Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O que os outros sabem de nós: Nietzsche

“Aquilo que sabemos de nós mesmos e que temos na memória não é tão decisivo para a felicidade de nossa vida como se pensa. Um dia cai sobre nós aquilo que outros sabem (ou acreditam saber) de nós ― e então reconhecemos que isso é mais forte. É mais fácil lidar com sua má consciência do que com sua má reputação.”

NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.91.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

"professora, os seus olhos brilham"

As aulas de iloveyou da adolescência me fizeram escorregar para as aulas de português e literatura que ministrei, ano passado, para os pré-adolescentes do 6º ano. Das muitas coisas, boas e ruins, que escutei deles, havia um aluno, um tanto aéreo (parecia constantemente estar gravitando em outra órbita), que virava para mim e exclamava, às vezes do nada, Professora, os seus olhos brilham!, com uma voz de menino assustado que só fui entender bem depois, quando o surpreendi às sete da manhã chorando compulsivamente debruçado sobre a carteira. Violência doméstica, um filme conhecido e via de regra censurado pelas próprias vítimas, em geral pelo medo. Então eu intui o porquê da outra órbita e o olhar dirigido para o nada daquele garoto que se esquivava do meu olhar. E que sua iniciação na vida estava sendo brutal. Dizer que não sofri violência doméstica? Não vou dizer, não quero estragar o post. Preservei o brilho nos olhos, ao que parece, pois são outros olhos os que o veem. Adquiri, é certo, um horror absurdo à violência, e embora saiba ser quase impossível esquivar-me dela, tento ao menos me esquivar do quinhão que dela reconheço em mim. Perdi de vez a inocência quando li Genealogia da moral (sou teimosa, a vida já tinha me dado elementos suficientes para perdê-la, a inocência), leitura que me lançou numa prostração tal de que só consegui me erguer nas sessões de análise (sim, Freud também escreveu sobre o mal-estar na civilização, mas Nietzsche é bem mais impiedoso, nele as tintas da crueldade formam um painel grotesco). Meu Deus, começo falando de inocência e termino às voltas com a violência! Será que nunca mais vai ser possível, a inocência?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Mas...

Sou uma criatura ensimesmada, embora agradável ao convívio. Até os 18 anos, não dava pelas pessoas, me mexia entre elas tão-somente. Mas saí de casa para estudar, e algumas lições se impuseram. A mais forte delas foi que, no mundo, não poderia mais me dar o luxo de não ter convívio social como fazia até então. Algum trânsito seria necessário. E aí deparei-me com uma categoria muito estranha de seres: os vampiros. São seres que se aproximam, ou de que nos aproximamos afetivamente, aproximação em que de repente se insinua a estratégia, como uma arapuca que estava ali o tempo todo e o suposto afeto não deixava ver: dão uma espécie de lambidinha no ego do outro, reconhecendo-lhe os méritos, mas... Mas, inverto eu, o mas aí não é acidental. Todo mundo que passou pela gramática sabe que o que vem depois do mas é o que conta. Mas, ora bolas, digo eu, se a criatura tem reparos sérios à minha pessoa, o que está a fazer ao meu lado? Como veio parar junto a mim? Interessada, naturalmente, no que precede o mas, mas querendo ajeitar o que vem junto, depois, como se paradoxos fossem admissíveis somente no mundo da literatura. Aí eu mesma dou uma mãozinha para a criatura: providencio o afastamento, imediato. Sou hábil nisso. Os primeiros foram mais difíceis, estava aprendendo a técnica, que consiste numa só: não olhar para trás. É desastre certo. A última situação foi um apuro de técnica, meu, claro. Sonhei que a criatura tentava se reaproximar, mas o que tinha a me oferecer era pobre, pouco, traduzido na imagem de roupa de dormir desbotada, comprada em alguma loja barata. Em dois tempos eu etiquetei o sonho: casamento frustrado. E vampiros estão aí, aos montes: querem sua inteligência, sua sagacidade, seu humor, sua alegria, sua saúde, sua independência (pois que lhes falta, muitas vezes). São, como se diz na esteira de Nietzsche, envenenadores da vida, produtores da má-consciência. Eles desejam, justamente por serem pessoas adoecidas,  mutilar o que o outro tem de melhor, talvez para que fiquemos aparentemente parecidos a eles e, como uma aura de empréstimo, alguma coisa nossa migre em sua direção. Não é fácil reconhecer um vampiro, mas eu não hesito na hora de me livrar. 

