Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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domingo, 8 de março de 2015
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
envenenamento
Estava falando ontem de uma forte angústia na sessão
de análise, quando, para tentar exprimir seu efeito sobre minha vida, ou
melhor, o efeito de suas causas, disse a palavra envenenamento ― pensamento então
subjacente: o que envenena Emma são as histórias (românticas) que ela leu...
pensamento agora subjacente: vi faz umas duas semanas uma moça de pé no metrô,
comum, uma moça de suburbano coração ― a contar da linha do metrô em que estava
― lendo em pé no metrô Madame Bovary,
numa edição recente da Companhia das Letras. Lia Madame Bovary (como a outra personagem célebre lia A dama das camélias?) e, não sei se são
meus preconceitos, o fato é que a moça de pé no metrô lendo Madame Bovary a caminho do trabalho
compunha um quadro incomum, inesperado, a sugerir que não há mesmo sentido
evidente... Não que eu esperasse uma mocinha da zona sul lendo de pé Madame Bovary no metrô. Não esperava nada, e nem é disso que se trata.
Trata-se da confluência entre a cena
moça-comum-lendo-madame-bovary-de-pé-no-metrô e as angústias que levei ontem para a sessão,
acerca de um certo bovarismo com que a vida vai ganhando incerto e por vezes
complicado contorno, muitas vezes angustiante... Como escapar ao próprio
círculo vicioso da linguagem, que não me deixa falar dessa moça sem apelar para
o lugar comum? Porque é claro que eu também sou comum, e não escapo ao círculo vicioso da angústia.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
relendo grande sertão: veredas (XVIII): o livro que não cabe no livro
“Desculpe me dê o senhor, sei que estou falando demais, dos lados. Resvalo. Assim é que a velhice faz. Também, o que é que vale e o que é que não vale? Tudo. Mire veja: sabe por que é que não purgo remorso? Acho que o que não deixa é a minha boa memória. A luzinha dos santos-arrependidos se acende é no escuro. Mas, eu, lembro de tudo. Teve grandes ocasiões em que eu não podia proceder mal, ainda que quisesse. Por quê? Deus vem, guia a gente por uma légua, depois larga. Então, tudo resta pior do que era antes. Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém não pode medir suas perdas e colheitas. Mas conto. Conto para mim, conto para o senhor. Ao quando bem não me entender, me espere.”
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.160-161.
domingo, 25 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
o homem sem qualidades
O calhamaço chegou. Agora é arregaçar as mangas e encarar. Quando dei por mim, este livro constava como não disponível nas livrarias confiáveis que frequento, e na estante virtual os livreiros exorbitaram. Resolvi checar na Galileu, e não só encontrei o livro como o preço estava bem mais em conta.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
livros: traços e tropeços deixados na memória
Recebo de Portugal, via Desertações, proposta de debate interessante. Senti-me instigada a repassar minha memória afetiva, os livros que em minha vida entraram. Aí vai.
1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Todos os livros de poesia que me acompanham ― além de Grande sertão: veredas e A descoberta do mundo. De forma avulsa, há livros a que sempre estou retornando, em busca de uma narrativa, um parágrafo, uma iluminação. Por outro lado, há livros a que, não obstante fundamentais, não voltarei, simplesmente porque me feriram muito, ou então porque quero ler outros. No primeiro caso encontra-se A metamorfose, de Kafka, e no segundo Madame Bovary.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim. O vermelho e o negro. Jamais consegui levar a leitura adiante ― achei o livro chato. E o Ulisses eu quase dei conta, mas parei na madrugada, no monólogo da Molly.
3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Esta pergunta é muito ingrata. Seria, certamente, algum livro de poesia. Mas há um livro que vou ler para o resto de minha vida, porque me foi fundamental: A carta ao pai, de Kafka. Posso nunca mais abrir um exemplar deste livro e mesmo assim continuarei lendo-o, de tal forma ele se entranhou em mim.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Esta é a pergunta do pecado, do crime literário inafiançável. Então vou por outra via: todos os livros que desejei ler eu li, e isso me basta. Tenho dívidas literárias, que vou quitando conforme a disposição de ler o permita.
5. Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Morte em Veneza, talvez por influência da versão cinematográfica (merece mesmo o link do youtube). Mas os finais de Guimarães Rosa, em especial aqueles de Primeiras estórias em diante, costumam me ser caros. E o final de O processo crava-se como uma lança na memória de quem lê.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Para esta resposta vou recorrer a Caetano Veloso, a música "Livros": quase não tínhamos livros em casa e a cidade não tinha livraria. Quando criança, lembro-me de ter ficado louca por um estojo que um vendedor passou lá em casa vendendo, cheio de coisinhas bonitas e tal, com um livro, Deus negro… Meu pai não comprou.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Por quê?
Em geral, quando acho um livro chato, a valer, abandono a leitura, mesmo sabendo que o livro é bom, obrigatório, imperdível e tal. Fiz certo esforço para ler A maçã no escuro, e gostei de O desconhecido e Mãos vazias, de Lúcio Cardoso.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Meus livros preferidos são escolhas afetivas, que dizem respeito a um percurso muito próprio: não valem como indicação. Há, entretanto, os imprescindíveis, como quis Bertold Brecht, mas não consigo fechá-los numa lista.
9. Que livro estás a ler neste momento?
O jogo da amarelinha (pelo menos tentando) e Cisne de feltro (Paulo Mendes Campos). E tudo o que eu tenho em casa de poesia, de maneira assistemática.
