Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


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sábado, 9 de dezembro de 2017

João Cabral de Melo Neto - Cartão de Natal

CARTÃO DE NATAL

Pois que reinaugurando essa criança 
pensam os homens 
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno, 
fresco como o pão do dia; 
pois que nestes dias a aventura 
parece em ponto de voo, e parece 
que vão enfim poder 
explodir suas sementes: 

que desta vez não perca esse caderno 
sua atração núbil para o dente; 
que o entusiasmo conserve vivas 
suas molas, 
e possa enfim o ferro 
comer a ferrugem, 
o sim comer o não.

(1952)


João Cabral de MELO NETO.  Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.138. 

domingo, 24 de abril de 2016

ode ao cuspe


ODE AO CUSPE
(via textão, do Cronisias)

“Soprar ou cuspir em alguma coisa, dizia Jung, tem um efeito mágico, como, por exemplo, quando Cristo utilizava sua saliva para curar um cego”

por Gilson Iannini
Para Jean

Em sua Psicologia da composição, João Cabral de Melo Neto termina seu manifesto contra a poesia dita profunda do seguinte modo:

Poesia, te escrevo
agora: fezes, as
fezes vivas que és.
Sei que outras

palavras és, palavras
impossíveis de poema.
Te escrevo, por isso,
fezes, palavra leve,

contando com sua
breve. Te escrevo
cuspe, cuspe, não
mais; tão cuspe

como a terceira
(como usá-la num
poema?) a terceira
das virtudes teologais.

Trata-se de um poema programático, contra o lirismo burguês (comedido ou desmedido, tanto faz). O poema começa desconstruindo a metáfora que equivale a poesia e a flor, e prossegue num vertiginoso procedimento metonímico que consiste em constituir uma série que vai das fezes ao cuspe. Na última estrofe, a terceira das virtudes teologais – o amor ou a caridade – é evocada através de sua “descrição definida”, sem que seu nome possa sequer ser enunciado. Como se um novo mandamento poético se impusesse: “poesia, não evocarás o santo nome do amor em vão”! Uma descrição definida é um conceito lógico que designa o conteúdo semântico ou o valor cognitivo de um nome próprio. A estratégia do poeta visa denunciar o abuso banal da palavra “amor”, ubíqua na poesia ingênua.

Poesia, portanto, é flor, apenas quando flor pode significar outra coisa que um desabrochar puro da natureza. Poesia é, na verdade, fezes, cuspe. Impossível não lembrar de Jung, que escreve: “soprar ou cuspir em alguma coisa tem um efeito mágico, como, por exemplo, quando Cristo utilizava sua saliva para curar um cego”.  Dizer que a poesia é cuspe, lembra-nos Tenório, é “admitir que ela pode curar alguém, ou melhor ainda, fazê-lo ver”. Em alguns casos, portanto, cuspir é um ato de amor, uma caridade, uma virtude teologal. Em algumas circunstâncias, nas quais reina a infâmia e a desonra, apenas um cuspe foi capaz de repor o sagrado no seio do profano, a verdade no meio da falação dos fariseus.

Enquanto impera a mentira e o ódio, para que a verdade possa falar, é preciso, de alguma forma, interromper a farsa, suspender o regime discursivo que instalara a infâmia como regra do jogo. Apenas um ato, no sentido lacaniano do termo, seria capaz de estancar o fluxo regrado da farsa. Não adianta, para isso, contrapor argumentos ou apontar contradições ou inconsistências. A farsa não é sensível à argumentação lógica. Interessado em investigar as consequências psíquicas da guerra, Freud escreve: “logo, argumentos lógicos seriam impotentes perante os interesses afetivos e, por isso, a contenda com fundamentos, que segundo Falstaff são tão comuns como as amoras, é tão infrutífera no mundo dos interesses. (…) A cegueira lógica que esta guerra magicamente provocou, justamente nos nossos melhores concidadãos, é, portanto, um fenômeno secundário, uma consequência da excitação dos sentimentos que esperamos poder ver desaparecer junto com ela”.

