Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

as armas secretas

As armas secretas, de Julio Cortázar, é simplesmente imperdível, sendo mesmo difícil escolher dentre os cinco contos o melhor ― todos primam pela excelência. Depois de assistir a Blow up, “As babas do diabo” ganha uma densidade imagética única, sem contar que se trata de um pequeno tratado sobre o olhar. “O perseguidor” é implacável e “Cartas de mamãe” é magistral, talvez pela coincidência de tê-lo lido durante uma viagem. Um pequeno senão à tradução (ou quem sabe à revisão): não obstante os elogios, há problemas que, mais uma vez, fazem lembrar como a pressa editorial compromete a qualidade de um trabalho que deveria primar por aquilo que persegue: o cuidado com o que Johnny tenta lembrar a Bruno, seu biógrafo, o tempo todo, e que felizmente não escapa ao narrador-perseguidor, colado a Bruno: "― Não se pode dizer nada, que imediatamente você traduz para o seu idioma sujo. Se quando eu toco você vê os anjos, a culpa não é minha. E o pior, o que você verdadeiramente esqueceu de dizer no livro, Bruno, é que eu não valho nada, que o que eu toco e as pessoas aplaudem não vale nada, realmente não vale nada." (p.147). 

CORTÁZAR, Julio. As armas secretas. Trad. Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. Mais detalhes no blog meia palavra.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

a sereia e o desconfiado

O crítico Thomas Higginson, com quem Emily Dickinson se correspondeu, desencorajou-a a publicar seus poemas. Emily Dickinson respondeu-lhe: “Sorrio quando sugere que eu protele a ‘publicação’. Se eu conhecesse a fama, eu não poderia fugir a ela, se não a conhecesse, ela me perseguiria o dia inteiro e eu perderia a aprovação de meu cachorro”. Quem conta a história é Augusto de Campos, no prefácio da coletânea Emily Dickinson: não sou ninguém

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

o processo

Nunca me arrisco muito a falar de Kafka, embora seja um dos escritores que mais impacto teve sobre mim. A dificuldade vem do quanto sua obra comporta de enigma, e já ao afirmar isso estou correndo riscos indesejáveis. Ocorre que A metamorfose, lido ainda na juventude, me causou profundo incômodo, a ponto de eu não querer mais voltar a pôr as mãos no livro. Lendo a coletânea de artigos de Modesto Carone dedicada à obra do escritor tcheco, Lição de Kafka, uma nova possibilidade se deu. Além de abrir uma brecha na opacidade da estranha metamorfose irreversível do homem em inseto monstruoso, um trecho prendeu-me a atenção: “... expressões literais como ‘o estado atual de Gregor’ sugerem que a metamorfose do herói pode ser entendida como o resultado de um processo, ou seja: como um momento definido que teria sido precedido por outros que ficaram aquém da narrativa e que por isso não foram tematizados por ela.” (p.22). A palavra processo remeteu-me de imediato à obra-prima do escritor, O processo. Buscando outros sentidos além do jurídico, do âmbito da lei, o substantivo processo pode significar ‘ação continuada’, ‘seguimento’, ‘decurso’, ‘andamento’, ‘desenvolvimento’, ‘marcha’, ‘sequência continuada de fatos ou ações que se reproduzem com certa regularidade’. Então a metamorfose não é algo que se dá da noite para o dia: está inserta em um processo que a personagem cheia de culpa tenta desesperadamente entender. Não há o episódio isolado em si: há uma totalidade que escapa, de uma opacidade impenetrável. O processo, assim, tanto quanto a encenação de um processo jurídico absurdo e impenetrável às tentativas de entendimento (por parte da personagem e do leitor), é também um processo no qual a personagem, movida pela culpa, tenta entender sua participação no desenrolar dos acontecimentos para deles se desvencilhar. A culpa é inseparável do processo, no sentido de a personagem aceitar, de certa forma, sua participação nos fatos estranhos que a envolvem. Para simplificar: O processo ajuda a ler A metamorfose, valendo a recíproca.

