Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

paradoxo

O sossego, paradoxalmente, vindo do Livro do desassossego:

357.
Regra é da vida que podemos, e devemos, aprender com toda a gente. Há coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlatães e bandidos, há filosofias que nos ministram os estúpidos, há lições de firmeza e de lei que vêm no acaso e nos que são do acaso. Tudo está em tudo.
Em certos momentos muito claros de meditação, como aqueles em que, pelo princípio da tarde, vagueio observante pelas ruas, cada pessoa me traz uma notícia, cada casa me dá uma novidade, cada cartaz tem um aviso para mim.
Meu passeio calado é uma conversa contínua, e todos nós, homens, casas, pedras, cartazes e céu, somos uma grande multidão amiga, acotovelando-se de palavras na grande procissão do Destino.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Org. Richard Zenith. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p.333.

domingo, 19 de agosto de 2012

«Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão»

Este post deu-me, por pura necessidade de começar de algum lugar,  o ensejo de perfilar palavras que me inquietam há cerca de dois dias. Trata-se de uma intuição em aparência simples: é sexta-feira e estou voltando, já no final do dia, para casa, vindo do dentista. Estou descendo a Grajaú-Jacarepaguá. O motorista é rápido. É quando percebo que o horário e o contexto receitariam o percurso inverso, já que estou dando as costas aos inúmeros e cheios de apelo signos culturais da cidade, anunciados com bastante eloquência na primeira edição do telejornal, para tão somente vir (ou voltar) para casa, à qual finalmente, e convicta, chego, o que não implica qualquer conclusão. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Fernando Pessoa: "quietismo estético da vida"


316. Um quietismo estético da vida, pelo qual consigamos que os insultos e as humilhações, que a vida e os viventes nos infligem, não cheguem a mais que uma periferia desprezível da sensibilidade, ao recinto externo da alma consciente.

Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p.302. 

domingo, 21 de novembro de 2010

Fernando Pessoa: um trecho de desassossego


Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p.298. 

sábado, 16 de outubro de 2010

Fernando Pessoa

... a tristeza solene que habita em todas as coisas grandes ― nos píncaros como nas grandes vidas, nas noites profundas como nos poemas eternos.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p.236.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fernando Pessoa: um pouco de desassossego para fechar o dia

102. (trecho)

A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe é ainda pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade de nossa própria vida.
Isto não vem a propósito de nada.
  
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p.130.

sábado, 11 de setembro de 2010

Fernando Pessoa: intervalo doloroso (fragmento)

“Entre mim e a vida há um vidro tênue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não posso lhe tocar.” 

PESSOA, Fernando. Quando fui outro. (Org. Luiz Ruffato). Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p. 75.  

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Fernando Pessoa (para o L A)

Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas tanta arte instintiva pus em fazê-lo que para mim próprio me tornei uma não de todo clara e nítida individualidade minha.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Org. Richard Zenith. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p.178.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A ESTALAGEM DA RAZÃO

A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Org. Richard Zenith. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p.191.