Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Dora Ferreira da Silva

A VIDA

Árvore que consome o tronco
nos galhos
nas dissipadas folhas
floração. Frutos.
Livre de seu penoso
e jubiloso trânsito por este mundo

erguei voo — pássaro — cujo nome
só a boca dos arcanjos pode pronunciar
erguei voo
leve de todo lastro
livre de todo apego:
notas musicais libertas do instrumento
pousada em paz
após laboriosa partitura
que também jaz
completa.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.271.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Dora Ferreira da Silva

O ESTRANGEIRO

Na horta, revolvo a terra.
Entre raízes ávidas
me curvo.

Anunciam-te: o hóspede,
o totalmente outro, o antípoda.

As mãos sujas de terra,
mergulho-as na fonte. Nas águas,
refletida, a face que fulgura.

Desvio o olhar ferido.
Para sempre morta
a tudo que não sejas.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.104.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Dora Ferreira da Silva

MODOS DE AMAR

Ouço o que dizem, digo.
E a fala nos degreda.
Oram por mim, por eles oro
na igreja abandonada.
Amar se dá contrito
precisando da dor para se dar.
Na alegria só os pássaros nos querem:
perto o canto cordas puras
pequenos corações do ar.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.351.

sábado, 9 de junho de 2012

Dora Ferreira da Silva

NOTURNO II

Nossos olhos nos pertencem ―
não o dia.
Amor não nos pertence
nem a morte.
Apenas pousam na pérola mais fina.
Desce o luar
no flanco de rios precipitados
folhas se alongam
caules estremecem.

A noite já desfere
seu punhal de trevas.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.46.

terça-feira, 27 de março de 2012

Dora Ferreira da Silva

Minha vida imprimo-a no vento
                                             das horas ligeiras.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Vilém Flusser (em tradução de Dora Ferreira da Silva)

ORAÇÃO CORAÇÃO AÇÃO

Palavras-abelha, provo do vosso mel.
Em letras de ouro e terra
digo escrevo
oração
coração
ação.
A palavra parte (sem destino?)
levando pólen que emprestou-lhe a flor.
Voa com asas de oração; e outra, mais outra, enxames.
Operação tão limpa e delicada
abrindo celas oclusivas ―
alvéolos de transformação.
Que movimento é esse, que voo tão parado,
que decisiva ação?
Já não sou eu quem diz nem ouve e escreve
nem nossa é a dança alada
subindo o teto da manhã:
no alto vértice
o único a colhe
e dá sentido à ação.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.318.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dora Ferreira da Silva

PÁGINA AVULSA

Esquece a palavra e mesmo a partitura
ouve a música inesperada desse caminho
em que ela andou e era manhã.
Outros caminhavam a seu lado
riam. Havia sempre uma flor desconhecida
cor e perfume diversos dos ramos de outros dias.
Uma ninfa de azul tudo olhava.
Tu sei una visuale”, alguém dizia.
Ela olhava absorta. Me piace il tuo silenzio
a voz prosseguia. Cantavam águas
passos ecoavam nas pedras que sempre por ali havia.
Isso foi ontem
              hoje é outro dia.
No mesmo caminho ela segue
vendo/ouvindo o fantasioso viver
mais um dia
             mais um dia.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.394-395.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Dora Ferreira da Silva

NOITE EM ITATIAIA

O canto excede o pássaro
e se distende
             sopro
sibilando mais do que o saber sabe.
O silêncio (quando pousa)
ao distraído censura
não ver o muito do nada.

Sol posto.
A sinfonia adentra-se na mata.
No escuro da noite
faço de meu peito um ninho de aconchego
e canto de mim para comigo (sem que o ar se mova)
mais um dia de aprendizado.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.291-292.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Dora Ferreira da Silva

VIDA

Às vezes paro
outras cultivo o jardim:
a mão escolhe ou esquece
mas o espinho sempre fere
as palmas vulneráveis.
Esqueço o nome das flores
   das ruas
(lembrando seu perfil preciso)
e varro de manhã as folhas secas.
Amo os livros e a eles me dou
no banco sob a árvore: para sempre
lembrança de vida e vozes nos canteiros.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.166.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Dora Ferreira da Silva

PROCURA-SE

Urgente. Trabalho perigoso
sem salário.
Precisa-se de alguém para desintegrar
um átomo de amor.

