Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sexta-feira, 31 de julho de 2015

...que seria do amarelo?

Sou essencialmente melancólica — a vida me parece quase sempre um circo trágico. Ao mesmo tempo, coexistindo com isso, tenho um senso de humor constante, que me faz rir do que em princípio poderia parecer sem graça. Exemplo? Certas passagens de Machado de Assis, como esta, de “O alienista”: “Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo?” Machado está falando de uma coisa séria, e de repente introduz uma comparação que quebra a seriedade do tema e confirma a falta de sentido da ciência do alienista, comparação que é, também, muito próxima do senso comum. Deve ser isso que faz rir, produz a comicidade. E também imaginar o próprio Machado escrevendo isso, pilheriando com o leitor.

terça-feira, 5 de março de 2013

vidas passadas

Quando procurei a terapia de vidas passadas, movida entre outros por uma intensa curiosidade a respeito, as coisas não deram muito certo, a rigor nem chegaram a acontecer: nunca fiz uma sessão de regressão. Mas agora, já distanciada, percebo que não preciso voltar além-útero. Há muitas vidas passadas na própria vida, nesta existência, a única concreta de que tenho conhecimento. E nessas vidas passadas de minha vida eu talvez não tenha sido eu: cada uma dessas vidas encerrou um eu com um liame de continuidade com o presente dado pela memória, pelo esforço de se reconhecer uno, único, o mesmo sujeito de uma só história ao longo de uma única existência, cuja vida daria um romance. Mas se no presente eu não me sinto una, quem dirá nas muitas edições da vida, como quis Brás Cubas. Dito isso, sinto que se eu quisesse resgatar e me reconhecer numa dessas edições, seria a infância e juventude, em que os prazos eram mais dilatados, havia um repouso muito grande em viver, em vez dessa urgência, dada pela vertigem de um hoje caótico, de responder a (e resolver) todas as questões: estas iam e vinham, até que uma hora, quando as condições permitiam, iam de vez. Assim se foi, por exemplo, minha asma.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

memórias póstumas de brás cubas: um narrador cruel e cético

CAPÍTULO XIII / UM SALTO

UNAMOS agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos.
Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada, a palmatória, e ainda assim... Ó palmatória, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é a mestra das últimas letras; com a diferença que tu, se me metias medo, nunca me meteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote, lenço na mão, calva à mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois à lição. E fizeste isto durante vinte e três anos, calado, obscuro, pontual, metido numa casinha da Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ninguém te chorou, salvo um preto velho — ninguém, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.
Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta página: Ludgero Barata — um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das calças, — umas largas calças de enfiar —, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os últimos nomes: éramos sevandijas, capadócios, malcriados, moleques. Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.
[...] 

Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo, 2008, p.70-72.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

um acaso

O acaso, esse misterioso senhor, ajuda a tecer enredos ou está inscrito neles? Quando Machado de Assis, nas Memórias póstumas, referiu-se ironicamente ao pobre destino como grande procurador dos negócios humanos, pilheriava, com seu ceticismo, qualquer esforço de transcendência que alguém pudesse fazer, afinal nosso único legado seria a miséria ― naturalmente tinha em mira a miséria espiritual. Acontece que hoje o acaso me foi bastante generoso, sem eu precisar imaginar uma mão oculta do destino. O que preciso, mesmo, é escrever sobre isso, sobre qualquer coisa que me soe com um sentido diferente do previsível, que possa inclusive contrariá-lo. 

sábado, 5 de novembro de 2011

formas breves

“E, para começar, emendemos Sêneca. Cada dia, ao parecer daquele moralista, é, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Não digo que não; mas por que não acrescentou ele, que muitas vezes uma hora é a representação de uma vida inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambição, uma pasta de ministro, um banco, uma coroa de visconde, um báculo pastoral. Aos cinquenta anos, vamos achá-lo simples apontador de alfândega, ou sacristão da roça. Tudo isso que se passou em trinta anos, pode algum Balzac metê-lo em trezentas páginas; por que não há de a vida, que foi a mestra de Balzac, apertá-lo em trinta ou sessenta minutos?”

