Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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terça-feira, 1 de abril de 2014

"escravos de jó", canção censurada do álbum "milagre dos peixes", gravada posteriormente como "caxangá" por elis regina

Milton Nascimento e Fernando Brant
  
Sempre no coração 
haja o que houver 
a fome de um dia poder 
morder a carne dessa mulher 

Veja bem meu patrão 
como pode ser bom 
você trabalharia no sol 
e eu tomando banho de mar 

Luto para viver 
vivo para morrer 
enquanto a minha morte não vem 
eu vivo de brigar contra o rei 

Em volta do fogo 
todo o mundo abrindo jogo 
conta o que tem pra contar 
casos e desejos 
coisas dessa vida e da outra 
mas nada de assustar 
quem não é sincero 
sai da brincadeira correndo 
pois pode se queimar, queimar 

Saio do trabalh-ei 
volto pra cas-ei 
não lembro de canseira maior 
em tudo é o mesmo suor  

domingo, 24 de fevereiro de 2013

brasil: infância mutilada

À leitura da matéria publicada n’O Globo de hoje, “Filhos de presos torturados carregam a dor do passado”, foi inevitável a comoção, porque violência contra criança ultrapassa qualquer fronteira da razão ou do entendimento. Uma dessas crianças, Carlos Alexandre Azevedo, submetido à violência dos generais quando tinha apenas 1 ano e 8 meses de idade, suicidou-se na última semana. A mim, nascida em 68, ocorre-me ter então vivido uma outra face da moeda, passando a infância num interior rural anônimo, anódino, vazio de experiências e de poucas expectativas, e que bem depois entendi como também uma forma perversa de fazer a repressão acontecer, porque não saber de nada é quase nada saber.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

C A I S (Milton Nascimento e Elis)


Em Os sonhos não envelhecem, é possível perceber a diferença sutil entre Fernando Brant e Ronaldo Bastos, os dois letristas mais assíduos nas composições de Milton Nascimento.