Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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sábado, 3 de maio de 2025
segunda-feira, 30 de maio de 2016
um motivo para se alegrar
A
obra de Raduan Nassar é distinguida com o prêmio Camões 2016 (um conto dele aqui).
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Julio Cortázar
DISCURSO
DO URSO
Eu
sou o urso dos canos da casa, subo pelos canos nas horas de silêncio, pelos
tubos de água quente, do aquecimento, do ar condicionado, vou pelos tubos de
apartamento em apartamento, sou o urso que vai por todos os canos.
Acho
que gostam de mim porque meu pelo conserva os condutos limpos, corro
incessantemente pelos tubos e do que eu mais gosto é passar de andar em andar
escorregando pelos canos. Às vezes puxo uma pata pela bica e a moça do terceiro
andar berra que se queimou, ou grunho na altura do forro do segundo andar e a
cozinheira Guillermina se queixa de que o gás anda ruim. De noite ando calado e
é quando ando mais depressa, apareço no teto pela chaminé para ver se a lua
está dançando lá em cima, e me deixo escorregar como o vento até as caldeiras
do porão. E no verão nado à noite na cisterna salpicada de estrelas, lavo o
rosto primeiro com uma mão, depois com as duas juntas, e isso me produz uma
alegria muito grande.
Então
escorrego por todos os canos da casa, grunhindo contente e os casais se agitam
em seus leitos e reclamam contra a instalação dos encanamentos. Alguns acendem
a luz e escrevem num papelzinho para lembrar-se de reclamar quando virem o
porteiro. Eu procuro a bica que sempre fica aberta em algum andar, por ali meto
o nariz e espio a escuridão dos quartos onde moram esses seres que não podem
andar pelos canos, e fico com pena de vê-los tão desajeitados e grandes, de
escutar como roncam e sonham em voz alta e estão tão sós. Quando eles lavam o
rosto de manhã, eu lhes acaricio as faces, lambo-lhes o nariz e vou-me embora,
vagamente convencido de ter feito um bem.
CORTÁZAR,
Julio. Histórias de cronópios e de famas.
Trad. Gloria Rodríguez. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009,
p. 81-82.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
"Ia-o conseguindo?"
Esta pergunta pontua o entrecho do conto “O Espelho”,
de João Guimarães Rosa, numa digressão que termina por interpelar o leitor. A
narrativa condensa um percurso assaz complexo rumo a si mesmo, que o narrador
descreve ao leitor uma vez finda a experiência com o espelho. A questão resume a
angústia diante de uma transformação ou percurso existencial complexo que
alguém porventura atravesse. Ia-o conseguindo? No labirinto da vida, é uma
pergunta que se faz, sem que se vislumbre uma resposta. A pergunta ecoa nos
labirintos da própria mente.
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Julio Cortázar
DISCURSO DO URSO
Eu sou o urso dos
canos da casa, subo pelos canos nas horas de silêncio, pelos tubos de água
quente, do aquecimento, do ar condicionado, vou pelos tubos de apartamento em
apartamento, sou o urso que vai por todos os canos.
Acho que gostam de
mim porque meu pelo conserva os condutos limpos, corro incessantemente pelos tubos
e do que eu mais gosto é passar de andar em andar escorregando pelos canos. Às
vezes puxo uma pata pela bica e a moça do terceiro andar berra que se queimou,
ou grunho na altura do forro do segundo andar e a cozinheira Guillermina se
queixa de que o gás anda ruim. De noite ando calado e é quando ando mais
depressa, apareço no teto pela chaminé para ver se a lua está dançando lá em
cima, e me deixo escorregar como o vento até as caldeiras do porão. E no verão
nado à noite na cisterna salpicada de estrelas, lavo o rosto primeiro com uma
mão, depois com as duas juntas, e isso me produz uma alegria muito grande.
Então escorrego por
todos os canos da casa, grunhindo contente e os casais se agitam em seus leitos
e reclamam contra a instalação dos encanamentos. Alguns acendem a luz e
escrevem num papelzinho para lembrar-se de reclamar quando virem o porteiro. Eu
procuro a bica que sempre fica aberta em algum andar, por ali meto o nariz e
espio a escuridão dos quartos onde moram esses seres que não podem andar pelos
canos, e fico com pena de vê-los tão desajeitados e grandes, de escutar como
roncam e sonham em voz alta e estão tão sós. Quando eles lavam o rosto de
manhã, eu lhes acaricio as faces, lambo-lhes o nariz e vou-me embora, vagamente
convencido de ter feito um bem.