Pois todo o universo que orbita em torno de Cunha, naquele momento, é regido pela farsa e pela hipocrisia. Num universo presidido pela hipocrisia, tudo é permitido. A palavra “hipocrisia” vem do grego. Segundo registra o Houaiss, designa a “ação de desempenhar um papel, uma peça, uma pantomima; desempenho teatral, declamação; simulação, dissimulação, falsa aparência”. A conotação de “dissimulação” consolida-se apenas na baixa Idade Média, depois que um dos principais tradutores da Bíblia para o latim, São Jerônimo, emprega o termo para designar os falsos cristãos, aqueles devotos, muitas vezes fervorosos, que pregam a palavra de Deus, mas que agem contrariando aquilo que pregam.

Quando uma sessão solene do Congresso nacional é instalada, ironicamente no horário da missa dominical, sob o signo da hipocrisia, regida por um corrupto contumaz, capaz de evocar a misericórdia divina, naquele instante tudo é corrompido, tudo é corrupção: corrupção das palavras e dos gestos, corrupção das instituições e pantomima dos ritos. Não custa lembrar o sentido filosófico da palavra corrupção: corrupção, por exemplo, é fazer com que algo que existe passe a não existir, ou algo que não existe passe a existir.

Não há decoro possível em nenhuma palavra, em nenhum procedimento. Por isso, palavras como, “Deus”, “justiça”, “liberdade” e “nobreza” estavam completamente esvaziadas de conteúdo semântico ou corrompidas: “em nome de Deus”, “em prol da justiça”, “para libertar o Brasil”, “meus nobres deputados aqui presentes” etc. são expressões que designam, no melhor dos casos, nada; no pior dos casos, o contrário do que dizem. Não custa também lembrar que, como demonstrou Freud, às vezes, quando vigora a lógica inconsciente, palavras podem reativar sentidos antitéticos, significando justamente o contrário de seu valor de face. Aliás, o poeta Schiller lembrava que a insistência com que uma época fala da moralidade e de façanhas morais singulares seria um sintoma inequívoco de debilidade cultural.

Tudo ali era vilania e desprezo. Tudo ali era exceção. Nada ali emana do decoro. Quantos nobres deputados, sabidamente corruptos, não levantaram a voz, dedo em riste, para bradar em nome de Deus, da justiça e da liberdade, contra a corrupção? Não custa lembrar que a sessão plenária do último domingo sequer tinha por objeto analisar corrupção, de que a presidente nunca foi formalmente acusada. É de deixar pasmo qualquer ser humano pensante que apenas uma ou duas dúzias de deputados (de um lado ou de outro) tenham se referido ao objeto em pauta: uma dúzia disse que a presidente cometeu crime de responsabilidade, outra dúzia que não cometeu. Esses não faltaram com o decoro. Também não faltaram com o decoro aqueles que denunciaram o caráter farsesco do processo. Os demais fizeram o voto Xuxa: “queria mandar um beijo para minha mãe, meu pai e para você”, como rapidamente o povo percebeu. Mas nada disso deveria nos espantar. Na verdade, a votação no Congresso espelha a verdade de nossa sociedade: a absoluta maioria das pessoas, de um lado como de outro, é incapaz de meditar, de refletir, de pensar criticamente e de se ater a alguma coisa perto da sensatez ou dos fatos, agindo por ódio surdo ou por amor cego.

Nesse contexto, que um deputado possa dedicar seu voto à memória de um torturador não deveria chocar. Ao contrário, trata-se de uma consequência inevitável. O coronel Brilhante Ustra, louvado por Bolsonaro, como “o pavor de Dilma Roussef”, não é um torturador qualquer. É um dos mais conhecidos, não apenas por sua crueldade, mas também por seu papel de comando. Quando um “nobre deputado” evoca seu nome no instante em que vota pelo impedimento de uma de suas vítimas, não há humanidade, nem decoro, apenas vilania. Quando este nobre deputado confessa a similaridade entre 1964 e 2016, ele diz a verdade que outros tentam encobrir com um véu. Mais ainda. Bolsonaro foi um dos poucos que elogiou entusiasmadamente a condução do processo por Eduardo Cunha. Nada mais consistente. Nada mais significativo.

