Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

ULISSES E O INSETO

Quando li o Ulisses de Joyce
o verão era pungente
e as questões.
Nem a rede embalava
nem o mar aplacava
nossos dédalos.
O vento soprou as areias e então

um inseto pousou no livro
aberto ao meio:
olhitos fechados fitaram-me e foi quando
a leitura findou
na página duzentos e tanto...

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.151.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Stephen Dedalus: "Tece, tecedor do vento"

“Não tivesse Pirro tombado às mãos de uma megera em Argos ou Júlio César sido apunhalado de morte? Não são para não serem pensados. O tempo ferreteou-os e agrilhoou-os, eles estão alojados no compartimento das possibilidades infinitas que eles expulsaram. Mas podem estas ter sido possíveis atendendo a que nunca foram? Ou era só possível o que ocorreu? Tece, tecedor do vento.
― Conte-nos uma história, senhor.
― Conte, senhor, uma de fantasmas.
[...]
Deve ter havido um movimento então, uma efetivação do possível como possível. A frase de Aristóteles se formou a si mesma em meio aos versos parlapatões e sobreflutuava no silêncio estudioso da biblioteca de Santa Genoveva, onde ele lera, abrigado do pecado de Paris, noite a noite. Ao seu cotovelo um siamês delicado esmiuçava um tratado de estratégia. Nutridos e nutrientes cérebros ao meu redor: sob lâmpadas incandescentes, pingentes com filamentos pulsando desmaiados: e na escuridão de minha mente uma preguiça de inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranquila. A alma é de certo modo tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranquilidade súbita, vasta, candescente: forma das formas.

JOYCE, James. Ulisses. Trad. Antonio Houaiss. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p.34-35.

sexta-feira, 11 de março de 2011

falcões da noite (trecho de Anna Livia Plurabelle)

Falcões da noite escutem-nos. Noite! Noite! Toda minha cabececoa. Me sinto tão pesada quanto aquela pedra lá no chão. [Dark hawks hear us. Night! Night! My ho head halls. I feel as heavy as yonder stone]. 

Trecho de Anna Livia Plurabelle traduzido por Dirce Waltrick do Amarante. Para ler Finnegans Wake de James Joyce. São Paulo: Iluminuras, 2009, p.152-153.

sábado, 4 de dezembro de 2010

"Na noite escura da alma" - acerca de James Joyce


Há um texto sobre James Joyce, escrito por Luís Gúsman, focalizando Finnegans Wake, de que transcrevo alguns trechos, nodais em relação à obra do escritor irlandês: "Na noite mais profunda, um homem sonha com um livro que nunca vai a escrever porque como Dante, sabe que se existe inferno, existe um só. Sonha com Dublin, a sétima cidade da cristandade, sonha com a noite desta cidade. (...) Na noite escura da alma alguém sonha com o redespertar (...) Na noite mais escura confia em que a linguagem o devolva a sua morada para explicar com a luz do dia por que a história é um pesadelo do qual não podemos despertar. Na noite mais escura este homem descobre que todas as línguas são uma só, busca a língua do redespertar. (...) No redespertar este homem confia em que a linguagem o leve de volta à morada, e une a linguagem a uma geografia. Na noite mais profunda o homem joga com as palavras e 'nigth/mare' se converteu em 'nigth/maze'. O pesadelo se converteu em labirinto. Mas no tratamento da noite o surpreende uma extranha dor no peito. (...) Esta pedra leve da cristandade se converteu em um peso. (...) Na noite mais escura redecora a carta de seu irmão Stanislaus: 'Fizeste o dia mais longo da literatura e agora estás conjurando a noite mais profunda.' Ele sabe que o mundo da noite não pode ser representado pela linguagem do dia; é nessa certeza que se baseia sua contra-argumentação. Todos crêem, até ele mesmo, que se trata de representar a linguagem do sonho. (...) A língua se retorce, explode, mas é necessário voltar à linguagem. Escreve em outra língua: 'Je suis au bout de l'anglais'. Por isso é que na noite mais profunda afirma a frase mais abismal: ‘I have put the language to sleep'. Colocar para dormir a língua, ninguém foi tão longe. (...) 'I'm at the end of English', estou no limite do inglês. Então suspende a língua, coloca-a para dormir. (...) Todos estão intrigados para ver até onde está disposto a chegar com a linguagem. Nesta travessia, vai perdendo amigos. Ele o disse: 'Coloquei para dormir a língua inglesa'. E fez para ver de que maneira sonha uma língua. Mas o espinho na carne não deixa de perturbá-lo, se trata de redespertar, trata-se de encontrar em vão a língua do pesadelo. À noite mais profunda segue o despertar. Toma café da manhã Bloomsday em um tapete que representa o Liffey correndo através de Dublin para desembocar no mar da Irlanda. A figura no tapete também leva seu próprio escudo de armas. É que pela manhã é preciso voltar à casa, transformar o Finnegans em um livro deste mundo." (Jornal do Brasil, Caderno de Idéias, 06/01/1991, p.9.)
Fonte da imagem: Fractarte.

