Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 29 de junho de 2013

Graciliano Ramos: Pequena história da República (trecho)

1922
Em começo de 1920 vários municípios sertanejos da Bahia sublevaram-se. Para evitar luta, o governo contemporizou, entrou em combinações com os chefes rebeldes.
Em março ocorreram na capital federal manifestações de operários, logo abafadas severamente. 1921 principiou com agitações deste gênero: greve de trabalhadores marítimos, greves dos operários de construção. E o desassossego aumentou durante a campanha da sucessão, culminou em 1922 com demonstrações de indisciplina e revolta.
É curioso notar que isso não ficava apenas em comício, com discurso e tiro. Havia indisciplina em toda parte: nos quartéis, nas fábricas, nos atelieres, nos cafés, nos quartos de pensão onde sujeitos escrevem. E a revolta, meio indefinida, tomando aqui uma forma, ali outra, manifestava-se contra o oficial, que exige a continência, e o contra o mestre-escola, que impõe a regra. A autoridade perigava.
Afastou-se o pronome do lugar que ele sempre tinha ocupado por lei. Ausência de respeito a qualquer lei.
Com certeza seria melhor deslocar o deputado, o senador e o presidente. Como estes símbolos, porém, ainda resistissem, muito revolucionário se contentou mexendo com outros mais modestos. Não podendo suprimir a constituição, arremessou-se à gramática.

5 de julho
A eleição realizada em março de 22 foi um desastre, como de ordinário. Vencedor o candidato do governo. Pílulas. Continuação da mágica besta; a chapa entregue ao eleitor encabrestado e metido na urna, ata fabricada pelo coronel, o Congresso examinando todas as patifarias e arranjando uma conta para a personagem escolhida empossar-se.
Francamente, aquilo não tinha graça. No começo da República, ainda, ainda: mas agora estava muito visto, muito batido, não inspirava confiança. Necessário reformar tudo.
Como? Ninguém sabia direito o que viria, mas todos concordavam num ponto: não podia vir coisa pior que o que tínhamos. Muito brilho por fora: visita de reis, exposição, projetos de açudes, universidade, numerosos hóspedes ilustres. Por dentro era aquela miséria: doença, ignorância, o coronel safado a mandar, assassino e ladrão.
E alguns rapazes se levantaram, no forte de Copacabana, a 5 de julho de 1922. Mas houve defecções. O marechal Hermes, implicado no movimento, deixou-se prender. Ficaram em Copacabana dezoito doidos que afrontaram a tropa, comandados por Siqueira Campos.

O centenário
Depois disso veio o estado de sítio, com muita prisão. Em seguida fizeram-se grandes festas para solenizar o centenário da Independência.

RAMOS, Graciliano. Alexandre e outros heróis. 56.ed. Rio de Janeiro: Record, 2012, p.180-182.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Stephen Dedalus: "Tece, tecedor do vento"

“Não tivesse Pirro tombado às mãos de uma megera em Argos ou Júlio César sido apunhalado de morte? Não são para não serem pensados. O tempo ferreteou-os e agrilhoou-os, eles estão alojados no compartimento das possibilidades infinitas que eles expulsaram. Mas podem estas ter sido possíveis atendendo a que nunca foram? Ou era só possível o que ocorreu? Tece, tecedor do vento.
― Conte-nos uma história, senhor.
― Conte, senhor, uma de fantasmas.
[...]
Deve ter havido um movimento então, uma efetivação do possível como possível. A frase de Aristóteles se formou a si mesma em meio aos versos parlapatões e sobreflutuava no silêncio estudioso da biblioteca de Santa Genoveva, onde ele lera, abrigado do pecado de Paris, noite a noite. Ao seu cotovelo um siamês delicado esmiuçava um tratado de estratégia. Nutridos e nutrientes cérebros ao meu redor: sob lâmpadas incandescentes, pingentes com filamentos pulsando desmaiados: e na escuridão de minha mente uma preguiça de inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranquila. A alma é de certo modo tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranquilidade súbita, vasta, candescente: forma das formas.