Como interromper tal espetáculo da infâmia? Quando a palavra se descobre esvaziada, escassa, flatus vocis, impossível não lembrar de Goethe: “No princípio era o ato.” No momento em que, depois da aviltante declaração de obediência ao mais hediondo dos crimes, os nobres deputados se calam diante da infâmia, “as pedras gritam”. Esta metáfora remonta ao episódio da descida do monte das Oliveiras e da triunfal entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-9; Mc 11,1-10). Enquanto a multidão louvava, alguns fariseus pediram a Jesus que repreendesse o fervor de seus discípulos. Ao que ele respondeu “se eles se calam, as pedras gritam”. Jean Wyllis não se calou. Foi o poeta da educação pela pedra, no sentido poético de João Cabral. O cuspe contra a bala, já que a palavra não tem valor nenhum.

Mas o cuspe de Jean Wyllis acabou ferindo a fina e seletiva sensibilidade da burguesia nacional. O cuspe seria um ato de alguém sem caráter, de um veado desqualificado, que não recebeu educação em casa e coisas que tais. É mais ou menos o que se lê nos comentários de internautas nos grandes jornais. Curioso. Essa sensibilidade escandalizada pelo cuspe, todavia, acolhe com indiferença, ou até mesmo com fingido escândalo, o elogio proferido por Bolsonaro ao torturador Brilhante Ustra. Não basta dizer que ele foi um torturador e que, por mimese, Bolsonaro também sonha em sê-lo. Se fizermos uma “descrição definida” desse nome, essa descrição tinha que conter coisas como: cadeira do dragão, choques na genitália, mamilos dilacerados, crânios apertados com torniquete, unhas arrancadas, ossos quebrados, assassínios cruéis em nome do Estado etc. Tinha que conter nomes como Auroras, Amélias, Claras, Dilmas, entre tantos outros. Quando Bolsonaro refere aquele nome, ele evoca tudo isso. Ele traz para dentro do Congresso Nacional o elogio à tortura e a apologia ao crime. Com um sorriso no rosto e com o benemérito da elite financeira de nosso país.

Alguém pode dizer que Bolsonaro é um caso isolado. Não é. Ele figura com algo entre 6% e 8% das intenções de voto, em quarto lugar em todos os cenários pesquisados pelo Datafolha. Não é pouco, para alguém que é declaradamente fascista. Mas o pior não é isso. Como notou recentemente Fernando de Barros e Silva, “entre os que têm renda familiar mensal superior a 10 salários mínimos (…), Bolsonaro lidera a corrida presidencial. Num dos cenários, chega a ter 23% das preferências dos eleitores mais aquinhoados.” (Veja aqui). Quer dizer que quase um quarto da elite econômica brasileira gostaria de ver um fascista, que faz apologia da tortura mais cruel, na presidência da República. Não espante que batam panelas, que inflem patos, que presenteiem seus filhos com bonecos infláveis de Lula presidiário. Tudo isso embrulhados na bandeira nacional e entoando o hino.

Jean Wyllis não quebrou o decoro parlamentar. Porque o decoro não havia sequer sido instalado. Não há como quebrar algo que não existe. Eduardo Cunha, sim, quebrou o decoro com sua primeira frase, com o simples gesto de sentar-se à cadeira e de presidir o processo. Na falta de decência, foi seguido por muitos. Segundo, outra vez, o Houaiss, decoro designa não apenas decência, acatamento das normas e seriedade nas maneiras, mas também “adequação do tema ao estilo literário”. Neste sentido, a imensa maioria dos deputados quebrou o decoro. Quantos observaram alguma decência, alguma seriedade, alguma adequação ao tema? Uma irrisória minoria, tanto de sins, quanto de nãos.

