Sobre o Paradoxo de Fermi, AQUI.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
quinta-feira, 27 de março de 2014
asterismo
Já me disseram que eu complico demais as coisas...
Fazendo uma analogia para traduzir a ingenuidade do pensamento, considere-se o
jogo de ligar os pontos. Há os que têm menos pontos a unir, ou os pontos estão
dispostos de forma tal a dar rapidamente uma figura reconhecível ou dominável
pelo imaginário. Eu tenho mais, muitos aliás, pontos a unir, e eles não chegam
a formar uma figura, muito menos com sentido facilmente reconhecível — pelo
menos até agora.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
uma boa notícia
Não
estamos (muito) sós no Universo. E o ser humano talvez não seja a última bolacha
do pacote, algo de que sua arrogância tem dado mostras.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
mas... a bolha de hubble
“Nosso universo é, provavelmente, muito maior que a parte que podemos observar, a nossa ‘bolha de Hubble’. Se ele é infinito em tamanho, então muitas bolhas de Hubble infinitamente separadas (centradas em observadores em galáxias remotas) devem existir. Algumas podem ser idênticas à nossa, com outro ‘você’ lendo este mesmo artigo.”
“A busca pela vida na estranheza do multiverso.” Scientific American Brasil, n.41, p.47. Edição especial cosmologia.
o homem não perde a mania do antropocentrismo
“Parece plausível que vida inteligente (se não for muito diferente de nós) requer alguma forma de química orgânica que é, por definição, a química que envolve o carbono.”
“A busca pela vida na estranheza do multiverso.” Scientific American Brasil, n.41, p.48. Edição especial cosmologia.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
a cosmologia me restitui um senso agudo de humildade
O QUE É UMA GALÁXIA
James E. Geach
TALVEZ a mais emocionante experiência que um cientista pode ter é o sentimento de uma grande mudança em sua perspectiva sobre o mundo. Para mim, aconteceu quando tive de reavaliar o que pensava sobre uma galáxia. Tradicionalmente, pensamos em galáxias luminosas como universos-ilha isolados e pontuais, como o filósofo Immanuel Kant propôs. Em alguns casos, isso é certamente verdade. Ocorre que as brilhantes ilhas galácticas são apenas os pontos visíveis de um oceano muito maior, mas ainda elusivo, de matéria bariônica. Esse material permeia o Universo, distribuído e moldado por uma vasta arquitetura escura subjacente, evoluindo continuamente pela ação da gravidade.
Todos aqueles bárions começaram no mesmo estado: um gás quente primordial que rapidamente formou os elementos fundamentais hidrogênio e hélio, além de pequenas quantidades de deutério e lítio. O que chamamos de galáxias se formou desse material bruto, empurrado para o interior de regiões com densidade mais elevada pela gravidade. Mas essas estruturas não são grupos fixos de bárions. O material se move entre elas como parte de um grande ciclo que tem estado em operação desde o Big Bang. A influência competitiva entre a gravidade e o processo de feedback faz o gás se resfriar sobre as galáxias e depois ser ejetado dela. Simulações recentes sugerem que até metade dos bárions presos nas galáxias no Universo local foram reciclados ao menos uma vez e, frequentemente, muitas vezes através do meio intergaláctico. Os bárions que constroem nosso corpo participaram desse ciclo por aproximadamente 14 bilhões de anos; a matéria em nossa unha poderia ter sido formada em estrelas de outras galáxias e, então, consumido bilhões de anos exilada no espaço intergaláctico antes de chegar ao Sistema Solar. Somo apenas uma fase efêmera, breves hospedeiros, para essa substância rara que dizemos ser “normal”.
Esse conceito de ciclo de bárions sustenta a visão emergente sobre a evolução das galáxias. O grande quadro que você deve ter em mente é de que a evolução galáctica é apenas um pequeno componente e uma evolução em larga escala do meio intergaláctico. O universo bariônico é predominantemente gasoso, não galáctico. O meio intergaláctico é um campo de batalha para forças e, em meio a esse turbilhão, as galáxias se formam. Galáxias são apenas um estágio de processamento em um ciclo que desloca continuamente bárions de uma face à outra, e a cada instante a maioria dos bárions de uma fase à outra, e a cada instante a maioria dos bárions não está dentro das galáxias.