CARONE, Modesto. Lição de Kafka. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 

domingo, 17 de julho de 2011

a título de P.S.

No post anterior, ao citar o texto de João César de Castro Rocha, percebi que o autor empregou sem qualquer constrangimento o termo favela. Hoje já não se daria mais assim: uma pátina deliberadamente conduzida pelo Estado introduziu o termo comunidade, o que só vem mostrar que João César estava certo, não totalmente certo, mas estava, ao chamar atenção para a dialética da marginalidade, num artigo, em diálogo com a dialética da malandragem de Antonio Candido, publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 29 de fevereiro de 2004, mesmo dia em que Cidade de Deus poderia trazer um Oscar inédito para o Brasil.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

escolher o menos

Escolher o menos. Utilizei esta expressão numa postagem meio intempestiva escrita ano passado (aqui), e já havia mesmo me esquecido, quando hoje, ao refletir sobre uma série de coisas que me são caras, lembrei-me dela ― mas me lembrei assim: quem é que li ano passado que usou esta expressão, escolher o menos? Alguém que li falou isso ― continuei em minhas divagações  e cheguei mesmo a fazer um post. Mas quem?  ― e continuei a buscar contorno para o post que faria, este que ora escrevo, em que a expressão se coadunaria com o restante, só faltando encontrá-la e a fonte. E afinal encontrei, e para minha surpresa não foi lida de ninguém: fui eu mesma que a cunhei, para falar de coisas que eram prementes, dentre as quais o que pretendia aqui. Escrevi então: "É bom notar também que não se trata de nenhum blog campeão de audiência, com grandes pretensões, mas antes uma ilhota, uma micro-ilha, rodeada de milhares de ilhas mais portentosas, dispersas num oceano imenso, que eventualmente configuram arquipélagos, territórios discursivos. A pretensão aqui é mais simples: falar e, com sorte, fazer-se ouvir, quem sabe conseguindo também ouvir." É sobre este falar que vem a propósito a expressão escolher o menos.

Sempre ouvi falar em poeta menor (Manuel Bandeira é emblemático a esse respeito), como também não me escapou o título do conhecido texto de Deleuze, "Kafka: por uma literatura menor", que nunca cheguei a ler, embora tivesse me rondado mais de uma vez na Universidade, nas conversas e nas ementas das disciplinas (sempre maravilhosas, as ementas, as disciplinas era melhor perguntar antes a alguém bem informado). Quando escrevi o texto sobre o livro de poemas traduzidos por Augusto de Campos, fui derivando, por conexões que parecem ter um mecanismo próprio, este texto, no sentido da intenção desses meus escritos de crítica literária (se posso chamá-los assim), para usar o termo de Alexandre Eulálio. Como situá-los? Porque é claro que, por maior que seja minha timidez, estou me aventurando neste campo, e foi então que me ocorreu que a par do poeta menor pode existir a crítica menor: crítica no sentido da palavra crítica ― mas crítica como substantivo feminino também  me ocorreu imediatamente. A nossa literatura forjou um Rodrigo S.M., nada impede que outras vozes dissonantes, embora com bem menor alcance, possam se lançar. Esta que aqui fala nem sequer pretende (verbo pretensioso, este), apenas sabe-se fazendo um exercício de crítica menor  em muitos e variados e complexos e contraditórios sentidos. Mas menor, sempre, e mesmo o sentido disso ainda está por se fazer. Pois uma coisa é certa: o que é grande já possui muitos que lhe tomem conta. Menor, sobretudo, porque é o que vai me franquear as portas possíveis. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