Nesse sentido, o gesto de Jean Wyllis é um ato poético, um ato de caridade e de amor. Um ato verdadeiramente cristão. Tanto mais quanto não foi apenas obra do calor do momento, mas foi efeito de um cálculo político rigoroso. Ele interrompe a razão desvairada e repõe a verdade em seu devido lugar: mostra que infâmia é infâmia, que farsa é farsa, que violência é violência, que guerra é guerra. Sem mais. Ele redime todos os brasileiros que repudiam a tortura e o golpe, qualquer que seja sua face.

Obtuso, o nobilíssimo deputado Bolsonaro talvez não tenha percebido o verdadeiro significado do cuspe que recebeu em pura dádiva. Ele foi presenteado com um raro ato de caridade cristã. Ele foi presenteado com uma flor de saliva, que devolveu com poesia as fezes que esgotam e abundam em cada uma de suas palavras infames (e também nos gestos de seus descendentes e fiéis). A saliva de Jean faz ver seu rosto ainda mais Brilhante, faz l’Ustrar seu verdadeiro eu.

O cuspe pode curar, como faz uma mãe zelosa ao passar um pouquinho de saliva no dodói de sua criança. O cuspe pode ensinar a ver que em seu espelho, no lugar do seu rosto, figuram a cadeira do dragão, os choques nas genitais, os olhos saltados, as crianças pequenas obrigadas a presenciar o suplício de suas mães. Pode ensinar a seus fãs que seu amor às crianças, evocado em seu pronunciamento, não passa de uma piada de mau gosto. Deus permita que a saliva de Jean Wyllis possa lavar seu rosto, salvar sua alma, desarmar seu coração e seu cinturão. Recebe, Jair, essas flores cuspidas com carinho.

Na noite da infâmia, só o cuspe me representa.

http://revistacult.uol.com.br/home/2016/04/ode-ao-cuspe/

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

João Cabral de Melo Neto

DUPLICIDADE DO TEMPO

O níquel, o alumínio, o estanho,
e outros assépticos elementos,
ao fim se corrompem: o tempo
injeta em cada um seu veneno.

A merda, o lixo, o corpo podre,
os humores, vivos dejetos,
não se corrompem mais: o tempo
seca-os ao fim, com mil cautérios.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.105.

domingo, 18 de agosto de 2013

João Cabral de Melo Neto

O OVO PODRE

Por que a expressão do que não houve
não chega à força do ovo podre?

Há muitos podres pelo mundo,
muitos decerto mais imundos.

O podre do ovo está contido
para a maioria dos sentidos

e à vista não há diferença
entre sua saúde e sua doença.

Por que é que o ovo podre, então,
parece pesar mais na mão?

Será que pesa mais o real
quando em defunto, em pantanal?

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.271.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

João Cabral de Melo Neto

POEMA DE DESINTOXICAÇÃO

Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.
Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.
Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.
O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.
Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.
Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.6. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

João Cabral de Melo Neto

NA MORTE DE JOAQUIM CARDOZO

Creio que Joyce é que dizia
que a Irlanda dele se comia

comendo os filhos, como a porca
que as crias melhor devora.

Estamos tão desenvolvidos
que já podemos esse estilo

de fazer Dublin, Irlanda, Europa?
e um novo imitá-las, em porca?

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.122.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

João Cabral de Melo Neto

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.84. [de “O cão sem plumas”]

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

João Cabral de Melo Neto

O POEMA E A ÁGUA

As vozes líquidas do poema
convidam ao crime
ao revólver.

Falam para mim de ilhas
que mesmo os sonhos
não alcançam.

O livro aberto nos joelhos
o vento nos cabelos
olho o mar.

Os acontecimentos de água
põem-se a repetir
na memória.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.17. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

João Cabral de Melo Neto

A VIAGEM

Quem é alguém que caminha
toda a manhã com tristeza
dentro de minhas roupas, perdido
além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
como se levassem nos bolsos
doces geografias, pensamentos
de além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
vem morrer no longe horizonte
do meu quarto, onde esse alguém
é vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
coisas em voz que não ouço.
Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.33. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

João Cabral de Melo Neto

Há gente que se gasta
de dentro para fora,
e há gente que prefere
gastar-se no que choca:

nesta pertence aquela
sempre vertiginosa
que parece habitar
num corpo sobre rodas;

gente que não consegue
parar nenhuma hora
e que assim se aproveita
de toda sua corda

para andar se atirando
contra as coisas em volta,
talvez com esperança
que uma seja pistola.

