Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Brasil: o que dizer?

SIGLAS
Luis Fernando Verissimo


― Bota aí: “P”
― “P”?
― De “Partido”.
― Ah.
― Nossa proposta qual é? De união, certo? Acho que a palavra “União” deve constar o nome.
― Certo. Partido de União...
― Mobilizadora!
― Boa! Dá a ideia de ação, de congraçamento dinâmico. Partido da União Mobilizadora. Como é que fica a sigla?
― PUM.
― Não sei não...
― É. Vamos tentar outro. Deixa ver. “P”...
― “P” é tranquilo.
― Acho que “Social” tem que constar.
― Claro. Partido Social...
― Trabalhista?
― Fica PST. Não dá.
― É. Iam acabar nos chamando de “Ei, você”.
― E mesmo “trabalhista”, não sei. Alguém aqui é trabalhista?
― Isso é o de menos. Vamos ver. “P”...
― Quem sabe a gente esquece o “P”?
― É. O “P” atrapalha. Bota “A”, de Aliança. Aliança Inovadora...
― AI.
― Que foi?
― Não. A sigla. Fica AI.
― Espera. Eu ainda não terminei. Aliança Inovadora... de Arregimentação Institucional.
― AIAI... Sei não.
― É. Pode ser mal interpretado.
― Vanguarda Conservadora?
― Você enlouqueceu? Fica VC.
― Aliança Republicana de Renovação do Estado.
― ARRE!
― O quê?
― Calma.
― Espera aí, pessoal. Quem sabe a gente define a posição ideológica do partido antes de pensar na sigla? Qual é, exatamente, a nossa posição?
― Bom, eu diria que estamos entre a centro-esquerda e a centro-direita.
― Então é no centro.
― Também não vamos ser radicais...
― Nós somos a favor da reforma agrária?
― Somos, desde que não toquem na terra.
― Aceitaremos qualquer coalizão partidária para impedir a propagação do comunismo no Brasil.
― Inclusive com o PCB e o PC do B?
― Claro.
― Não devemos ter medo de acordos e alianças. Afinal, um partido faz pactos políticos por uma razão mais alta.
― Exato. A de chegar ao poder e esquecer os pactos que fez.
― Partido Ecumênico Republicano Unido.
― PERU?
― Movimento Institucionalista Alerta e Unido.
― MIAU?
― Que tal KIM?
― O que significa?
― Nada, eu só acho o nome bonito.
― MUMU. Movimento Ufanista Mobilização e União.
― MMM... Movimento Moderador Monarquista.
― Mas nós somos republicanos.
― Eu sei. Mas por uma boa sigla a gente muda.
― TCHAU.
― Hum, boa. Trabalho e Capital em Harmonia com Amor e União?
― Não, é tchau mesmo.
― Aonde é que você vai?
― Abrir uma dissidência.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Liberdades – Luis Fernando Veríssimo