domingo, 3 de outubro de 2010

Anna Livia Plurabelle: fragmento inicial (tradução por Dirce Amarante)

O
Me conta tudo sobre
Anna Livia! Quero saber tudo
sobre Anna Livia. Bem, conheces Anna Livia? Claro que sim, todo mundo conhece Anna Livia. Me conta tudo. Me conta já. Cais dura se ouvires. Bem, sabres, quando o velho foolgado fallou e fez o que sabes. Sei, sim, anda logo. Lava aí não enroles. Arregaça as mangas e solta a língua. E não me baitas ― ei! ― quando te apaixas. Seja lá o que quer que tenha sido eles teentaram doiscifrar o que ele trestou fazer no parque Fiendish. É um grandessíssimo velhaco. Olha a camisa dele! Olha que suja questá! Ele deixou toda minh’água escura. E estão embebidas, emergidas tolduma ceumana. Quanto tanto já lavei isso? Sei décor os lugares que ele gosta de manchar, suujeito suujo. Esfolando minha mão e esfomeando minha fome pra lavar sua roupa suja em púlpito. Bate bem isso com teu paterdor, lavelhas. Meus pullsos estão emperrujando de tanto esfreegar as nódoas de bolor. E as porções de umildade e as gangegrenas de pecado. O que foi isso que ele fez uma estola e tanto com o Anima Sancta? E quanto tempo ele ficou trancafiado no lago? Tá nos jornais o que ele fez, do nessimento ao sacerdócio, o Rei violentocomo Humphrey, destilando ilisiões, façanhas e tudo mais. Mas a massculinidade ele cultivará. Eu o conheço bem. O tempo selvagem não pára pra ninguém. Naquilo que semenhares, colherás. O, rude raptor! Levianamente acasalando e fazendo rumor.

AMARANTE, Dirce Waltrick do. Para ler Finnegans Wake de James Joyce: seguido de “Anna Livia Plurabelle”. São Paulo. Iluminuras, 2009, p.114-115.

Trata-se da tradução, por Dirce Amarante, do primeiro fragmento do famoso capítulo de Finnegans Wake. Dois detalhes curiosos. Ao introduzir sua tradução para o português, a autora assinala: “Quanto à tradução do capítulo VIII [...] empreendi minha versão do texto, uma versão feminina (todas as outras traduções que consultei e citei neste trabalho foram assinadas por homens) do universo das duas lavadeiras.” (idem, p.111-112). O outro detalhe é o estupendo enunciado: “O tempo selvagem não pára pra ninguém.” No original: “Temp untamed will hist for no man.”

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Manuel Bandeira / James Joyce

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto, distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.155. 


“O senhor Bloom entrou e sentou no lugar vago. Puxou a porta após si e bateu-a firme que fechasse firme. Atravessou um braço pela alça e mirou com seriedade pela janela aberta da carruagem para as cortinas abaixadas da avenida. Uma suspensa ao lado: uma velhinha espiando. Nariz alviachatado contra a vidraça. Agradecendo à sua estrela ter sido poupada ainda. Extraordinário o interesse que tomam por um cadáver. Alegres de nos ver partir damos-lhes tamanho trabalho chegando. A tarefa parece convir-lhes. Pisque-dizque pelas esquinas. Pisar perto em pontinhas de pé de medo que se desperte. Então é deixá-lo pronto. Aviá-lo. Molly e a senhora Fleming preparando a cama. Puxe-o mais para o seu lado. Nossa mortalha. Nunca se sabe quem te aviará morto. Lavar e pentear. Creio que lhes cortam unhas e cabelos. Guardam um tico num envelope. Crescem do mesmo modo depois. Tarefa suja. [...] Todos esperavam. Então rodas foram ouvidas de desde a dianteira girando: depois mais perto: depois cascos de cavalos. Uma parada. A carruagem deles começava a andar, rangendo e balançando. [...] Todos olharam por instante pelas suas janelas bonés e chapéus retirados pelos passantes. Respeito. A carruagem derivou dos trilhos para a estrada mais macia depois da alameda de Watery. O senhor Bloom contemplativo viu um jovem esbelto, coberto de luto, chapéu amplo.”
                                                                                                                    
