Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 4 de março de 2012

easy rider (1969)

Os problemas apontados pela crítica em Easy Rider procedem. O filme vale por três aspectos: Jack Nicholson e a personagem que interpreta (George Hanson), sem dúvida o ponto alto do filme, pela competência de sempre; o diálogo, inserto no meio do filme, entre as três personagens principais naquele momento, em que George declara a Billy e Watty (a dupla de traficantes que segue rumo ao Mardi Gras), sutilmente, não precisar da marihuana (e o que vem depois) para sonhar com um mundo melhor. Na cena, enquanto conversam sobre UFO's e liberdade, seu cigarro apaga e ele nem percebe, e esta é a melhor pista de que a viagem dos outros dois não lhe interessava ― liberdade era outra coisa para ele. O terceiro ponto do filme é seu aspecto de videoclipe de canções dos anos 60, o que não deixa de ser um mérito.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

The Band - The Weight


The Band é o nome da banda que acompanhou Bob Dylan na segunda metade da década de 60. Não sabia que eles tinham composições próprias. Esta canção, permeada de sugestões místicas (Who sent me here with her regards for everyone?) consta na 41ª posição no ranking da Rolling Stone. Diz a revista: "A The Band era conhecida como a a banda de turnê de Bob Dylan quando se retirou para uma casa rosa em Woodstock, Nova York, para gravar seu álbum de estreia, Music from Big Pink. O LP era centrado em 'The Weight', uma excêntrica fábula de dívida e dever, conduzida pelo indelével refrão ('Take a load off, Fanny...'). Robertson disse que se inspirou depois de assistir aos filmes do diretor Luis Buñuel sobre a 'impossibilidade da santidade', mas personagens como Crazy Chester (que tenta se livrar de seu cachorro dando-o ao narrador) poderiam ter saído de uma velha canção folk. Quanto ao verso de ar bíblico 'pulled into Nazareth' [...], se refere a Nazareth, Pensilvânia, lar da fábrica de Martin Guitar." (Rolling Stone, edição especial de colecionador, 2010, p.38). Curiosa a insistência da revista em impingir uma interpretação. Neste vídeo, a versão original da canção serve de trilha ao filme Easy Rider, um road movie de 1969. Imagens e percurso de encher os olhos, som cuja leveza contraria o título da canção.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Histórias Mínimas (Argentina, Carlos Sorin, 2002)

[imagem obtida aqui]

Se um filme é também o que dele nos atravessa, então pouco me importa o que terá dito a crítica de bom ou ruim acerca de Histórias Mínimas, uma co-produção argentina e espanhola. Depois fiquei sabendo que o diretor já era famoso e premiado, que tem outro ótimo filme, talvez até melhor que este, etc. e tal. Assisti ao filme desarmada desse arsenal crítico. Para mim, Histórias Mínimas é a história de um sábado à tarde em que entrei no cinema para assistir a mais um filme. Uma hora se descobre que histórias mínimas é o que se tem para viver, quando não se nasceu Riobaldo, Diadorim ou Zé Bebelo

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Alice nas Cidades (Wim Wenders, 1974)

A televisão resolve reprisar o filme de sábado, e assisto enquanto as pestanas não me vencem. Está lá o estilo do cineasta alemão: seres misteriosos, silenciosos, deslocados, mas que não prescindem de humor e certo charme em sua itinerância. Como se trata de um road movie, isso tudo fica bastante marcado. Duas falas, a primeira quando o protagonista ainda está sozinho, a segunda já na companhia da menina Alice, que o acaso lhe trouxe. O jornalista alemão está rodando os Estados Unidos com o fito de fazer uma reportagem que não consegue escrever, e fica no plano do registro das imagens. Não suporta os canais de televisão, as músicas que tocam nas estações de rádio. No carro, ao mudar de estação, diz algo assim: É melhor falar sozinho, se bem que isso seja mais ouvir que falar. Já na companhia de Alice, e na Europa, num daqueles diálogos nonsense que acontecem entre crianças e adultos, numa sintonia fina ela lhe pergunta que tipo de medo ele tem. Ele responde com outra pergunta: existem tipos de medos? À afirmação dela, ele diz: Tenho medo do medo. Segue aqui um comentário inspirado, e no vídeo uma apresentação pelo telecine cult.

domingo, 28 de novembro de 2010

O Caminho das Nuvens (Brasil, Vicente Amorim, 2003)