sábado, 1 de janeiro de 2011

interjeições

Há um equívoco na palavra comunicação. Via de regra, as pessoas escutam apenas o que querem escutar, o que leva mais à concordância e ao assentimento que a uma eventual mudança de perspectiva. É como se as conversas, por polidez e o mais, não passassem de trocas de interjeições. Mudar de perspectiva, no sentido que Nietzsche deu ao termo, assumindo que tudo o que se tem são perspectivas, exige um desprendimento que o conforto a que se habituou um burguês quadrado (para empregar expressão de Clarice Lispector em crônica acerca de uma tela de Paul Klee, transcrita neste blog) não permite: "a possibilidade, a que é verdadeiramente, não é para ser explicada a um burguês quadrado. E à medida que a pessoa quiser explicar se enreda em palavras, poderá perder a coragem, estará perdendo a liberdade."

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"viver nos outros" (Sérgio Buarque de Holanda leitor de Nietzsche)

De repente, bateu-me um cansaço das pessoas, do ser humano. Há humanidades demais por aí, e seu adocicado viscoso forma uma espécie de liga que vai agrilhoando as pessoas umas às outras. O ser humano e seus terríveis carinhos: amor que vira ódio, amizade que vira tédio... O ser humano e sua incapacidade de viver consigo mesmo. O ser humano... Lembro-me, a propósito, de um trecho de Nietzsche, lido em Raízes do Brasil: "O vosso mau amor por vós próprios converte a vossa solidão num cativeiro." Sérgio Buarque cita a passagem acerca do polêmico "homem cordial": "No 'homem cordial', a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro ― como bom americano ― tende a ser a que mais importa. Ela é antes um viver nos outros." (Raízes do Brasil, 26.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.147.) Esse "viver nos outros" já encontrou várias exegeses, sem dúvida interessantes e pertinentes, dispersas nas diferentes publicações dedicadas ao autor. A minha é simples: o aprendizado da solidão é tão importante quanto respirar, e inclusive ajuda a melhorar a respiração. 

sábado, 23 de outubro de 2010

aforismo

"Nada do que vive se exprime impunemente em vocábulos" ― Sérgio Buarque de Holanda, 1925.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sérgio Buarque de Holanda e Tristão de Athayde: uma polêmica