JOYCE, James. Ulisses. Trad. Antonio Houaiss. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p.34-35.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

sonhando a própria angústia da História

Apesar de tudo, gosto dos meus sonhos ― eles me economizam a sessão extra de análise semanal. A maravilha da condensação: um retalho da novela, outro de conversa, outro da literatura ― e o substrato denso e indelével da vida. Indelével ― a beleza desta palavra não trai a complexidade do que nela subjaz. Fundo acima de tudo inescrutável, como um filme cujo entendimento estivesse fora de qualquer cogitação hermenêutica. O que sonhei esta noite mal cabe em palavras. Não cabe, aliás, porque pareço eu mesma, no sonho, sendo tragada por alguma coisa que pareço assistir. Ontem revisitei, em memória, o conto “Pai contra mãe”, de Machado de Assis. Também me chegou em casa o livro Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, de José Murilo de Carvalho. Textos aproximadamente da mesma quadra histórica, que sinto certa urgência de estudar. E o onipresente achado de Stephen Dedalus ― “A história é um pesadelo de que tento despertar-me”. Sonhar o próprio pesadelo da História, vivendo numa cidade à beira do caos, e traçar nas palavras uma tentativa de catarse desse pesadelo, pois há em curso alguma coisa estranha, e sonhar é entrever possibilidades de acessar o que o dia, mais do que nunca, está tentando negar. Não é só a questão de sonhar ― é o espanto de amanhecer com a sensação de que um mundo tão ou mais vasto que o dia foi visitado, e são tantos os feixes cruzados em umas poucas imagens que a melhor apropriação que consigo fazer desta noite é que a linguagem pode ser brutalmente subtraída de uma vida (e isso equivaleria a perder a própria vida), embora as pessoas continuem falando, falando as coisas que se dizem todo dia.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

História

Na confusão das referências, julgava ter lido em Walter Benjamin que a História é pássaro que põe ovos de ferro. É que o pensador alemão lançou mão de seres alados chamados anjos para falar da História:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.” 

A imagem, dura, dos ovos de ferro na verdade é de Guimarães Rosa. Mas poderia servir para a História, voo de pássaro agrilhoado por correntes de ferro. A imagem que emerge dos olhos assustados do anjo de Klee, a partir do olhar de Benjamin, suscita pássaros engaiolados no próprio voo, pois o mar de ruínas da História não lhes oferece pouso. 

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. __. Magia e técnica, arte e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 7.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p.226. (Obras escolhidas, 1)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

por que Walter Benjamin não vai deixar, tão cedo, de incomodar

“A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e as espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas.”

“Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participaram do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos de bens culturais. O materialista histórico contempla-os com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima de seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo."

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. __. Magia e técnica, arte e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 7.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p.223-225. (Obras escolhidas, 1)

domingo, 17 de julho de 2011

um épico, sem dúvida, a mostrar a pequenez dos séculos

Ebstorf Mappamundi, 1236


ORIGEM E FORMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA
Amini Boainain Hauy
 [Segismundo Spina. História da língua portuguesa. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2008, p. 22-33]