O Caminho das Nuvens é o longa de estreia de Vicente Amorim (que depois dirigiu Um Homem Bom), e flagra uma família que sai do Nordeste em direção ao Rio de Janeiro, viajando de bicicleta. O que move o chefe de família, Romão, interpretado por Wagner Moura, é conseguir um emprego que pague mil real, ou seja, a busca de uma vida melhor, pautada pela utopia da cidade grande. Esse sonho mostra a família chegando a um Rio de Janeiro bem diferente da utopia da viagem, e é nessa cidade que eles vão ficar. Wagner Moura começava a despontar como ator representativo de sua geração, e ao dar vida, tempos depois, ao Capitão Nascimento de Tropa de Elite, consagra-se, elevando à condição problemática de herói o agente repressor da violência surgida da abismal disparidade de distribuição de renda no Brasil. Indo ou voltando, os deslocamentos geográficos em busca de melhores condições de vida mostram o quanto Graciliano Ramos vislumbrou ao escrever Vidas secas



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Viajo Porque Preciso...

No filme Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, o protagonista, o geólogo José Renato, faz um ir e vir constante entre as fissuras do solo que estuda e as próprias. Um interlocutor atento ponderou: não é metáfora. O sonho que o geólogo relata, vendo-se submetido a uma cirurgia do cérebro em que o médico vai retirando, aos poucos, pedaços do corpo da mulher amada, é sintomático de que a fissura é dele, é ele, projetada nas imagens exteriores. Insuportável. De tal forma que faz ele desejar largar tudo e se perder num labirinto, num labirinto sem saída. Não à toa nunca vemos o narrador-protagonista, apenas as imagens projetadas por sua mente enquanto ele narra o percurso de sua viagem sem volta. O filme tem uma densidade que faz suspeitar muita coisa.

domingo, 10 de outubro de 2010

A Pequena Miss Sunshine (EUA, Jonathan Dayton e Valerie Faris, 2006)

É claro que todos (ou quase) assistiram Little Miss Sunshine, essa pérola do cinema independente americano e também um ótimo road movie. O encontro entre seres muito diferentes, que por acaso pertencem à mesma família, é galvanizado pela inocência da little miss sunshine. Um desses encontros é particularmente interessante: o niilista nitzscheano e o fracassado proustiano. Já ao final, eles travam um diálogo, numa espécie de passarela de madeira que adentra o mar (tem um nome para isso, que me escapa agora), numa combinação muito interessante dos dois referenciais citados. Um deles, creio que o proustiano, diz algo assim: os anos de sofrimento foram os melhores da minha vida, pois neles eu cresci. E é de fato assim. A cor amarela domina, viva e brilhante.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

segunda-feira, 19 de julho de 2010

"Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo"



"Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz (seguem algumas críticas do longa: Pipoca Moderna, Época, Fred Burle no Cinema), é um filme sobre a solidão humana. A viagem funciona como recurso de que dispõe o personagem, o geólogo José Renato, para fazer o trabalho de luto pelo fim de uma relação de amor, seu casamento com uma botânica que ele refere o tempo todo como "galega". Aos poucos, fica-se sabendo que a história acabou, e que a viagem é uma tentativa de elaborar o fim. A desolação da paisagem natural confunde-se com o abandono e o sofrimento do personagem. Isso fica claro nas falas sobre geologia: a referência às fissuras das rochas nunca é isenta de uma confluência com as fissuras que atravessam o personagem. Melhor dizendo: a insistência nas fissuras é signo de que, o tempo todo, o geólogo está falando de si, de seu sofrimento, de suas fraturas. No melhor estilo road movie, o personagem, entre a ficção e o documentário, vai ao encontro de outras histórias de desamparo e solidão, o que lhe permite redimensionar o sofrimento. A viagem sequer parece comportar um retorno, e talvez não haja mesmo qualquer possibilidade de retorno, quando o tempo entra como elemento da paisagem. À dada altura ele diz: "viajo porque preciso, não volto porque ainda te amo". O ponto culminante do filme, não da viagem, é uma verdadeira pérola que faz significar o tempo no contexto da viagem: uma placa no alto de uma espécie de torre, numa cidade prestes a desaparecer pela inundação de uma barragem a ser construída: "HOMENAGEM DO POVO DO SÉCULO XIX AO POVO DO SÉCULO XX". Impossível não rir da ironia que atravessa a singeleza de um gesto que, destinado a ser mais que o tempo, é também por ele devorado.