Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 2 de julho de 2011

água, sonho liquefeito, em líquido desfeito

Afogo, em sonho, o amor nas águas da placenta de minha mãe. Mas também explanava ontem, na aula, sobre a hipérbole em Alice, a possibilidade de se afogar nas próprias lágrimas, aliás tudo se passando em sonho. Havia muita água em tudo.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

cogumelos

― Mariana, você já conseguiu encontrar seus cogumelos?
À pergunta, tão sem nexo aparente com o restante, mas tão acertada, eu respondi que sim, não sem antes titubear ― o mote era o texto de Paulo Mendes Campos sobre Alice, a frase: Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.” Encontrar os cogumelos. Essa pergunta, tão simples, tão exata, eu ainda não havia me feito; entretanto foi simples responder: sim, já encontrei. 

quinta-feira, 30 de junho de 2011

sorriso familiar

Alguém que conheço apareceu-me em sorriso esta noite ― e não era o Gato de Cheshire ― quem sabe o Gato de Cheshire engendrado pelos muitos e sinuosos encontros entre os livros e a vida. 

domingo, 19 de junho de 2011

Alice e a Lagarta: "Quem é você?"

A Lagarta e Alice ficaram olhando uma para a outra algum tempo em silêncio. Finalmente a Lagarta tirou o narguilé da boca e se dirigiu a ela numa voz lânguida, sonolenta:
“Quem é você?” perguntou a Lagarta.
Não era um começo de conversa muito animador. Alice respondeu, meio encabulada: “Eu... mal sei, Sir, neste exato momento... pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então.”
“Que quer dizer com isso?” esbravejou a Lagarta. “Explique-se!”
“Receio não poder me explicar”, respondeu Alice, “porque não sou eu mesma, entende?”
“Não entendo”, disse a Lagarta.
“Receio não poder ser mais clara”, Alice respondeu com muita polidez, “pois eu mesma não consigo entender, para começar; e ser de tantos tamanhos diferentes num dia é muito perturbador.”
“Não é”, disse a Lagarta.
“Bem, talvez ainda não tenha descoberto isso”, disse Alice; “mas quando tiver de virar crisálida... vai acontecer um dia, sabe... e mais tarde uma borboleta, diria que vai achar isso um pouco esquisito, não vai?”
“Nem um pouquinho”, disse a Lagarta.
“Bem, talvez seus sentimentos sejam diferentes”, concordou Alice; “tudo que sei é que para mim isso pareceria muito esquisito.”
“Você!” desdenhou a Lagarta. “Quem é você?”
O que as levou de novo para o início da conversa.

CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Ilustrações originais de John Tenniel. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 55-57.

[Ilustração original de John Tenniel. Imagem obtida aqui]

sexta-feira, 17 de junho de 2011

sonho de Alice

Os sonhos desta noite (que eu nem sei se houve, no plural, pois estava dormindo, e dormir é não saber, e ao mesmo tempo saber-se muito), deixaram como vestígio apenas uma imagem: meus cabelos levemente mais crescidos. Minha imagem com os cabelos um pouco mais compridos. Ontem, no ônibus, folheava Alice, enquanto minhas sensações teimavam em me arrastar para a paisagem, outra forma de chamar atenção sobre elas próprias. Transformações em curso, com poucos sinais evidentes, por ora. Mas na noite que perdura ao longo do dia, nos recessos de difícil acesso, vislumbro, pelo sonho, camadas em movimento, a tectônica de placas em atuação: no fundo da Terra, para onde caiu Alice, muito acontece, e conforme a intensidade os abalos sísmicos chegam à superfície. Chegaram-me, esta noite, pelos cabelos em crescimento, e isso me traz à memória, agora, no momento em que escrevo, outra história conhecida. Então escrever é ajudar os sonhos. 

terça-feira, 17 de maio de 2011

Alice

Lendo o famoso diálogo de Alice com a lagarta, esta fumando sobre um cogumelo (e a sugestão de que um lado faz crescer e o outro diminuir de tamanho), não deixa de ser estranho pensar que a lagarta lança uma questão sem resposta, haja vista o diálogo andar em círculos, como faz lembrar o próprio ciclo de vida da lagarta: "Quem é você?" Como encontrar a porção exata dos dois lados do cogumelo que satisfaça a questão? Talvez a lagarta estivesse perguntando: "Quem você pensa ser?" Alice sabia-se Alice, apesar de tudo, mas quem a lê talvez não tenha tanta certeza disso, embora tenha a seu dispor palavras com que organizar-se. 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