A origem e o desenvolvimento de tão diferentes e numerosas línguas no mundo são um problema tão complexo e discutido quanto o da gênese humana. É possível que a linguagem se tenha desenvolvido de forma independente em vários centros, ou, única, se tenha ramificado em evoluções divergentes, na história dos povos.
A monogênese linguística é, todavia, bíblica, e a ciência moderna ainda não renunciou à pretensão de descobrir se houve uma língua primitiva , da qual teriam derivado todas as línguas atuais. O fato é que, pela falta de documentos que permitam uma base sólida à indução pré-histórica, as doutrinas do poligenismo e do monogenismo, racial e linguístico, atravessam os tempos, deixando sempre respostas hipotéticas e divergentes.
Sabe-se, com certeza, que a língua portuguesa e os demais idiomas românicos são o resultado de uma lenta e conturbada transformação, através dos séculos, de uma outra língua, o latim, que por sua vez era transformação de outra, o indo-europeu, falado por um povo quase sem história, ao qual se convencionou chamar ariano ou ária.
Muitas são as hipóteses sobre o berço dos árias. Supõe-se, entre outras teses, que seu habitat era a região compreendida entre certa parte do centro da Europa e a leste, estendendo-se até o Turquestão e as estepes russo-siberianas. Em época muito remota (pelo menos de quinze a vinte mil anos antes de Cristo, na estimativa do geólogo Montélius), saíram desse território diferentes tribos, as quais, disseminando-se pela Europa, levaram consigo sua língua: o indo-europeu, também chamado indo-germânico ou ariano.
Nunca se conseguiu reconstruir este idioma, que não foi fixado pela escrita [...] embora não se tenha chegado a uma recomposição dessa língua primitiva, da qual provêm quase todas as atualmente faladas na Europa e Ásia, pesquisas realizadas no começo do século XIX pelo filólogo alemão Franz Bopp demonstraram, pelo método da gramática comparada, o parentesco linguístico das línguas indo-europeias e provaram [...] a existência do indo-europeu.
Nas sucessivas e seculares migrações do povo ariano, o indo-europeu, em contato com outros falares, fracionou-se em diversos ramos, como, por exemplo, o germânico, o itálico, o báltico, o eslavo, o celta, o albanês, o grego, o indo-irânico e o armênio (ao grupo germânico pertencem o inglês, o alemão, o sueco, o dinamarquês, o holandês, o islandês e o norueguês). Desses, o que mais interessa à história do português é o ramo itálico, ao qual pertencem, entre outros, o umbro, o latim e o osco, línguas respectivamente do Noroeste, do Centro e do Sul da Península Itálica. Provavelmente por volta do segundo milênio antes de Cristo é que começou a penetração ariana na Itália.
O latim era o língua dos latinos, povo de costumes simples e rudes que habitava o Lácio, região da Itália Central. Roma, fundada hipoteticamente em 753 a.C., a princípio não passava de uma simples cidadela; porém, dada a sua localização estratégica, não tardou a exercer uma suserania efetiva sobre algumas das cidades mais importantes, e os romanos, dotados de grande tino político e guerreiro, no século III a.C. já tinham dominado toda a Itália, com exceção do Vale do Pó, onde os gauleses permaneciam independentes.
Com o aumento crescente de poder, aumentava a ambição da conquista, e os exércitos romanos espalharam-se, durante séculos, por quase todo o mundo conhecido, numa ânsia desmedida de domínio, subjugando os povos e a todos impondo seus costumes e sua língua: o latim vulgar. De tal forma os povos conquistados assimilaram a influência do conquistador que, mais tarde, o que se denominou de “os romanos” foi, na verdade, o amálgama dos povos conquistados, romanizados. A todos os habitantes do Império foi concedida pelo imperador Caracala, no ano 212, a cidadania romana.
As conquistas romanas começaram em fins do século IV a.C. e continuaram até pouco depois do século I da Era Cristã. Roma, que vivera uma lendária monarquia e uma áurea república, tornou-se a capital do mundo e implantou, oficialmente, em 27 a.C., o Império.
Terminadas as conquistas, tal era a vastidão do Império, tantas as dificuldades de transporte e de locomoção e tantas as vicissitudes internas que o controle de Roma se distanciava cada vez mais de seus domínios e se enfraquecia nas mãos de um só imperador, muitas vezes inepto. Além disso, uma séria crise, iniciada a partir do século III, levou o sistema econômico, social e político do Império Romano a uma completa desintegração no século V. A diminuição da produção nos latifúndios, provocada pela escassez de mão-de-obra escrava, foi uma das várias causas dessa crise. A doutrina cristã, legalizada pelo imperador Constantino em 313, com a publicação do Édito de Milão, e transformada em religião oficial do Império em 391, quando o imperador Teodósio aboliu definitivamente o paganismo, proibia a escravidão. Além disso, desastrosas foram as pestes de origem asiática que assolaram a Europa nos séculos II e III.
Assim, à medida que o Império se enfraquecia, aumentavam suas dificuldades militares e cresciam, nas fronteiras, as investidas dos povos germânicos (bárbaros). A partir de meados do século III, a história cultural de Roma entrou também na Era do Obscurantismo.
Em 395, o imperador Teodósio, numa divisão mais administrativa do que política, dividiu o Império Romano em dois: o do Ocidente, com capital em Roma, e o do Oriente, que abrangia a Península Balcânica, a Ásia Menor, a Síria, a Palestina, o Norte da Mesopotâmia e o Nordeste da África, com capital em Constantinopla. Constantinopla (hoje Istambul), fundada em 330 pelo imperador Constantino, na antiga colônia grega de Bizâncio, tornou-se, por sua localização geográfica privilegiada e pela proteção das altas muralhas que a circundavam, a capital ideal numa época de convulsões militares.
O Império do Ocidente já estava, então, em plena decadência, esfacelado pelas invasões sucessivas dos bárbaros, quando em 476 caiu em mãos do bárbaro romanizado Odoacro, um alto oficial do exército romano, germano da tribo dos hérulos. Odoacro derrubou o último imperador do Ocidente (Rômulo Augústulo) e se fez proclamar rei da Itália, aliado do Imperador do Oriente. O Império parecia, então, reunificado, mas, na realidade, o Imperador mandava apenas no Oriente, pois, no Ocidente, reconhecidos como aliados, dominavam os bárbaros.
Depois da queda do Império Romano do Ocidente, as regiões se isolaram e cada uma teve um desenvolvimento peculiar; formaram-se, então, numerosos reinos bárbaros (franco, suevo, visigótico) que se desenvolveram durante toda a Idade Média e, a partir do século IX, transformaram-se, cada um com sua história e romanço, nos países europeus da Época Moderna.
O Império Romano do Oriente, entretanto, teve uma política mais de estabilização do que de expansão de domínio e, embora ameaçado desde o século VI pelas invasões eslavas, conseguiu sobreviver como unidade política até 1453, quando o Islamismo alcançou seus territórios e os turcos, com os poderosos canhões de Maomé II, destruíram as grossas muralhas que protegiam Constantinopla.
Formado já sob o prestígio da mais rica e bela civilização da Antiguidade, a civilização grega, o Império Romano do Oriente, embora inicialmente se tivesse submetido à administração romana, continuava profundamente helenizado e exercia grande influência sobre a civilização dos conquistadores romanos, sobretudo na língua. O próprio Cristianismo italiano, até o século II, usava a língua grega na liturgia.

