Neste fim de dia, de rotina, de fechamento do ciclo da semana de trabalho, alguma coisa nova, como uma fronteira, se desenha. Se,
como quer Moacyr Scliar neste conto, há uma lacuna entre palavra e vida,
isso não precisa ser uma advertência à palavra, mas pode ser um senão à vida. Se não é possível saber onde termina uma e onde começa a outra ― desconfio mesmo que
são a mesma coisa ―, a verdade é que se tem pouco com que dar conta da imensidão
da vida. Palavras traem. Mas e o silêncio, não seria mais traiçoeiro?
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
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sexta-feira, 30 de novembro de 2012
domingo, 27 de fevereiro de 2011
A mulher que escreveu a Bíblia - Moacyr Scliar
A feiura é fundamental, ao menos para o entendimento desta história. É feia, esta que vos fala. Muito feia. Feia contida ou feia furiosa, feia envergonhada ou feia assumida, feia modesta ou feia orgulhosa, feia triste ou feia alegre, feia frustrada ou feia satisfeita ― feia, sempre feia. (SCLIAR, Moacyr. A mulher que escreveu a Bíblia. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.15).
Parágrafo inicial do primeiro capítulo da história narrada em A mulher que escreveu a Bíblia, parodiando, no primeiro enunciado, o poema célebre de Vinicius de Moraes. Na verdade, o livro inicia com uma espécie de prólogo, sem título, em que o analista/terapeuta de vidas passadas situa e apresenta sua paciente, que seria a autora da narrativa cujo primeiro parágrafo é destacado. Tudo com humor cortante. No site da Travessa, é possível conferir o prólogo, em que uma voz masculina, na cena psicanalítica, apresenta o drama de sua paciente/personagem, que passa a ser seu também (aqui).
Morre Moacyr Scliar!!!
Esta notícia caiu-me com uma bomba nesta manhã de domingo. O escritor Moacyr Scliar, de que tanto gosto, um dos mais importantes ficcionistas brasileiros contemporâneos, faleceu nesta madrugada, aos 73 anos de idade. Sempre admirei seu trabalho, sua obstinação, sua capacidade de escrever como poucos. Diante de muitos contos seus, tive a impressão de estar diante do mesmo ceticismo de Machado de Assis. Foi literatura inseparável na minha vida durante muito tempo. Li "Os contistas" e outros contos seus, como "O velho Marx", com assombro.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
o pão nosso de cada dia
Quem frequentou a Igreja Católica aprendeu a rezar o Padre-Nosso. Proferia-o mecanicamente, assim como mecanicamente cantava na escola o Hino Nacional. Quando descobri o que a oração do pai nosso me pedia, nunca mais consegui rezá-lo: perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido. Não alcancei a bem-aventurança da capacidade do perdão, e tento não ofender meu próximo (de forma que, quando é o caso de perceber e me desculpar por isso, vou direto ao ofendido, sem precisar passar por Deus). Não me vejo depositária de crimes, ofensas, erros ou "pecados" que pressuponham a penitência de rezar o pai nosso, embora me veja depositária de crimes para os quais não sei se encontrarei qualquer forma de perdão, pois são crimes dos quais a consciência me acusa, são coisas pelas quais se passa vida afora, e se percebe o erro, a falha, o crime justamente porque a identidade é movente, porque não se é o mesmo o tempo todo, e quando se percebe já era, já foi, já se é outro, um outro que, justamente por ser outro, foi capaz de perceber o que nele mudou, e por isso a acusação: então, olhando-me à distância, a tendência é acusar-me. Numa aula recente, em que levei para os alunos esta frase do Paulo Mendes Campos, "Ruim, na infância é a incompreensão dos mais velhos" (que encontrou boa acolhida), disse, numa das turmas, que eu não sabia quando, no transcurso da infância, havia perdido minha inocência... Mas essa digressão é apenas um atalho: inocente, rezava o pai nosso sem pensar no que diziam suas palavras, sem pensar em nada; culpada, não consegui mais proferir suas palavras. Se posso, na oração, até mecanicamente pedir perdão por uma falta que não cometi (pelo menos não conscientemente: que ofensas? que crimes?), na segunda parte do enunciado, a que admite o perdão, eu sou um fiasco. Sempre que me percebo falhando ou errando com o próximo, sou a primeira a reconhecer e tentar me desculpar. Mas isso não me garante vida mais amena ou reciprocidade. Ofendo e peço desculpas. Sou ofendida e fica por isso mesmo? Às vezes tem ficado. Difícil. Li recentemente este livro do Moacyr Scliar, Enigmas da culpa, mas apesar da boa intenção da obra e da leitura, não ajudou muito, talvez porque essas coisas não se resolvam num piscar de olhos. Mas o que quero dizer é outra coisa: ao abrir mão do Padre-Nosso, essa oração impossível a uma criatura concomitantemente rebelde e cordata como eu, pude disccernir outras caminhos. Não é difícil perceber que a poesia, esse peculiar arranjo verbal em que tudo fica mais sofisticado e interessante, tornou-se meu pão nosso da cada dia. Ela me trouxe uma coisa muito boa: além de aguçar minha percepção/intuição, eu passei a dar menos importância às coisas, aos fatos, aos acontecimentos, às próprias pessoas. De forma que muitas vezes sequer percebo a ofensa a mim dirigida. Então, para que falar em perdão?
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