antes de mais nada, vale a advertência: vá ao cinema preparado. O filme, em várias cenas, é um soco no estômago. Nem poderia ser diferente. Afinal, a história fala da trajetória de um homem que teve de lutar contra todos os tipos de preconceitos para conseguir ver sua arte publicada e difundida pelo mundo. Arenas batalhou contra os preconceitos sociais, políticos, sexuais e humanos, lutou contra todo o tipo de intolerância e comeu o pão que Fidel Castro amassou, tudo em nome da liberdade de expressão.