Tristão de Athayde
Sérgio Buarque de Holanda

A obra do Sr. Tristão de Athayde exprime de maneira admirável um dos paradoxos mais sutis e mais consideráveis deste momento. Como pouco entre nós ele soube discernir o aspecto trágico do espírito que anima o melhor das produções da literatura moderna e essa negação da ordem civil, expressa ou dissimulada, em que concluem alguns dos contemporâneos mais ilustres. Sem ter escapado à sedução dos princípios de rebeldia e de languescimento em que se comprazem essas obras, não deixou de compreender e de acentuar o que há de singelo e até de artificioso, muitas vezes, na atitude de negação que nos propõem.
A vida, entretanto, afeiçoou se espírito aos ideais de estabilidade, encarecendo os valores reconhecidos e convergindo o seu pensamento para a exaltação desses valores e daqueles ideais. Todas as páginas destes Estudos, seu último livro, denunciam o firme empenho em nos oferecer um pensamento claro, definitivo, exigente. Sobre a vaidade e o artifício desse propósito dirão, melhor do que nós, algumas das suas próprias palavras. “O temível”, escreve, por exemplo, “o temível é seguir o caminho das seleções quando o impreciso nos atrai, é colocar os marcos da limitação quando sentimos o aceno das coisas que se espraiam indefinidamente.”
Essa passagem é a melhor chave que poderíamos obter para a compreensão do sentido deste livro, das suas excelências e também das suas fraquezas. Ela nos ensina principalmente a sorrir um pouco da imponência dessas “verdades” que nos apregoa o seu autor. E mostra, de mais, a fragilidade dos limites que pretende aceitar este homem sem malícia numa época em que todas as barreiras aparecem sobretudo como convites aos mais arrojados para que as transponham. Sua recusa de seguir o “aceno das coisas que se espraiam indefinidamente” não é tanto uma atitude negativa como uma prova de assentimento àqueles ideais de estabilidade a que se afeiçoou. A tragédia que exprime tal atitude resulta precisamente da inconsistência dessa recusa.
Seria, decerto, muito mais fácil decretar que os princípios de rebeldia são simples anomalias que não ousarão dissipar a integridade dos nossos orgulhosos sistemas filosóficos. A sociedade também possui desses elementos de rebelião e de injustiça, mas ela os relega para além de seus limites. Eles não poderiam evidentemente cooperar na constituição de um organismo político estável. Mas resulta dessa impossibilidade que a cidade moderna não comporta todas as formas de vida social, ela não comporta mesmo as mais importantes.
A consideração desse singular paradoxo, que subsiste na vida política, ilumina certas particularidades do problema moral, mais particularmente do problema cultural e mostra-nos a sua universalidade. As antinomias que hoje se apresentam ao homem desafiarão amanhã, no terreno social, o homem de ação. E mesmo nesse terreno, quem nos diz que o problema ainda não existe?
Isso nos explica muito sobre a hesitação do Sr. Tristão de Athayde, as oposições que ele se empenha em vencer, a sua fraqueza e também ― por que não? ― a sua vaidade. Ele compreendeu bem claramente que a solução final de todas essas antinomias só nascerá de nossa fidelidade a um plano de existência superior e transcendental. Em outras palavras: que só poderá ser uma solução religiosa. A todo instante encontramos nas páginas de seu livro desses acenos indecisos a uma justificação transcendente, dessas exigências de absoluto, desses apelos, enfim, ao “elemento espiritual”, à “mística criadora”, que virá fundir e elevar os aspectos contraditórios de nossa existência. Esse recurso a uma justificação espiritual não é inédito, dele compartilha toda uma classe de pensadores novos com os quais o autor destes Estudos apresenta importantes afinidades. É um processo que não deixa de evocar a fórmula que presidiu à elaboração das grandes Summas medievais. Apenas com esta diferença que nelas o que existia era uma fé em busca de suas justificações, de suas razões ― fides quaerens intellectus ― quando, no caso presente, será antes uma inteligência que quer se apoiar numa base emocional. O Sr. Tristão de Athayde limita-se a inverter o problema que se ofereceu ao doutor Angélico.
Não é admirável, diante disso, nem espantoso, que se incline com insistência para o ponto de vista do catolicismo. O que seria a nós pelo menos interessante é, ao contrário, se não tivesse percebido que a concepção católica do mundo coincide perfeitamente com sua exigência de uma solução dos elementos anárquicos do cristianismo nos princípios que criam e que alimentam a ordem civil, a moral urbana, de uma pacificação impossível do espiritual com o temporal. Nenhuma outra doutrina conviria tão plenamente a um homem que aspira a organizar a sua desordem neste mundo sem recusar subvenções do outro mundo. E que, mesmo independente delas, aí não vierem, desejaria “restabelecer um equilíbrio da vida, disciplinar os demônios da liberdade”.
Agora já se desenha com maior nitidez o problema que o Sr. Tristão de Athayde se propôs resolver ou dirigir para uma solução. Ele pensa que temos ido muito longe no que chama o caminho das diluições. “Chegamos inconscientemente”, diz um trecho admirável de seu Schema, “àquele mesmo estado de virgindade intelectual em que Descartes voluntariamente se colocou.” Realmente nada há tão expressivo da situação a que nos conduziu a desestima sempre mais acentuada em que de há três séculos para hoje vem caindo a dignidade dos valores tradicionais. A propósito, eu poderia citar aqui a explicação que nos dá o escritor francês Mauriac da atual decadência do romance, quando mostra que, para os moços de hoje, em consequência desse descrédito em que caíram todos os valores, já não existem mais conflitos.
Nietzsche chegou a propor o niilismo de seu tempo como prefácio a uma coisa a que chamava de cultura trágica. Seria uma cultura onde a sabedoria, insensível às diversões capciosas da ciência, abraçasse com um olhar imutável todo o quadro do universo e, nessa contemplação, procurasse ressentir o sofrimento eterno com compaixão e com amor, fazer seu o sofrimento eterno. Mas Nietzsche lutava com fervor pelo abandono desses valores e queria mais a recusa das diversões capciosas da ciência. De tudo isso enfim que o Sr. Tristão de Athayde deseja precisamente resguardar, integrar e acentuar em seu projeto de solução, quando nos propõe que se substituam princípios permanentes de construção ao niilismo ou elementarismo de nossos dias. Princípios de construção que só poderão ser justamente esses valores tradicionais que nossa época já não digere.
Estamos, pois, diante desse fenômeno bem característico deste tempo: um tradicionalismo que intimamente descrê das tradições, um dogmatismo que, no fundo, é um ceticismo e, por mais absurdo que possa parecer, um racionalismo que quer ser ao mesmo tempo um misticismo. Ele não compreende, ou não quer compreender, ou finge não compreender, que existe uma censura, uma disjunção fundamental entre o Espírito e a Terra ou, para de suas próprias expressões, entre o “plano das verticalidades” e o “plano das horizontalidades”. Toda a conciliação que se propuser entre esses dois planos não será outra coisa que um hibridismo insólito, uma aglutinação superficial, jamais uma combinação íntima e suscetível de permanência. Não se pode mais hoje, como no tempo de Santo Agostinho, ser ao mesmo tempo e simultaneamente um cidadão do céu e da terra. E o pensamento que realmente quiser importar para a nossa época há de se afirmar sem nenhum receio pelos seus reflexos sociais, por mais detestáveis que estes pareçam. Há de ser essencialmente um pensamento apolítico.
É o que não ousa desejar o Sr. Tristão de Athayde com os seus princípios de construção. E, assim, crente, descrente, dogmático e ao mesmo tempo cético, sem nenhum ponto de apoio cuja solidez ou cujo prestígio lhe mereçam crédito, prefere ao heroísmo dos que se importam com a verdade sem nenhuma preocupação pelas conveniências, este outro heroísmo bem menos considerável de exaltar o ponto de partida a que já é impossível tornar impunemente. E é dessa posição teórica, insustentável e antinatural que o Sr. Tristão de Athayde retirou os tijolos para construir um dogmatismo necessariamente ilusório. Esse instrumento ilegítimo é que utiliza para combater os “homens de antes da guerra”, os “dinamistas” e os partidários de um “primitivismo” entre os quais eu próprio, a meu pesar, me vejo colocado...
Esperei poder falar das excelências deste livro do Sr. Tristão de Athayde; limitei-me a dizer, desajeitadamente, que não poderia considerar de modo diverso uma obra e uma personalidade que eu admiro e que desejaria fossem realmente importantes, fossem imprescindíveis para nossa geração e nosso tempo.