É preciso outro Francisco em sua soledade.


Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.360.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Dora Ferreira da Silva (após uma reunião de amigos: garça ― graça)

GARÇAS

Flores aparentes
que no azul deslizam
poemas de plumas intocáveis.

De que matéria ― ó dúcteis ―
esse perfil pousado em forma
subitamente imóvel?

Uno alvo graça e vida
nos alagados que vos refletem.
Brilham olhos contemplativos.

Oscila o campo verde
e as pálpebras se fecham para o voo
da brancura que a ninguém pertence.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.351-352.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Dora Ferreira da Silva

POETAS E INSETOS

Gravamos nas folhas (como insetos)
signos arbitrários
futuros dicionários
para aprendizes de símbolos.

O céu é transparente como
as lentes dos óculos
e a terra se adorna
como as belas mulheres.

Subimos a escada platônica
descemos a escada plutônica
escrevendo entre dois amores
a modo de insetos nas folhas
para gerar sem fim
outras flores
outras fomes.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.137.

Dora Ferreira da Silva

MURMÚRIOS

Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.

Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.140.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Dora Ferreira da Silva: flor refletida no olhar

AGORA, AS COISAS SIMPLES...

Agora, as coisas simples
antes cegas em nossos olhos.
E nada tocamos
mãos sobre as cordas mudas.
Se o som desperta é dele
o ouvido em flor. Mas corre o sangue
porque tudo é vivo sob as folhas mortas.
Sozinho se arma o acorde no piano
há surpresas na colheita deste ano, novos grãos na seara.
Sobre o braço em ângulo a fronte repousa
e o olhar reflete
uma flor.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.352.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

ANO NOVO

Prepara-se o jardim.
Há um movimento do botão à flor
em câmara lenta.
O rosto pequeno das violetas
esconde seu perfume nas folhas
sussurrando segredos
                    salta o sabiá na aragem
e suplica à rosa de ontem
que não desfolhe seu rubor.

Promete a nova noite
a estrela que quisermos.
O CISNE ― constelação que amamos ―
cintila noutro céu.
                    Entre ar e folhagem
o pedido calado alcança
um pássaro estelar.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.291.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Dora Ferreira da Silva

AION

Flor sideral
docemente arremessada ao éter
guiou-me ao centro da linguagem
ensinou-me a ler como arúspice
entranhas de eventos e pássaros
gerando-me na árvore
do espírito em flor.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.176.

Dora Ferreira da Silva

OS POETAS ESTÃO COM MEDO...

Os poetas estão com medo das palavras:
é o sinal evidente que devem detoná-las.
A vida implora: quer ser refeita
sob os escombros. Tantas avenidas
trânsito parado rios enfermiços pássaros
em debandada: encontrarão talvez seu pouso
num disco voador receptivo ao voo e ao canto.
Desencanto do presente. Economia economia
economia e a casa em desordem.
Um pouco de filosofia não fará mal nenhum.
Os jovens poetas leem Giordano Bruno
Nietzsche e sabem que eles mais perto estiveram
do noumeno do que esses fenômenos de efeito
especial ― barulho e repetição. O mal
é o alienígena, bárbaro à vista como sempre
e outrora. Detonem a palavra ― poetas ―
poetas é outro nome de guerreiros e amorosos
do ser. Venham com seus amores transfigurados
com sua energia nuclear. A destruição pela
palavra é redemoinho no ar
para novas configurações do imaginário,
de um novo fabulário que liberte Andrômeda
de seus grilhões e torne o monstro
digestível. Tirem a palavra de sua bainha,
o coração, sem hesitar. A palavra
― sopro cosmogônico― nossa arma de predileção,
nossa bomba amorosa de efeito retardado
mas seguro. O mundo que se desmunda aí está
à espera de aragem sagrada de vossas bocas
dizei um novo Atharva-Veda poetas oficiantes
buscai o ponto de união de tantos cacos
dispersos; dizei o verso que vem aos trancos
e barrancos dependendo de vossa ousadia
e alegria, pois é sempre alegre
o gesto criador, a palavra inicial.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.401-402.