Concebemos as galáxias como nossa casa cósmica, um brilhante, vasto e complexo lar mergulhado na escuridão. De um ponto de vista antrópico, apenas tivemos sorte suficiente de existir em um tempo quando os bárions que compõem a Terra e tudo sobre ela tomaram a forma estável e fria. Esse não será sempre o caso. A morte do Sol em cerca de 5 bilhões de anos calcinará os planetas interiores, evaporará os exteriores e gradualmente dispersará os detritos resultantes de elementos pesados no meio interestelar. A menos que os humanos deem um jeito de enganar o ciclo desenvolvendo a capacidade técnica para escapar do confinamento do Sistema Solar, as cinzas de todo o material sobre a Terra estarão fadadas a retornar e enriquecer o Cosmos. E assim o ciclo continua.
“Galáxias Perdidas” (trecho), SCIAM Brasil, n.109, jun. 2011, p.61.
sábado, 13 de agosto de 2011
cosmologia: uma paixão
“A cosmologia moderna nos tornou humildes. Somos feitos de prótons, nêutrons e elétrons, que juntos perfazem apenas 4,5% do Universo, e existimos apenas por causa da sutil conexão entre o muito pequeno e o muito grande. Eventos conduzidos por leis microscópicas da física permitiram que a matéria dominasse a antimatéria, geraram a granulosidade que se tornou a semente das galáxias, preencheram o espaço com as partículas da matéria escura que possibilitaram a infraestrutura gravitacional e garantiram que a matéria escura pudesse construir as galáxias antes que a energia escura se tornasse importante e a expansão começasse a acelerar. Ao mesmo tempo, a cosmologia, por sua natureza, é arrogante. A ideia de que podemos entender algo tão vasto em tempo e espaço como é o nosso universo, por melhor que possa parecer, é absurda. Essa estranha mistura de arrogância e humildade nos levou, no século passado, a avançar nosso entendimento do Universo presente e sua origem.”
Michel Turner, A origem do Universo, SCIAM, edição especial nº 41, p.13.
sábado, 30 de julho de 2011
contemplando o céu (por José Roberto Costa)
“ANDRÔMEDA é visível a olho nu, longe das luzes da cidade e numa noite sem luar, como uma pálida mancha de luz nas noites de primavera. Através do estudo de outras colisões de galáxias e usando simulações em computador, os astrônomos montaram um cenário, quadro a quadro, do que eventualmente poderá acontecer com a Via Láctea no caso de uma interação. À medida que as duas galáxias se aproximarem uma da outra, Andrômeda irá crescer no firmamento terrestre, até aparecer como uma enorme espada de luz.
É improvável que a humanidade assista ao nascer desse dia, mas quando Andrômeda estiver perto o bastante da Via Láctea, as nuvens de gás de ambas vão interagir violentamente e centenas de brilhantes aglomerados de estrelas irão surgir no céu. Será um formidável espetáculo pirotécnico por todo o firmamento. A quantidade de estrelas massivas irá crescer drasticamente. Estrelas gigantes azuis vão pipocar por todo o firmamento enquanto outras explodirão como supernovas. Andrômeda levará talvez 100 milhões de anos para se contorcer em forma de U, quando finalmente adentrar em nossa galáxia e se chocar com o núcleo da Via Láctea. Então a matéria de ambas será misturada numa única galáxia elíptica. Finalmente, quando as estrelas acharem seu lugar na nova casa, após um processo dinâmico chamado relaxação violenta, qualquer alusão do que foram a Via Láctea ou Andrômeda terá desaparecido.
