Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 24 de março de 2012

murilo mendes: o tigre

O TIGRE

O tigre, segundo Valéry, é um fato grandioso, uma vera instituição, um poder organizadíssimo, uma espécie de razão do estado, de monarquia totalitária; o animal absoluto. Por estes e outros motivos afins já se vê que le tigre ce n’est pas moi.
*
O tigre, mamífero (sic) da família real dos Felídios, calcula seus atos com rigor extremo; não se passa a limpo, não se desdiz, nem se corrige. O tigre é autocronometrado. Mesmo quando opera durante a noite opera diurno.
*
William Blake maravilha-se com razão, perguntando-se que olho imortal ousou a terrível simetria do tigre; e se o tigre poderia agradar ao próprio Deus que criou o Cordeiro.
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O tigre devorará tua metáfora antes do seu acabamento. O tigre não espera o homem. Os deuses esperam o tigre.
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O tigre, compasso em forma de tigre.
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Não há tigre vice: o leão é vice-tigre.
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O tigre: tão bem organizado que até os tigres de papel fazem-se tremer.
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Agredirei a majestade desse animal definitivo, aludindo à tigricidade da dupla Stalinhitler?
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O tigre, esse cosmotigre.
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O tigre é belo. Inadiável. Sibilino. Calmo. Intransferível.
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A tigresa eternidade avança para mim sob a forma de uma tesoura: Átropos.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.981.

domingo, 16 de outubro de 2011

ilustração de Poty para Augusto Matraga

Ilustração da 13ª edição de Sagarana, editora José Olympio

Augusto Matraga é marcado por seu inimigo, na descida ao inferno que quase o atirou à morte ― o que não deixa de ser uma morte simbólica ―, com um ferro incandescente contendo um triângulo inscrito numa circunferência. Walnice Nogueira Galvão, no ensaio "Matraga: sua marca" (visualização parcial), observa:

“Muitos e muitos séculos mais tarde, uma personagem de ficção, o Matraga, também saberá transformar sua marca de ignomínia em marca de pertença. Ferrado como rês no quarto traseiro com ferro de ferrar gado, reservado a animal e propriedade, trilhará o duro caminho da penitência e cumprirá em seu destino o sinal numinoso ― triângulo em circunferência ― com que foi marcado. Mas antes de chegar lá, e praticamente a meio caminho, a questão da marca reaparece, com enorme força, no surgimento do fenômeno da estigmatização.” (p.64)

“As duas figuras geométricas, circunferência e triângulo, têm ao mesmo tempo um estatuto igual e oposto. Igual, porque ambas são, a mesmo título, figuras primárias da Geometria Plana. Oposto porque a circunferência, constituída por um número infinito de pontos, enquanto círculo tem tendencialmente um número infinito de lados, e o triângulo o número mínimo possível de lados para constituir uma figura geométrica. Esta igualdade na oposição, e oposição na igualdade, evidentemente não poderia passar despercebida e há séculos perturba a mente humana.” (p.72)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Borges e a maravilha apócrifa do caos (da linguagem)

Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram as que o dr. Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada Empório celestial de conhecimentos benévolos. Em suas remotas páginas está escrito que os animais se dividem em a) pertencentes ao Imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos g) cachorros soltos, h) incluídos nesta classificação, i) que se agitam feito loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar o jarrão, n) que de longe parecem moscas. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também pratica o caos. 
[...]
Registrei as arbitrariedades de Wilkins, do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas; sabidamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo. 'O mundo', escreve David Hume, 'talvez seja o esboço rudimentar de algum deus infantil que o abandonou pela metade, envergonhado de seu trabalho deficiente; é obra de um deus subalterno, de quem os deuses superiores zombam; é a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada, que já morreu' [...]. É possível ir mais longe; é possível suspeitar que não haja universo no sentido orgânico, unificador, que tem essa ambiciosa palavra. Se houver, falta conjecturar sobre seu propósito; falta conjecturar sobre as palavras, as definições, as etimologias, as sinonímias do secreto dicionário de Deus. 
[...]
Esperanças e utopias à parte, talvez o que de mais lúcido se tenha escrito sobre a linguagem são essas palavras de Chesterton: 'O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes, mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de uma floresta outonal... Crê, no entanto, que esses matizes, em todas as suas fusões e conversões, são representáveis com precisão por um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Crê que de dentro de um corretor da bolsa possam sair ruídos capazes de significar todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo'.

BORGES, Jorge Luis. O idioma analítico de John Wilkins. Trad. Davi Arrigucci Jr. ___. Outras inquisições (1952). São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p.121-126. 

encontrado numa enciclopédia chinesa

Na classificação insólita dos animais que Borges encontra na bizarra enciclopédia chinesa, fico entre as sereias e os fabulosos (O Idioma Analítico de John Wilkins).

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Queda que as mulheres têm para os tolos - edição Unicamp (trecho)


A pesquisadora Ana Cláudia Suriani da Silva propôs uma versão bilíngue para o texto Queda que as mulheres têm para os tolos, uma tradução de Machado de Assis para De l’amour des femmes pour les sots, de Vicro Hénaux. Já foi postado aqui a parte inicial do texto, conforme editado por Oséias Silas Ferraz.  Segue o mesmo trecho conforme edição da Unicamp. 