recusa

Acabo de receber em casa o livro Poesia da recusa, projeto de Augusto de Campos de tradução de certa estirpe de poetas/poemas que o tradutor assim apresenta: “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas (...) A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo.” (p.16). Cansa, antes mesmo de começar a conferir o volume, esta pomposa declaração de princípios: não informa nada que não já se saiba. Dou uma passada de olho, detenho-me em Hart Crane, a quem Mário Faustino teria homenageado em sua Balada (cuja dedicatória é ainda matéria de controvérsia) e me deparo com isso: “Em 1956, Faustino traduziu dois poemas de Crane, ‘Praise for na Urn’ e ‘Garden Abstract’. Não são, porém, traduções criativas. Antes, versões quase literais, de cunho didático, para a sua ‘Página-Experiência’ no Suplemento Literário do Jornal do Brasil.” (p.294). É cômodo desqualificar o trabalho de quem não está mais aqui para se defender... Só há um porém: a tradução de Mário Faustino pareceu-me mais bonita, entre outros porque primeiro me trouxe o poema em seu frescor e novidade. Traduções são traduções ― disse-me alguém versado, e em versos versado, na questão ― cada uma atende uma demanda própria ― desde que recubra o que cabe na palavra tradução. Há várias possibilidades de recusa. Pode-se pensar que não há literatura ou poesia fora do espectro que recobre a palavra recusa ― de quê? O leitor também costuma ter suas recusas, nem sempre é fácil contorná-las, mas se elas encontram expressão na arte, isso pode sinalizar que não há uma poesia da recusa pairando acima das contingências que a ensejaram: porque uma hora vai sempre aparecer alguém que necessita dela. Na palavra recusa está pressuposta a palavra escolha: escolhemos os poetas que amamos; traduzir é escolher. Se Dylan Thomas nasceu falando uma língua diferente da minha, isso não impede que sinta necessidade de sua poesia. Aí vem sempre alguém lembrar, pelo menos aqui no Brasil, que a melhor leitura é a que se faz no original, que poesia não se traduz (cansei de ouvir isso nos eventos de que participei na Universidade), que as traduções que pratica "procuram preservar as características formais do original. São, nesse sentido, estudos de dicção e estilo. Mas o meu lema é oferecer ao público somente poemas que efetivamente continuem poemas depois de traduzidos. Daí a necessidade de captar, além da sua forma, a sua 'alma', o que traz para o tradutor o problema de identificar-se com o texto e abdicar de uma programação inteiramente premeditada." (p.17). E traz para o leitor uma enorme sensação de incompetência, para qualquer coisa, inclusive ler poesia. Será preciso lembrar tanto a própria erudição para alcançar a vontade de poesia do outro? Um poema que não continue poema depois de traduzido foi bem traduzido? É passível de tradução? Não sei responder a estas questões. O que sei é que se há quem se proponha a traduzir é porque existe, na outra ponta, a demanda de leitura. E se as melhores traduções, as mais desejadas, são ainda as bilingues, é porque o leitor quer, por ele mesmo, quando pode, fazer a comparação. A título de, segue a versão que Augusto de Campos propôs para o poema de Hart Crane:

JARDIM ABSTRATO

A maçã no seu galho é tudo o que ela quer, ―
Suspensão cintilante, mímica do sol.
O ramo arrebatou-lhe o sopro, e sua voz,
mudamente cingida aos declives e alturas
De ramo a ramo acima, turva-lhe a visão,
Prisioneira da árvore e seus dedos verdes.

E ela se sonha enfim a própria árvore.
O vento, que a possui, tece-lhe as veias jovens,
Retendo-a para o céu e seu rápido azul,
E afoga a febre de suas mãos no sol.
Ela não tem memória, medo ou esperança
Além da grama e sombras a seus pés.

CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.300-301.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sérgio Buarque de Holanda e Tristão de Athayde: uma polêmica

Tristão de Athayde
Sérgio Buarque de Holanda

A obra do Sr. Tristão de Athayde exprime de maneira admirável um dos paradoxos mais sutis e mais consideráveis deste momento. Como pouco entre nós ele soube discernir o aspecto trágico do espírito que anima o melhor das produções da literatura moderna e essa negação da ordem civil, expressa ou dissimulada, em que concluem alguns dos contemporâneos mais ilustres. Sem ter escapado à sedução dos princípios de rebeldia e de languescimento em que se comprazem essas obras, não deixou de compreender e de acentuar o que há de singelo e até de artificioso, muitas vezes, na atitude de negação que nos propõem.
A vida, entretanto, afeiçoou se espírito aos ideais de estabilidade, encarecendo os valores reconhecidos e convergindo o seu pensamento para a exaltação desses valores e daqueles ideais. Todas as páginas destes Estudos, seu último livro, denunciam o firme empenho em nos oferecer um pensamento claro, definitivo, exigente. Sobre a vaidade e o artifício desse propósito dirão, melhor do que nós, algumas das suas próprias palavras. “O temível”, escreve, por exemplo, “o temível é seguir o caminho das seleções quando o impreciso nos atrai, é colocar os marcos da limitação quando sentimos o aceno das coisas que se espraiam indefinidamente.”
Essa passagem é a melhor chave que poderíamos obter para a compreensão do sentido deste livro, das suas excelências e também das suas fraquezas. Ela nos ensina principalmente a sorrir um pouco da imponência dessas “verdades” que nos apregoa o seu autor. E mostra, de mais, a fragilidade dos limites que pretende aceitar este homem sem malícia numa época em que todas as barreiras aparecem sobretudo como convites aos mais arrojados para que as transponham. Sua recusa de seguir o “aceno das coisas que se espraiam indefinidamente” não é tanto uma atitude negativa como uma prova de assentimento àqueles ideais de estabilidade a que se afeiçoou. A tragédia que exprime tal atitude resulta precisamente da inconsistência dessa recusa.
Seria, decerto, muito mais fácil decretar que os princípios de rebeldia são simples anomalias que não ousarão dissipar a integridade dos nossos orgulhosos sistemas filosóficos. A sociedade também possui desses elementos de rebelião e de injustiça, mas ela os relega para além de seus limites. Eles não poderiam evidentemente cooperar na constituição de um organismo político estável. Mas resulta dessa impossibilidade que a cidade moderna não comporta todas as formas de vida social, ela não comporta mesmo as mais importantes.
A consideração desse singular paradoxo, que subsiste na vida política, ilumina certas particularidades do problema moral, mais particularmente do problema cultural e mostra-nos a sua universalidade. As antinomias que hoje se apresentam ao homem desafiarão amanhã, no terreno social, o homem de ação. E mesmo nesse terreno, quem nos diz que o problema ainda não existe?
Isso nos explica muito sobre a hesitação do Sr. Tristão de Athayde, as oposições que ele se empenha em vencer, a sua fraqueza e também ― por que não? ― a sua vaidade. Ele compreendeu bem claramente que a solução final de todas essas antinomias só nascerá de nossa fidelidade a um plano de existência superior e transcendental. Em outras palavras: que só poderá ser uma solução religiosa. A todo instante encontramos nas páginas de seu livro desses acenos indecisos a uma justificação transcendente, dessas exigências de absoluto, desses apelos, enfim, ao “elemento espiritual”, à “mística criadora”, que virá fundir e elevar os aspectos contraditórios de nossa existência. Esse recurso a uma justificação espiritual não é inédito, dele compartilha toda uma classe de pensadores novos com os quais o autor destes Estudos apresenta importantes afinidades. É um processo que não deixa de evocar a fórmula que presidiu à elaboração das grandes Summas medievais. Apenas com esta diferença que nelas o que existia era uma fé em busca de suas justificações, de suas razões ― fides quaerens intellectus ― quando, no caso presente, será antes uma inteligência que quer se apoiar numa base emocional. O Sr. Tristão de Athayde limita-se a inverter o problema que se ofereceu ao doutor Angélico.