CORTÁZAR,
Julio. Histórias de cronópios e de famas.
Trad. Gloria Rodríguez. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009,
p. 81-82.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Não verás país nenhum
O forte calor que está fazendo há dias faz pensar
na atualidade de um livro de 1981, de Inácio de Loyola Brandão, “Não verás país nenhum”, cujo título altera substancialmente o sentido do conhecido verso de
Olavo Bilac, “Não verás país nenhum como este.” O tom laudatório cede à imagem
apocalíptica de uma terra devastada: não verás país nenhum. E, de fato, alguém
está vendo alguma coisa, algum país (nação) a que se sente efetivamente
pertencendo? Não, a não ser que consiga chamar de nação uma geografia hostil.
domingo, 12 de janeiro de 2014
tufos de linguagem
“Perguntou o que eu pensava daquilo. Não era fácil encontrar as palavras, era
tarde, o cansaço pesava, teria preferido ir dormir, olhava as luzes do golfo,
soprava uma leve brisa carregada de umidade [...], era custoso continuar,
principalmente numa língua estrangeira para ambos. De vez em quando ele fazia uma pausa para procurar a palavra certa e
nesses vazios minha atenção se perdia ainda mais, um país sob vigilância,
esperava que o entendesse, claro que entendia, entendia perfeitamente, por mais
que para entender melhor as coisas seja necessário tê-las tocado com a mão, mas
sabia muito bem que naqueles anos o seu era um país sob vigilância, iria além,
um país policialesco, melhor dizendo.”
Antonio Tabucchi, “Festival” (O tempo envelhece depressa. Cosac Naify, 2010, p.117, trad. Nilson Moulin).
domingo, 5 de janeiro de 2014
três contos
Li os Três
contos de Gustave Flaubert, que
formam uma intrigante unidade. Sem dúvida "Um coração simples"
é o mais cativante — e mesmo de leitura imprescindível —, porque a personagem,
em sua trajetória de sofrimento e simplicidade, desmonta aquelas meia-ideias tipicamente
burguesas, facilmente identificáveis nas conversas. Aliás, conforme uma fala da “santa”
que surge ao final do filme “A Grande Beleza”, não se fala sobre a pobreza:
vive-se.
sábado, 10 de agosto de 2013
Julio Cortázar
HISTÓRIA
VERÍDICA
Um
senhor deixa cair ao chão os óculos, que fazem um barulho terrível ao bater nos
ladrilhos. O senhor se abaixa aflitíssimo porque as lentes dos óculos custam
muito caro, mas descobre assombrado que por milagre elas não se quebraram.
Agora
esse senhor sente-se profundamente grato, e compreende que o acontecimento vale
por uma advertência amistosa, de maneira que se dirige a uma ótica e compra
logo um estojo de couro acolchoado, com proteção dupla, como precaução. Uma
hora depois deixa cair o estojo e ao abaixar-se sem maior preocupação verifica
que os óculos viraram farelo. Esse senhor leva tempo para compreender que os
desígnios da Providência são insondáveis e que na realidade o milagre aconteceu
agora.
CORTÁZAR, Julio. Histórias de cronópios e de famas. Trad.
Glória Rodriguez. 12.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.72.