Jornal do Brasil, RJ, 29.09.1928.

Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Organização e introdução Francisco de Assis Barbosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 111-115.

P.S. Esse texto teve como “resposta” o ato público de conversão ao catolicismo de Alceu Amoroso Lima, “Adeus à disponibilidade”, cujo subtítulo foi “Carta a Sérgio Buarque de Holanda” (escrita ao que consta em 1929). Segue um pequeno trecho: “Não vou fazer a você nenhuma dessas narrativas íntimas, que nos primeiros anos da adolescência tanto lisonjeiam nossas vaidades, quando julgamos que os homens realmente se interessam por aquilo que para nós é um problema de vida ou morte. Quero apenas dizer-lhe que não ignoro o que há de irresistível na engrenagem sutil das demissões de nosso próprio eu. Da mesma forma que não ignoro quanto há de delicioso e de confortável na eterna recusa de compromissos. E quanto a beleza foge aos gestos precisos. E quanto a verdade parece ganhar com a ilimitação. E quanto a vida é mais mansa ao sabor dos ventos. E quanto... Mas chega o momento em que sentimos, como você bem sabe, o que excede de nós e não apenas a necessidade do que excede de nós. Vemos então, com outros olhos, os anos de luta para mantermos a disponibilidade gidiana, para guardarmos, não apenas a serenidade mas ao menos a irresponsabilidade do diletantismo ou da incessante evanescência de todos os contrários pelos semelhantes, de todos os semelhantes pelos contrários...” (ATHAYDE, Tristão de. No limiar dos cruzamentos. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, Ano 3, n. 6, p. 120, 1987. Número especial dedicado a Sérgio Buarque de Holanda.)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bandeira

Nietzschiana

― Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
― Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.

Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 162.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Nietzsche e a linguagem - um trecho de "Humano, demasiado humano"

“A importância da linguagem para o desenvolvimento da cultura está em que nela o homem estabeleceu um mundo próprio ao lado do outro, um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar seu senhor. Na medida em que por muito tempo acreditou nos conceitos e nomes de coisas como aeternae veritates [verdades eternas], o homem adquiriu esse orgulho com que se ergueu acima do reino animal: pensou realmente ter na linguagem o conhecimento do mundo. O criador da linguagem não foi modesto a ponto de crer que dava às coisas apenas denominações, ele imaginou, isto sim, exprimir com as palavras o supremo saber sobre as coisas; de fato, a linguagem é a primeira etapa no esforço da ciência.” (NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 21).

o perspectivismo em Nietzsche

Assim Renarde Freire Nobre apresenta o perspectivismo em Nietzsche: “Nietzsche formula sua crítica ao conhecimento conforme sua dimensão fenomenal, como o faz com todas as demais representações que figuram na consciência. Acontece que o fenomenalismo nietzschiano possui bases e segue percursos bem distintos do lado kantiano. Em uma imagem, quando Kant olhou para o horizonte longínquo que se instala no encontro do ‘céu com o mar’, ele chamou de mundo sensível toda a extensão abrangida pelo intelecto ligada à experiência; a partir desse ponto, ele chamou o que não se explica de mundo supra-sensível, o domínio do noumeno (a coisa-em-si). Nietzsche recusou a distinção entre mundos ou faculdades humanas, mesmo supondo relações entre eles. Para ele, não há o pensar, o sentir e o desejar como domínios exclusivos e separados; todo conhecer é tão-só um horizonte provisório e mutável de forças que, por transformação e corporificação, fazem-nos seres desejosos, sensíveis e pensantes. Mais precisamente, para ele a elaboração do pensamento estava subordinada aos impulsos, simplesmente porque só se pensa a partir de impulsos, sendo os fenômenos da consciência expressão de impulsos incorporados, sintomatologias espirituais que se apresentam como ajustes (jogos de domínios) entre impulsos diferenciados. Ou seu fenomenalismo é, mais originalmente, um perspectivismo de afetos. Não que os impulsos exatamente pensem; a melhor imagem é a de que na base dos pensamentos que se tornam conscientes há jogos impulsivos. [...] Os pensamentos, tal como eles se apresentam à consciência, são perspectivas que se baseiam fundamentalmente na memória e no uso dos recursos da linguagem, como as metáforas e as metonímias. Mas o homem é, antes de tudo, um campo sensitivo, natureza e desrazão. Tudo o que se processa como pensamento (palavras, ideias, imagens) encontra-se, de uma maneira ou de outra, afetado pela rede de nossas sensibilidades e dos impulsos mais recônditos de nosso ser, como condições últimas de nossa capacidade de simbolização. Os afetos corporais e as impressões subjetivas têm uma inscrição visceral e indelével no pensamento. [...] O pensar nunca designa uma transcendência, mas uma serie de perspectivas simbólicas em uma cadeia de perspectivas afetivas muito mais indecifráveis do que as materializações mentais.” (NOBRE, Renarde Freire. Perspectivas da razão: Nietzsche, Weber e o conhecimento. Belo Horizonte: Argumentum Editora, 2004, p. 57-58)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Raízes do Brasil: o homem cordial

"Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade - daremos ao mundo o 'homem cordial'. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter do brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados pelo meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar 'boas maneiras', civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilização há qualquer coisa de coercitivo - ela pode exprimir-se em mandamentos e em sentenças. Entre os japoneses, onde, como se sabe, a polidez envolve os aspectos mais ordinários do convívio social, chega a ponto de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa. (...) // Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência - e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no 'homem cordial': é a forma natural e viva que se converteu em fórmula. Além disso a polidez é, de alguma forma, organização de defesa ante a sociedade. Detém-se na parte exterior, epidérmica do indivíduo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência. Equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar inatas sua sensibilidade e suas emoções. // (...) No 'homem cordial', a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro - como bom americano - tende a ser a que mais importa. Ela é antes um viver nos outros. Foi a esse tipo humano que se dirigiu Nietzsche, quando disse: 'Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro'. " (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 146-147.)