É livre quem pode fazer o que quiser — dentro das suas limitações de espaço, tempo, energia e recursos. Só se é livre dentro de certos limites. Portanto, toda liberdade é condicional.
***
Só é totalmente livre quem pode exercer a sua vontade sem qualquer limitação moral ou material. Isto é: o tirano. Assim, a liberdade suprema só existe nas tiranias.
***
Dizer que a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro é muito bonito. Mas e se a liberdade foi mal distribuída e o meu vizinho tem um latifúndio de liberdade enquanto a minha é um quintal de liberdade, liberdade mesmo que tadinha? Não é feio sugerir um reestudo da divisão.
***
Cuidado com quem dá aos outros toda a liberdade. Geralmente é quem pode tirá-la.
***
Há os que passam o dia inteiro livres e chegam em casa se queixando disso. São os motoristas de táxi. Toda liberdade é relativa.
***
Toda liberdade é relativa. Verdade exemplarmente ilustrada por este diálogo entre o preso e o carcereiro.
— Nunca mais vou sair daqui.
— Calma. Não desanime.
— Não tem jeito. Estou aqui para sempre.
— Vou ver o que posso fazer por você.
— Não adianta. Estou condenado. Desta prisão eu não saio. Se esqueceram de mim.
— Eu não esquecerei. Voltarei para visitá-lo.
— Promete? — diz o carcereiro.
***
Quem é livre às vezes não sabe. Quem não é livre sempre sabe. Ou será o contrário? A gente vê tanta gente inexplicavelmente feliz.
***
Alguns são obcecados pela liberdade e prisioneiros da sua obsessão.
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Os loucos são livres e vivem presos por isso.
***
Poderia se dizer que livre, livre mesmo, é quem decide de uma hora para outra que naquela noite quer jantar em Paris e pega um avião. Mas mesmo este depende de estar com o passaporte em dia e encontrar lugar na primeira classe. E nunca escapará da dura realidade de que só chegará em Paris para o almoço do dia seguinte. O planeta tem seus protocolos.
***
Fala-se em liberdade como se ela fosse um absoluto. Mas dizer “eu quero ser livre” é o mesmo que dizer “eu quero” e não dizer o quê. Existe a Liberdade De e a Liberdade Para. Não é uma questão apenas de preposições e semântica. É a questão do mundo. O liberalismo clássico iconizou a Liberdade Para. Você é livre se tem liberdade para dizer o que pensa e fazer o que quer, para ir e vir e exercer o seu individualismo até o fim, ou até o limite da liberdade do outro. A ideia de que a verdadeira liberdade é a Liberdade De é recente. Livre de verdade é quem é livre da fome, da miséria, da injustiça, da liberdade predatória dos outros. A ideia é recente porque antes era inconcebível.
Ser livre do despotismo era automaticamente ser livre para o que se quisesse, para a vida e a procura individual do paraíso. Foi preciso uma virada no pensamento humano para concluir que Liberdade Para e Liberdade De não eram necessariamente a mesma liberdade e outra virada para concluir que eram antagônicas. A última virada é a decisão de que uma liberdade precisa morrer para que a outra viva. Não concorde com ela muito rapidamente.
***
Enfim, de todos os crimes que se cometem em nome da liberdade, o pior é a retórica.
***
Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, completamente livre, é a que não tem medo do ridículo.

VERISSIMO, Luis Fernando. Em algum lugar do paraíso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p.181-185.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

verissimo, domingo, n'o globo

POETAS
Luis Fernando Verissimo
1/09/13
Ainda não sabemos tudo sobre Marte, mas sabemos o bastante para dizer que ele nos decepcionou. Marte foi um blefe. Os tais canais vistos pelas lunetas antigas, provas de que haveria alguma forma de vida inteligente no planeta, mesmo que fosse só de engenheiros, não eram canais. Nenhum vestígio de qualquer tipo de vida apareceu em Marte, muito menos o de uma civilização de homenzinhos verdes, ou de qualquer outra cor, com a capacidade para invadir a Terra. Anos e anos de literatura premonitória e previsões terríveis foram desperdiçados. Nos apavoraram por nada. Como no Iraque, também não havia armas de destruição em massa em Marte.
Mas, se Marte revelou ser um imenso parque de estacionamento, que não ameaça a Terra, isso não quer dizer que não existam civilizações lá fora que cedo ou tarde entrarão em contato conosco, exigindo nossa submissão ou anunciando a invasão.
Nada nos assegura que, se ainda não fomos invadidos por exércitos extraterrenos, não tenha havido — ou esteja havendo neste momento — missões de prospecção e espionagem, feitas por destacamentos avançados ou por agentes isolados. Não quero assustar ninguém, mas vou contar. Já tive contato com um desses agentes extraterrestres. Desconfiei quando ele disse “Vocês são engraçados...” e eu perguntei: “Vocês”, quem? “Vocês” brasileiros? “Vocês” carecas? “Vocês” míopes? Destros? Cardiopatas? E ele respondeu: “Vocês, gente.”
E me confessou (já tinha bebido um pouco) que não era deste mundo, era de outro, e estava prospectando o Universo inteiro atrás de um planeta para ser colonizado pelo seu. Achava que tinha, finalmente, encontrado este planeta. Era a Terra. No seu relatório, recomendaria que a Terra fosse ocupada e sua principal riqueza natural explorada, pois era o que faltava no planeta do qual viera.
Perguntei qual era a riqueza natural que nós tínhamos e eles não e o extraterrestre respondeu: “A poesia.” E perguntou: “Você sabe que a Terra é o único planeta do universo conhecido em que as pessoas dão nome aos ventos?” Fiquei lisonjeado com aquilo, pensando: “Taí, somos todos poetas e não sabíamos”, e perguntei o que fariam com os poetas da Terra no planeta dele.
— Comê-los, claro — respondeu ele.
E explicou que não havia mais poetas no seu planeta porque já tinham comido todos. Ou como eu imaginava que eles tinham se tornado uma civilização tão avançada?