domingo, 9 de junho de 2013
a arte num conto de Cortázar
“Simulacros”, conto de Histórias
de cronópios e de famas (Julio
Cortázar. Trad. Gloria Rodríguez. 12.ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2009, p.21-24), coloca para o leitor o
desafio de pensar o papel e o lugar da obra de arte. A estranha família
dedica-se a construir um patíbulo no jardim de sua casa, sem precisar o fim ou
as motivações de fazê-lo:
“Somos uma família estranha. Neste país onde as coisas se fazem
por obrigação ou fanfarronada, gostamos de ocupações livres, das tarefas sem
importância, dos simulacros que de nada adiantam. Temos um defeito: a falta de
originalidade. Quase tudo o que resolvemos fazer foi inspirado — digamos
francamente, copiado — de modelos célebres. Se contribuímos com alguma novidade
é sempre inevitável: os anacronismos ou as surpresas, os escândalos. Meu tio
mais velho diz que nós somos como as cópias de papel carbono, idênticas ao
original, a não ser que de outra cor, outro papel, outra finalidade. [...] Fazemos
coisas, mas contar é difícil porque falta o mais importante, a ansiedade e a
expectativa de estar fazendo coisas, as surpresas tão mais importantes que os
resultados, os fracassos em que toda família cai no chão feito um castelo de
cartas e durante dias e dias não se escuta mais do que lamentações e
gargalhadas. Contar o que fazemos é apenas uma forma de preencher os vazios
inevitáveis, porque às vezes estamos pobres ou presos ou doentes, às vezes
morre alguém ou (custa dizê-lo) alguém trai, renuncia, ou entra para a
Direção do Imposto de Renda. Mas disto não se deve deduzir que vamos mal ou que
somos melancólicos. Moramos no bairro de Pacífico e fazemos as coisas toda vez
que podemos. Somos muitos a ter ideias e vontade de levá-las à prática. Por
exemplo o patíbulo, até hoje ninguém chegou a acordo sobre a origem da ideia
[...].” (p.21)
O estranho patíbulo vai se fazendo, erguendo, ganhando forma,
assim como ganha forma e proporção o escândalo ao redor dele, da família que o
constrói, do jardim onde está sendo construído: “A essa altura dos
acontecimentos as pessoas da rua não podiam deixar de perceber o que estávamos
fazendo, e um coro de protestos e ameaças nos estimulou agradavelmente a
encerrar a jornada com a montagem da roda. [...] A polícia chegou no momento em
que a família, reunida na plataforma, comentava favoravelmente o bom aspecto do
patíbulo.”
A terceira irmã — a mesma que se comparava ao rouxinol mecânico
de Andersen e cujo romantismo dava náuseas no narrador — era a única afastada
do grupo no momento da chegada da polícia, e a ela “coube dialogar pessoalmente
com o subcomissário; não foi difícil convencê-lo — prossegue o narrador — de
que estávamos trabalhando dentro de nossa propriedade, numa obra a que só o uso poderia
conferir um caráter inconstitucional, e que os comentários da vizinhança
eram produto do ódio e fruto da inveja.” (p.24) Deslocado de seu uso e contexto
habitual, nada impede que uma obra seja tomada artisticamente, exceto a
cegueira do utilitarismo. Que esta obra seja um patíbulo, ou um simulacro deste,
só faz pensar nos mecanismos de morte e vida que animam a produção em série e
em larga escala do universo capitalista, avesso ao caráter artesanal e
genuinamente coletivo de qualquer coisa, a não ser que essa coisa possa ser
institucionalmente chamada de “arte”, e seja colocada num lugar socialmente
previsto para alojá-la, a que as pessoas se dirijam para encontrar e apreciar o
que chamam de arte, porque assim se convencionou fazê-lo.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
memórias póstumas de brás cubas: um narrador cruel e cético
CAPÍTULO XIII / UM
SALTO
UNAMOS agora os pés e
demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler,
escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos
morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos.
Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as
lições árduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada, a
palmatória, e ainda assim... Ó palmatória, terror dos meus dias pueris, tu que
foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e
calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que
ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter
ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu
espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias
tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na
aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é a mestra das últimas
letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga.
Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco,
capote, lenço na mão, calva à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar,
grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste isto
durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da Rua
do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia deste o
grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo um preto velho —
ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.
Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta
página: Ludgero Barata — um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote
a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre homem.
Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das calças, —
umas largas calças de enfiar —, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma
barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo,
circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os últimos nomes: éramos sevandijas,
capadócios, malcriados, moleques. Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas
Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.
[...]
Machado de Assis. Memórias
póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo, 2008, p.70-72.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
um conto primoroso de Ivan Angelo
MENINA
“Oh, ela sabia cada vez mais.”
(Clarice Lispector)
Sentar-se, concentrada, contar até um número, por
exemplo dez, ou doze, e esperar agudamente um acontecimento importante, era seu
exercício mais impreciso, mais despido de maldade, porque ela não escolhia o
que ia acontecer, só fazia acontecer.
