Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

o tecido delicado da vida

É tudo muito delicado, tão delicado que eu sinto, às vezes, uma imensa responsabilidade em viver, falar, estar em relação com o outro. Digo “eu” sabendo dos limites necessários do “eu”, limites que preservariam o que é delicado.

domingo, 24 de novembro de 2013

"O homem atropela o que é mais frágil que ele"

"Por que escolhi a delicadeza como parte essencial da condição humana? Por não ser uma qualidade intrínseca do humano. Isso é justamente o que a faz necessária. A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado ― daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza. Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama ― pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força  é um gozo ao qual poucos renunciam. Além disso, o homem é capaz de indiferença, essa forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele ― por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade ―, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo.”

KEHL, Maria Rita. Delicadeza. In: NOVAES, Adauto (Org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC, 2009, p. 453-454.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

o dilema ético

Dogville não pode ser a solução do problema. Se a fragilidade, irrevogavelmente, sempre vai escravizar um ser a outro, então seria melhor ter permanecido nas savanas. O frágil não existiria, seria apenas o mais fraco, como sói acontecer na natureza:

"Por que escolhi a delicadeza como parte essencial da condição humana? Por não ser uma qualidade intrínseca do humano. Isso é justamente o que a faz necessária. A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado ― daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza. Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama ― pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força  é um gozo ao qual poucos renunciam. Além disso, o homem é capaz de indiferença, essa forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele ― por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade ―, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo.”

KEHL, Maria Rita. Delicadeza. In: NOVAES, Adauto (Org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC, 2009, p. 453.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

alguma coisa urgentemente

"Alguma coisa urgentemente" é o título de alguma coisa que o João Gilberto Noll escreveu, que não li, é certo, pois o pouco que li do Noll, três livros, foi o bastante para perceber que não consigo me avizinhar muito de seu estilo. Mas, quando me lembrei da expressão, supus que fosse de Sérgio Sant'Anna, de que gosto, e por isso supus, e também porque vejo na escrita deste uma urgência mais interessante. "Alguma coisa urgentemente" é um conto e está na coletânea Os cem melhores contos brasileiros do século (p.416-422), e definitivamente não o li. Li, entretanto, o excelente "Um discurso sobre o método", de Sérgio Sant'Anna (p.402-415), que por acaso vem antes do conto da urgência citado, e li isto, do mesmo Sérgio:

“Aqui, um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação. Mas o que é uma cobra quando não há nenhum homem por perto? Ela pode apenas cravar seus dentes numa folha, de onde escorre um líquido leitoso. Do alto desta folha, um inseto alça voo, solta zumbidos, talvez de medo da cobra, mas o que são zumbidos se não há ninguém para escutá-los? São nada. Ou tudo. Talvez não se possa separá-los do silêncio ao seu redor. E o que é também o silêncio se não existem ouvidos? Perguntem, por exemplo, a estes arbustos. Mas arbustos não respondem. E como poderiam responder? Com o silêncio, lógico, ou um imperceptível bater de suas folhas. Mas onde, como, foi feita essa divisão entre som e silêncio, se não com os ouvidos?”

SANT’ANNA, Sérgio. Conto (não conto). Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. Ítalo Moriconi. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p.518, parágrafo inicial.

Alguma coisa urgentemente, que (se) possa contar, que não violente demais o silêncio, que faça a necessária inscrição da vida humana no silêncio e dele traga algum sentido para o existir ― existir que fatalmente será envolto pelo silêncio, e então essa urgência de alguma coisa que não se sabe bem o que é, quando a densidade do silêncio fica mais espessa ou rarefeita que o ar. Mas se fosse necessário precisá-la, seria a urgência de que a apropriação das palavras não fosse tão traiçoeira: “Mas o que é uma cobra quando não há nenhum homem por perto?”. Urgência de delicadeza, para fazer do silêncio um par. 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