domingo, 30 de junho de 2013

Verissimo n'O Globo de hoje

ALTERNATIVA
Ao contrário da morte, de uma ditadura se volta, preferencialmente com uma lição aprendida. Para mudar isso aí, prefira a vida — e o voto
LUIS FERNANDO VERISSIMO, 30/06/13

Envelhecer é chato, mas consolemo-nos: a alternativa é pior. Ninguém que eu conheça morreu e voltou para contar como é estar morto, mas o consenso geral é que existir é muito melhor do que não existir. Há dúvidas, claro. Muitos acreditam que com a morte se vai desta vida para outra melhor, inclusive mais barata, além de eterna. Só descobriremos quando chegarmos lá. Enquanto isto vamos envelhecendo com a dignidade possível, sem nenhuma vontade de experimentar a alternativa.
Mas há casos em que a alternativa para as coisas como estão é conhecida. Já passamos pela alternativa e sabemos muito bem como ela é. Por exemplo: a alternativa de um país sem políticos, ou com políticos cerceados por um poder mais alto e armado. Tivemos vinte anos desta alternativa e quem tem saudade dela precisa ser constantemente lembrado de como foi. Não havia corrupção? Havia, sim, não havia era investigação para valer. Havia prepotência, havia censura à imprensa, havia a Presidência passando de general para general sem consulta popular, repressão criminosa à divergência, uma política econômica subserviente e um “milagre” econômico enganador. Quem viveu naquele tempo lembra que as ordens do dia nos quartéis eram lidas e divulgadas como éditos papais para orientar os fiéis sobre o “pensamento militar”, que decidia nossas vidas.
Ao contrario da morte, de uma ditadura se volta, preferencialmente com uma lição aprendida. E, se para garantir que a alternativa não se repita, é preciso cuidar para não desmoralizar demais a política e os políticos, que seja. Melhor uma democracia imperfeita do que uma ordem falsa, mas incontestável. Da próxima vez que desesperar dos nossos políticos, portanto, e que alguma notícia de Brasília lhe enojar, ou você concluir que o país estaria melhor sem esses dirigentes e representantes que só representam seus interesses, e seus bolsos, respire fundo e pense na alternativa.
Sequer pensar que a alternativa seria preferível — como tem gente pensando — equivale a um suicídio cívico. Para mudar isso aí, prefira a vida — e o voto.

terça-feira, 25 de junho de 2013

o acento das manifestações

Nas últimas duas semanas, o assunto principal das/nas salas de aula tem sido as manifestações Brasil a fora. Naturalmente os estudantes — pelo menos os da rede pública — entraram de corpo e alma no movimento. E eles, também naturalmente, vêm perguntar aos professores o que estes estão achando disso. Na “sala de professores”, o assunto também não tem sido outro. Ocorre que, desde meados da semana passada, quando a revogação do aumento das passagens não se mostrou bastante diante de uma pauta imensa de reivindicações, tornou-se evidente que as manifestações tinham tomado outro rumo e ganhando nova força, difícil de precisar, mas claramente direcionados — rumo e força — contra a vaga entidade denominada governo. Não é preciso ter lido Foucault para saber o que se movia, e continua se movendo, por detrás disso, pelo menos em se tratando de Brasil. Então, na sexta-feira, diante de alunos empolgados com as novas manifestações contra “tudo”, sugeri, diante de uma queixa contra o novo acordo ortográfico, que isso se tornasse também uma pauta de reivindicações, e sugeri um brado de ordem: “Idéia com acento!”, “Idéia com acento!”. Naturalmente todos riram, e talvez alguém tenha somado o riso à ironia. O fato é que, naquela mesma noite, uma nova onda de saques se verificou, transmitida ao vivo pela TV, seguida por um domingo solar de esperança e muita violência. O corolário óbvio disso tudo é que não somos europeus, nem mesmo em manifestações. E quem continua chamando para as ruas deve saber que não dá para separar manifestação de arrastão: tudo, em última instância, é manifestação, embora por demandas diferentes. É preciso democratizar o conceito de povo, para poder pensar efetivamente em democracia.

