Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 4 de setembro de 2010
Antonio Candido: Dialética da malandragem
Fernando Pessoa
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
se eu seria personagem
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Emily Dickinson
Emily Dickinson
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Fernando Pessoa (para o L A)
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
um poema de Walt Whitman
João Cabral de Melo Neto
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Graciliano Ramos e os modernistas de 22
Emily Dickinson
Luiz Ruffato
não posso declinar o nome dele, entende?, ele é muito conhecido, vira e mexe tem retrato dele no jornal, a cara dele aparece na televisão, ele é do interior, montado no dinheiro, parece que tem negócio com café, ele manda eu pegar o carro na quinta-feira, o carro dele, o Pajero, não o oficial, da Assembleia, e eu vou numa casa da Moema, o endereço eu não dou, pode causar problema, mas é uma casa muito decente, não tem nem nome na fachada, quem passa por lá, do lado de fora, nem desconfia, aí eu ponho três mulheres pra dentro, das melhores, só universitária, eu sei porque eu é que pago, passo antes no banco, boto dinheiro vivo no bolso, o velho não é bobo, está com quase setenta, mas otário não é, uma vez levei até uma que era capa da revista Sexy, não sei se você conhece, o deputado olhou e falou, essa menina frequenta lá, vê se traz ela, eu levei, puta-que-pariu!, precisava ver que mulherão!, eu carrego elas prum hotel ali na Alameda Santos, o nome não digo, pode dar problema, o deputado é conhecido, deus me livre de rolo!, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco e aí quem se fode é o bestão aqui, aí deixo elas no hotel, o gerente já sabe, suíte presidencial, e me mando pra Vila Madalena, tem uma bicha lá que agencia rapazes, sempre gente diferente, aí três caras entram no carro e levo eles pro hotel também, nisso estou ligando do celular pro disque-cocaína, um serviço que tem um motoboy que entrega o troço em mãos e discretamente, mas não é pro deputado não, que ele é contra as drogas, é mais caro, mas ele fala que dinheiro não é problema, e nessa altura já providenciei também o uísque dele, só coisa fina, escocês, porque o deputado fica puto com esse negócio de Jack Daniels, diz ele que isso é coisa de americano, e ele odeia os americanos, a cocaína é pras meninas e pros caras, mas o deputado não obriga ninguém não, cheira quem quer, o uísque eu compro de um chegado meu, que traz do Paraguai, sai bem mais em conta, só coisa de primeira, dezoito anos, rótulo azul, cheguei a arrumar maconha pra uma menina uma vez, no carro ela me pediu, falou que não cheirava nem gostava de beber, que preferia fumar maconha antes, pra dar coragem, porque não apreciava aqueles programas, fazia por necessidade, pra pagar a faculdade, bom, todas elas falam isso, quer dizer, todas não, tem algumas que gostam de sacanagem, eu conheci umas que é só olhar pra cara delas que a gente já percebe que o negócio delas é putaria, bom, aí eu deixo todo mundo lá na suíte presidencial, bem à vontade, verifico os cinzeiros, o deputado detesta cigarro, mas a maioria do povo hoje fuma, ele tolera, vejo se os copos estão limpos, as tolhas, o deputado não confia em ninguém, só em mim, aí ele chega, senta pelado numa poltrona, o copo de uísque na mão, aí eu saio, tranco a porta, e fico no hall do hotel conversando com o barman, que é meu amigo, e ele sempre especula que merda é aquela lá em cima e eu sempre digo que não sei e nem quero saber, porque não tenho nada com isso e a gente fica então conversando sobre política, que é um assunto que eu gosto e ele também.
RUFFATO, Luiz. eles eram muitos cavalos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001, p. 107-109.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
texto de Paulo Leminski acerca da adaptação de "Grande sertão: veredas" para a TV
"It’s not dark yet, but it’s getting there" - Bob Dylan
It’s too hot to sleep, time is running away
Feel like my soul has turned into steel
I’ve still got the scars that the sun didn’t heal
There’s not even room enough to be anywhere
It’s not dark yet, but it’s getting there
Behind every beautiful thing there’s been some kind of pain
She wrote me a letter and she wrote it so kind
She put down in writing what was in her mind
I just don’t see why I should even care
It’s not dark yet, but it’s getting there
I’ve followed the river and I got to the sea
I’ve been down on the bottom of a world full of lies
I ain’t looking for nothing in anyone’s eyes
Sometimes my burden seems more than I can bear
It’s not dark yet, but it’s getting there
I know it looks like I’m moving, but I’m standing still
Every nerve in my body is so vacant and numb
I can’t even remember what it was I came here to get away from
Don’t even hear a murmur of a prayer
It’s not dark yet, but it’s getting there
