Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 8 de outubro de 2013

eu, eu, eu...

Talvez, no enunciado “estou sofrendo...”, a questão não seja alterar o verbo, mas a pessoa do discurso, pois o “eu” parece imperar absoluto no reino do sofrimento. Não se trata de mudar de domínio: enquanto houver “eu” haverá sofrimento. “O eu faz parte das coisas que é preciso dissolver”. (Deleuze, A ilha deserta, p.249).

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"o homem não é a medida de todas as coisas" (o pensamento de Spinoza)

“Nossos valores, nossas noções testemunham, por assim dizer, sobre nós, não sobre a natureza das coisas; expressam as maneiras como somos afetados pelas coisas e como reagimos a elas, mas não podem explicar o real ou servir à compreensão da natureza, a não ser por obra da superstição ou do preconceito ou até de um racionalismo desembestado que desejasse meter a natureza no cubículo da razão humana.”

Homero Santiago. Spinoza: superstição e ordem moral do mundo. In: MARTINS, André (Org.). O mais potente dos afetos: Spinoza e Nietzsche. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p.211.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

corpo

“Como ter a força de estar à altura da própria fraqueza*, ao invés [em vez] de permanecer na fraqueza de cultivar apenas a força?” Peter Pál Pelbart (aqui).
* fraqueza ou fragilidade?

domingo, 19 de agosto de 2012

sobre as ilhas desertas (deleuze)

“A ideia de uma segunda origem dá todo seu sentido à ilha deserta, sobrevivência da ilha santa num mundo que tarda para recomeçar. No ideal do recomeço há algo que precede o próprio começo, que o retoma para aprofundá-lo e recuá-lo no tempo. A ilha deserta é a matéria desse imemorial ou desse mais profundo.”

DELEUZE, Gilles. A ilha deserta e outros textos. Org. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Iluminaras, 2006, p.22.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

foucault citando um historiador

“Nos nossos dias ― disse em 1960 ― a saúde substituiu a salvação.”  FOUCAULT, Michel. Nietzsche, Freud e Marx. Theatrum Philosoficum. Trad. Jorge Lima Barreto. Porto: Anagrama, 1980, p.34.

terça-feira, 12 de junho de 2012

um mergulho no rio da vida

“A observação imediata de si está longe de ser suficiente para aprender a se conhecer: precisamos de história, pois o passado continua a correr em nós em cem ondas; nós próprios nada somos senão aquilo que sentimos dessa correnteza a cada instante. Até mesmo aqui, se quisermos entrar no rio de nosso ser aparentemente mais próprio e mais pessoal, vale a proposição de Heráclito: não se entra duas vezes no mesmo rio. ― Essa é uma sabedoria que pouco a pouco se tornou amanhecida, mas apesar disso permanece  tão forte e tão substanciosa quanto outrora (...).”

NIETZSCHE, Friedrich W. Obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. 3.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p.138-139. Coleção Os Pensadores.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

um poema de Bob Dylan citado por Deleuze

Sim, sou um ladrão de pensamento não, por favor, um 
ladrão de almas 
eu construí e reconstruí  
sobre o que está à espera  
pois a areia nas praias  
esculpe muitos castelos  
no que foi aberto  
antes de meu tempo  
uma palavra, uma ária, uma história, uma linha 
chaves no vento para que minha mente fuja  
e fornecer a meus pensamentos fechados uma corrente de ar fresco 
não é coisa minha, sentar e meditar  
perdendo e contemplando o tempo  
pensando pensamentos que não foram pensados  
pensando sonhos que não foram sonhados,  
ideias novas ainda não escritas,  
palavras novas que seguiriam a rima... 
e não ligo para as novas regras  
já que elas ainda não foram fabricadas  
e grito o que soa em minha cabeça  
sabendo que sou eu e os de minha espécie  
que faremos essas novas regras,  
e se as pessoas de amanhã 
tiverem realmente necessidade das regras de hoje  
então juntem-se todos, procuradores generais  
o mundo não passa de um tribunal  
sim  
mas conheço os acusados melhor que vocês 
e enquanto vocês se ocupam em julgá-los  
nós nos ocupamos em assobiar  
limpamos a sala de audiência  
varrendo varrendo  
escutando escutando  
piscando os olhos entre nós  
atenção atenção  
sua hora há de chegar