Havia outros, menos intensos: gritar “aaaa” de
olhos fechados e, abrindo-os, esperar que tudo houvesse desaparecido; colocar a
mão molhada na testa e acompanhar aquele sangue mais frio passeando no seu
corpo; imóvel e muda, obrigar a fruteira de cristal brilhante a estilhaçar-se
no chão com a força do pensamento; passar sem comer um dia inteiro para
preocupar a mãe e ouvir deliciada: “Ana Lúcia, você me mata!”
Entretanto, era o esperar que algo importante
acontecesse quando contasse até doze ou dez que lhe dava aquele segundo de vida
intenso do qual ela saía sempre um pouco mais velha, e apressava a sua
respiração, como um cansaço ou um beijo de Guilherme em Nilsa. Horas depois, ou
nos dias seguintes, quando ouvia as pessoas grandes conversarem segredos ou comentarem
graves um fato recente, dizia-se, plena de poder, ela mesma perplexa ante suas
possibilidades: “Fui eu. Fui eu que fiz.”
Achava péssimo ir à escola, a professora era
horrível. As coisas de que mais gostava: pensar sem ninguém perto porque aí podia
ir avançando até se perder, brincar de santa, dormir, comer doce. Bom mesmo era
fazer nada, nem pensar, mas isso só às vezes conseguia, e era impossível gozar
o momento, sempre passado. Pois quando o sentia, ele já acabara: ela começara a
pensar. Ter aquilo na mesma hora seria morrer? ― perturbava-se ela com o
pensamento, cada vez sabendo mais.
Sim, cada vez sabendo
mais. Sempre sentira esse mistério: não ter pai. Ela, que podia tanta coisa,
afinava-se embaraçada de não conseguir dizer “papai” do modo de Tita ou Nina.
Era a única coisa que faziam melhor do que ela, dizer “papai”. A diferença
talvez só ela percebesse, sutil. Sentia que pai era uma coisa que se tem
sempre, como mãe, ou roupas. Tita e Nina sabiam que aquela era uma vantagem:
― Quede seu pai, Ana
Lúcia?
― Está viajando.
Disseram-lhe isso, já
tinha escutado ou inventara? Ah, cada vez sabia mais, sempre mais.
Guilherme e Nilsa não se beijavam perto da mãe.
Se ela chegava, as mãos ficavam quietas nas mãos, a respiração ficava mansinha
e não havia mais nada interessante para olhar da janela do quarto. Beijar devia
ser proibido. Ou pecado. (Sabia mais, sempre mais).
― Ana Lúcia, seu pai
ainda está viajando?
― Está.
― Mentirosa! Sua mãe é
desquitada.
Ficou impotente diante
da palavra desconhecida. Uma coisa nova, ainda não se podia saber de que lado
olhar para possuí-la toda. Desquitada. Desquitada. Jamais perguntaria a Tita,
era uma alegria que não lhe daria. Ficou uns instantes sem saber como sair
ilesa dessa armadilha. Tita corada e brilhante de prazer na sua frente.
― E o que é que tem
isso?
Tita desmontou como um
quebra-cabeça, Ana Lúcia balançara o tabuleiro. Jamais teria medo de Tita, ela
sempre dependia demais das coisas fora dela, de um gesto, de uma palavra como
desquitada ou parto.
Desquitada. Passou dias
tentando solucionar sozinha. Seria uma coisa como burra, feia? Não, não
parecia. Flor? Flor parecia, mas não explicava nada: orquídeas, rosas,
sempre-vivas, desquitadas… Parecia. “Mentirosa! Sua mãe é desquitada.” Tita
dissera como quem diz o quê? o quê? o quê? ― sem-vergonha. Sim!, como quem diz
sem-vergonha: olhando de frente e esperando um tapa.
Nesses dias amou a mãe
com muita força, amou-a até sentir lágrimas, defendendo-a contra a palavra que
poderia feri-la: desquitada, sem-vergonha. Pensava a palavra de leve, com
receio de ferir a mãe. Experimentava baixinho torná-la mais suave, molhando-a
de lágrimas e amor: desquitadinha, sem-vergonhinha. Mas a palavra sempre
agredia, sempre feria.
