Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

segunda-feira, 25 de junho de 2012

docência

Não existe ex-professor, assim como não há ex-médico, ex-engenheiro, ex-advogado, no sentido com que usualmente se diz “ex-professor”. O aluno pode se tornar ex-aluno, mas isso não necessariamente remete seus professores à categoria de ex, simplesmente porque o professor, quando foi seu professor, foi por inteiro, e o trabalho feito não se perdeu  a não ser que o aluno nunca, de fato, tenha sido aluno, o que dispensaria, por sua vez, de pensar em ex-aluno. A oração “quando foi seu professor” não pressupõe esta outra, “quando foi professor”: o professor não deixa de ser professor quando o aluno deixa a escola  deixa de ser aluno ―, pois o exercício de sua profissão não se restringe, temporalmente, à vivência que o aluno teve com ela. 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

hoje na aula

Vai que me empolguei numa turma hoje... 6º ano. Nunca pensei que pudesse gostar tanto de trabalhar com esse público. Há alguma coisa de muito interessante nessa idade, um frescor inconfundível. Fui falar sobre linguagem, e aí tangenciei a questão da diferença entre o falar humano, a língua, e o que se chama de linguagem dos animais. Isso porque o 6º ano percorre vários tipos de narrativas com animais personificados. Então comecei a desenvolver um raciocínio que me levou a isso: a evolução da capacidade de emitir sons articulados a partir de grunhidos ancestrais foi algo que se fez contra as leis da biologia; então nossos ancestrais, ao assumirem a postura bípede, não só liberaram as mãos para as mais diferentes atividades como a própria postura bípede levou ao aguçamento da visão: dois fatores decisivos para o excepcional desenvolvimento alcançado pelo nosso cérebro, e a própria postura bípede, junto a esses outros fatores, colocou os ancestrais do homem (já seria o homem?) frente a frente, de forma que o desenvolvimento da linguagem se impôs. Aí eu disse que nós tínhamos conquistado muito: as mãos, a visão, o excepcional desenvolvimento do cérebro e a capacidade de emitir sons articulados que fazem sentido, e que isso era muito precioso, um tesouro a nosso dispor. Enquanto falava, acreditava muito no que dizia (apesar do componente de ficção/imaginação em torno da evolução biológica do homem), como se dissesse: olhem a riqueza que vocês têm, que nós temos: nós temos a linguagem (e concomitantemente levava a mão à garganta, como se ali estivesse a "fonte" da linguagem). Mas usamos isso também para o mal: nós usamos mal o que temos de bom, eu disse. Eu queria dizer que eles tinham em mãos algo muito precioso, mas falava isso para mim também.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Brasil é aqui


Recebo por e-mail matéria desoladora sobre a atual condição da educação pública oferecida pelo município do Rio de Janeiro, publicada na edição de fevereiro da revista Piauí (só para assinantes). Destaco o trecho: "O Brasil ocupa o 53º lugar no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, que testou 65 países em 2009. E o Rio de Janeiro chegou em penúltimo entre os estados brasileiros no Ideb, à frente do Piauí e empatado com Alagoas, Amapá e Rio Grande do Norte." O texto do e-mail advertia para o conteúdo bombástico: "Mesmo conhecendo a situação de nossas escolas (e de nossa educação), tenho de confessar que a matéria anexa (da PIAUÍ deste mês) me causou mal-estar. A realidade é outra?"

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

sic!

De uma entrevista do escritor Raduan Nassar, lida faz bastante tempo, recordo-me uma posição corajosa. Ele, ao questionar a autoridade de certos próceres do modernismo brasileiro, referindo-se à academia como o "clero literário", falava algo mais ou menos assim: que os professores, em vez de ficarem impingindo carradas de teoria aos alunos, deveriam ensinar-lhes a pensar com a própria cabeça, supondo que estes mesmos professores fossem capazes de fazê-lo... O que pode ser, hoje, ainda conseguir pensar com a própria cabeça? 

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

cada um com seu grau de miopia

"A história do que nos oprime é a história de nossa estreiteza de pensamento". Pensei isso faz tempo, inspirada em Kafka e Fernando Pessoa. A fala de um amigo, num comentário recente, falando em "estreiteza mental", reavivou a imagem. Estreito ou não, o fato é que foi um lampejo que me ajudou durante um bom tempo. Acho inclusive que "estreiteza mental" fica melhor que "estreiteza de pensamento". Reproduzo o trecho do comentário: "Estes fatos revelam a importância da literatura e das artes para a formação dos sujeitos. Essa estreiteza mental é efeito de anos e anos de provas de múltipla escolha e de 'exercícios de recopiação de textos', ao invés de interpretação/leitura aprofundada de textos. Uma pessoa submetida a esse tipo de coisa tem uma escolarização precária. Como é que alguém assim entende/lê o mundo sem os óculos de valores atrasados?" Meu amigo aludia ao circo religioso em que se converteu (sem duplo sentido) o palanque do debate presidencial para o 2º turno. Aí eu lembrei Machado de Assis, Brás Cubas, o famoso episódio em que o narrador ordena ao leitor que limpe os óculos: “Limpa os óculos ― que isso às vezes é dos óculos” (capítulo "A uma alma sensível"). Cínico, Machado? Extremamente.

sábado, 2 de outubro de 2010

da série "perguntas imprevisíveis"