É claro que a Grécia, que, no dizer de Horácio, de avassalada se tronou avassaladora, contribuiu mais que nenhuma outra das nações com que os Romanos se tinham posto em contato para esta tamanha revolução; a leitura de seus poetas inspirou naturalmente o desejo de imitação, e o conhecimento, cada vez mais difundido, do grego, foi um auxiliar valioso para o aperfeiçoamento da língua; de tal maneira aquele influiu nesta, que por fim o seu léxico, a sua versificação e sintaxe eram em grande parte gregos. [José Joaquim Nunes, Compêndio de Gramática Histórica Portuguesa, 7.ed, Lisboa, Clássica Ed., 1969, p.6.]

 A língua literária, no contato com civilizações mais adiantadas, como a grega, vicejou extraordinariamente na vasta e rica literatura latina, até que, com a invasão dos bárbaros, desaparecendo a nobreza, passou a ser cultivada apenas nos mosteiros. Como herdeiro do latim clássico, esse latim de Igreja, também chamado latim eclesiástico, medieval ou baixo latim, escrito gramaticalmente, mas eivado de palavras novas, tomadas das línguas faladas e da contribuição grega, foi o latim literário do declínio do Império do Ocidente e a língua oficial das ciências na Idade Média. Ao lado deste surgiu um latim sem regra, também misturado com o léxico de outras línguas, empregado pelos tabeliães; foi o latim bárbaro que os cartórios documentaram em contratos, testamentos, doações e outros escritos de ordem jurídica.
Enquanto a língua literária assim se transformava, o sermo vulgaris, levado pelos soldados e pela plebe às mais longínquas regiões do Império Romano, também se modificava. Das alterações desse rude latim falado resultaram, mais ou menos a partir de 600 da Era Cristã, os romanços (ou romances) medievais e, posteriormente, as línguas românicas ou neolatinas.
Como se explica que o latim vulgar, que, até o terceiro século da Era Cristã, conservara suas características fundamentais, se tenha diferenciado tanto, nas diversas regiões, a ponto de se transformar, a partir do século IX, nas línguas neolatinas: francês, italiano, espanhol, romeno, rético, dalmático, sardo, galego e português?
Vários fatores concorreram para essa ebulição linguística, para a dialetação românica, para o aparecimento das línguas neolatinas: o tempo, a política de dominação dos romanos, a vastíssima extensão geográfica do Império e sua fragmentação política e, principalmente, a ação do substrato e do superestrato.
Como língua falada, o latim vulgar evidentemente se transformou com o tempo; entre uma conquista e outra muitas vezes decorriam séculos, e a língua imposta nas diversas regiões se apresentava, com certeza, distinta. Assim, o latim levado para a Península Ibérica, por exemplo, em 197 a.C mais ou menos, deve ter sido mais arcaico que o levado para a Dácia em 107 d.C.
Além disso, dos povos que o latim encontrou nas regiões conquistadas, alguns eram de raças e civilizações diferentes, cada qual com sua expressão idiomática, e, apesar de seu triunfo sobre essas línguas pré-românicas, o latim sofreu, sobretudo na fonética e no léxico, influências que representam vestígios das línguas anteriormente faladas nas regiões latinizadas. Ao conjunto dos falares diversos dos povos vencidos e conquistados, cuja língua se infiltrou na do povo vencedor, dá-se o nome de substrato linguístico. Eis alguns povos cuja língua representou o substrato linguístico do latim: lígures, ilírios, etruscos, vênetos (na Península Itálica); celtas (na Bretanha); iberos, gregos, fenícios, cartagineses, celtas e bascos (na Península Ibérica); cartagineses (ou púnicos) (no Norte da África).
Na Lusitânia pré-romana foram os celtas o elemento de maior valor linguístico para a estruturação do português.
Vestígios dos celtas no léxico temos, por exemplo, os substantivos comuns: cavalo (< caballus), carro (< carrus), bico (< beccus), berço (< bertium), camisa (< camisia), saio, saia (< sagum), cabana (< cappana), cerveja (< cerevisia), légua (< leuca), vassalo (< vassalus), manteiga (< mantica), caminho (< caminum), gato (< cattus), lança (< lancea); os topônimos da Lusitânia: Coimbra (< Conimbriga), Bragança (< Brigantium), Évora (< Ebora), Lisboa (< Lisbona).
Metaplasmos provocados por influência celta foram: a sonorização de p-t-c: lupu- > lobo, aqua- > água, datu- > dado; a apócope da vogal, principalmente a vogal e depois de l, n e r nos substantivos: male > mal, bene > bem, mare > mar, fenômeno muito frequente na Idade Média, do qual há numerosos exemplos nas poesias trovadorescas; a palatização de l (> lh) e n (> nh) que precediam i, e ou a em hiato: vinea > vinha, filia > filha e a assibilação das consoantes d e t na mesma posição: audio > ouço, gratia > graça, pigritia > preguiça, hodie > hoje, invidia > inveja etc.