em território de Alice

Vi-me, em sonho, em território de Alice: pagando tributos em demasia, fazendo muitas reverências a Vossa Majestade. Os pronomes de tratamento não são aprendidos/ensinados impunemente: junto com eles apreende-se uma/a hierarquia. Mas, por outro lado, é uma maravilha poder aprender a língua, pois apreendem-se outras formas de dizer uma coisa, que é, quem sabe, dizer outra coisa. Então sonhei-me, confusamente, em território de Alice: havia reis e majestades, havia tirania, então entendi tratar-se do território de Alice. Mas dizer território de Alice é dizer de uma posse. Jamais posso me esquecer que ensinei isso aos alunos: “Vossa Onipotência ―” (assim, dessa forma, com um travessão em seguida) é o pronome de tratamento destinado a Deus, e não se usa, conforme a gramática que consultei, de Evanildo Bechara, abreviadamente, ao contrário dos demais, que admitem abreviatura. Deus seria tão vasto que não admitiria sequer ser sequestrado na/pela linguagem.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Alice e o Gato de Cheshire

[imagem obtida aqui]

Ao ver Alice, o Gato só sorriu. Parecia amigável, ela pensou; ainda assim, tinha garras muito longas e um número enorme de dentes, de modo que achou que devia tratá-lo com respeito.
“Bichano de Cheshire”, começou, muito tímida, pois não estava nada certa de que esse nome iria agradá-lo; mas ele só abriu um pouco mais o sorriso. “Bom, até agora ele está satisfeito”, pensou e continuou: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”
“Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.
“Não me importa muito para onde”, disse Alice.
“Então não importa que caminho tome”, disse o Gato.
“Contanto que eu chegue a algum lugar”, Alice acrescentou à guisa de explicação.
“Oh, isso certamente você vai conseguir”, afirmou o Gato, “desde que ande o bastante.”

CARROL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Ilustrações originais de John Tenniel. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 79-77.

domingo, 1 de agosto de 2010

bovarismo

"Emma Bovary c'est moi". Esse dito célebre de Flaubert foi repetido à exaustão. A personagem de Emma Bovary foi tão bem pensada que deu origem a um substantivo, "bovarismo", assim definido pelo dicionário: "s.m. (1923) 1 tendência que certos indivíduos apresentam de fugir da realidade e imaginar para si uma personalidade e condições de vida que não possuem, passando a agir como se as possuíssem 1.1 p.ext. faculdade que tem o ser humano de se conceber diferente do que é. ETIM fr. bovarysme, orig. grafado bovarrisme (1865), de Madame Bovary, personagem de G. Flaubert (escritor francês, 1821-1880)." Bovarismo é o equivalente romântico de "quixotesco" (o que não tem nada a ver com a classificação de Madame Bovary como obra realista; em seu fundamento, o texto é romântico). Mas a conversa aqui é outra: numa roda recente, alguém saiu com uma pergunta assaz curiosa: "Você preferia ter sua vida contada por José de Alencar ou Machado de Assis?". Machado de Assis, evidente. Outras duplas equivalentes foram propostas, não me lembro mais quais, mas certamente, se me fosse concedido o luxo de escolher um romancista para contar minha vida, esse romancista seria Gustave Flaubert. Poucas obras me deram mais prazer que Madame Bovary. Fiquei com a impressão de que estava diante de uma dicção literária que beirava a perfeição. Tenho inclusive medo de reler e não confirmar essa impressão. E aqui retomo o dito que abre esse texto: "Emma Bovary c'est moi". Todos trazem, em algum momento da vida, uma Emma Bovary dentro de si, no sentido do inevitável conflito entre as leituras românticas, que impelem para a fantasia, e a realidade, que chama para o chão (na falta de termo melhor). Madame Bovary é uma obra no limiar entre o romantismo e o realismo, ela problematizou ambos. Infelizmente, não me sinto capaz de aprofundar essa discussão, mas isso pouco importa. O que quero frisar é o alcance da obra em termos da encenação de conflitos que transcendem o século XIX: a fantasia das leituras leva para um lado; o mundo, que precisa ser fantasiado, leva para outro. Nesse terreno resvaloso nos movemos. Nem é preciso lembrar o conto Fita Verde no cabelo, de Guimarães Rosa, que tem como subtítulo (nova velha estória), postado neste blog. E que agosto seja bem-vindo.