Sentada no chão, picando retalhinhos de pano com
a tesoura, amava a mãe intensamente, enquanto ela costurava rápida, bonita
mesmo, com aqueles alfinetes na boca. Chegava alguém para provar vestidos, a
mãe mandava-a sair. Era feio ver gente grande mudar de roupa, a mãe dizia. Saía
contrariada por deixá-la exposta à palavra, em perigo. Abria-se a porta, ela
entrava de novo, amando, amando.
Estava cansada dessa
obrigação e só por isso duvidou de si, subitamente um dia ao tomar leite para
dormir: desquitada podia não ser como sem-vergonha! Podia até ser pior, e quem
sabe podia ser melhor. Respirando fundo e observando-se, ela seguia pronta para
novas descobertas. Refugiou-se no sono.
No dia seguinte recomeçou.
Mais uma vez preocupava-se com a palavra, agora não nova, mas mistério, sombra.
Não se arriscava a dar um palpite, havia o perigo de outro engano.
A professora feia! pergunta no fim da manhã,
recolhendo os cadernos, se alguém tem alguma dúvida. Ana Lúcia acende-se
emocionada. Por que não a professora? Talvez ela fosse boa, talvez dissesse
logo o que é desquitada, talvez dissesse na mesma hora, sem muitas perguntas
como por que você quer saber uma coisa dessas. Levanta-se tímida, insegura. Já
de pé, desiste, e não sabe se senta ou chora.
― O que é, Ana Lúcia?
A voz da professora, mansa, mas não ajudando. Não
pergunto, não pergunto ― teima Ana Lúcia, ganhando tempo.
― O que é? ― a voz insiste.
As meninas riem, insuportáveis. Helenice e seus
dentes enormes impossibilitando tudo. Ana Lúcia sente que vai chorar. Estar
perto da mãe é o que mais deseja.
― Sente-se ― ordena a professora irritada.
A máquina de costura
avançava decidida sobre o pano. Que bonita que a mãe era, com os alfinetes na
boca. Gostava de olhá-la calada, estudando seus gestos, enquanto recortava
retalhos de pano com a tesoura.
Interrompia às vezes
seu trabalho, era quando a mãe precisava da tesoura. Admirava o jeito decidido
da mãe ao cortar pano, não hesitava nunca, nem errava. A mãe sabia tanto! Tita
chamava-a de ( ) como quem diz ( ). Tentava não pensar as palavras, mas sabia
que na mesma hora da tentativa tinha-as pensado. Oh, tudo era tão difícil. A
mãe saberia o que ela queria perguntar-lhe intensamente agora quase com fome,
depressa, depressa antes de morrer, tanto que não se conteve e
― Mamãe, o que é
desquitada? ― atirou rápida com uma voz sem timbre.
Tudo ficou suspenso, se
alguém gritasse o mundo acabava ou Deus aparecia ― sentia Ana Lúcia. Era muito
forte aquele instante, forte demais para uma menina, a mãe parada com a tesoura
no ar, tudo sem solução podendo desabar a qualquer pensamento, a máquina
avançando desgovernada sobre o vestido de seda brilhante espalhando luz luz
luz.
A mãe reconstruiu o
mundo com uma voz maravilhosa e um riso:
― Eu precisava mesmo
explicar para você a situação. Mas você é tão pequena!
Olhou a filha com
carinho, procurando o jeito mais hábil. Pouco mais de sete anos, o que poderia
entrar naquela cabecinha?
― Desquitada é quando o
marido vai embora e a mãe fica cuidando dos filhos.
Pronto, estou livre ―
sentiu Ana Lúcia. Desquitada, desquitada, desquitada ― repetia sem medo.
Sentia-se completa e nova. Alegrou-se por não precisar amar a mãe com aquela
força de antes. Sendo apenas uma menina poderia cansar-se e então o que seria
da mãe? Bom, que desquitada não fosse um insulto. Bom mesmo. Deixava-a livre
para pensar e não pensar, coisa tão difícil que
― Marido é o pai? ― ela
quis confirmar, conquistando áreas que as outras crianças tinham naturalmente.
A mãe sorriu e confirmou.
Tita sabia dizer
“papai” porque a mãe não era desquitada ― ia Ana Lúcia aprendendo, descobrindo.
Havia muita coisa em que pensar naquela conversa. Por exemplo: o que ela chama
de marido é o que eu chamo de pai. Essa é uma diferença entre mãe e filha.