Assim, da fusão entre romanos e povos conquistados foram, então, surgindo pouco a pouco novos dialetos, diferenciando-se no tempo e no espaço por força do substrato e, posteriormente, do superestrato.
No estudo das influências linguísticas sofridas pelo latim, no processo da dialetação, considera-se o substrato como o elemento mais importante, especialmente pelo processo de adaptação imperfeita da base física da fonação materna ao novo idioma a ser aprendido.
Os superestratos exercem influência menos significativa, limitando-se, na generalidade dos casos, ao vocabulário.
Como fator de diferenciação linguística, o superestrato está ligado ao desmembramento do Império Romano e é representado pela língua dos invasores germânicos e árabes.
Invasões sucessivas fragmentaram o território e provocaram a ebulição linguística que vai determinar, a partir do século IX, a formação de diversos romanços. No século V, o Império foi invadido pelos povos germânicos (bárbaros), tribos nômades que ocupavam o Norte, o Centro e algumas partes do Sudeste da Europa; a partir dos séculos VI e VII, pelos eslavos, e no século VIII pelos árabes.
A penetração germânica já havia se iniciado antes do século V, mas tratava-se de uma penetração pacífica. Ao passarem a fronteira, a administração romana lhes dava terras, e eles se estabeleciam como colonos, ou incorporavam-se aos exércitos romanos. Muitos altos oficiais romanos do último período do Império eram de origem germânica.
Os visigodos, por exemplo, que inicialmente haviam invadido a Itália várias vezes, na Espanha combateram, como soldados romanos, outros bárbaros. Na Grécia estabeleceram-se como “federados” e em 425 adquiriram independência. Ao serem expulsos pelos francos em 507, os visigodos retiraram-se para a Espanha onde se mesclaram inteiramente com a população romana.
O motivo principal da penetração agressiva dos bárbaros na Europa foi a pressão dos hunos, povos orientais, originários da Mongólia, que chegaram à Europa em 375, desencadeando a migração dos povos germânicos para o sul e para o oeste.
Assim, no século V, o Império do Ocidente, abalado pelas invasões dos bárbaros germânicos e já enfraquecido, desde o século III, por uma grave crise no seu sistema político, social e econômico, sucumbe catastroficamente.
As migrações mais importantes das tribos germânicas foram as dos vândalos, alanos, visigodos, burgundos, alamanos, francos, longobardos, normandos ou viquingues, suevos e saxões.
Alguns desses povos foram rapidamente aniquilados, como os alanos e os brugundos; outros, como os vândalos, os francos, os suevos e os visigodos, estabeleceram-se e formaram reinos romanizados; e outros ainda, como os alamanos, não se romanizaram, mas, ao contrário, germanizaram, na Suíça do Norte, a província da Récia, que antes da conquista romana era céltica.
Piratas germânicos da tribo dos saxões investiram contra as costas da Gália e da província da Bretanha, hoje Grã-Bretanha.
Os longobardos, acossados pelo povo mongol, entraram na Itália, então bizantina, em 568. Durante dois séculos, fortemente romanizados, dominaram grande parte da Itália e deixaram traços muito importantes na língua e na civilização italianas.
Os vândalos, na África do Norte, formaram o Reino dos Vândalos, com capital em Cartago,  e em 455 saquearam Roma.
Os francos, que constituíram o reino mais poderoso da Europa Ocidental, tornaram-se, a partir do século VI, senhores do país que lhes tomou o nome – a França, que os romanos chamavam de Gália.
Os suevos fixaram-se na Galiza e em parte da Lusitânia e fundaram um reino mais tarde absorvido pelos visigodos. Foi nesse território ocupado pelos suevos que se procedeu a gestação do romanço galego-português.
Os visigodos submeteram todo o território da atual Espanha e fundaram um reino duradouro, cuja capital era Toledo. Caldeados inteiramente com a população romana, seu reino hispano-gótico e cristão já alimentava algo parecido com sentimento nacional. Após dois séculos, em 711, esse reino foi destruído pelos árabes; todavia, do nacionalismo cultivado pelos exércitos hispano-visigóticos nas montanhas das Astúrias eclodiu o movimento da Reconquista.