Não é admirável, diante disso, nem espantoso, que se incline com insistência para o ponto de vista do catolicismo. O que seria a nós pelo menos interessante é, ao contrário, se não tivesse percebido que a concepção católica do mundo coincide perfeitamente com sua exigência de uma solução dos elementos anárquicos do cristianismo nos princípios que criam e que alimentam a ordem civil, a moral urbana, de uma pacificação impossível do espiritual com o temporal. Nenhuma outra doutrina conviria tão plenamente a um homem que aspira a organizar a sua desordem neste mundo sem recusar subvenções do outro mundo. E que, mesmo independente delas, aí não vierem, desejaria “restabelecer um equilíbrio da vida, disciplinar os demônios da liberdade”.
Agora já se desenha com maior nitidez o problema que o Sr. Tristão de Athayde se propôs resolver ou dirigir para uma solução. Ele pensa que temos ido muito longe no que chama o caminho das diluições. “Chegamos inconscientemente”, diz um trecho admirável de seu Schema, “àquele mesmo estado de virgindade intelectual em que Descartes voluntariamente se colocou.” Realmente nada há tão expressivo da situação a que nos conduziu a desestima sempre mais acentuada em que de há três séculos para hoje vem caindo a dignidade dos valores tradicionais. A propósito, eu poderia citar aqui a explicação que nos dá o escritor francês Mauriac da atual decadência do romance, quando mostra que, para os moços de hoje, em consequência desse descrédito em que caíram todos os valores, já não existem mais conflitos.
Nietzsche chegou a propor o niilismo de seu tempo como prefácio a uma coisa a que chamava de cultura trágica. Seria uma cultura onde a sabedoria, insensível às diversões capciosas da ciência, abraçasse com um olhar imutável todo o quadro do universo e, nessa contemplação, procurasse ressentir o sofrimento eterno com compaixão e com amor, fazer seu o sofrimento eterno. Mas Nietzsche lutava com fervor pelo abandono desses valores e queria mais a recusa das diversões capciosas da ciência. De tudo isso enfim que o Sr. Tristão de Athayde deseja precisamente resguardar, integrar e acentuar em seu projeto de solução, quando nos propõe que se substituam princípios permanentes de construção ao niilismo ou elementarismo de nossos dias. Princípios de construção que só poderão ser justamente esses valores tradicionais que nossa época já não digere.
Estamos, pois, diante desse fenômeno bem característico deste tempo: um tradicionalismo que intimamente descrê das tradições, um dogmatismo que, no fundo, é um ceticismo e, por mais absurdo que possa parecer, um racionalismo que quer ser ao mesmo tempo um misticismo. Ele não compreende, ou não quer compreender, ou finge não compreender, que existe uma censura, uma disjunção fundamental entre o Espírito e a Terra ou, para de suas próprias expressões, entre o “plano das verticalidades” e o “plano das horizontalidades”. Toda a conciliação que se propuser entre esses dois planos não será outra coisa que um hibridismo insólito, uma aglutinação superficial, jamais uma combinação íntima e suscetível de permanência. Não se pode mais hoje, como no tempo de Santo Agostinho, ser ao mesmo tempo e simultaneamente um cidadão do céu e da terra. E o pensamento que realmente quiser importar para a nossa época há de se afirmar sem nenhum receio pelos seus reflexos sociais, por mais detestáveis que estes pareçam. Há de ser essencialmente um pensamento apolítico.
É o que não ousa desejar o Sr. Tristão de Athayde com os seus princípios de construção. E, assim, crente, descrente, dogmático e ao mesmo tempo cético, sem nenhum ponto de apoio cuja solidez ou cujo prestígio lhe mereçam crédito, prefere ao heroísmo dos que se importam com a verdade sem nenhuma preocupação pelas conveniências, este outro heroísmo bem menos considerável de exaltar o ponto de partida a que já é impossível tornar impunemente. E é dessa posição teórica, insustentável e antinatural que o Sr. Tristão de Athayde retirou os tijolos para construir um dogmatismo necessariamente ilusório. Esse instrumento ilegítimo é que utiliza para combater os “homens de antes da guerra”, os “dinamistas” e os partidários de um “primitivismo” entre os quais eu próprio, a meu pesar, me vejo colocado...
Esperei poder falar das excelências deste livro do Sr. Tristão de Athayde; limitei-me a dizer, desajeitadamente, que não poderia considerar de modo diverso uma obra e uma personalidade que eu admiro e que desejaria fossem realmente importantes, fossem imprescindíveis para nossa geração e nosso tempo.