E quando novas formas de vida apontarem no horizonte de galáxias vizinhas, talvez olhem na direção do núcleo de uma imensa galáxia elíptica, tentando, como nós um dia, compreender sua evolução. Mas eles não encontrarão qualquer vestígio de que ali existiram duas majestosas galáxias espirais onde viveu uma civilização há muito esquecida. Assim mesmo tudo o que fizemos terá valido a pena, se ao contemplar o céu, pelo breve instante de nossa existência, tivermos aprendido a lição da humildade.
Costa, J.R.V. Via Láctea versus Andrômeda. Astronomia no Zênite, jul. 1999. (AQUI)
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Luiz Alberto Oliveira: o nome da rosa
Passei a ter outros olhos para a questão da vastidão cósmica, e portanto do nosso nada, ou pouco mais que nada, como quer uma amiga, depois de assistir a uma conferência do físico Luiz Alberto Oliveira, de longe a conferência mais interessante a que já assisti. O que ele disse de especial? Tudo que alguém precisa saber para saber que é ninguém, ou melhor, que ninguém é melhor (ou pior) que ninguém. Encerrou com um texto de Jorge Luis Borges. Numa entrevista, à pergunta sobre como dialogam as ciências humanas, a biologia e a física na atualidade, respondeu que como viajantes noturnos no deserto, que passam bem ao lado um do outro sem se encontrar, o que só pode dar Borges, como quis Umberto Eco para O nome da rosa (assim as dívidas se pagam). Borges e seus desertos labirínticos, ou labirintos desérticos. Aqui a súmula da conferência.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
uma imagem rara: o fascínio do Universo
Gases moleculares em expansão. Imagem obtida aqui (ESA/AOES Medialab).
"Tradicionalmente, pensamos em galáxias luminosas como universos-ilha isolados e pontuais, como o filósofo alemão Immanuel Kant propôs. Em alguns casos, isso é certamente verdade. Ocorre que as brilhantes ilhas galácticas são apenas os pontos visíveis de um oceano muito maior, mas ainda elusivo, de matéria bariônica. Esse material permeia o Universo, distribuído e moldado por uma vasta arquitetura escura subjacente, evoluindo gradualmente pela ação da gravidade.
(...) O que chamamos de galáxias se formou desse material bruto, empurrado para regiões com densidade mais elevada pela gravidade. Mas essas estruturas não são grupos fixos de bárions. O material se move entre elas como parte de um grande ciclo que tem estado em operação desde o Big Bang. A influência competitiva entre a gravidade e o processo de feedback faz o gás se resfriar sobre as galáxias e depois ser ejetado dela. Simulações recentes sugerem que até metade dos bárions atualmente presos nas galáxias no Universo local foram reciclados ao menos uma vez e, frequentemente, muitas vezes através do meio intergaláctico. Os bárions que constroem o nosso corpo participaram desse ciclo por aproximadamente 14 bilhões de anos; a matéria em nossa unha poderia ter sido formada em estrelas de outra galáxia e, então, consumido bilhões de anos exilada no espaço intergaláctico antes de chegar ao Sistema Solar. Somos apenas uma fase efêmera, breves hospedeiros, para esta rara substância que dizemos ser 'normal'.
(...) Concebemos as galáxias como nossa casa cósmica, um brilhante, vasto e complexo lar mergulhado na escuridão. De um ponto de vista antrópico, apenas tivemos sorte suficiente de existir em um tempo quando os bárions que compõem a Terra e tudo que sobre ela existe tomaram uma forma estável e fria. Esse não será sempre o caso. A morte do Sol em cerca de 5 bilhões de anos calcinará os planetas interiores, evaporará os exteriores e gradualmente dispersará os detritos resultantes de elementos pesados no meio interestelar. A menos que os humanos deem um jeito de enganar o ciclo desenvolvendo a capacidade técnica para escapar do confinamento do Sistema Solar, as cinzas de todo o material sobre a Terra estarão fadadas a retornar e enriquecer o Cosmos. E assim o ciclo continua."
James E. Geach. Galáxias perdidas. Scientific American Brasil, ano 10, nº 109, p.61. jun. 2011.
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