Um aluno do 6º ano me pergunta se um número equivale a uma palavra. Um número, em sua representação gráfica de número, não por extenso. É que ele precisava escrever alguma coisa com não sei quantas palavras, e aí me perguntou se podia colocar um número como palavra. Um número, em princípio, não seria uma palavra, mas escrito por extenso é. E é claro que número é uma palavra. A gramática escolar de Evanildo Bechara diz, no capítulo referente à questão, "Numeral": "É a palavra de função quantificadora que denota valor definido: 'A vida tem uma só entrada: a saída é por cem portas.' [MM]" Prossegue o autor: "Os numerais propriamente ditos são os cardinais: um, dois, três, quatro etc., e respondem às perguntas quantos?, quantas? Na escrita podem ser representados por algarismos arábicos (1, 2, 3, 4 etc.) ou romanos (I, II, III, IV etc.)." (BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006, p.184). Admitindo-se que algarismo é diferente de palavra, fica então respondida a pergunta do aluno. Uma pergunta que me obriga a pensar sobre o que é uma palavra me leva a deduzir que tenho alunos interessados, que nem sempre mostram tudo que sabem. Ou será isso viagem demais?  Ah, sim: o MM citado é de "Marquês de Maricá".

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

núcleo do sujeito

Essas crianças ainda vão me economizar um bom dinheiro de análise. Hoje, no 6º ano, num texto envolvendo sintaxe e pontuação, saiu alguma coisa sobre a questão do núcleo do sujeito. Um garotinho disse que seria aquilo que sobraria como sujeito depois de tirar todo o acessório, ao que eu respondi "mais ou menos, depende". Aí me lembrei de uma crônica lida faz muito tempo, num manual escolar, de cujo autor não me recordo, mas perfeita para ilustrar a questão. Tratava-se de um sujeito, um comerciante, que queria anunciar a venda de ovos, e encomendou a um letrista (no sentido de "aquele que desenha e/ou pinta letras em fachadas de lojas ou tabuletas") uma tabuleta com os seguintes dizeres (vou citar de memória, talvez não seja esta a frase): "NESTE ESTABELECIMENTO VENDEM-SE OVOS FRESCOS". Então o letrista começa a argumentar: mas por que dizer "neste estabelecimento"? Pois torna-se lógico que só poderia ser ali que os tais ovos frescos eram vendidos. Ficou então "VENDEM-SE OVOS FRESCOS". Novamente o letrista entra em ação: é mais ou menos evidente por si que se aquele era um estabelecimento comercial, os ovos eram vendidos, e não dados, emprestados ou alugados, por exemplo, de forma que o "vendem-se" também poderia sair. Saiu. Ficou, assim, "OVOS FRESCOS". O letrista de novo: mas, logicamente, os ovos vendidos devem ser necessariamente frescos, então não há por que chamar a atenção sobre isso (era um profissional honesto). De forma que restou "OVOS". Mas então veio a pergunta mais importante: mas por que vender OVOS, no fim das contas? A crônica terminava assim, com aquele humor peculiar dos textos que ilustravam os livros didáticos na época em que estudava inocentemente... Com esse estratagema, ilustrei a questão do núcleo do sujeito, afinal "vendem-se ovos", frescos ou não, é intercambiável com "ovos são vendidos", de forma que ovos não só é o núcleo do sujeito da oração inicial como se torna o sujeito da oração final, e afinal tornam-se uma dúvida para o comerciante ― e há algo que só me ocorre agora, enquanto escrevo: o ovo também tem uma espécie de núcleo, a gema no centro da clara, de forma que a crônica talvez tivesse outras camadas, de que então sequer desconfiei. Ou não. Ou seja, da sintaxe para a substância, digo, substantivo. Isso tudo falado assim meio rápido, em linguagem adequada ao público. Aí uma garota me perguntou se eu já havia comido ovos saídos direto da galinha, como se existissem ovos de galinha saídos de algum outro lugar, mas eu entendi, ela queria dizer ovos frescos. Estava mirando já outro tipo de núcleo, outro sujeito. Respondi que sim, afinal eu era/sou do interior, então comia sempre ovos frescos (me furtei de falar que via galinhas e outros bichos sendo mortos para a alimentação caseira). Só que eles perguntaram algo inusitado: se eu já tinha visto algum bicho nascendo. E então me lembrei, na mesma hora, que tinha visto uma bezerra nascendo! (Um aluno ainda falou que eu havia escrito "bezerra" errado no quadro; concordei com ele.) Lembrei de tudo: da repugnância que senti ao ver uma coisa meio indefinida envolvida numa gosma meio esbranquiçada, com sangue no meio (era a placenta, coisa que só vim a saber mais tarde). Mas eu vi, era de manhã, levaram a gente pra ver no curral, era perto de casa. Creio que devo ter ficado vários dias sem comer várias coisas que eventualmente me lembrassem aquela visão espantosa, de vida nascendo. E é curioso que me repugnou mais isso que a morte violenta dos animais a que então assistia, embora ressoem até hoje em meus tímpanos os gritos lancinantes dos porcos que ouvi morrer (não sei se alguma vez tive coragem de ir ver). Lembro-me, entretanto, das galinhas sendo mortas, quando não podiam mais fornecer ovos frescos. O que eu sentia diante daquilo tudo? Não sei, aliás não sei se sentia algo diferente de medo. Voltando às crianças, as de hoje, então alguém brincou dizendo que eu não estaria pensando na morte da bezerra (um dito popular), mas na vida da bezerra. Pode ser. Às vezes desconfio que eles me fazem essas perguntas para gastar o tempo, e a aula passar mais rápido. Mas pode ser curiosidade mesmo. Talvez, de alguma forma, eu quisesse entender melhor a vida que se apresentou a mim, na infância, com uma face tão brutal e violenta.