O POPULAR
Luis Fernando Verissimo

Um número recente da ‘Veja’ trazia fotografias sensacionais das (como diria um inglês) “incomodações” na Irlanda do Norte. Todas eram de ganhar prêmio, mas uma me impressionou especialmente. Nela aparecia a versão irlandesa do Popular.  
É uma figura que sempre me intrigou. A foto da ‘Veja’ mostra um soldado inglês espichado na calçada, protegido pela quina de um prédio, o rosto tapado por uma máscara de gás, fazendo pontaria contra um franco-atirador local. Atrás dele, agachados no vão de uma porta, dois ou três dos seus companheiros, também em plena parafernália de guerra, esperam tensamente para entrar no tiroteio. Há fumaça por todos os lados, um clima de medo e drama. Mas ao lado do soldado que atira, em primeiro plano, está o Popular. De pé, olhando com algum interesse o que se passa, com as mãos nos bolsos e um embrulho embaixo do braço. O Popular foi no armazém e na volta parou para ver a guerra. 
Sempre pensei que o Popular fosse uma figura exclusivamente brasileira. Nas nossas incomodações políticas, no tempo em que ainda havia política no Brasil, o Popular não perdia uma. Os jornais mostravam tanques na Cinelândia protegidos por soldados de baioneta calada e lá estava o Popular, com um embrulho embaixo do braço, examinando as correias de um dos tanques. Pancadaria na Avenida? Corria polícia, corria manifestante, corria todo mundo, menos o Popular. O Popular assistia. Cheguei a imaginar, certa vez, uma série de cartuns em que o Popular aparecia assistindo ao Descobrimento do Brasil, à Primeira Missa, ao Grito da Independência, à Proclamação da República... Sempre com seu embrulho debaixo do braço. E de camisa esporte clara para fora das calças. (O Popular irlandês veste terno e sobretudo contra o frio. O Popular tropical é muito mais Popular.) 
Não se deve confundir o Popular com o Transeunte, também conhecido como o Passante. O Transeunte ou Passante às vezes leva uma bala perdida, o Popular nunca. O Transeunte às vezes vai preso por engano, o Popular é o que fica assistindo à sua prisão. O Transeunte, não raro, se compromete com os acontecimentos. Aplaude o visitante ilustre que passa, por exemplo. O Popular fica com as mãos nos bolsos e quase sempre presta mais atenção ao motociclo dos batedores do que à figura ilustre. O Transeunte pode se entusiasmar momentaneamente com uma frase de comício ou um drama na rua, e aí o Popular é que fica olhando para o Transeunte.
O Popular não tem opinião sobre as coisas. Quando o rádio ou a televisão resolvem ouvir “a opinião de um popular” na rua, sempre se enganam. O Popular nunca é o entrevistado, é o sujeito que está atrás do entrevistado, olhando para a câmara.
O Popular não merece nem os méritos nem a calhordice que a imprensa lhe atribui. Alguém que é “socorrido por populares”, outro, menos feliz, que é linchado por populares... Engano. Onde há um bando de populares não há o Popular. O Popular é a antimultidão. Sua única virtude é a sua singularidade. E um certo ceticismo inconsciente diante da História e das coisas. Não é que o Popular desmereça o Poder e os grandes lances da Humanidade, é que ele tem uma fatal curiosidade pelo detalhe supérfluo, um fascínio irresistível pelo insignificante. Nas revoluções, o que atrai o Popular é a estranha postura de um soldado deitado no chão, o mecanismo de um tanque, as lentes de uma câmara. 
O Popular é uma figura tipicamente urbana. Não tem domicílio certo. Seu habitat natural é a margem dos acontecimentos. E este é o seu maior mistério, a chave da sua existência ninguém jamais conseguiu descobrir o que o Popular leva naquele embrulho. E tem mais. O dia em que pegarem um Popular para desvendarem um mistério, será inútil. Vão se enganar outra vez. O Popular verdadeiro estará atrás do preso, assistindo a tudo.