JOYCE, James. Ulisses. Trad. Antônio Houaiss. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 104-105.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

belo é o que agrada

post que segue é dos meus preferidos, pelo resgate de leituras feitas e, em alguns casos, refeitas, concernentes à noção de beleza. Como estava perdido num canto qualquer do mês de abril, resolvi trazê-lo para o momento presente, em que a leitura por aqui se tornou mais movimentada, e a questão voltou à baila, pelo poema do Manuel Bandeira e seu verso contundente: ― Era belo, áspero, intratável. Esta uma das vantagens da blogosfera  reordenar textos a partir de novos con-textos. Segue: um comentário anterior, sobre um trecho de um poema de Alberto Caeiro, remeteu-me ao conceito de beleza. O trecho do poema: "Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,/ Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,/ Pergunto a mim próprio devagar/ Por que sequer atribuo eu/ Beleza às coisas.// Uma flor acaso tem beleza?/ Tem beleza acaso um fruto?/ Não: têm cor e forma/ E existência apenas.// A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe/ Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão./ Não significa nada./ Então por que digo eu das cousas: são belas?" (Fernando Pessoa. O eu profundo e outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 153-154). Descobri depois, via Joyce, que a ideia é antiga, remonta a São Tomás de Aquino (pulcra sunt quae visa placent). Há um diálogo extenso, no Retrato do artista quando jovem, discutindo a questão. Uma hora, se animar, transcrevo na íntegra. Por ora, o cerne. Diz Stephen Dedalus: "(...) embora o mesmo objeto possa não ser bonito para toda a gente, toda gente pode admirar um objeto bonito, encontrar nele certas relações que satisfaçam e coincidam com os estágios próprios mesmos de toda a apreensão estética. Tais relações do sensível, visíveis para mim através de uma forma e para ti através de outras, devem ser, por conseguinte, as necessárias qualidades da beleza. Já agora podemos voltar ao nosso velho amigo São Tomás para outros dez vinténs de sabedoria." (James Joyce. Retrato do artista quando jovem. Trad. José Geraldo Vieira. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p. 235). Reparar na distinção sutil, mas fundamental, entre "toda a gente" e "toda gente". 

quinta-feira, 1 de julho de 2010

desenredo

Querendo ou não, o nome nos diz. Em torno do nome, vai-se criando uma espécie de nebulosa, em que gravitam apelidos, sensações, fotografias, retratos mentais, flagrantes da memória e uma movente identidade. Na literatura não poderia ser diferente. Uma das personagens mais famosas de Joyce tem um nome belíssimo, Anna Livia Plurabelle. Apaixonei-me pelo prenome, tranquilamente o aceitaria como meu. E, conforme já foi comentado pela crítica, a publicação, pelos irmãos Campos, do Panorama de Finnegans Wake teria influenciado a fatura de Tutaméia, de Guimarães Rosa, o que se faz notar no conto "Desenredo". A personagem feminina domina a trama, chamando-se Livíria, Rivília ou Irvília, conforme diz o narrador aos seus ouvintes. Nos jogos linguístico aparecem, de imediato, LíviaRiver Irlanda, além de outras possibilidades — lírio, vil, rivalidade e, por onomástica, Virília, nome que fica subentendido, com sua conotação tanto de sexualidade quando de aspecto vil, maldade, que a mulher traria associado a isso, o que remete à Eva. Mas, como se trata de um "desenredo", Eva, aqui, é finalmente perdoada. Não deixa de aparecer como Eva, portanto como culpada — Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir, e Eva nascer. (João Guimarães Rosa. Tutaméia: terceiras estórias. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.72). Mas sua culpa é redimida. Haverá outro jeito de desenredar essa história?