Machado de Assis. O empréstimo. 50 contos de Machado de Assis. Org. John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.138-139. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

limpando os óculos

CAPÍTULO XXXIV 
A UMA ALMA SENSÍVEL

HÁ aí, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível, que está decerto um tanto agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! Esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Smirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos ― que isso às vezes é dos óculos ―, e acabemos de uma vez com esta flor da moita.

Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo, 2008, p.113-114.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

agulha, linha e alfinete

[...]
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
― Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
― Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

ASSIS, Machado de. Um apólogo. __. 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.367.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Machado de Assis segundo Sérgio Buarque de Holanda

“Comparado ao de Pascal, o mundo de Machado de Assis é um mundo sem começo, sem Paraíso. De onde uma insensibilidade incurável a todas as explicações que baseiam no pecado e na queda a ordem em que foram postas as coisas no mundo. Seu amoralismo tem raízes nessa insensibilidade fundamental. A lei moral nasce de uma demagogia caprichosa e insípida, boa para confortar a vaidade humana. Nossos atos não têm um fim determinado e o espetáculo que oferece a agitação dos homens dá a mesma sensação que dão os discursos de um doido. De onde também esse fato que, para a interpretação da obra de Machado de Assis, tem suma importância: seu mundo não conhece a tragédia. Ou melhor, nele, o trágico dissolve-se no absurdo e o ridículo tem gosto amargo.” Mais adiante: “Na ideia de um mundo absurdo ― não trágico, mas absurdo ― somado a esse sentimento de penúria encoberto pela ironia, é que, segundo me parece, devem ser procuradas as origens do humour de Machado de Assis.”

HOLANDA, Sérgio Buarque de. A filosofia de Machado de Assis. ___. O espírito e a letra. Estudos de crítica literária I, 1920-1947. Org. Antonio Arnoni Prado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p.305-312. [Publicado originalmente em 1940, Diário de Notícias - RJ]

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Queda que as mulheres têm para os tolos - edição Unicamp (trecho)


A pesquisadora Ana Cláudia Suriani da Silva propôs uma versão bilíngue para o texto Queda que as mulheres têm para os tolos, uma tradução de Machado de Assis para De l’amour des femmes pour les sots, de Vicro Hénaux. Já foi postado aqui a parte inicial do texto, conforme editado por Oséias Silas Ferraz.  Segue o mesmo trecho conforme edição da Unicamp. 


ADVERTÊNCIA

Este livro é curto, e talvez devera sê-lo mais.
Desejo que ele agrade, como me sai das mãos; mas é com pesar que me vanglorio por esta obra.
Falar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por inimigas a maioria de um e outro sexo?
Diz-se que a matéria é rica e fecunda; eu acrescento que ela tem sido tratada por muitos. Se tenho, pois,  a pretensão de ser breve, não tenho a de ser original.
Contento-me em repetir o que se disse antes de mim; minhas páginas conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escritos. Propriamente falando, é uma comparação científica, e eu obteria a mais doce recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se inspirasse aos leitores a idéia de aprofundar um tão importante exemplo.
Quanto à imparcialidade que presidiu a redação deste trabalho, creio que ninguém a porá em dúvida.
Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espírito, é com um desinteresse, cuja extensão facilmente se compreenderá.



QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS

  Il est des nouds secrets, Il est des sympathies.


I


Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em matéria de fazendas, pérolas e rendas, e que, desde que adotam uma fita, deve-se crer que a essa escolha presidiram motivos plausíveis.
Partindo deste principio, entraram os filósofos a indagar se elas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.
Muitos duvidaram.
Alguns emitiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituído por outro, não tinha esse outro senão o mérito de ter chegado antes do terceiro.
Permaneceu por muito tempo este sistema irreverente.
Hoje, graças a Deus, a verdade se descobriu: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nele a preciosa qualidade que procuram.
Essa qualidade é... a toleima!