Luis Fernando Verissimo. O popular. 3.ed. Porto Alegre: L&PM, 1984, p.11-13. [1ª edição: 1973]

domingo, 23 de junho de 2013

o futebol como metáfora (incômoda) do país, ou os pés de barro da pátria de chuteiras

“É importante saber que a tia Fifa não é como é por insensibilidade ou elitismo desvairado. Suas exigências, que parecem irrealistas, obedecem a um desejo de ordem social e estética. A tia Fifa sonha com um mundo limpo, em que as desigualdades entre ricos e pobres desaparecem desde que todos sigam as mesmas regras e tenham o mesmo gosto, e por isso a convidam.” (Luis Fernando Verisssimo, hoje, n’O Globo)

“[...] o jogo de Neymar ensina que o movimento emaranhado das ruas tem de achar o jeito inspirado de acertar no melhor. Que saibamos chegar ao mais bonito.” (Caetano Veloso, hoje, n’O Globo)

“Diz o escritor inglês Alex Bellos que, se para os europeus os marcos da memória histórica do século XX são dados pelas Guerras, no Brasil são dados pelas Copas do Mundo. A afirmação sinaliza de maneira ambivalente o quanto a paixão do futebol deu forma à identidade e à memória coletiva brasileira, ao mesmo tempo em que sugere o quanto ela é pautada tradicionalmente pelo jogo, pelo lúdico, e não pelo enfrentamento das realidades. A comparação ganha uma outra atualidade agora, quando o ensaio da Copa do Mundo através da Copa das Confederações vem acompanhado de uma guerra, real e simbólica, onde está em jogo o custo social da tarifa de ônibus, o custo social da Copa do Mundo, o custo social e político do Brasil. Uma inesperada junção à maneira brasileira de guerra com Copa, por isso mesmo muito nova.” (José Miguel Wisnik, ontem, n’O Globo)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

deus hipotético (por luis fernando verissimo)


Na crônica de Luis Fernando Verissimo publicada pelo O Globo no último domingo, “Deus hipotético”, além da coragem e humor habituais, chama atenção o trecho: “Há aquela parábola do Dostoievski sobre o encontro do Grande Inquisidor com Jesus Cristo, que volta à Terra ― o filho da hipótese tornado homem ― para salvar a humanidade outra vez, já que da primeira vez não deu certo. Os dois conversam na cela onde Cristo foi metido por estar perturbando a ordem pública, e o Grande Inquisidor não demora a perceber que a pregação do homem ameaçará, antes de mais nada, a própria Igreja, a religião institucionalizada e os privilégios do poder.” Uma ideia perversa e atravessou o pensamento: se a ficção não seria também de um cristianismo genuíno, ou seja, era uma vez um homem, dito filho de Deus, que tentou pregar a justiça social, mas isso não deu muito certo, e este homem acabou morto, e então é até possível lutar contra um mundo socialmente injusto, mas trata-se de uma luta vã... Verissimo não citou Dostoievski em vão.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

hermeneutas

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria. 
― Os hermeneutas estão chegando! 
― Ih, agora que ninguém vai entender mais nada… 
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto. 
― Alô...
― O que é que você quer dizer com isso? 

Luis Fernando Verissimo. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.111.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Luis Fernando Verissimo: "controlar a demência solta no mundo"

SOZINHOS

Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:
Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.
― Ronca.
― Não ronco.
― Ele diz que não ronca ― comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.
Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar e sai cedo. Ficam os dois sozinhos.
― Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer ― diz ela. E em seguida tem a ideia infeliz. ― É o que eu vou fazer! Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.
― Humrfm ― diz o velho.
Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias ideias e deixado de escrevê-las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.
Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.
Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.
― Rarrá! ― diz a velha, feliz.
Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha também ronca!
― Rarrá! ― diz o velho, vingativo.
E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida. Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio ― por causa dos roncos ― não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes. É um diálogo sussurrado.
"Estão prontos?"
"Não, acho que ainda não..."
"Então vamos voltar amanhã..."


VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p.31-33.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Luis Fernando Verissimo

HISTÓRIA ESTRANHA

Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de idade. Está com quarenta, quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde está a sua babá fazendo tricô. Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco e a babá. Tem uma vaga lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é o tempo. Como eu era inocente. Como os meus olhos eram limpos. O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás. 
O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos, como eu vou ser sentimental! 

Luis Fernando Verissimo. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p.41.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Luis Fernando Verissimo

Tirinha utilizada em questão de vestibular da UFMG/2006. Foi postada em fevereiro do corrente, mas a sua utilização para fins de um exercício sobre pronomes e o humor gerado pela situação me fez trazer a postagem para agora. Alguns alunos juraram de pés juntos que na verdade são "minhocas" que estão falando, e não "cobras", o que acionou algumas minhocas na minha cabeça, e me fez pensar algo em torno de nossa insignificância, "minhocas metafísicas diante do nada", algo sugerido pelo primeiro quadrinho. Mas é claro que só nas fábulas animais falam.