Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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domingo, 19 de junho de 2011

[...]

O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos desgastados
O interesse interessado
As perguntas de pedra em pedra
As gesticulações que imitam o amor
Tudo continuará igual

Alejandra Pizarnik, in Las aventuras perdidas (1958). Versão por HMBF (aqui).

domingo, 12 de junho de 2011

Henrique Manuel Bento Fialho: o imponderável do amor

CONVITE

O ser convida-se a si 
próprio à terrível dança... 
Georges Bataille

Se eu soubesse dançar
convidava-te para um tango,
guiava-te nos labirintos do coração.
Voaríamos sobre os campos
como num desenho animado,
seríamos uma ameaça
à estabilidade nacional.

Se eu soubesse dançar
inventava-te um deus novo,
um deus que não temesse
o conhecimento do amor,
um deus que oferecesse à carne
o esplendoroso sangue
de um vulcão vivo.

Mas há o peso a urdir
o fim que vem do céu
para a terra e na terra
se funde com a morte.
E há as folhas das árvores
sem nome, lavadas pelo frio,
que alargam os braços
à medida do tronco do tempo,
abraçam-nos, dançam com o tempo
em tanto silêncio.

Sobre a terra continua a cair todo o céu.
E no entanto a respiração do mundo
atinge-nos como um estrépito,
também nós dançamos o tango silencioso,
nossos braços transformados em ramos,
nossos dedos como folhas pesadas.

E por dentro o sangue transforma-se-nos
numa resina crua, mágica,
um segredo sem negrume
revelando-se em todas as palavras
naturalmente proferidas,
um segredo sem negrume
revelando-se no olhar,
na respiração do mundo
dentro de nós suspirada.

Manuel Henrique Bento Fialho. A dança das feridas. Edição do autor. Portugal, 2011, p. 7-8.

O excelente livro A dança das feridas, composto por poemas cujo mote são relações amorosas sublinhadas pela história (conforme apresentado AQUI), distingue-se pela sutileza com que a pele dos casais encenados é transmutada em poesia. Destaco os poemas "Rainer Maria Rilke a Lou Andréas-Salomé", "Declaração" (lindíssimo), "Oscar Wilde a Lorde Alfred Douglas", "Sylvia Plath a Ted Hughes", "Sid Vicious a Nancy Spungen", "Henry Miller a Anaïs Nin", e o poema que fecha o livro, "Amor e Morte", de que transcrevo um verso: "A ruína não é coisa que se traga a tiracolo." Já o amor costuma dar ares novos a quem o experencia, afastando ilusoriamente a morte. O poema "Convite" abre o livro: convite à leitura, convite ao leitor para o teatro do amor, vivido nos recessos onde o ser se sabe mais íntimo, com o contraponto talvez de não saber muito bem o que, quem ou para o que está convidando. O livro pode ser adquirido diretamente com o poeta e escritor Henrique Fialho, que mantém o blog antologia do esquecimento.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Madalena a Jesus - Henrique Manuel Bento Fialho

Confessa que te assustas quando olhas a morte
e te apercebes do quão insignificantes somos.
Confessa que, por vezes, no silêncio
das quatro paredes em que adormeces,
olhas o tecto na escuridão e lembras-te
que pode ser a última vez que o estás a olhar.
Confessa que sentiste o deserto
como uma chapada de verdade,
que o mesmo sentiste quando olhaste o mar,
não com olhos de ver, mas com olhos de aceitar.
Confessa as noites em que o céu estrelado
se dobra sobre a tua cabeça,
parecendo-te uma coisa tão bela quanto aterradora,
porque aquela constelação imensa de astros
é deus a escarrar a nossa ínfima condição.

Manuel Henrique Bento Fialho. A dança das feridas. Edição do autor. Portugal, 2011. 

Recebo de Portugal A dança das feridas, de que tomei conhecimento pelo blog antologia do esquecimento, administrado pelo poeta que me enviou o livro. Aqui é possível encontrar uma breve apresentação do livro e de sua proposta pelo autor, e o índice revela  tratar-se de poemas de amor entre casais pertencentes a diferentes circuitos culturais e artísticos, tendo em comum a civilização ocidental. É um livro que exige, portanto, os bastidores desses circuitos (ou os circuitos desses bastidores), e que pede uma leitura meditada. Como tal, a proposta se distingue pela originalidade com que aborda o amor, encenando-o com uma versatilidade admirável, do carnal ao espiritual. Portanto, este post é apenas uma apresentação ligeira e meu agradecimento ao Henrique, que se dispôs a enviar o livro antes mesmo que fosse acordada a forma de reembolso dos valores. É que o desejo de adquirir determinados livros vale a poesia que eles têm a oferecer. No caso específico, trata-se de uma edição limitada a 150 exemplares, únicos, autografados conforme queira o leitor, e que ainda podem ser adquiridos através do e-mail universosdesfeitos@yahoo.com.br. Ao Henrique, meu obrigada e meu abraço transatlântico. Voltarei aos poemas com mais vagar, explorando outras facetas desse estranho sentimento chamado amor.