Talvez, é por prezar
o mundo em que se mova
(a espessura tranquila
de uma coisa que pousa,

a mansidão da coisa
que aceita virar outra)
que essa gente se atira
aos trancos entre as coisas.

Não: é porque ouviriam,
se parassem uma hora,
a voz da alma vazia
dobrando dentro, morta,

a voz que dobra em muitos
mas que neles redobra
porque dentro de crânios
vazíissimos, de abóboda.

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.300-301. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

João Cabral de Melo Neto

HOMENAGEM RENOVADA A MARIANNE MOORE

Cruzando desertos de frio
que a pouca poesia não ousa,
chegou ao extremo da poesia
quem caminhou, no verso, em prosa.
E então mostrou, sem pregação,
com a razão de sua obra pouca,
que a poesia não é de dentro,
que é como casa, que é de fora;
que embora se viva de dentro
se há de construir, que é uma coisa
que quem faz faz para fazer-se
― muleta para a perna coxa.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.250. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

João Cabral de Melo Neto: "viver é ir entre o que vive"

(Discurso do Capibaribe)

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas
 geleias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu
 voo).

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.83-86. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

um verso de JCMN, e o mundo serena da loucura

AS CARTAS DE DYLAN THOMAS

A capacidade de sim
que é incapaz de assentimento;
a incapacidade de ser,
ao fazer, massa e não fermento:
o incapaz de tocar a massa
sem lhe mudar o fazimento.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.47.

quinta-feira, 22 de março de 2012

João Cabral de Melo Neto

NA MORTE DE JOAQUIM CARDOZO

Creio que Joyce é que dizia
que a Irlanda dele se comia

comendo os filhos, como a porca
que as crias melhores devora.

Estamos tão desenvolvidos
que já podemos esse estilo

de fazer Dublin, Irlanda, Europa?
e um novo imitá-las, em porca?


MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.122.

terça-feira, 13 de março de 2012

João Cabral de Melo Neto

CARTÃO DE NATAL

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.138.

terça-feira, 6 de março de 2012

João Cabral de Melo Neto

LENDO PROVAS DE UM POEMA

Com Rubem Braga, certa vez,
lia em provas Dois parlamentos.
Na manhã ipanema e verão,
em volta do alto apartamento,
sem que carniça houvesse perto,
sem explicação, todo um elenco
de urubus se pôs a rondar
a cobertura, em vôos pensos:
como se farejassem a morte
no texto que estávamos lendo
e se a inodora morte escrita
não fosse esconjuro mas treno.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.100.

segunda-feira, 5 de março de 2012

João Cabral de Melo Neto

METADICIONÁRIO

Em qualquer idioma ela tem
mesmo e só nome que chamar-se,
incapaz de não decifrar-se
lida ou entendida por ninguém.

Nem mesmo Deus tem a faculdade
de se chamar em qualquer língua:
só a aspirina existe acima
da geografia e seus sotaques.

MELO NETO, João Cabral. Museu de tudo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.135.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

João Cabral de Melo Neto

ANÚNCIO PARA COSMÉTICO

Nada há contra o tempo.
O homem tudo o que pode
é fechar-se ao espaço
redondo que o envolve;
jogar fora o espaço,
o fora, ele sim pode,
assim numa Cartuxa
que do ao redor o isole.
Mas o tempo é de dentro;
dentro ele faz-se, escorre,
e esse escorrer interno
não há nada que o corte.
Às vezes o “........”
por certo tempo o encobre:
não o tempo ele próprio,
sim o corpo que ele morde,
já que o expressar do tempo
é roer o que percorre.

MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.84-85.