escrita

Escrevo a um amigo: estou sonhando intensamente coisas difíceis. Uma outra vida se inaugura quando fecho, temporariamente, os olhos para esta, uma vida cuja intensidade até então desconhecia. Onde eu andava não sei. A cada noite um novo capítulo de uma novela desconexa, mas com feixes de contiguidade (ai, a psicanálise!) com o sonho anterior. O caos de uma noite retoma o da noite passada, e quando acordo tenho a sensação de que fui bombardeada por imagens cuja compreensão e discernimento são sempre precários. Durante o dia componho um rosto ordenado, uma expressão calma. Ao contrário do que vivi até então, começo a ansiar, sem pressa ou susto, pela noite, porque sei que alguma coisa muito importante, uma transformação de monta, está se passando. Entrevejo nisso tudo a leitura do Paulo Mendes Campos. Uma leveza a cada manhã, a noite consistindo em purgar fantasmas que talvez não sejam de todo mal. A minha força só pode estar em mim, e foi a partir de uma necessidade muito intensa de visitar essas regiões inexploradas, que a experiência de Paulo Mendes Campos descortina, que comecei a sonhar de outra forma, não de imediato, mas como camadas que foram descortinando novas possibilidades. Então este trecho em particular me fascinou pelo desejo que se apoderou de mim, o desejo de acessar a delicadeza:


“Essa delicadeza não apresentava a mais leve analogia com sensações por mim conhecidas. Como se dentro da delicadeza houvesse uma segunda delicadeza, e dentro desta uma terceira, uma quarta, uma quinta, e só lá no fundo de não sei qual película sutil estivesse, intacta, a verdadeira delicadeza. Mas esse imprevisível tesouro não implicava a menor nuança de medo: estava inocente por demais para que o mal e a violência me atingissem. Meus próprios erros e brutalidades não me tocavam. Só não me agradava a possibilidade de ser reconduzido para trás, ao meu estado habitual, ao universo convencional dos conceitos, das palavras, dos apetites e das ansiedades. Como que justificando a sutileza de minha relação íntima com os outros, escrevi sempre inseguro das palavras: ‘Eu me afasto, mas não é solidão.’ Não estava sozinho naquela hora; os outros talvez estivessem.” [AQUI]

sábado, 21 de maio de 2011

para lembrar a mim mesma o que posso estar perdendo também

Há cerca de um ano atrás, mais ou menos, postei este texto. Desde então, muita coisa virou e revirou. No entanto, cá estou eu às voltas com o tema:

"O homem não é necessariamente delicado ― daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza. Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanosO homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama ― pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força  é um gozo ao qual poucos renunciam. Além disso, o homem é capaz de indiferença, essa forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele ― por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade ―, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo." 

KEHL, Maria Rita. Delicadeza. In: NOVAES, Adauto (Org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC, 2009, p. 453.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

delicadeza

Nada, nem a coisa mais sublime que fizermos, o gesto mais desprendido e belo, vai revelar a nossa delicadeza ante o mundo se o mundo não a quiser. Ao contrário, mesmo as palavras e seu empenho acabam revelando a insuficiência. Por isso a poesia é tão importante, não para conter a aspereza alheia, mas para resistir-lhe, pois ela fatalmente virá, não importa quão delicados sejamos, queiramos ou tentemos ser. Há algo de inóspito nas relações, revelando cactos que se querem flores. Então, no meio da tarde, ouve-se um beijo estalar, e o mundo parece provisoriamente redimido. Porque entre o cacto e a flor há toda uma gradação de sentidos, como um holograma que ora revela um, ora outro. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

delicadeza

Creio que raramente eu consegui que minha delicadeza fosse percebida ― ou ela está bem escondida, ou foi brutalizada (e quem sabe mesmo se perdeu). Como sei dela então? Reminiscências da infância me dão notícia de um tempo em que eu existia, apenas, e o mundo parecia uma promessa feliz. Mas quando digo de um desejo de que ela seja percebida, então é como se ela continuasse aqui, em algum recesso ou canto obscuro de difícil acesso.