Ela sabia cada vez
mais.
Para gostar de ler, vol.10 (contos brasileiros
3). 18.ed.
São Paulo: Ática, 2010, p.41-45.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
infância, esperança, inocência e morte (um narrador cruel)
GAETANINHO
António de
Alcântara Machado
―Chi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e
ele não viu o Ford. O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
― Eh! Gaetaninho! Vem pra dentro.
Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de
sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
―Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o
terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão
de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e
varou pela esquerda porta adentro.
Eta salame de mestre!
Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou
carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o
sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a
cidade. Mas como? Atrás da Tia Peronetta que se mudava para o Araçá. Assim
também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.
Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.
Que beleza, rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam
a Tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de
lenço nos olhos. Depois ele. Na boleia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a
roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: Encouraçado São
Paulo. Não. Ficava
mais bonito de roupa marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe
trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza,
rapaz! Dentro do carro o pai, os dois irmãos mais velhos (um de gravata
vermelha, outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas
calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo
admirando o Gaetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queira ir carregando o
chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.
Gaetaninho ia berrar mas a Tia Filomena com mania de cantar o
"Ahi, Mari!" todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio.
Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de
Gaetaninho. Tão forte que ele sentiu remorsos. E para sossego da família
alarmada com o agouro tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa
nova versão de seu sonho. Matutou, matutou, e escolheu o acendedor
da Companhia de Gás, seu Rubino, que uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de
sociedade quinhentão no elefante. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de
raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca
mesmo.
O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não
estava ligando.
― Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
― Meu pai deu uma vez na cara dele.
― Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
― Assim não jogo mais! O Gaetaninho está atrapalhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de
responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com
o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos
abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
― Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque.
Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
― Vá dar tiro no inferno!
― Cala a boca, palestrino!
― Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou.
Pegou e matou.
No bonde vinha o pai de Gaetaninho.
Agurizada assustada espalhou a notícia na noite.
― Sabe o Gaetaninho?
― Que é que tem?
― Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e
Gaetaninho não ia na boleia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da
frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa
marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boleia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno
vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.
Para gostar de ler,
vol.10 (contos brasileiros 3). 18.ed. São Paulo:
Ática, 2010, p.48-51.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Clarice Lispector
Uma amizade sincera
Não
é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da
escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo
precisávamos de um amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro.
Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um
telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa,
sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos.
Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que
nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que
o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de
uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
Já
nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e
nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados.
De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas
bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar
sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem
não falava de seus amores. Experimentávamos ficar calados – mas tornávamo-nos
inquietos logo depois de nos separarmos.
Minha
solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros
apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade
mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros
eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos
poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi
quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho,
pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso
apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes,
arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para
a amizade. Depois de tudo pronto – eis nos dentro de casa, de braços abanando,
mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos
tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas
todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas.
Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim
encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor
sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.
Mas
como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo
discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel
como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento
a certeza de que dois e três são cinco.
Tentamos
organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como
não adiantou.
Se
ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade,
nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que
podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava
para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data
dessas férias o começo da verdadeira aflição.
Ele,
a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação
de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo
música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que
maior, incômoda. Não havia paz. Indo
depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.
É
verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais
esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena
questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor
usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei
entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando
pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por
toda a cidade – posso dizer em consciência que não houve firma que se
reconhecesse sem ser através de minha mão.
Nessa
época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as
façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o
que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei
compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar
conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera
nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei
um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia
compreender que estar também é dar.
Encerrada
a questão com a Prefeitura – seja dito de passagem, com vitória nossa –
continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a
alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal
o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.
A
pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao
Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que
não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos
rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.