HÉNAUX, Victor. Queda que as mulheres têm para os tolos. Trad. Machado de Assis. Estabelecimento do texto Ana Cláudia Suriani da Silva. Campinas, SP: Ed. Unicamp, 2008, p.41-47.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Machado de Assis: memória de uma leitura difícil

Nada me fez tanto mal quanto ler Machado de Assis (nem mesmo Kafka), mas foi um mal necessário. Refiro-me a Memórias póstumas de Brás Cubas. Na primeira vez que li o livro, informada pelos valores da igreja católica, não vi nada além da órbita moral: havia seres egoístas no mundo, dos quais era melhor se precaver. Da segunda vez que li, cerca de cinco ou seis anos depois, e já evadida da igreja, recebi em cheio a porrada que esse livro é, sem dó nem piedade, e odiei Machado de Assis. Como era possível aquele aviltamento todo, para não dizer total, da condição humana? Ninguém escapava. Eu seria como aquele verme que, não obstante todos os sofrimentos, ainda assim desejava viver? Foi assim que li o livro, ou que o livro me leu. Da terceira vez, já refeita da refrega, e a estudar para a prova do mestrado, li pelas lentes de Roberto Schwarz, a coisa do mestre na periferia do capitalismo, e percebi alguma redenção possível, além das flores do mal, conspícuas ao longo da trama. Hoje, se pegasse o livro de novo, talvez desse boas risadas do ridículo daquilo tudo, inclusive o meu. É que esse livro é uma enorme gargalhada na cara do leitor.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

cada um com seu grau de miopia

"A história do que nos oprime é a história de nossa estreiteza de pensamento". Pensei isso faz tempo, inspirada em Kafka e Fernando Pessoa. A fala de um amigo, num comentário recente, falando em "estreiteza mental", reavivou a imagem. Estreito ou não, o fato é que foi um lampejo que me ajudou durante um bom tempo. Acho inclusive que "estreiteza mental" fica melhor que "estreiteza de pensamento". Reproduzo o trecho do comentário: "Estes fatos revelam a importância da literatura e das artes para a formação dos sujeitos. Essa estreiteza mental é efeito de anos e anos de provas de múltipla escolha e de 'exercícios de recopiação de textos', ao invés de interpretação/leitura aprofundada de textos. Uma pessoa submetida a esse tipo de coisa tem uma escolarização precária. Como é que alguém assim entende/lê o mundo sem os óculos de valores atrasados?" Meu amigo aludia ao circo religioso em que se converteu (sem duplo sentido) o palanque do debate presidencial para o 2º turno. Aí eu lembrei Machado de Assis, Brás Cubas, o famoso episódio em que o narrador ordena ao leitor que limpe os óculos: “Limpa os óculos ― que isso às vezes é dos óculos” (capítulo "A uma alma sensível"). Cínico, Machado? Extremamente.

sábado, 9 de outubro de 2010

"Queda que as mulheres têm para os tolos" – Machado de Assis (1861)

Nota do editor Oséias Silas Ferraz:

A declaração de que se tratava de tradução seria um artifício para disfarçar a autoria [...]. José Paulo Paes não entra em detalhes, mas é dos únicos a falar em tradução, a partir do original de um certo Olona, autor satírico espanhol que escreveu peças com o mesmo tema. A dúvida, no entanto, existia e só foi esclarecida pelo professor francês Jean Michel Massa, em Machado de Assis traducteur, ensaio que compõe a segunda parte de sua tese de doutoramento [...]. Apenas a primeira parte da tese foi publicada no Brasil, A juventude de Machado de Assis. Devido talvez às questões embaraçosas (para a crítica) levantadas sobre as traduções de Machado, o ensaio nunca foi publicado e permanece pouco divulgado. [...] Pesquisador atento, Massa enumera os textos que serviram de base a Queda... O Petit traité de l’amour des femmes pour les sots (1788), de autoria presumida de Champcenets (citado na parte XII de Queda...) apresentaria afinidades, mas não seria ainda o texto traduzido. Esse é finalmente identificado por Massa: De l’amour des femmes pour les sots, publicação anônima atribuída a Victor Henaux [...]. Encerra-se, assim, a polêmica sobre a originalidade do texto: ao contrário do que ficou estabelecido pela crítica machadiana, Queda que as mulheres têm para os tolos é uma tradução.” (FERRAZ, Oséias Silas. Nota do Organizador. In: ASSIS, Machado de. Queda que as mulheres têm para os tolos e outros textos. Belo Horizonte: Crisálida, 2003, p.9-10.)

