Talvez, no enunciado “estou sofrendo...”, a questão
não seja alterar o verbo, mas a pessoa do discurso, pois o “eu” parece imperar
absoluto no reino do sofrimento. Não se trata de mudar de domínio: enquanto
houver “eu” haverá sofrimento. “O eu faz parte das coisas que é preciso
dissolver”. (Deleuze, A ilha deserta,
p.249).
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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terça-feira, 8 de outubro de 2013
quarta-feira, 24 de julho de 2013
segunda-feira, 3 de junho de 2013
"o homem não é a medida de todas as coisas" (o pensamento de Spinoza)
“Nossos valores, nossas noções testemunham, por assim
dizer, sobre nós, não sobre a natureza das coisas; expressam as maneiras como
somos afetados pelas coisas e como reagimos a elas, mas não podem explicar o
real ou servir à compreensão da natureza, a não ser por obra da superstição ou
do preconceito ou até de um racionalismo desembestado que desejasse meter a
natureza no cubículo da razão humana.”
Homero Santiago. Spinoza: superstição e ordem moral
do mundo. In: MARTINS, André (Org.). O
mais potente dos afetos: Spinoza e Nietzsche. São Paulo: Martins Fontes,
2009, p.211.
sábado, 24 de novembro de 2012
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
domingo, 19 de agosto de 2012
sobre as ilhas desertas (deleuze)
“A ideia de uma segunda origem dá todo seu sentido à ilha
deserta, sobrevivência da ilha santa num mundo que tarda para recomeçar. No
ideal do recomeço há algo que precede o próprio começo, que o retoma para
aprofundá-lo e recuá-lo no tempo. A ilha deserta é a matéria desse imemorial ou
desse mais profundo.”
DELEUZE, Gilles. A ilha deserta e outros textos.
Org. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Iluminaras, 2006, p.22.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
foucault citando um historiador
“Nos nossos dias ― disse em 1960 ― a
saúde substituiu a salvação.” FOUCAULT,
Michel. Nietzsche, Freud e Marx. Theatrum
Philosoficum. Trad. Jorge Lima Barreto. Porto: Anagrama, 1980, p.34.
terça-feira, 12 de junho de 2012
um mergulho no rio da vida
“A observação imediata de si está longe de ser suficiente para aprender a se conhecer: precisamos de história, pois o passado continua a correr em nós em cem ondas; nós próprios nada somos senão aquilo que sentimos dessa correnteza a cada instante. Até mesmo aqui, se quisermos entrar no rio de nosso ser aparentemente mais próprio e mais pessoal, vale a proposição de Heráclito: não se entra duas vezes no mesmo rio. ― Essa é uma sabedoria que pouco a pouco se tornou amanhecida, mas apesar disso permanece tão forte e tão substanciosa quanto outrora (...).”
NIETZSCHE, Friedrich W. Obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. 3.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p.138-139. Coleção Os Pensadores.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
um poema de Bob Dylan citado por Deleuze
Sim, sou um ladrão de pensamento não, por favor, um
ladrão de almas
eu construí e reconstruí
sobre o que está à espera
pois a areia nas praias
esculpe muitos castelos
no que foi aberto
antes de meu tempo
uma palavra, uma ária, uma história, uma linha
chaves no vento para que minha mente fuja
e fornecer a meus pensamentos fechados uma corrente de ar fresco
não é coisa minha, sentar e meditar
perdendo e contemplando o tempo
pensando pensamentos que não foram pensados
pensando sonhos que não foram sonhados,
ideias novas ainda não escritas,
palavras novas que seguiriam a rima...
e não ligo para as novas regras
já que elas ainda não foram fabricadas
e grito o que soa em minha cabeça
sabendo que sou eu e os de minha espécie
que faremos essas novas regras,
e se as pessoas de amanhã
tiverem realmente necessidade das regras de hoje
então juntem-se todos, procuradores generais
o mundo não passa de um tribunal
sim
mas conheço os acusados melhor que vocês
e enquanto vocês se ocupam em julgá-los
nós nos ocupamos em assobiar
limpamos a sala de audiência
varrendo varrendo
escutando escutando
piscando os olhos entre nós
atenção atenção
sua hora há de chegar
(daqui)
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