Clarice Lispector. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p.13-16.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
lacuna
Neste fim de dia, de rotina, de fechamento do ciclo da semana de trabalho, alguma coisa nova, como uma fronteira, se desenha. Se,
como quer Moacyr Scliar neste conto, há uma lacuna entre palavra e vida,
isso não precisa ser uma advertência à palavra, mas pode ser um senão à vida. Se não é possível saber onde termina uma e onde começa a outra ― desconfio mesmo que
são a mesma coisa ―, a verdade é que se tem pouco com que dar conta da imensidão
da vida. Palavras traem. Mas e o silêncio, não seria mais traiçoeiro?
terça-feira, 20 de novembro de 2012
sábado, 10 de novembro de 2012
histórias para não dormir
Pensando bem, nem é
estranho que a literatura (vale dizer, o que se encontra pressuposto neste
termo) tenha se tornado um destino para mim: na infância, o conto da carochinha
que me foi contado foram histórias de assombração de variado calibre ― o espírito da mata que
assustava caçadores noturnos; o caixão que pesava sobre um carro passando, à
noite, diante de um cemitério à beira da estrada; o diabo que veio pessoalmente
dar uma surra, com suas poderosas línguas de fogo, num homem que havia duvidado de
sua existência; mortos que apareciam a seus parentes... Fora a história da “fera da Penha”.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
dois meninos - Clarice Lispector
― Mas agora vamos
brincar de outra coisa. Quero saber se o senhor é inteligente. Este quadro é
concreto ou abstrato?
― Abstrato.
― Pois o senhor é
burro. É concreto: fui eu que pintei, e pintei nele meus sentimentos e meus
sentimentos são concretos.
― É, mas você não é
todo concreto.
― Sou sim!
― Não é! Você não é
todo concreto porque seu medo não é concreto. Você não é completamente
concreto, só um pouco.
― Eu sou um gênio e
acho que tudo é concreto.
― Ah, eu não sabia
que o senhor é um pintor famoso.
― Sou. Meu nome é
Bergman. Maurício Bergman, sou sueco e sou um gênio. Nota-se pela minha
fisionomia, olhe: eu sofro! Agora quero saber se o senhor entende de pintura.
Aquele quadro é concreto?
― É, porque se vê
logo que é um mapa, pelas linhas.
― Ah, ééé? e
aquele?
― Abstrato.
― Errado! Então aquele
também tinha que ser concreto porque também tem linhas.
― Vou explicar ao
senhor o que é concreto, é...
― ... está errado.
― Por quê?
― Por que eu não
entendo. Quando eu não entendo, é porque você está errado. E agora quero saber:
isto é compreto?
― O senhor quer
dizer concreto.
― Não, é compreto mesmo. É porque sou um gênio e
todo gênio tem que pelo menos inventar uma coisa. Eu inventei a palavra compreto. Música é compreta?
― Acho que é,
porque a gente ouve, sente pelos ouvidos.
― Ah, mas o senhor
não pode desenhar!
― O senhor acha que
o teto é concreto?
― É.
― Mas se eu virasse
essa parede e botasse ela na posição do teto, ela ia ficar uma parede-teto, e
essa parede-teto ia ser concreta?
― Acho que talvez.
Fantasma é concreto?
― Qual? O de
lençóis?
― Não, o que
existe.
― Bem... Bem, seria
supostamente concreto.
― Mas é concreto ou
abstrato?
― Concreto, é
claro, que burrice.
No quarto ao lado a
mãe parou de coser, ficou com as mãos
imóveis no colo, inclinando um coração que este batia todo concreto.
LISPECTOR, Clarice. A descoberta
do mundo: crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.432-433.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
respiração artificial
Respiração artificial,
de Ricardo Piglia, é diferente de tudo que já li: posso dizer mesmo uma grata
surpresa. É um romance político, e embora certos nomes citados possam não ser
familiares ao leitor não argentino, isso não impede, de forma alguma, perceber e
apreciar a intrincada trama literária que o escritor arma para tenta capturar
a história, ou melhor, as águas da história, como uma das personagens diz. Há
passagens memoráveis, como esta:
“E
então? Um círculo. Uma morte atrás da outra. Muito bem: onde começa essa cadeia
que encadeia os anos para vir se encerrar comigo? Como começa? Não deveria ser
essa a substância de meu relato? A origem? Porque se não, para que contar? De que serve,
jovem, contar, se não for para apagar da memória tudo o que não for a origem e
o fim?” (p.50). “(...) porque tudo que contamos se perde, se afasta. Contar, então, é para mim uma maneira de
apagar dos afluentes de minha memória aquilo que quero manter para sempre
afastado de meu corpo.” (p.48) Ricardo Piglia. Respiração artificial. Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das
Letras, 2010.
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