A pesquisadora da Unicamp Ana Cláudia Suriani da Silva afirma que o estudioso francês não forneceu dados conclusivos que sustentem seu argumento, mas corrobora a tese da tradução, propondo uma versão bilíngue com o original e a versão machadiana: “A edição bilíngue de Queda que as mulheres têm para os tolos que eu publico pela Editora da Unicamp neste ano do centenário da morte do escritor segue intencionalmente os princípios tradicionais da crítica textual para oferecer uma base mais segura para pesquisas futuras. Estabelece definitivamente o texto traduzido por Machado e traz em espelho o texto de Victor Hénaux, o que permite que original e tradução sejam lidos lado a lado por um público que agora não se restringe mais ao próprio Machado e a uma meia dúzia (ou menos) de críticos.(Jornal da Unicamp).

Obs: segue a transcrição das duas páginas iniciais conforme edição da Crisálida. O editor manteve a grafia original do texto.

QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS

Advertencia

Este livro é curto, e talvez devera sel-o mais.
Desejo que elle agrade, como me sahe das mãos; mas é com pezar que me vanglorio por esta obra.
Fallar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por inimigas a maioria de um e outro sexo?
Diz-se que a materia é rica e fecunda; eu accrescento que ella tem sido tratada por muitos. Se tenho, pois,  a pretenção de ser breve, não tenho a de ser original.
Contento-me em repetir o que se disse antes de mim; minhas paginas conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escriptos. Propriamente fallando, é uma comparação scientifica, e eu obteria a mais doce recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se inspirasse aos leitores a idéa de aprofundar um tão importante exemplo.
Quanto á imparcialidade que presidio a redacção deste trabalho, creio que ninguem a porá em duvida.
Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espirito, é com um desinteresse, cuja extenção facilmente se comprehenderá.
  
I

Il est des nouds secrets, Il est des sympathies.

Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em materia de fazendas, perolas e rendas, e que, desde que adoptam uma fita, deve-se crer que a essa escolha presidiram motivos plausiveis.
Partindo deste principio, entraram os philosophos a indagar se ellas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.
Muitos duvidaram.
Alguns emittiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituido por outro, não tinha esse outro senão o merito de ter chegado antes do terceiro.
Permaneceo por muito tempo este systema irreverente.
Hoje, graças a Deus, a verdade se descobrio: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nelle a preciosa qualidade que procuram.
Essa qualidade é... a toleima!

ASSIS, Machado de. Queda que as mulheres têm para os tolos. Belo Horizonte: Crisálida, 2003, p.17-19.

domingo, 12 de setembro de 2010

Sérgio Buarque leitor da tradição romântica brasileira

Tornando possível a criação de um mundo fora do mundo, o amor às letras não tardou em instituir um derivativo cômodo para o horror à nossa realidade cotidiana. Não reagiu contra ela, de uma reação sã e fecunda, não tratou de corrigi-la ou dominá-la; esqueceu-a, simplesmente, ou detestou-a, provocando desencantos precoces e ilusões de maturidade. Machado de Assis foi a flor dessa planta de estufa.

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.162.

sábado, 11 de setembro de 2010

rodapé

"Valha-me Deus! É preciso explicar tudo." (Machado de Assis)1 


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1. Escrevo isso no quadro, pondo logo em seguida: “não é para anotar”.