Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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sábado, 17 de março de 2012
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
a vida secreta da... vida
No mais elementar da natureza, beleza e indícios de uma complexidade no mínino subestimada, quando não até então insuspeitada, afinal, plantas são mudas. No topo da natureza... a guerra nossa de cada dia. Destila-se o veneno de sempre, mediante sofisticados sinais e emissões de fumaça forjados no mais sofisticado sistema de linguagem conhecido. E continuamos a afugentar com círculos de substâncias adstringentes.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Luiz Alberto Oliveira: o nome da rosa
Passei a ter outros olhos para a questão da vastidão cósmica, e portanto do nosso nada, ou pouco mais que nada, como quer uma amiga, depois de assistir a uma conferência do físico Luiz Alberto Oliveira, de longe a conferência mais interessante a que já assisti. O que ele disse de especial? Tudo que alguém precisa saber para saber que é ninguém, ou melhor, que ninguém é melhor (ou pior) que ninguém. Encerrou com um texto de Jorge Luis Borges. Numa entrevista, à pergunta sobre como dialogam as ciências humanas, a biologia e a física na atualidade, respondeu que como viajantes noturnos no deserto, que passam bem ao lado um do outro sem se encontrar, o que só pode dar Borges, como quis Umberto Eco para O nome da rosa (assim as dívidas se pagam). Borges e seus desertos labirínticos, ou labirintos desérticos. Aqui a súmula da conferência.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
hoje na aula
Vai que me empolguei numa turma hoje... 6º ano. Nunca pensei que pudesse gostar tanto de trabalhar com esse público. Há alguma coisa de muito interessante nessa idade, um frescor inconfundível. Fui falar sobre linguagem, e aí tangenciei a questão da diferença entre o falar humano, a língua, e o que se chama de linguagem dos animais. Isso porque o 6º ano percorre vários tipos de narrativas com animais personificados. Então comecei a desenvolver um raciocínio que me levou a isso: a evolução da capacidade de emitir sons articulados a partir de grunhidos ancestrais foi algo que se fez contra as leis da biologia; então nossos ancestrais, ao assumirem a postura bípede, não só liberaram as mãos para as mais diferentes atividades como a própria postura bípede levou ao aguçamento da visão: dois fatores decisivos para o excepcional desenvolvimento alcançado pelo nosso cérebro, e a própria postura bípede, junto a esses outros fatores, colocou os ancestrais do homem (já seria o homem?) frente a frente, de forma que o desenvolvimento da linguagem se impôs. Aí eu disse que nós tínhamos conquistado muito: as mãos, a visão, o excepcional desenvolvimento do cérebro e a capacidade de emitir sons articulados que fazem sentido, e que isso era muito precioso, um tesouro a nosso dispor. Enquanto falava, acreditava muito no que dizia (apesar do componente de ficção/imaginação em torno da evolução biológica do homem), como se dissesse: olhem a riqueza que vocês têm, que nós temos: nós temos a linguagem (e concomitantemente levava a mão à garganta, como se ali estivesse a "fonte" da linguagem). Mas usamos isso também para o mal: nós usamos mal o que temos de bom, eu disse. Eu queria dizer que eles tinham em mãos algo muito precioso, mas falava isso para mim também.
sábado, 1 de janeiro de 2011
alucinógenos, misticismo, literatura, ciência...
Eu não sei se entendo isso que li, nem mesmo se deveria levar tão a sério uma revista de divulgação científica, haja vista que divulgar traz em si a incômoda palavra vulgar. Mas é que o tema é pertinente, e num certo sentido caro a todos que prestaram minimamente atenção à palavra espiritualidade: a possibilidade da experiência mística, de que sempre receio falar, por perceber estar adentrando terreno delicado. Mas já que comecei, vou adiante, pois comecei justamente porque iria adiante. Então reproduzo o trecho final da matéria, relatando experiências científicas com alucinógenos que teriam produzidos estados místicos. A ciência penetrando o imponderável:
“A visualização das áreas do cérebro envolvidas nas emoções e pensamentos intensos que as pessoas têm sob a influência das drogas dará uma janela para a psicologia por trás das experiências místicas produzidas pelos alucinógenos. Pesquisas adicionais também poderão trazer abordagens não farmacológicas mais eficientes se comparadas às práticas espirituais tradicionais, como meditação ou jejum para produzir experiências místicas e mudanças comportamentais desejadas. [...] As experiências místicas podem originar um senso profundo e duradouro da interconexão entre pessoas e coisas ― perspectiva que está por trás dos ensinamentos éticos das tradições religiosas e espirituais. Assim, uma compreensão da biologia dos alucinógenos clássicos poderia ajudar a esclarecer os mecanismos por trás do comportamento ético e cooperativo humano ― conhecimento que, acreditamos, poderá vir a ser crucial para sobrevivência da nossa espécie.” A matéria é da edição de janeiro de 2011, e pode ser encontrada aqui.
O problema, a meu ver, está, como sempre, não nos meios, mas nos fins de tais pesquisas, que podem jogar na direção da domesticação de algo potencialmente libertador: o que estaria pressuposto em “mudanças comportamentais desejadas”? Outros termos e expressões também não deixam de levantar suspeita. Mas...
Mas há um depoimento do escritor Paulo Mendes Campos, uma espécie de Clarice Lispector em trajes masculinos, em que ele relata justamente a experiência libertadora que conheceu com os alucinógenos ― não tão longe da ciência, perto de coisas de que talvez eu pouco suspeite. Essa experiência do escritor foi divulgada pelo próprio: “No Brasil, foi Paulo Mendes Campos quem melhor descreveu o efeito de drogas alucinógenas na percepção individual. Influenciado por Adouls Huxley, que havia publicado o célebre As portas da percepção, o poeta mineiro tomou ácido lisérgico sob supervisão médica de um amigo e escreveu um límpido relato sobre o evento, descrevendo suas alterações de tempo, sua capacidade de observar cores e a tonalidade das vozes das pessoas. ‘Experiências com LSD’, de 1962, foi republicado em vários livros do autor e tem algumas conclusões psicológicas que são poesia pura. Por exemplo: “Não existem ruídos lancinantes. Nós é que somos lancinantes” (do site Tanto). Vou procurar... o relato!
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Jean-Pierre Dupuy: "A fabricação do homem e da natureza"
Creio que já falei dessa conferência em algum post, perdido num recanto qualquer. Ontem me lembrei dela novamente, de como, a partir de uma fala inicial sobre nanotecnologias, Jean-Pierre Dupuy termina por especular sobre o imponderável que assinala cada pessoa, recorrendo a um mito grego para chegar a uma fala interessantíssima sobre o amor. Não só as nanotecnologias, mas todos os processos de fabricação do homem (e da mulher), do botox ao photoshop. A conferência pode ser acessada aqui ou aqui.
P.S. Não julgo possível estar imune a esses processos, no máximo se consegue algum distanciamento em relação a eles, em especial que isso tudo vem a par da leitura do fantástico texto O banqueiro anarquista e sua teoria das ficções sociais. Assunto para outro post.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
sábado, 11 de dezembro de 2010
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
hoje acordei com vontade de ciência, grandes imensidões, vazios
Além da beleza de tudo, me agradou deveras a introdução com a música do Pink Floyd, "Shine On You Crazy Diamond".
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