Quando a violência das invasões germânicas foi aos poucos decrescendo, os bárbaros passaram a romanizar-se: adotaram a cultura dos povos vencidos que lhes era superior, cristianizaram-se e assimilaram o latim vulgar. Contribuíram, porém, para acelerar a evolução da língua. Assim, encontram-se, no vocabulário português, vários termos de origem germânica: guerra, trégua, roubar, bando, banda, bandeira, baluarte, escaramuça, dardo, brandir, galopar, arauto, feudo, orgulho, rico, branco, franco, tacanho. O vocabulário germânico inundou o latim vulgar da Gália; o número de empréstimos do germânico para o francês é considerável: maréchal, robe, écharpe, guichet, bord, banc, bacon, danser, sauter, harpe, jardin, groseille, Nord, Sud, Est, Ouest, blanc, bleu, récompense, orgueil, gagner etc.
Com a invasão dos árabes, no século VIII, acentua-se a influência do superestrato no processo de dialetação românica. Mais de duas mil palavras de origem árabe estão no léxico do português; dentre elas: alface, algodão, arroz, açúcar, laranja, azeitona, azeite, cenoura, espinafre, girafa, javali, jarra, almofada, alfanje, arroba, quintal, quilate, alqueire, alfaiate, alcaide.
Os árabes, povo de origem semítica, cuja religião, o Islamismo, agredia os princípios da religião cristã, penetraram na Europa, apoderando-se do reino visigótico. [...] Foi rápida a conquista muçulmana, mas penosa e apaixonada a Reconquista. Refugiados nas montanhas das Astúrias (Montes Cantabros), os restos dos exércitos hispano-visigóticos e os cristãos rebeldes à invasão muçulmana fundaram ali, no Noroeste do país, o Reino das Astúrias e iniciaram, sob o comando de Pelágio, o movimento de Reconquista. Era uma guerra militar, santa, abençoada pelos papas. Avançando para o Sul, foram recuperando os territórios perdidos; assim se formaram os reinos cristãos de Leão, Aragão, Navarra e Castela.
Sete séculos durou a dominação dos muçulmanos na Península Ibérica (711-1492); Granada, o último reduto da resistência moura, foi recuperada em 1492, no reinado dos reis católicos da Espanha, Fernando e Isabel.
Da interpenetração da língua árabe e da língua popular de estrutura românica resultou o moçárabe, falado pela população cristã que viveu sob o jugo islamítico.
Além de representar um elemento significativo do superestrato linguístico, a invasão dos árabes desencadeou o fato histórico da formação de Portugal como Estado monárquico.
Vários nobres de diversas regiões participaram das lutas para expulsão dos invasores. Pelo sucesso das armas de D. Raimundo e de seu primo D. Henrique, conde de Borgonha, no movimento da Reconquista, D. Afonso VI, rei de Leão e Castela, deu em casamento, como prêmio, a D. Raimundo a filha legítima, Urraca, e a região da Galiza, e a D. Henrique a filha bastarda, Tareja, e um feudo, o Condado Portucalense, território desmembrado da Galiza, compreendido, a princípio, entre o Minho e o Douro e, a partir de 1095, entre o Minho e o Tejo.
Não só a língua desse território era a mesma da Galiza, com também foi imposto a D. Henrique administrar o Condado Portucalense sob a tutela de D. Raimundo, senhor da Galiza.
Com a morte de D. Henrique, a viúva assume o poder, mas seus amores com o conde de Trava, da Galiza, desencadearam o descontentamento do povo e de seu filho D. Afonso Henriques, que na Batalha de São Mamede (1128) tomou o poder e se fez proclamar rei. Em 1143, na Convenção de Zamora, Afonso VII, rei de Leão, lhe reconhece a realeza, solenemente ratificada em 1179 pelo papa Alexandre III.
Portugal tornou-se, assim, reino independente da Galiza. Ao mesmo tempo que se separava da Galiza, estendia-se para o Sul, anexando as regiões reconquistadas. D. Afonso Henriques e seus sucessores prosseguiram na luta contra os mouros, até que em 1250 D. Afonso III concluiu a conquista do Algarve, fixando, então, os limites de Portugal de hoje.
Delineado Portugal politicamente, a língua falada naquela faixa de terra continuou sendo o galego-português até o século XIV, quando fatores políticos, sociais e linguísticos determinaram a quebra da relativa unidade linguística galego-portuguesa [...].
A partir do século XIV, já com feição própria, distinta dos outros falares da região e com características que a distinguiam do galego, a língua portuguesa, levada pelas conquistas das epopeias marítimas a outras partes do mundo, continuou evoluindo, transformando-se sob a ação de inúmeros fatores e repetindo, através dos séculos, a sua história.
Assim é que, atravessando “mares nunca dantes navegados”, “penetraram tudo o que o Mar Oceano cerca e consigo levaram sua língua”. 