10. Indica dez amigos para o meme literário:
Só há uma pessoa, no momento, que me apraz indicar, o Luiz Carlos Lopes (Caderno de Caligrafia), porque tenho certa curiosidade em relação ao modo como ele responderia a essas perguntas, leitor privilegiado que é. E ele bem falou sobre isso em seu último post, sobre seus livros...
quinta-feira, 19 de maio de 2011
azul é a cor do deserto... no mar
O hífen, apartando palavras com a aparência de uni-las, me fez pensar nos números primos. Aí descobri que há um livro no mercado, A solidão dos números primos, que parece interessante e talvez venha a ler. Porque sempre gostei de estudar, ainda aquilo que eu parecia entender, como a matemática, para descobrir bem depois que havia entendido apenas a superfície, as operações básicas. Os números servem-me apenas para atormentar, lembrar contas, fazer cálculos inúteis acerca do que não me interessa: colocar tudo na ponta do lápis, como imagem de vida planejada, regrada. É-me impossível fazer planilhas domésticas, como aquelas receitadas pelos quadros do Fantástico. Minha competência permite-me apenas alinhar palavras com a ponta do lápis, ou dedos, e sempre que o hífen me perturba consulto o dicionário. Não sei se dispensar os números pelas palavras foi escolha acertada, como entre par ou ímpar. Mas é que nem mesmo me ocorreu, alguma vez, que havia escolha, eu sempre quis a beleza. Que há beleza nos números e suas complexas coreografias é mais do que certo, como dois e dois são..., apenas eu nunca vi, vislumbrei. Então é lógico que uma parte expressiva do mundo está definitivamente fechada para mim, como um quarto agora escuro cuja chave foi-me de relance oferecida, e eu não alcancei discernir bem o que era então. Prestava atenção em outras coisas, na beleza possível das aulas de geografia: azul é a cor do deserto no mar: a citação do livro enfadonho em meio a descrições inutilmente armazenadas na memória, e que agora a memória recompõe, porque nunca a esqueceu, foi um prelúdio de minha disposição favorável às palavras, que eu amo unir como se pudesse criar uma outra geografia, a geografia possível de meu ser, hesitante, alheio a hífens e a tudo que diz respeito à memorização de regras e normas, por saber que qualquer coisa só se sabe pelo contato íntimo.
clique na imagem para ampliar. fonte: internet
domingo, 24 de abril de 2011
Dia Mundial do Livro
Ontem foi o Dia Mundial do Livro. Foi o que fiquei sabendo ao ler isto. E Fernando Pessoa falando de Shakespeare é mesmo encantador: "Não há Estado que valha Shakespeare." Por alguma espécie de vício, acabo sempre tomando livro por literatura.
terça-feira, 19 de abril de 2011
livros
Chego em casa e deparo-me com uma pequena revolução doméstica: a prateleira de uma estante, que estava meio quebra-não-quebra, cedeu, e encontro vários volumes espalhados pelo chão. Demoro alguns segundos para entender o que se passou. Não adianta, não se consegue domesticar os livros.
sexta-feira, 18 de março de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
ilha
Uma das combinações de palavras jogadas no google ou congêneres que conduziu a este blog, essa semana, foi "ilha do naufrágio". Da minha infância trago a memória de A ilha perdida, que todo mundo leu e eu só ouvia falar que era incrível (acho que só li bem depois, quando não tinha mais como achar incrível), de uma coleção de histórias infanto-juvenis da Ática que foi a leitura escolar da minha geração. Há também a narrativa famosa da história de Robinson Crusoe, o habitante solitário de uma ilha. Mas aqui não é a ilha perdida ou do naufrágio, nem eu sou o personagem de Daniel Defoe. Sabe-se lá o que busca alguém numa ilha do naufrágio. Sei que, na minha infância, havia um programa de televisão semanal muito cotado, "A Ilha da Fantasia", em que as pessoas chegavam em busca das coisas mais bizarras possíveis. A única lembrança que ficou, daquele mundo imaginário e fantasioso, foi de um visitante que queria viver qualquer coisa relativa ao romance O morro dos ventos uivantes, e foi conduzido para uma espécie de castelo isolado e sombrio para viver sua fantasia. Ilha da fantasia + morro dos ventos uivantes é uma combinação curiosa de esquisitice para um imaginário infantil, mas certamente foi mais estimulante que as coisas que as crianças estão assistindo e lendo hoje, salvo engano.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
livros
Disse em post recente que não faço compras de Natal. Mas não se escapa de ter família, e mesmo quem não tem filhos costuma possuir um sucedâneo nos sobrinhos, tendo também irmãos. Fui então à Livriaria da Travessa comprar alguns livros que servirão como presentes, e que possivelmente serão lidos, quem sabe alcançando o que pretendiam ser, no meu gesto: um além da mercadoria. Sem muitas ilusões a esse respeito. Li Walter Benjamin. Mas a vida é estar aqui agora escrevendo esse post, mais uma das minhas declarações de amor aos livros ― e à escrita, da qual não consigo me furtar, sob pena de me faltar o próprio ar, não obstante a vida material estar relativamente encaminhada. Pode parecer grosseiro falar assim, mas o custo de tudo é elevado, e a fatura chega, sempre chega, de diferentes formas.
terça-feira, 23 de março de 2010
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