Jornal do Brasil, RJ, 29.09.1928.

Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Organização e introdução Francisco de Assis Barbosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 111-115.

P.S. Esse texto teve como “resposta” o ato público de conversão ao catolicismo de Alceu Amoroso Lima, “Adeus à disponibilidade”, cujo subtítulo foi “Carta a Sérgio Buarque de Holanda” (escrita ao que consta em 1929). Segue um pequeno trecho: “Não vou fazer a você nenhuma dessas narrativas íntimas, que nos primeiros anos da adolescência tanto lisonjeiam nossas vaidades, quando julgamos que os homens realmente se interessam por aquilo que para nós é um problema de vida ou morte. Quero apenas dizer-lhe que não ignoro o que há de irresistível na engrenagem sutil das demissões de nosso próprio eu. Da mesma forma que não ignoro quanto há de delicioso e de confortável na eterna recusa de compromissos. E quanto a beleza foge aos gestos precisos. E quanto a verdade parece ganhar com a ilimitação. E quanto a vida é mais mansa ao sabor dos ventos. E quanto... Mas chega o momento em que sentimos, como você bem sabe, o que excede de nós e não apenas a necessidade do que excede de nós. Vemos então, com outros olhos, os anos de luta para mantermos a disponibilidade gidiana, para guardarmos, não apenas a serenidade mas ao menos a irresponsabilidade do diletantismo ou da incessante evanescência de todos os contrários pelos semelhantes, de todos os semelhantes pelos contrários...” (ATHAYDE, Tristão de. No limiar dos cruzamentos. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, Ano 3, n. 6, p. 120, 1987. Número especial dedicado a Sérgio Buarque de Holanda.)

domingo, 12 de setembro de 2010

disputas modernistas: Sérgio Buarque de Holanda

O tom geral do ensaio de 1926 de Sérgio Buarque de Holanda, “O lado oposto e outros lados”, gerou muita polêmica nos arraiais modernistas, expondo divergências e ressentimentos. Manuel Bandeira e Mário de Andrade divergiram a fundo sobre as posições de Sérgio Buarque, e isso aparece na sequência de cartas trocadas entre ambos no período, um documento precioso para a apreensão dos bastidores da polêmica. Além de tudo, parecia estar em jogo a liderança do Modernismo, que o ensaio de Sérgio não faz pensar que ele estivesse chamando para si, pois tencionava exercer, no melhor sentido em que o compreendia, a crítica. O modo com que Sérgio Buarque e Prudente de Moraes, neto entendiam a crítica encontrou reservas em Mário de Andrade, que em carta a Manuel Bandeira comenta o tom geral do ensaio de Sérgio Buarque:

Eu tenho feito em artigos muita restrição ao Gui e ao Ronald restrição que não aceitaram ou que discutiram porém não brigaram comigo. Porém quando citei a frase de você foi pra chamar sua atenção sobre uma coisa: é que Prudentico principalmente inda mais que o Sérgio quando escrevem contra dão pras frases um ar de ataque que fere. Fazem a restrição com uma secura uma aspereza que pode ser peculiar neles porém faz com que os outros caiam na ideia do ataque. Sobre isso já me preveni bem porque sei que me atacarão e si o ataque vier assim não me ressentirei porque pode ser feitio deles. [...] Pra quê? E mesmo certo de que isto não é obrigação de elogio mútuo eu pergunto pra você se não é verdade que essa não é a maneira de tratar um trabalho ruim de um camarada. Eu quando tenho um camarada procuro lhe ocultar os defeitos e quando sou obrigado a reconhecer estes, os reconheço porém amigavelmente. E creio que não sou nenhuma exceção. [ANDRADE e BANDEIRA, 2001, p. 323. Os apelidos aludem a Prudente de Moraes, neto e Guilherme de Almeida]