sábado, 2 de outubro de 2010

Estado x Religião

A propósito de um e-mail enviado por um amigo, advertindo para o perigo de eleger-se para o Congresso Nacional deputados e senadores com vinculações religiosas, e dado que amanhã será dia de eleição aqui no Brasil, ocorre-me este trecho de Reinhart Koselleck, cuja obra, Crítica e crise, analisa a instauração do Absolutismo e a longa negociação travada para que as guerras civis de religião não matassem tanto ou mais que as guerras contra outros domínios. Era precisa apascentar os ânimos e submeter todos à mesma lei. Esse foi o preço pago para a emergência do Estado moderno. Como tal, o livro de Koselleck é de uma atualidade bastante pertinente, no mínimo para que não se regrida em relação a conquistas históricas concernentes à laicização do poder e do saber. Segue um trecho: "O advento da inteligência burguesa tem como ponto de partida o foro interior privado ao qual o Estado havia confinado seus súditos. Cada passo para fora é um passo em direção à luz, um ato de esclarecimento. O Iluminismo triunfa na medida em que expande o foro interior privado ao domínio público. Sem renunciar à sua natureza privada, o domínio público torna-se o fórum da sociedade que permeia todo o Estado. Por último, a sociedade baterá à porta dos detentores do poder político para, aí também, exigir publicidade e permissão para entrar. A cada passo do Iluminismo, desloca-se o limite da competência, que o Estado absolutista havia tentado traçar cuidadosamente, entre o foro interior moral e a política." (KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Trad. Luciana Villas-Boas Castelo Branco. Rio de Janeiro: EdUERJ; Contraponto, 1999, p.49.)