ADVERTÊNCIA

Este livro é curto, e talvez devera sê-lo mais.
Desejo que ele agrade, como me sai das mãos; mas é com pesar que me vanglorio por esta obra.
Falar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por inimigas a maioria de um e outro sexo?
Diz-se que a matéria é rica e fecunda; eu acrescento que ela tem sido tratada por muitos. Se tenho, pois,  a pretensão de ser breve, não tenho a de ser original.
Contento-me em repetir o que se disse antes de mim; minhas páginas conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escritos. Propriamente falando, é uma comparação científica, e eu obteria a mais doce recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se inspirasse aos leitores a idéia de aprofundar um tão importante exemplo.
Quanto à imparcialidade que presidiu a redação deste trabalho, creio que ninguém a porá em dúvida.
Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espírito, é com um desinteresse, cuja extensão facilmente se compreenderá.



QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS

  Il est des nouds secrets, Il est des sympathies.


I


Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em matéria de fazendas, pérolas e rendas, e que, desde que adotam uma fita, deve-se crer que a essa escolha presidiram motivos plausíveis.
Partindo deste principio, entraram os filósofos a indagar se elas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.
Muitos duvidaram.
Alguns emitiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituído por outro, não tinha esse outro senão o mérito de ter chegado antes do terceiro.
Permaneceu por muito tempo este sistema irreverente.
Hoje, graças a Deus, a verdade se descobriu: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nele a preciosa qualidade que procuram.
Essa qualidade é... a toleima!


HÉNAUX, Victor. Queda que as mulheres têm para os tolos. Trad. Machado de Assis. Estabelecimento do texto Ana Cláudia Suriani da Silva. Campinas, SP: Ed. Unicamp, 2008, p.41-47.

sábado, 9 de outubro de 2010

"Queda que as mulheres têm para os tolos" – Machado de Assis (1861)

Nota do editor Oséias Silas Ferraz:

A declaração de que se tratava de tradução seria um artifício para disfarçar a autoria [...]. José Paulo Paes não entra em detalhes, mas é dos únicos a falar em tradução, a partir do original de um certo Olona, autor satírico espanhol que escreveu peças com o mesmo tema. A dúvida, no entanto, existia e só foi esclarecida pelo professor francês Jean Michel Massa, em Machado de Assis traducteur, ensaio que compõe a segunda parte de sua tese de doutoramento [...]. Apenas a primeira parte da tese foi publicada no Brasil, A juventude de Machado de Assis. Devido talvez às questões embaraçosas (para a crítica) levantadas sobre as traduções de Machado, o ensaio nunca foi publicado e permanece pouco divulgado. [...] Pesquisador atento, Massa enumera os textos que serviram de base a Queda... O Petit traité de l’amour des femmes pour les sots (1788), de autoria presumida de Champcenets (citado na parte XII de Queda...) apresentaria afinidades, mas não seria ainda o texto traduzido. Esse é finalmente identificado por Massa: De l’amour des femmes pour les sots, publicação anônima atribuída a Victor Henaux [...]. Encerra-se, assim, a polêmica sobre a originalidade do texto: ao contrário do que ficou estabelecido pela crítica machadiana, Queda que as mulheres têm para os tolos é uma tradução.” (FERRAZ, Oséias Silas. Nota do Organizador. In: ASSIS, Machado de. Queda que as mulheres têm para os tolos e outros textos. Belo Horizonte: Crisálida, 2003, p.9-10.)

A pesquisadora da Unicamp Ana Cláudia Suriani da Silva afirma que o estudioso francês não forneceu dados conclusivos que sustentem seu argumento, mas corrobora a tese da tradução, propondo uma versão bilíngue com o original e a versão machadiana: “A edição bilíngue de Queda que as mulheres têm para os tolos que eu publico pela Editora da Unicamp neste ano do centenário da morte do escritor segue intencionalmente os princípios tradicionais da crítica textual para oferecer uma base mais segura para pesquisas futuras. Estabelece definitivamente o texto traduzido por Machado e traz em espelho o texto de Victor Hénaux, o que permite que original e tradução sejam lidos lado a lado por um público que agora não se restringe mais ao próprio Machado e a uma meia dúzia (ou menos) de críticos.(Jornal da Unicamp).

Obs: segue a transcrição das duas páginas iniciais conforme edição da Crisálida. O editor manteve a grafia original do texto.

QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS

Advertencia

Este livro é curto, e talvez devera sel-o mais.
Desejo que elle agrade, como me sahe das mãos; mas é com pezar que me vanglorio por esta obra.
Fallar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por inimigas a maioria de um e outro sexo?
Diz-se que a materia é rica e fecunda; eu accrescento que ella tem sido tratada por muitos. Se tenho, pois,  a pretenção de ser breve, não tenho a de ser original.
Contento-me em repetir o que se disse antes de mim; minhas paginas conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escriptos. Propriamente fallando, é uma comparação scientifica, e eu obteria a mais doce recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se inspirasse aos leitores a idéa de aprofundar um tão importante exemplo.
Quanto á imparcialidade que presidio a redacção deste trabalho, creio que ninguem a porá em duvida.
Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espirito, é com um desinteresse, cuja extenção facilmente se comprehenderá.
  
I

Il est des nouds secrets, Il est des sympathies.

Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em materia de fazendas, perolas e rendas, e que, desde que adoptam uma fita, deve-se crer que a essa escolha presidiram motivos plausiveis.
Partindo deste principio, entraram os philosophos a indagar se ellas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.
Muitos duvidaram.
Alguns emittiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituido por outro, não tinha esse outro senão o merito de ter chegado antes do terceiro.
Permaneceo por muito tempo este systema irreverente.
Hoje, graças a Deus, a verdade se descobrio: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nelle a preciosa qualidade que procuram.
Essa qualidade é... a toleima!

ASSIS, Machado de. Queda que as mulheres têm para os tolos. Belo Horizonte: Crisálida, 2003, p.17-19.