Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 5 de abril de 2014

Milguel Marvilla

INSTANTE

Estamos ressurgindo.
Estou aberto e pleno neste instante irrepetível.
O mundo acontece, estou vivo,
preparo minha permanência:
repito meu papel mil vezes diante do espelho.
Acompanho a linha que meus olhos produzem à cata
de uma estrela há muito morta
e sei que sou, de novo, real.

Este brilho em teu olhar, no entanto, instaura a dúvida:
um de nós é sonho. Mas qual?

Miguel Marvilla. Lição de labirinto. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1989, p.87.

domingo, 7 de outubro de 2012

Miguel Marvilla

ESTE SER DA MINHA SOMBRA

Ruge o ser da minha sombra, quieta e indelével,
que se postou em mim, e eis que urge
amá-lo ou amordaçá-lo.

E eis que geme e grita e se debate.

Eu, por mim, me apavoro em que possam ouvi-lo
e em que lhe deem tato,
a este ser que me delata.

Miguel Marvilla. Lição de labirinto. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1989, p.54.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Miguel Marvilla

O SER INTRANSITIVO

Sim,
estou aqui (nesta esquina),
mas não como paisagem:
como um fato qualquer,
sem motivo aparente.

A causa de eu estar aqui
não é outra senão
o presente do indicativo,
coisa sem vício
ou solução.

Estou ― é quanto basta.

Qualquer outro verbo,
tempo, modo, ou lugar,
será velho
ou irregular.

Miguel Marvilla. Lição de labirinto. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1989, p.81.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Miguel Marvilla


TODAS AS COISAS DIFÍCEIS

Ninguém pensa impunemente
numa escrita permanente
da vida que se levou.
Há sempre sob o lençol
um corpo irreconhecível
em seu próprio imaginário:
um aquário cheio de bile,
peixes nadando ao contrário.

Resvalando nos silêncios,
o que aflora à superfície,
depois do mundo acabado,
é noite sem lua dentro:
todas as coisas difíceis
que foram postas de lado.

A parte que nos toca: literatura brasileira feita no Espírito Santo (Org. Miguel Marvilla e Reinaldo Santos Neves). Vitória: Florecultura, 2000, p.157.