"O pássaro que se separa de outro, vai voando adeus o tempo todo." - GSV
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
Mostrando postagens com marcador Guimarães Rosa: Grande sertão veredas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guimarães Rosa: Grande sertão veredas. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 23 de julho de 2012
relendo grande sertão: veredas (XXXI)
Num dos diálogos
entre o bando de Zé Bebelo e os moradores do estranho povoado dos catrumanos, Zé
Bebelo enuncia um dos motes centrais de Grande
sertão: veredas ― a exclusão que resiste aos grandes e sucessivos projetos de integração:
― “O que mal não
pergunto: mas donde será que ossenhor está servindo de estando vindo, chefe
cidadão, com tantos agregados e pertences?”
― “Ei, do Brasil, amigo!” ― Zé Bebelo
cantou resposta, alta graça. ― “Vim departir alçada e foro: outra lei ― em cada
esconso, nas toesas deste sertão...”
ROSA, João Guimarães. Grande
sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.403.
Há um Brasil
esconso, misterioso e limítrofe, que parece zombar dos projetos de
integração. Zé Bebelo é e não é isso, porque atesta um pertencimento
ao Brasil sem nunca ter pisado no litoral.
relendo grande sertão: veredas (XXX)
“Uma coisa, a coisa,
esta coisa: eu somente queria era ― ficar sendo!”
ROSA, João Guimarães. Grande
sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.436.
domingo, 22 de julho de 2012
relendo grande sertão: veredas (XXIX): "o alto destino possível"
“O mais que eu podia
ter sido capaz de pelejar certo, de ser e de fazer; e no real eu não conseguia. Só a continuação de airagem, trastejo,
trançar o vazio. Mas, por quê? ― eu pensava. Ah, então sempre achei: por causa
da minha costumação, e por causa dos outros. Os outros, os companheiros, que
viviam à-toa, desestribados; e viviam perto da gente demais, desgovernavam
toda-a-hora a atenção, a certeza de se ser, a segurança destemida, e o alto destino possível da gente.”
ROSA, João Guimarães. Grande
sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.421.
terça-feira, 17 de julho de 2012
relendo grande sertão: veredas (XXVIII)
“O que o medo é: um
produzido dentro da gente, um depositado; e que às horas se mexe, sacoleja, a
gente pensa que é por causas: por isto ou por aquilo, coisas que só estão é fornecendo espelho. A vida é para esse sarro
de medo se destruir; jagunço sabe. Outros contam de outra maneira.”
ROSA, João Guimarães. Grande
sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.382-83.
relendo grande sertão: veredas (XXVII): "As coisas que eu tinha de ensinar à minha inteligência"
“O que uma pessoa é,
assim por detrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos? (...) Ah, fiquei de
angústias. O medo resiste por si, em muitas formas. Só o que restava para mim,
para me espiritar ― era eu ser tudo o que fosse para eu ser, no tempo daquelas
horas. Minha mão, meu rifle. As coisas
que eu tinha de ensinar à minha inteligência.”
ROSA, João Guimarães. Grande
sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.373.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
relendo grande sertão: veredas (XXVI)
“Vento
que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de
liberdade. Mas liberdade ― aposto ― ainda é só alegria de um pobre
caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se
carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a
liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é
cousa terrível?”
ROSA, João Guimarães. Grande
sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.323. PS. Como não pensar em Manuel Bandeira?
sábado, 7 de julho de 2012
relendo grande sertão: veredas (XXV): "o mundo à revelia"
―“Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou.
Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o
senhor vai ver...”
―“...Vejo um homem valente, preso...” ― aí o que
disse Joca Ramiro, disse com consideração.
―“Isso. Certo. Se estou preso... é outra coisa...”
―“O que, mano velho?”
―“...É, é o mundo à revelia!...” ― isso foi o fecho
do que Zé Bebelo falou. E todos que ouviram deram risadas.
Assim isso. Toleimas todas? Não por não. Também o
que eu não entendia possível era Zé Bebelo preso. Ele não era criatura que se
prende, pessoa coisa de se haver às mãos. Azouge vapor...
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.271.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
relendo grande sertão: veredas (XXIV)
“Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre
defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Eh, bê. Mas, para o
escriturado da vida, o julgar não se dispensa; carece? Só que uns peixes tem,
que nadam rio-arriba, da barra às cabeceiras. Lei é lei? Lôas! Quem julga, já
morreu. Viver é muito perigoso, mesmo”.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.285.
deuses e titãs da mitologia grega em grande sertão
Em Grande sertão, na altura do
julgamento de Zé Bebelo, todos os importantes chefes jagunços, tanto os
reverenciados quanto os odiados por Riobaldo, estão presentes. E então uma
outra narrativa se insinua mais forte, o duelo de titãs e deuses da mitologia
grega. O nome Hermógenes ― criatura que Riobaldo odeia acima do bem e do mal ― é um índice contundente dessa aproximação, explorado
desde sempre pelos estudiosos da obra de Guimarães Rosa. Mas há outro nome de
chefe jagunço igualmente contundente: Titão Passos.