De maneira geral, as reservas de Mário de Andrade estendem-se do tom ao conteúdo do ensaio, ao contrário de Manuel Bandeira. Ao final da sequência de cartas em torno da polêmica, Manuel Bandeira sintetiza bem quais seriam as possíveis razões para a atitude mais desbragada de Sérgio Buarque e Prudente de Moraes face à crítica literária e aos rumos então tomados pelo Modernismo:

O “nós” do Sérgio, tomei por ele, Prudente e outros da idade deles que não suportam o verbalismo do R., do G. e outros. A respeito de verbalismo, penso como você. Há verbalismo e verbalismo. Euclides, êta! Aprecio às vezes o de R. e Gui, sem achá-los tão maravilhosos quanto você. Sempre defendi sozinho contra Oswald, Sérgio, Prudente, e outros a arte, a técnica fantástica do Gui. Mas realmente, Mário, os rapazes sinceramente não fazem caso nenhum disso. No fundo eu dou razão a eles, mas como o gosto é livre eu continuo a admirar o tour de force criador rítmico do Guilherme fazendo ritmo de 11 sílabas com qualquer quantidade de sílabas, como ele faz em “Raça”. Mas reconheço que é arte, e poesia é outra coisa. [...] A poesia do R. é bela, porém me dá a impressão de arte decorativa de motivos socializantes. Boa pra se comentar mas... não faz a gente “dar nos gostos”. Aliás a “gente” está aí por “me”: eu sei, e compreendo bem, que você, o Ribeiro Couto gostam da poesia do R. e são sinceros. Já o R. C. não tolera a do Guilherme. O que atrapalha tudo é essa história de modernismo. Que coisa pau! Parece uma putinha intrigante que apareceu para desunir os amigos. Ninguém sabe definir essa merda, que todo mundo quer ser! Isso sempre me aporrinhou. Não tem a menor importância ser modernista! Vamos acabar com isso? [ANDRADE e BANDEIRA, 2001, p. 327. Os apelidos e abreviações aludem a Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida]

Na fala de Manuel Bandeira, pelo menos três elementos chamam a atenção: primeiramente, a diferença de gerações dentro do próprio Modernismo, fazendo com que os mais jovens tivessem uma posição mais aguerrida e combativa que os demais, a par de concepções de literatura e arte não totalmente esposadas por Guilherme de Almeida, por exemplo, inegavelmente um poeta da outra geração. Então, na visão de Sérgio Buarque e Prudente de Moraes, neto, ele também seria um “passadista”, embora isso não seja declarado. O segundo elemento é a distinção entre poesia e arte que Manuel Bandeira propõe, distinção dificílima no contexto em que é enunciada, por sugerir que os dois poetas referidos  Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho  poderiam ser bons versejadores, bons poetas no sentido mais tradicional do termo, mas não no sentido moderno que a palavra poesia passou a comportar. Por fim, o terceiro elemento seria justamente a discussão do que seria moderno em arte, e a polêmica em torno do ensaio de 1926 sugere que os principais nomes do Modernismo não tinham muita clareza acerca disso, e cada qual estava tateando seu caminho, tentando em maior ou menor grau ser moderno. E parece que justamente quanto maior a preocupação em sê-lo, menor o efeito alcançado, como se pode depreender da última frase de Manuel Bandeira, poeta modernista por excelência, mas que parecia dar pouca importância ao rótulo. Ou seja, a adesão epidérmica aos pressupostos estéticos do Modernismo não poderia funcionar como garantia de produção poética de qualidade, num contexto em que praticamente tudo estava em discussão, inclusive os tais pressupostos.

ANDRADE, Mário; BANDEIRA, Manuel. Correspondência de Mário de Andrade & Manuel Bandeira.  2. ed. Org., introdução e notas Marcos Antonio de Moraes.  São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Instituto de Estudos Brasileiros/USP, 2001.