domingo, 19 de setembro de 2010

"Escrever história é um modo de livrar-se (ou emancipar-se) do passado" - Goethe

Elaborar experiências é uma forma de deixá-las para trás... Goethe, conforme informa o estudo de Thiago Lima Nicodemo sobre Visão do Paraíso: "Apesar de efetivamente exemplificativa de um dos fundamentos do historismo, a relação de Goethe com a compreensão do passado não se resume apenas à crítica à História Universal. Partindo do princípio de que a história não podia mais ser um instrumento de investigação de uma razão universal, Goethe, de modo muito fragmentário ao longo de sua obra, procurou formular uma reflexão sobre a história. Uma de suas proposições mais célebres sobre esse tema foi estabelecida em um aforismo composto provavelmente em 1821, no final de sua vida: 'Escrever história é um modo de livrar-se (ou emancipar-se) do passado'.* É muito sugestivo relacionar esse aforismo com considerações presentes em algumas de suas principais obras. Mais especificamente, a ação de livrar-se do passado, ou seja, de romper violentamente com dado passado, construindo uma realidade totalmente nova em seu lugar, nos remete a uma de suas obras essenciais, o Fausto. [...] Seja em um pequeno aforismo, seja em toda uma obra como Fausto, é preciso buscar dialeticamente as origens da negação. Na sua forma original, o aforismo de Goethe conta com uma peculiaridade. A ação de livrar-se do passado é composta a partir de uma expressão idiomática típica da língua alemã: 'vom Halse zu schaffen', ou seja, 'retirar do pescoço' (o passado). A impossibilidade de se traduzir uma expressão como essa da língua alemã obriga [...] a traduzir apenas o sentido geral da frase e, infelizmente, perde-se uma nuança particularmente interessante. 'Retirar do pescoço', mesmo que soe estranho em português, é uma referência corpórea. Na tradução, o 'livrar-se' dá ênfase unicamente à ação, enquanto no 'livrar-se' da versão original sabe-se que o passado está localizado em uma região sensível, no corpo daquele que quer se livrar. Fica, portanto, um pouco mais claro a razão de livrar-se do passado: algo que está no pescoço e que se deseja retirar refere-se a uma sensação de desconforto, de incômodo. Essa agonia imobilizadora, de ser abocanhado por um cão de caça como uma presa, ganhou, com a sedimentação de um mundo urbano e industrial, uma acepção bastante metafórica. Passou a denominar uma das sensações mais características da vida moderna: o worrying, isto é, uma preocupação sem, necessariamente, motivo aparente, que provoca um desconforto contínuo. A ação de livrar-se do passado para Goethe, portanto, alude a um passado presente, contido dentro do próprio ser, que provoca uma sensação de desconforto ou agonia. Escrever história não é livrar-se de qualquer passado, é livrar-se da parcela agonizante de seu próprio passado dentro de si. Fausto, aliás, sucumbe justamente por isso: quando sua empreitada modernizadora termina e não há mais nada a ser feito, ele se dá conta de que o passado que ele fez questão de destruir de modo inescrupuloso é justamente o seu." 


* Em nota, Thiago Nicodemo informa, acerca do aforismo de Goethe: "No original alemão: 'Geschichte schreiben ist eine Art, sich das Vergangene vom Halse zu scheffen'. [...] Na edição brasileira, o aforismo foi traduzido do seguinte modo: 'Escrever história é um modo de desembaraçar-se do passado'. J. W. Goethe, Máximas e Reflexões, 2003, p.30."

NICODEMO, Thiago Lima. Urdidura do vividoVisão do Paraíso e a obra de Sérgio Buarque de Holanda nos anos 50. São Paulo: EDUSP, 2008, p.24-26.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

voluntários da pátria

No conto “São Marcos”, de Guimarães Rosa, há um negro feiticeiro, João Mangolô, descrito pelo narrador como “velho de guerra, voluntário do mato nos tempos do Paraguai”. Trata-se, como se sabe, da guerra do Paraguai, ocorrida na segunda metade do decênio de 1860. As milícias cooptadas para lutar na guerra incluíam grande contingente de escravos – obrigados pelos senhores e/ou aos quais se acenava com a alforria. Essas milícias recebiam o nome de “Voluntários da Pátria”. É o que afirma Boris Fausto: “Calcula-se entre 135 mil e 200 mil o número de brasileiros mobilizados... As tropas foram organizadas com o Exército regular, os batalhões da Guarda Nacional e gente recrutada em sua maioria segundo os velhos métodos de recrutamento forçado que vinha da Colônia. Apesar disso, muitos foram integrados no corpo dos Voluntários da Pátria, como se tivessem se apresentado para combater por vontade própria. Senhores de escravos cederam cativos para lutar como soldados. Uma lei de 1866 concedeu liberdade aos ‘escravos da nação que servissem ao Exército’. A lei se referia aos africanos entrados ilegalmente no país, após a extinção do tráfico, que haviam sido apreendidos e se encontravam sob a guarda do governo imperial.” (FAUSTO, Boris. História do Brasil. 9. ed. São Paulo: Edusp; Fundação para o Desenvolvimento da Educação, 2001, p. 213-214).

quinta-feira, 8 de abril de 2010

um trecho de "Raízes do Brasil"

"A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem." (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 31).

Obs: este é o parágrafo introdutório de Raízes do Brasil, cuja primeira edição data de 1936. Nas edições seguintes, foi modificado pelo autor. A noção de desterro vai aparecer numa canção célebre assinada pelo seu filho, Francisco Buarque de Holanda, em parceria com Tom Jobim - Sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá 


Fonte: site oficial de Chico Buarque de Holanda