O Julgamento, da série "O Diabo nas veredas mortas", de J. Murilo
(clique na imagem para ampliar)
sábado, 30 de junho de 2012
relendo grande sertão: veredas (XXIII)
“Às vezes, pedi que ele cantasse para mim os versos, os que eu não esqueci nunca, formal, a canção de Siruiz. Adiante versos. E, quando ouvindo, eu tinha vontade de brincar com eles. Minha mãe, ela era que podia ter cantado para mim aquilo. A brandura de botar para se esquecer uma porção de coisas ― as bestas coisas em que a gente no fazer e no nem pensar vive preso, só por precisão, mas sem fidalguia.”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.260.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
relendo grande sertão: veredas (XXII)
“(...) mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado...”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.237.
domingo, 6 de maio de 2012
relendo grande sertão: veredas (XXI)
“E grande aviso, naquele dia, eu tinha recebido; mas menos do que ouvi, real, do que eu tinha de certo modo adivinhado. De que valeu? Aviso. Eu acho que, quase toda vez que ele vem, não é para se evitar o castigo, mas só para se ter consolo legal, depois que o castigo passou e veio. Aviso? Rompe, ferro!”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.194-195.
relendo grande sertão: veredas (XX)
“Ações? O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensante. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.194.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Riobaldo, acerca da revelação de Diadorim sobre sua identidade
"Era um nome, ver o que. Que é que é um nome? Nome não dá: nome recebe."
relendo grande sertão: veredas (XIX)
“Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas horas estreitas ― isso procuro. (...) Homem como eu, tristeza perto de pessoa amiga afraca. Eu queria mesmo algum desespero.
Desespero quieto à vezes é o melhor remédio que há. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo enraizado. Fui indo. De repente, de repente, tomei em mim o gole de um pensamento ― estralo de ouro: pedrinha de ouro. E conheci o que é socorro.
Com o senhor me ouvindo, eu deponho. Conto. Mas primeiro tenho que relatar um importante ensino que recebi do compadre meu Quelemém. E o senhor depois verá que naquela minha noite eu estava adivinhando coisas, grandes ideias.
Compadre meu Quelemém, muitos anos depois, me ensinou que todo desejo a gente realizar alcança ― se tiver ânimo para cumprir, sete dias seguidos, a energia e paciência forte de só fazer o que dá desgosto, nojo, gastura e cansaço, e de rejeitar toda qualidade de prazer. Diz ele; eu creio. Mas ensinou que, maior e melhor, ainda, é, no fim, se rejeitar até mesmo aquele desejo principal que serviu para animar a gente na penitência de glória. E dar tudo a Deus, que de repente vem, com novas coisas mais altas, e paga e repaga, os juros dele não obedecem medida nenhuma. Isso é do compadre meu Quelemém. Espécie de reza?
Bem, rezar, aquela noite, eu não conseguia. Nisso nem pensei. Até para a gentes e lembrar de Deus, carece de se ter algum costume. Mas foi aquele grão de ideia que me acuculou, me argumentou todo. Ideiazinha. Só um começo. Aos pouquinhos, é que a gente abre os olhos; achei, de per mim. E foi: que, no dia que amanhecia, eu não ia pitar, por forte que fosse o vício de minha vontade. E não ia dormir, nem descansar sentado nem deitado. E não ia caçar a companhia do Reinaldo, nem conversa, o que de tudo mais prezava. Resolvi aquilo, e me alegrei. O medo se largava de meus peitos, de minhas pernas. O medo já amolecia as unhas. (...) O que resolvi, cumpri. Fiz.
Ah, aquele dia me carregou, abreviei o poder de outras aragens. Cabeça alta ― digo. Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me entenderá.”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.169-170.
relendo grande sertão: veredas (XVIII): o livro que não cabe no livro
“Desculpe me dê o senhor, sei que estou falando demais, dos lados. Resvalo. Assim é que a velhice faz. Também, o que é que vale e o que é que não vale? Tudo. Mire veja: sabe por que é que não purgo remorso? Acho que o que não deixa é a minha boa memória. A luzinha dos santos-arrependidos se acende é no escuro. Mas, eu, lembro de tudo. Teve grandes ocasiões em que eu não podia proceder mal, ainda que quisesse. Por quê? Deus vem, guia a gente por uma légua, depois larga. Então, tudo resta pior do que era antes. Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém não pode medir suas perdas e colheitas. Mas conto. Conto para mim, conto para o senhor. Ao quando bem não me entender, me espere.”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.160-161.
terça-feira, 1 de maio de 2012
relendo grande sertão: veredas (XVIII)
“Comigo, as coisas não têm hoje e ant’ôntem amanhã: é sempre. Tormentos. Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O senhor por ora mal me entenderá, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 156.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
relendo grande sertão: veredas (XVII): "o real roda e põe adiante"
“O Menino me deu a mão: e o que mão a mão diz é o curto; às vezes pode ser o mais adivinhado e conteúdo; isto também. (...) Para que refletir tudo no narrar, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido ― porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe adiante. ― ‘Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos’ ― me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajuda e amortece ― só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu.”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 154-155.
Assinar:
Postagens (Atom)